sexta-feira, 25 de setembro de 2026

América Latina não tem dono

Donald Trump levou à Assembleia Geral da ONU não apenas uma frase que resume sua política externa, mas uma ameaça dirigida a toda a América Latina. Depois de admitir que a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela teve como objetivo o controle do petróleo, proclamou: “Ao vencedor, os espólios”. 

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Em seguida, advertiu que Washington poderá usar seu “poderio militar inigualável” para assegurar os interesses nacionais dos Estados Unidos em qualquer parte do Hemisfério Ocidental.  

A frase transforma em ameaça explícita o projeto de Trump e Marco Rubio: restaurar pela força a hegemonia de Washington, conter a China e converter petróleo, minerais críticos, terras raras, dados e infraestrutura digital da América Latina em ativos estratégicos norte-americanos. 

Minutos antes, no mesmo plenário, Luiz Inácio Lula da Silva havia apresentado a resposta do Brasil: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. E acrescentou: “Nossas riquezas naturais não são despojos. Nossas instituições não são tuteláveis. Nossa democracia não se curva a pressões externas”. 

A doze dias da eleição presidencial, o confronto entre os dois discursos transformou a tribuna da ONU em uma antecipação da disputa brasileira. A eleição de 4 de outubro decidirá muito mais do que o nome do próximo presidente.  

Decidirá se o Brasil continuará buscando autonomia ou aceitará entrar no quintal de uma potência que já admite recorrer à força militar para garantir seus interesses. 

<><> A disputa já chegou ao Brasil 

O governo Lula e setores progressistas tratam como real o risco de ingerência externa no processo eleitoral.  

Informações atribuídas à Agência Brasileira de Inteligência e denúncias encaminhadas à ONU apontam movimentos destinados a favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, escolhido há muito tempo pela extrema direita trumpista. 

Na ONU, Lula advertiu que “os inimigos da democracia atuam de dentro e de fora” e que “forças extremistas continuam ativas”. Não citou Trump, Rubio ou Flávio. Não precisava. O contexto tornou o alvo reconhecível. 

O ponto central é saber como a China reagiria a cada um dos dois cenários possíveis: a vitória de Flávio, alinhado aos Estados Unidos, ou a reeleição de Lula contestada por Washington.  

Os sinais emitidos por Xi Jinping permitem esboçar uma resposta. 

<><> Xi já havia respondido 

Ao receber em Pequim o presidente equatoriano Daniel Noboa, Xi afirmou que os países da América Latina têm o direito de escolher seus parceiros “sem interferência externa”. O Washington Times resumiu o encontro com um título revelador: “Xi desafia a política de Trump e afirma que a América Latina pode escolher seus parceiros ‘sem interferência externa’”. 

Noboa é aliado de Washington. Mesmo assim, foi recebido por Xi com atenção especial. A mensagem repercutida pelo Washington Times foi dupla: a China não exige exclusividade e não considera a América Latina propriedade de ninguém; está disposta a negociar até com governos próximos dos Estados Unidos, desde que não seja excluída por imposição externa. 

Pequim tem interesses econômicos e estratégicos próprios. Não atua por filantropia. Mas seu discurso se diferencia da pretensão anunciada por Trump e Rubio de tratar o Hemisfério Ocidental como área exclusiva dos Estados Unidos. É a atualização da Doutrina Monroe: não apenas “a América para os americanos”, mas a América Latina subordinada a Washington e fechada à China. 

É por isso que a fala de Xi a Noboa interessa diretamente ao Brasil. Ela estabelece o princípio que Pequim tenderá a invocar diante de qualquer tentativa de interferir na eleição brasileira ou de obrigar o próximo governo a romper relações com a China. 

<><> O candidato de Washington 

Flávio Bolsonaro já escolheu seu presidente e seu ministro da política externa: Trump e Rubio.  

Em reunião da CPAC, em Washington, Flávio apresentou os minerais críticos e as terras raras do Brasil como instrumentos para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China e sustentar a superioridade tecnológica e militar norte-americana. 

Um candidato à Presidência deveria explicar como petróleo, água, minerais, biodiversidade e Amazônia produzirão desenvolvimento, emprego, ciência e tecnologia no Brasil. O Bolsonaro, desta vez, preferiu explicar como essas riquezas poderão servir a Washington. 

Lula respondeu na ONU: o Brasil aceita parcerias para explorar minerais estratégicos, “mas não abriremos mão de agregar valor em território nacional”.  

É a diferença entre fornecer matéria-prima para a disputa tecnológica de outra potência e utilizar os recursos brasileiros para construir indústria, conhecimento e soberania. 

Há ainda uma questão incômoda.  

Flávio não oferece as terras raras somente a um país, mas a um sistema no qual interesses estratégicos dos Estados Unidos e negócios privados do círculo de Trump frequentemente se aproximam.  

Depois das joias desviadas do patrimônio público no governo de Jair Bolsonaro e do financeiramente obscuro do Dark Horse, é legítimo perguntar se a família pretende transformar também o subsolo brasileiro em oportunidade de poder e enriquecimento. 

<><> A inteligência artificial e os dois projetos 

Trump anunciou na ONU que os Estados Unidos liderarão a corrida pela “superinteligência” e defendeu que a inteligência artificial seja estimulada, não regulada. A competição com a China ocupa o centro desse projeto: chips, energia, dados, minerais e capacidade computacional passaram a compor a infraestrutura do poder militar e econômico. 

Lula apresentou a posição oposta. Alertou para “oligarquias tecnológicas” que acumulam riqueza e poder sem controle democrático, defendeu uma governança internacional da inteligência artificial e citou o Pix como exemplo de tecnologia pública a serviço da sociedade. 

Não se trata apenas de uma divergência regulatória. Trump quer assegurar a supremacia tecnológica dos Estados Unidos. 

Lula defende que a tecnologia não transforme países e cidadãos em colônias digitais. As terras raras oferecidas por Flávio estão no centro desse conflito. 

O “comunavírus” e a vacina chinesa 

A China conhece a família Bolsonaro.  

No governo de Jair Bolsonaro, Eduardo responsabilizou Pequim pela pandemia; Ernesto Araújo difundiu a expressão “comunavírus”; Abraham Weintraub recorreu a insultos racistas; e o próprio ex-presidente, hoje preso e condenado a 27 anos de prisão, atacou a CoronaVac, insinuando que não compraria a “vacina chinesa”. 

As agressões produziram respostas duras da embaixada chinesa e deterioraram a relação bilateral. Ainda assim, Pequim evitou uma ruptura. Preservou os canais de Estado, o comércio e seus interesses de longo prazo.  

Esse histórico oferece uma pista importante: a China distingue a retórica ideológica dos atos concretos de governo e prefere pragmatismo à escalada. 

<><> Se Flávio vencer 

Se Flávio Bolsonaro vencer uma eleição reconhecida pelas instituições brasileiras, a tendência é que a China também reconheça o resultado e tente manter uma relação pragmática. 

 Pequim não costuma condicionar relações diplomáticas à afinidade ideológica e já negocia com governos latino-americanos alinhados a Washington. Sua reação dependerá das medidas do novo governo.  

Se Flávio transformar o Brasil em plataforma para excluir empresas chinesas, enfraquecer os Brics ou reservar minerais estratégicos aos Estados Unidos, a resposta mais provável será política, econômica, tecnológica e diplomática — não militar. 

O primeiro setor a sentir os efeitos seria, ironicamente, uma das principais bases do bolsonarismo.  

A China é o maior destino das exportações brasileiras e o principal comprador de soja e de importantes volumes de carne, minério e petróleo.  

Uma crise provocada por alinhamento automático a Washington ameaçaria preços, investimentos, empregos e receitas de produtores que provavelmente ajudam a financiar a candidatura de Flávio. 

Ele poderia realizar uma façanha política singular: converter em prejuízo os lucros extraordinários de um setor que o apoia. Pequim não precisaria anunciar retaliação espetacular.  

Bastaria diversificar fornecedores, reduzir compras, adiar investimentos ou ampliar exigências sanitárias e regulatórias. Em comércio exterior, a dependência cobra sua conta sem discursos. 

Isso não significa que uma ruptura seja inevitável — e Flávio não a prometeu formalmente. Significa que seu alinhamento com Trump cria o risco de subordinar uma relação vital para o Brasil à guerra dos Estados Unidos contra a China. 

<><> Se Lula vencer e Trump contestar 

O segundo cenário é o mais delicado. Segundo Jamil Chade, o governo brasileiro, diplomatas, empresários e organizações da sociedade civil trabalham para que o maior número possível de países reconheça rapidamente o resultado se Lula for reeleito.  

Reino Unido, Canadá, União Europeia, México, Índia e África do Sul estariam entre os interlocutores. O objetivo é impedir que uma eventual contestação de Trump produza um vazio diplomático no qual prosperem suspeitas artificiais de fraude. 

Uma sequência de reconhecimentos nas primeiras horas após o anúncio da Justiça Eleitoral isolaria Washington e elevaria o custo de qualquer tentativa de deslegitimar as urnas. 

Em 2022, o rápido reconhecimento de Joe Biden ajudou a bloquear a aventura golpista. Em 2026, diante de um governo Trump hostil, a proteção externa dependerá de uma coalizão mais ampla. 

A China ocupa lugar decisivo nessa estratégia.  

No encontro entre Celso Amorim e Wang Yi, os dois governos rejeitaram interferências externas e defenderam a estabilidade do processo eleitoral brasileiro.  

Pequim ainda não assumiu publicamente o compromisso formal de reconhecer Lula de imediato; tratar isso como certeza seria ir além dos fatos. Mas o princípio afirmado por Xi — o direito latino-americano de escolher parceiros sem interferência — e as declarações diplomáticas chinesas constituem um forte sinal político. 

Se Lula vencer e Trump se recusar a reconhecer o resultado, é provável que a China reconheça a decisão das urnas e atue para que outros países façam o mesmo. 

 Não enviará navios nem soldados. Poderá oferecer aquilo que mais importa nesse momento: legitimidade diplomática, continuidade econômica e apoio ao princípio da não intervenção. 

<><> A eleição da soberania 

O Brasil não precisa escolher entre submissão aos Estados Unidos e submissão à China. Precisa escolher a si próprio. 

 Relações com Washington e Pequim são indispensáveis, mas nenhuma parceria pode conferir a uma potência o direito de decidir nosso presidente, apropriar-se de nossos recursos ou impor com quem podemos negociar. 

Trump expôs sua doutrina: ao vencedor pertencem os espólios. Lula apresentou a resposta brasileira: o país não cabe no quintal de ninguém. Xi acrescentou a mensagem dirigida ao hemisfério: a América Latina pode escolher seus parceiros sem interferência externa. 

É esse o verdadeiro sentido da eleição de 4 de outubro. Ela decidirá quem governará o Brasil, mas também se o Brasil continuará sendo dono de suas riquezas, de suas alianças e de seu destino. 

¨      Lula na ONU: a paz contra a lei do mais forte. Por Paulo Cannabrava Filho

Em sua décima participação na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, Luiz Inácio Lula da Silva voltou a colocar a paz no centro da política internacional. Falou diante de um mundo atravessado por guerras, pelo massacre do povo palestino, pela erosão do Direito Internacional e pela volta sem disfarces da política imperial de força.

Sua mensagem fundamental foi clara: não haverá paz enquanto a lei do mais forte prevalecer sobre a soberania dos povos e enquanto as Nações Unidas permanecerem incapazes de cumprir plenamente a missão para a qual foram criadas. Esta foi a décima vez que Lula ocupou essa tribuna como presidente do Brasil.

Foi um discurso coerente com a tradição diplomática que o Brasil procura afirmar desde a fundação da ONU: negociação em lugar da guerra, convivência entre diferentes em lugar da submissão, multilateralismo em lugar do unilateralismo. Não se trata de pacifismo ingênuo. Num mundo novamente armado até os dentes, falar em paz significa enfrentar interesses econômicos, militares e geopolíticos poderosíssimos.

Lula falou também de soberania. Advertiu contra interferências externas nas eleições brasileiras, defendeu a capacidade do país de enfrentar o crime organizado e declarou que o Brasil precisa de cooperação internacional, não de intervenção estrangeira. Reafirmou que o país não aceita ser tratado como quintal de qualquer potência.

É nesse ponto que o discurso brasileiro entra em choque frontal com a concepção imperial que volta a orientar a política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump. Falando na mesma Assembleia, Trump voltou a reivindicar a supremacia militar estadunidense no hemisfério, defendeu ações militares contra organizações classificadas por Washington como terroristas e ameaçou o Irã com a possibilidade de aniquilação caso não haja acordo.

São duas concepções das relações internacionais expostas, uma depois da outra, na mesma tribuna. De um lado, a defesa da negociação e da soberania dos Estados. Do outro, a reafirmação do poder militar e do direito que uma grande potência se atribui de determinar o comportamento dos demais. Essa contradição não é apenas entre Lula e Trump. É uma das contradições fundamentais do mundo contemporâneo.

Gaza tornou essa crise moralmente insustentável. O que o governo de Benjamin Netanyahu vem fazendo contra o povo palestino ultrapassou há muito qualquer justificativa de legítima defesa. O ataque chamdo de “terrorista” em 7 de outubro contra civis israelenses não pode servir de salvo-conduto permanente para a destruição de Gaza, a morte de civis e a expulsão de uma população de sua própria terra. O governo brasileiro vem denunciando essa situação nos fóruns internacionais e defendendo a existência de um Estado palestino.

É preciso dizer também que a política expansionista do governo Netanyahu e das forças sionistas que a sustFentam não poderia avançar dessa maneira sem o respaldo político, financeiro e militar dos Estados Unidos. Quando Washington protege Israel diplomaticamente e fornece os meios para a continuação da guerra, deixa de ser simples espectador do conflito. O problema já não é apenas Gaza. É a sobrevivência do próprio sistema internacional criado depois da Segunda Guerra Mundial.

Que autoridade pode ter o Direito Internacional se sua aplicação depende de quem comete a violação? Que força pode ter uma resolução das Nações Unidas quando uma potência dispõe do veto para impedir sua execução? Que sentido tem proclamar a igualdade soberana dos Estados quando alguns se reservam o direito de bombardear, sancionar, bloquear economicamente ou ameaçar outros países?

Aí está a contradição fundamental da ONU. Criada para impedir que novas guerras mundiais fossem resolvidas pela força, ela carrega em sua própria estrutura os privilégios concedidos aos vencedores de 1945. Cinco países mantêm assentos permanentes e poder de veto no Conselho de Segurança. América Latina e África continuam sem representação permanente. O mundo mudou; a estrutura de poder da ONU, essencialmente, não.

Lula insiste há anos nessa reforma. Já em discursos anteriores defendeu a ampliação do Conselho de Segurança, o fortalecimento da Assembleia Geral e a revisão do poder de veto. O próprio secretário-geral António Guterres voltou nesta terça-feira a pedir reformas das instituições internacionais e a defender o papel da ONU na busca da paz.

O multilateralismo não pode significar apenas sentar todos os países numa grande sala para ouvir cinco potências decidirem o que será permitido. Multilateralismo verdadeiro significa democratizar as decisões internacionais, respeitar a soberania dos povos e submeter também os poderosos às regras que exigem dos demais.

É por isso que o discurso brasileiro ganha importância. O Brasil não dispõe de armas nucleares, não possui poder de veto no Conselho de Segurança e não comanda alianças militares. Sua força internacional depende da diplomacia, de sua dimensão continental, de suas relações com o Sul Global e da capacidade de conversar com diferentes polos de poder.

Num momento em que ressurgem a política das canhoneiras, as ameaças militares, os bloqueios e a pretensão de dividir novamente o planeta em áreas de influência, defender a negociação não é sinal de fraqueza. É defender a única alternativa racional à multiplicação das guerras.

A ONU precisa recuperar a razão de sua existência. Não pode continuar assistindo, impotente, às guerras que deveria ajudar a impedir. Tampouco pode permanecer submetida ao veto dos mesmos países que frequentemente são partes interessadas nos conflitos que deveria resolver.

A paz exige negociação, mas exige também justiça. Exige o fim da impunidade dos poderosos, o reconhecimento do direito do povo palestino à sua terra e ao seu Estado, respeito à soberania das nações e uma reforma profunda das instituições internacionais.

O mundo não precisa de novos impérios nem de novos donos. Precisa de uma ordem internacional em que nenhum país seja quintal de outro e em que a força do direito finalmente prevaleça sobre o direito da força. Esse foi o sentido maior da mensagem levada pelo Brasil à tribuna das Nações Unidas.

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247/Diálogos do Sul Global

 

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