A
atualidade da revolta de Gonzaguinha continua viva
Entre
1964 e 1985, um conjunto de canções se empenhou em devassar o mundo do segredo,
do censurado, do impublicável para contestar a versão oficial colocada em curso
pelo regime militar.
Em
“Tocaia”, por exemplo, composta em 1973, Sérgio Ricardo narrou o assassinato de
outro importante dirigente da luta armada, o capitão Carlos Lamarca, no sertão
baiano, após implacável perseguição dos órgãos de segurança. Já no ano
seguinte, quando o MPB-4 gravou “Tá certo, doutor”, autoria de Gonzaguinha, o
alvo da canção era outro: o governo do general Geisel havia proibido qualquer
notícia na imprensa sobre a epidemia de meningite que começou na periferia de
São Paulo, chegando até o Rio de Janeiro e matando, no seu auge, cerca de 2.800
pessoas, crianças na sua esmagadora maioria.
Foi
essa notícia que o MPB-4 tratou de fazer circular amplamente pelo país, em uma
interpretação antológica da composição de Gonzaguinha, gravada no disco
“Palhaços e reis”, e que começa exatamente com o aviso: “cuidado aí, gente,
olha o menino com meningite aí, gente!”
Enquanto
o governo tratava de negar que havia um surto da doença no Brasil, a grande
imprensa oscilava entre denúncia e “vista grossa” do caso. Porém, o estrago que
a enfermidade causava no país, sendo ou não noticiada, era sentida por milhares
de brasileiros.
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Driblando a censura
Gonzaguinha,
era protagonista de canções que contavam histórias do sentimento brasileiro.
Com músicas que poderiam ser trilha sonora para filmes de política e
revoluções, crônica social na alegria e na tristeza, Gonzaguinha é uma das
vozes da identidade nacional. Dono de uma voz que tocou o Brasil e se tornou
memória do sentimento coletivo que eternizou canções como “O que é o que é?”.
Em
ativa militância política com canções de crítica e resistência, com dezenas de
músicas proibidas pela censura, refletindo as mudanças do Brasil, ele também
explodiu os corações do país com suas canções românticas viscerais.
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Explode coração
Ao
despontar no fim dos anos 1960, Luiz Gonzaga Júnior tinha toda a pinta de bad
boy. Magro, barbudo e combativo, era, ao lado de Ivan Lins e Aldir Blanc, um
dos pontas de lança do Movimento Artístico Universitário, carrancudo até na
abreviação do nome “MAU”. Mas, quando morreu num acidente de carro, em 1991,
aos 45 anos, já era identificado pelo apelido carinhoso de Gonzaguinha, pelo
seu caráter doce e amoroso e pelas mais de duas dezenas de sucessos,
amplificados pelas vozes de Maria Bethânia, Elis Regina, Nana Caymmi, Marlene,
Simone, Zizi Possi, Frenéticas, Fágner e Joana.
Síntese
da veia poética e da emoção visceral do compositor, “Explode coração” foi
lançado em 1978 por Bethânia e se tornou um dos clássicos românticos da música
brasileira. Nascendo, rompendo, chorando, sorrindo e gritando, o carioca
Gonzaguinha encontrou na música a melhor forma de se aproximar do pai, o Rei do
Baião, Luiz Gonzaga, com quem teve uma relação marcada por admiração mútua e
conflitos intensos.
Ainda
estudante de economia, Gonzaguinha soltou a voz no Primeiro Festival de Música
Universitária, em 1968, chegando às finais com a música “Pobreza por pobreza”.
Na edição do ano seguinte, foi o vencedor com “O trem”, de harmonia audaciosa e
letra contundente e sarcástica. Marcado pelo estilo denúncia-social e pela
sistemática perseguição da censura, chegou a ser identificado como cantor
rancor na primeira fase da carreira.
Narrando
em desabafo o cotidiano do brasileiro como em Dias de Santos e Silvas, a
jornada de exploração e o avanço do capitalismo tardio e a vida precária
estavam presentes em suas canções-manifesto. A crítica à obrigação de abrir um
sorriso em meio aos tempos neoliberais também podem ser encontradas em canções
como “Um sorriso nos lábios”.
A
atualidade da revolta de Gonzaguinha estão vivas para serem resgatadas. Nos
dias atuais que a felicidade se tornou uma ordem e obrigação individual para
impor um comportamento geral, o cantor do rancor nos lembra a questionar:
afinal, como podemos pôr um sorriso nos lábios e dizer que a vida é linda, à
margem da sociedade desigual?
Fonte:
Por Gercyane Oliveira, na Jacobin Brasil

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