Esquerda:
As lições da vitória em Berlim
Nem
tudo o que é novo, na política das Américas e da Europa, é desanimador ou
deprimente. No último domingo, (19/9), o partido Die Linke – A Esquerda foi o
vencedor, por ampla margem, das eleições para o governo da cidade-estado de
Berlim. Obteve 25,7% dos votos, muito à frente da direita tradicional (CDU,
18,8%), da ultradireita (AfD, 16,3%), dos Verdes (14,3%) e dos sociais-liberais
(SPD, 12,1%). Poderá dirigir o Executivo da capital alemã, embora isso ainda
dependa, como se verá de acordos e compromissos. Revelou-se especialmente forte
entre as mulheres e os mais jovens.
Alcançou
este resultado após uma reorientação política que produziu efeitos muito
rápidos – apenas dois anos depois de passar por uma crise profunda, que por
pouco não o colocou abaixo da “cláusula de barreira” e o marginalizou da vida
institucional alemã. Examinar a virada e suas causas pode dizer muito, em
especial a países como o Brasil, onde qualquer resistência ao ascenso da
ultradireita parece penosa e repleta de contradições.
Formado
há vinte anos, tendo como tronco principal os remanescentes do Partido
Socialista da Alemanha Oriental (SED), que se filiava à tradição soviética e
governou o país de 1946 até a queda do Muro de Berlim, o Linke viveu fases
muito distintas. Expressou, em seu início, o saudosismo oriental pós-unificação
alemã – um sentimento hoje capturado pela AfD. Mais tarde, em reviravolta,
adotou uma postura woke, concentrando-se em guerras culturais cujo impacto
limitava-se a setores intelectualizados da classe média. A postura reduziu-o à
quase insignificância. Em 2021, seu percentual de votos para o Bundestag,
oparlamento alemão, reduziu-se a 4,9% (ante 11,9%, doze anos antes). Em 2023,
seu número de membros havia caído para pouco mais de 50 mil (30% menos que na
fundação). À época, sofreu uma dissidência. A deputada Sarah Wagenknecht,
co-líder no Bundestag, afastou-se e fundou seu próprio partido, o BSW, alegando
divergência com o wokismo. Num primeiro momento, o gesto alcançou popularidade
notável, enquanto o Linke parecia prestes a naufragar.
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A virada política pós-2024
O
partido foi capaz, porém, de uma virada surpreendente – e parece ter percebido
que era preciso mudar para manter relevância política. O movimento começou nas
eleições de 2025. O Linke manteve-se no parlamento graças a uma arrancada de
última hora, quando impulsionou uma grande frente contra a ultradireita, que se
expressou em poderosas manifestações de rua. O giro aprofunda-se na sequência.
O Linke não abandona bandeiras como a defesa dos imigrantes e da diversidade. A
líder de sua lista de candidatos ao governo de Berlim, este ano, é Elif Eralp,
uma filha de refugiados políticos turcos. Mas a agremiação denuncia, com
intensidade crescente, as consequências do rentismo e da desigualdade. E
propõe, como alternativa, um programa pós-capitalista de novo tipo. Claramente
voltado a redistribuir a riqueza social, nas novas condições da economia do
século XXI, ele enxerga um caminho para isso na defesa do Comum.
Garantia
do direito à moradia, inclusive quando em confronto com a reivindicação de
propriedade privada. Congelamento dos aluguéis. Elevação do salário mínimo.
Rebaixamento das tarifas do transporte público. Defesa da Saúde pública, diante
das medidas de “ajuste fiscal”. Redução dos gastos militares, que consomem o
Estado de Bem-Estar Social. Num texto recente, o site da Fundação Rosa
Luxemburgo, ligada ao partido, descreve o projeto que, aos poucos, o Linke
passou a defender. Num tempo em que o capital busca mercantilizar todos os
aspectos da vida, o caráter antissistêmico deste elenco de propostas torna-se
claríssimo.
Por
três grandes motivos, Berlim ofereceu, em setembro, uma oportunidade inédita
para testar este programa. Como em outras grandes cidades europeias, o
eleitorado tende claramente à esquerda, se comparado ao do conjunto do país.
Anos de supremacia das lógicas de mercado degradaram as condições materiais de
vida – em especial o acesso a moradia digna e acessível. Das cerca de 2 milhões
de famílias, 83,5% (1,67 milhão) vive em imóveis alugados. Os preços
dispararam: o metro quadrado saltou, em média, de 8,80 euros em 2015 para
€15,78, em 2025. E há um grande déficit democrático a resolver. Num referendo
realizado em 2021, a população aprovou por vasta maioria (59,1%) o congelamento
dos alugueis e a estatização das gigantescas empresas de propriedade imobiliária
da cidade. Deutsch Wohnen e Vonovia, duas corporações transnacionais, possuem,
sozinhas, 220 mil apartamentos, um sinal eloquente da submissão da vida aos
desígnios dos parasitas. A mídia pró-capital execrou a vontade popular e o
governo berlinês, uma coalizão entre direita e centro-esquerda (CDU + SPD) não
a cumpriu, alegando que a consulta não era juridicamente vinculante.
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Uma campanha “ao estilo Mamdani”
Em face
do cenário, o Linke optou por disputar as eleições com uma “campanha ao estilo
de Zohran Mamdani”, segundo a expressão usada pelo texto da Fundação Rosa
Luxemburgo. Seu programa tinha três pontos essenciais: volta dos bilhetes de
transporte de 9 euros, válidos por um mês, introduzidos “promocionalmente”, por
tempo limitado, em 2022; criação de cantinas populares; e – muito
destacadamente – respeito ao referendo de 2021, que pode restituir o direito a
moradia digna e acessível. A busca de inspiração em Mamdani ampliou-se algumas
semanas antes da campanha, quando o Linke enviou uma delegação a Nova York para
encontrar-se com conselheiros do prefeito. “O sucesso de um socialista
democrático em Nova York, o coração do capitalismo, é uma grande conquista – e
trocamos muitas ideias”, disse então a agora vitoriosa candidata Elif Eralp.
Efeito
notável deste intercâmbio: o Linke recusou-se, durante toda a campanha, a
entrar nas provocações da direita e ultradireita, que tentaram atrair o partido
para os terrenos prediletos do conservadorismo moral. Em matéria no site
espanhol Publico, Néstor Prieto Amadorrelata: CDU e AfD agiram para associar
imigração a criminalidade, e para condenar o uso de linguagem inclusiva.
Mantendo o que chama de “estrita disciplina comunicacional”, Prieto Amador
conta que o Partido de Esquerda manteve-se concentrado nas “narrativas que
unem” – em especial o direito à Moradia. Ao fazê-lo em Berlim, foi capaz de
dialogar efetivamente tanto com os trabalhadores quanto com a classe média e
juventude cosmopolita, também atingidas pela especulação imobiliária.
A
aproximação com Mamdani e com a cultura política que ele expressa contribuiu
para um segundo movimento vitorioso na campanha do Linke. Num gesto que em
outros tempos talvez fosse chamado de “assistencialista” por uma velha
esquerda, o partido transformou suas sedes em escritórios de apoio gratuito à
população. Lá, os militantes realizavam tarefas práticas, como identificar
irregularidades nos contratos de aluguel e cobranças abusivas em contas de
serviços públicos privatizados. Apresentada com o mote de “Nunca sós, sempre
juntos”, a iniciativa ajudou a enfrentar o desamparo – material e psíquico – a
que o neoliberalismo submete as maiorias. Permitiu ao Linke expressar de modo
prático sua concepção de política, que vai muito além do jogo parlamentar e das
eleições.
A
renovação programática e prática do partido, a partir de 2025, já havia
produzido um enorme salto na militância – passando dos 50 mil, no ponto mais
baixo, para 123 mil, no final do ano passado. Mas em Berlim, o foco no direito
à Habitação e a busca de diálogo com a sociedade resultaram na mobilização em
massa de gente (especialmente jovens) interessada em fugir da pasmaceira e dar
sentido de luta à sua vida. Mais de 2 mil voluntários somaram-se a uma campanha
que conversou com a população de porta em porta, ao invés de ficar relegada a
atividades de baixíssima densidade, como os “bandeiraços” brasileiros. Segundo
os cálculos do partido, mais de 140 mil residências foram visitadas. O
resultado apareceu no dia de eleição: a vitória do Linke deveu-se, também, a um
avanço sensível do comparecimento às urnas, que passou de 62,9% a 74,2%.
E o
chamado à participação política resultou não apenas em vitória eleitoral, mas
numa presença destacada entre os públicos com que o Linke mais conta, para
mobilizações futuras. Segundo enquetes, o partido teve 43% de apoio, na faixa
entre 16 e 24 anos; 49%, entre os 25 e 34; e espantosos 54%, entre as mulheres
com menos de 30. Também reuniu 29% entre a população com formação educacional
superior e foi o mais votado em distritos com forte presença de assalariados e
imigrantes, como Neukölln (33%) ou Friedrichshain-Kreuzberg (até 47%).
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A formação do governo e os novos desafios
A
liderança nas urnas não garante, por si só, que o Linke governará a capital
alemã, nem que conseguirá implantar seu programa de defesa radical do Comum.
Sua bancada no parlamento da cidade-estado terá 43, de um total de 159
deputados. Para alcançar maioria, será preciso coligar com os Verdes (24
parlamentares) e o SPD (20). Haverá, previsivelmente, reticências. A conhecida
postura belicista e alinhada à OTAN, por parte dos Verdes, é um deles. O SPD
tem se incomodado por a postura clara que o Linke assumiu, nos últimos meses,
de denúncia clara do genocídio praticado por Israel em Gaza. Além disso, em
atitude abertamente antidemocrática, o chanceler Friedrich Merz (CDU) começou a
se movimentar para aprovar, num Bundestag em que direita e ultradireita são majoritárias,
medidas para evitar a expropriação (indenizada, segundo propõe o Linke) das
corporações que detêm a maior parte dos imóveis da capital.
As
negociações para formar os governos alemães, após as eleições, pode durar
semanas ou meses. Pesam em favor do Linke, certamente, a vitória eleitoral
notável, os resultados do plebiscito e a capacidade de mobilização demonstrada
agora. As próximas semanas serão decisivas em Berlim. A resultado na capital
alemã não significa que a onda de ultradireita no país e em toda a Europa (e
também nas Américas) seja facilmente reversível. Mas sugere que há espaço real
para uma esquerda disposta ao mesmo tempo a manter o enfrentamento ao
capitalismo e colocá-lo em sintonia com as novas dinâmicas do século XXI.
Fonte:
Por Antonio Martins, em Outras Palavras

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