Presidenciáveis
precisam usar evidências científicas na Segurança Pública, aponta SBPC
A
Segurança Pública é um dos temas com ideias mais próximas entre presidenciáveis
e a comunidade científica, como a defesa de uma pasta ministerial dedicada ao
tema e melhores aparatos tecnológicos, incluindo o uso da inteligência
artificial. Entretanto, o distanciamento das recomendações acadêmicas aparece
quando o tema sai do âmbito estrutural e as reflexões entram no entendimento
entre direitos, punições e a importância de políticas construídas com
evidências.
Estes
diagnósticos compõem uma análise realizada pela Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência (SBPC) com base nos documentos submetidos pelas
candidaturas ao Tribunal Superio Eleitoral. Para a análise, a SBPC iniciou a
busca pela palavra-chave “segurança pública” e averiguou as partes dos
documentos dedicadas à área. Posteriormente, realizou uma leitura analítica dos
planos de governo, de modo a identificar se a promoção às políticas de
segurança pública estava inclusa em outros setores, como políticas sociais e de
Educação.
As
ações sugeridas pela comunidade científica estão no caderno “O Brasil que
Queremos: Ciência, Democracia e Soberania” (acesse a íntegra aqui), que reúne
117 propostas organizadas em sete eixos temáticos, sendo o eixo IV Democracia e
Segurança Pública. Quando as propostas envolvem a estruturação da área de
Segurança Pública, elas se aproximam dos diagnósticos da comunidade científica.
Inclusive, a primeira das recomendações dos acadêmicos é recorrente nos planos
de governo: a necessidade de criação de um Ministério da Segurança Pública.
“Criar
o Ministério da Segurança Pública, com especialistas da área no comando, é
condição para articular segurança como política transversal, que envolve saúde,
educação, urbanismo e economia. É preciso aprovar marco legal que submeta as
polícias ao controle democrático efetivo, com exercício real do controle
externo pelo Ministério Público e metas verificáveis para a investigação de
mortes causadas por agentes do Estado, além de proibir indicadores e
gratificações que premiem mortes em confronto”, explica a presidente da SBPC,
Francilene Garcia.
Apesar
da defesa pela pasta ministerial, os presidenciáveis pecam em um elemento
crucial: pensar as políticas públicas usando dados e evidências.
“Nada
disso se faz sem informação: dados de violência desagregados por raça, gênero,
identidade e território são a condição para revelar os cruzamentos de
vulnerabilidade que os agregados nacionais escondem. A universidade tem parte
nessa construção: a Rede Universitária Segurança Pública para Todos, que
articula a SBPC, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e instituições de
ensino superior, existe para produzir as evidências que devem alimentar um
debate hoje dominado por convicções”, complementa Garcia.
Esta
análise é parte das iniciativas do Observatório das Eleições 2026, uma ação da
SBPC que busca reunir candidatos de diferentes esferas públicas que se
comprometam abertamente com o desenvolvimento da Ciência, Tecnologia e Inovação
(CT&I) no País, além de buscar dar visibilidade à CT&I no processo
político. Confira um resumo das principais propostas de cada presidenciável,
organizadas em ordem alfabética conforme seus registros no TSE:
Com um
plano de governo organizado em tópicos e indicadores, a candidata do partido
Democracia Cristã (DC), Clariana Barão tem uma parte dedicada à Segurança
Pública. Entre as políticas, defende o combate ao narcotráfico e ao tráfico de
armas, o sufocamento financeiro das facções e programas de segurança urbana
orientados por dados – entretanto, não dá detalhes sobre as iniciativas que
defende.
Já o
candidato Edmilson Costa, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), defende a
completa desmilitarização da segurança pública e a criação de uma política de
segurança dos direitos humanos: “no lugar da segurança pública baseada na
repressão à classe trabalhadora, à população pobre e aos moradores das
periferias”. Também defende a revogação completa da lei antiterrorismo
(12.850/2013), além do reforço às políticas de combate ao machismo, à
misoginia, ao racismo, à lgbtfobia e ao capacitismo.
Para o
candidato Escritor Augusto Cury, do partido Avante, uma reforma administrativa
é necessária no âmbito da Segurança Pública com o objetivo de tornar o Estado
mais eficiente, moderno e orientado a resultados. Cury tem, entre suas
promessas, a recriação do Ministério da Segurança Pública, cujo foco será a
redução da criminalidade. Também promete a criação da polícia FOCO (Força de
Combate Preventivo), que será composta pela integração entre Polícia Federal,
Polícias Civis, Polícias Militares e Guardas Municipais. A integração entre
União, estados e municípios também é defendida para o combate às facções
criminosas, além de iniciativas de modernização tecnológica e de uso da
inteligência artificial (IA) no combate a crimes. Sobre o atual sistema prisional,
afirma que o foco será em educação, trabalho e ressocialização efetiva,
“combatendo a superlotação e a ação das facções dentro dos presídios”.
O
candidato do Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, tem um dos maiores planos
dedicados à Segurança Pública, prometendo dobrar a verba federal à área. Inicia
seu programa afirmando que PCC (Primeiro Comando da Capital), CV (Comando
Vermelho), milícias e outras facções serão declaradas organizações
narcoterroristas. Afirma, ainda, que seu governo vai apoiar e sancionar a
redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, além de garantir punições para
maiores de 14 anos que cometerem crimes graves, como estupro, tráfico, tortura
e assassinato. Entre os destaques estaria a construção de cinco novos presídios
de segurança máxima, o fim da progressão de regime a presos que cometeram
crimes hediondos, a castração química de condenados a violências a mulheres e crianças
e a criação do programa Muralha Brasileira, um sistema nacional de
reconhecimento facial integrado a bancos de dados criminais – inspirado nos
programas Smart Sampa, da Prefeitura de São Paulo, Muralha Paulista, do Governo
do Estado paulista – e que busca, além de localizar foragidos e prevenir
crimes, vigiar portos, aeroportos e áreas públicas com mais de 1 milhão de
novas câmeras.
O
candidato Hertz Dias, do Partido Socialista Dos Trabalhadores Unificado (PSTU),
dedica um capítulo inteiro de seu plano de governo à Segurança Pública. Assim
como demais presidenciáveis, defende o combate ao crime organizado, máfias,
milícias, facções e demais organizações
criminosas por meio de técnicas de inteligência e desarticulação de negócios.
Também defende o confisco dos bens obtidos por atividades criminosas, a
descriminalização das drogas e revogação da Lei Antidrogas – que afirma ser
necessária para o combate ao narcotráfico –, além da implantação de câmeras
corporais para todos os agentes de segurança pública e o fim da Justiça
Militar.
Candidato
à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Lula defende que as ações de
Segurança Pública devem ser coordenadas com integração de dados, inteligência,
prevenção, repressão qualificada e políticas baseadas em evidências. Afirma que
vai aprimorar dois mecanismos sancionados em 2026: a Lei Antifacção e o
Programa Brasil Contra o Crime Organizado, que visam ações coordenadas com
estados e municípios. Promete, ainda, a consolidação do Sistema de Inteligência
de Segurança Pública e Justiça Criminal, a modernização do SINESP (Sistema
Nacional de Informações de Segurança Pública, Prisionais, de Rastreabilidade de
Armas e Munições, de Material Genético, de Digitais e de Drogas) e a ampliação
das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs). Por fim, destaca
a revogação dos decretos editados no governo anterior que facilitavam o acesso
a armas de fogo, necessário para manter “uma política de controle de armas e
munições”, e promete a criação de um Ministério da Segurança Pública, necessário
para a execução das políticas nacionais de segurança pública na área.
Candidato
do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), Pablo Marçal – que está com
a candidatura em julgamento na Justiça Federal – tem uma das maiores partes de
seu plano dedicada à Segurança Pública. Entre as propostas, propõe a criação de
um Plano Nacional de Combate às Facções, o confisco ampliado de patrimônio
criminoso, um Sistema Integrado de Vigilância para as fronteiras do País, a
modernização das leis penais
contra
organizações criminosas, além da transformação de presídios em centros de
ressocialização.
Já o
candidato do partido Missão, Renan Santos, alega que o maior problema do Brasil
de hoje é a violência. Para isso, criou o lema “Prendeu, Matou”, que não se
trata da eliminação de presos, mas permitir que “forças de segurança tratem
como inimigos aqueles que ameaçam a segurança dos cidadãos e a soberania do
Estado Brasileiro. Policiais devem capturar todos os líderes desses grupos
anômalos e, quando houver perigo ou resistência, neutralizá-los da maneira mais
eficiente”. Entre suas políticas, o candidato defende a retirada de direitos
políticos, civis e a restrição de liberdade de locomoção para indivíduos
comprovadamente associados a facções; a criação de uma Comissão Nacional de
Classificação composta por agências federais com poder administrativo imediato
e a instituição de um Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações
Criminosas (GAECO) com estrutura colegiada no Ministério Público; além de
intervenção federal em estados com controle territorial faccional, e emprego
das Forças Armadas via Garantia da Lei e da Ordem (GLO) com autorização para
uso de força pesada em territórios classificados como dominados.
Candidato
do Partido Social Democrático (PSD), Ronaldo Caiado defende, em seu plano de
governo, a criação do Ministério da Segurança Pública e do Sistema Integrado de
Proteção à Soberania Nacional. Também defende uma atualização nas legislações
que regem o País, de modo a reconhecer as organizações criminosas como
organizações que desafiam o Estado Democrático de Direito, além da criação de
um Sistema Nacional de Inteligência Criminal, que integre os bancos de dados da
União, dos estados, do Distrito Federal, do Ministério Público e do Poder
Judiciário. Assim como os demais presidenciáveis, também ressalta a necessidade
de modernização nos sistemas de investigação criminal com inteligência
artificial e demais avanços tecnológicos. Defende, ainda, a redução da
maioridade penal para 18 anos e o enfrentamento a jogos de aposta online,
entendendo estes como ameaça econômica, social e de saúde pública.
O
candidato Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária (PCO), não menciona
em seu plano de governo ações de Segurança Pública e não apresenta projetos que
se encaixem ao tema.
Candidata
pelo partido Unidade Popular (UP), Samara defende a desmilitarização e
unificação das políticas, e o fim da política que chama de “Guerra nas
Periferias”, que, segundo ela, são operações policiais truculentas e sem
inteligência preventiva que acabam corroborando com o genocídio da juventude
negra e periférica. Neste ponto, defende a fiscalização e o controle das armas
e munições em posse do governo. Defende também o fim de políticas punitivas no
combate às drogas – alegando que o tema deve ser tratado no âmbito da saúde
pública –, a reformulação dos atuais CCS (Conselhos Comunitários de Segurança)
em assembleias populares e a articulação das políticas de segurança com
emprego, educação, cultura, esporte, assistência social, moradia e urbanização das
periferias.
Já pelo
partido Democrata, o presidenciável registrado no TSE como Veterinário Wilson
Grassi também segue na linha de combate ao crime organizado e defende a
aprovação da PEC 18/2025, conhecida como PEC da Segurança Pública, que busca
alterar a Constituição Federal para redefinir regras sobre segurança pública,
defesa social, sistema penitenciário e atividade de inteligência. Também
defende a modernização do SINESP, como o candidato Lula, e uma consulta popular
sobre o modelo penitenciário de segurança máxima.
Por
fim, o candidato Zema, do Partido Novo, também defende classificar, nacional e
internacionalmente, as facções criminosas como organizações terroristas, além
de mais aparato às Forças Armadas e a construção de mais presídios de segurança
máxima – dessa vez, dedicados aos presos de facções. Zema também integra o time
de presidenciáveis a favor da redução da maioridade penal para 16 anos, além de
prometer uma reforma no Código Penal para garantir penas duras e proporcionais
à gravidade de crimes violentos, hediondos e patrimoniais. Como diferencial,
defende que os estados tenham autonomia para definir seus próprios crimes e
penas, adicionalmente às regras federais.
Fonte:
Por Rafael Revadam, do Jornal da Ciência/SBPC/GGN

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