As
classificações médicas como disputa gramatical
As
tensões recentes explicitadas pelas declarações do neuropediatra José Salomão
Schwartzman sobre uma suposta “banalização” do autismo ficam mais interessantes
quando não as reduzimos à questão de quem estaria diagnosticando demais ou de
menos. Há um problema filosófico anterior: o que fazemos quando classificamos
alguém como autista? Descobrimos uma realidade que já estava pronta no mundo,
esperando que a medicina encontrasse seu nome correto? Ou produzimos essa
realidade ao classificá-la? Nenhuma dessas alternativas nos parece
satisfatória.
Um
diagnóstico não é uma fotografia, mas tampouco cria seu objeto do nada.
Classificações respondem a fenômenos que independem delas e são, ao mesmo
tempo, formuladas e revistas no interior de práticas científicas, médicas e
sociais. Há evidências, diferenças e necessidades concretas que limitam nossas
classificações, sem determinar uma única maneira possível de organizar
conceitualmente o que encontramos. Entre descobrir uma essência e inventar
arbitrariamente uma identidade há o terreno historicamente muito mais
interessante das práticas de classificação. Especialmente, se pensarmos que
classificações de fenômenos humanos também modificam os mesmos fenômenos que
visam descrever ou organizar, como aponta Hacking (1995).
A
história da medicina oferece bons motivos para levarmos este apelo filosófico
da classificação a sério. “Homossexualismo”, por exemplo, já pertenceu ao
vocabulário médico legítimo, e a homossexualidade figurou em manuais
diagnósticos como patologia. Sua retirada não ocorreu porque alguma propriedade
biológica de pessoas homossexuais tivesse desaparecido. Mudaram pesquisas,
critérios de classificação, práticas sociais e concepções de normalidade. Além
disso, movimentos políticos também participaram dessa transformação. Uma
gramática médica disciplinadora foi disputada e perdeu sua autoridade.
O
exemplo não pretende equiparar o autismo à antiga patologização da
homossexualidade, muito menos sugerir que critérios médicos sejam dispensáveis.
Mostra algo mais simples, a saber: classificações diagnósticas podem ser
objetivas sem serem eternas. Corpos, sofrimentos, dificuldades sensoriais,
formas de comunicação e necessidades de suporte não desaparecem quando uma
classificação muda. O que pode mudar é a maneira como reunimos essas
diferenças, os critérios pelos quais as reconhecemos e aquilo que passamos a
inferir a partir delas.
É assim
que propomos compreender o DSM, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental
Disorders, publicado pela Associação Americana de Psiquiatria e amplamente
utilizado como referência diagnóstica. Ele não é um espelho no qual a natureza
finalmente contempla suas próprias divisões e essências escondidas. É um
sistema classificatório construído no interior de práticas médicas e
científicas que também possuem uma história. Seus critérios procuram responder
a fenômenos reais, mas a maneira como os recortam, agrupam e relacionam mudou
ao longo das sucessivas edições do manual e devem seguir mudando. Ser
contingente não significa ser aleatório. Há evidências e necessidades clínicas
que oferecem resistência às nossas classificações. Mas as classificações possuem
também um caráter normativo por orientar e disciplinar os procedimentos
clínicos a partir dos quais as evidências e necessidades são avaliadas.
Podemos
assim evitar duas posições sobre neurodiversidade que, por caminhos opostos,
simplificam o problema. De um lado, a ideia de que “autismo” designaria uma
entidade natural perfeitamente delimitada e que bastaria à medicina descobrir a
fronteira correta entre quem é e quem não é autista, como se o princípio do
terceiro excluído pudesse ser aplicado a todos os casos. De outro, a ideia de
que categorias diagnósticas seriam construções sociais que poderíamos descrever
livremente fenômenos. Nossas classificações respondem a corpos, comportamentos,
capacidades, dificuldades e ambientes que não inventamos. Mas fazemos isso por
meio de conceitos públicos e historicamente constituídos. Vale notar, no
entanto, que os próprios conceitos constrangem a maneira que falamos e
organizamos fenômenos.
É
justamente essa combinação entre constrangimento e contingência que torna
possível falar em disputa. O DSM pode ser cientificamente relevante e objetivo
e, ainda assim, revisável. A questão deixa então de ser apenas quem satisfaz
corretamente os critérios atuais para o diagnóstico de autismo. Podemos
perguntar também como esses critérios foram estabelecidos, que diferenças
consideram relevantes e quem participa de sua estabilização e revisão. É nesse
sentido que a disputa pelo DSM começa a aparecer como uma disputa gramatical.
Os conceitos não permanecem exteriores à realidade que classificam. Uma vez
incorporados às práticas, passam a interferir nelas. Hacking (1995) chamou de
looping effect o processo pelo qual classificações de pessoas modificam a maneira
como os próprios classificados se compreendem e agem, produzindo respostas que
podem pressionar a classificação inicial. Um diagnóstico pode reorganizar uma
biografia, orientar tratamentos, alterar relações familiares, criar comunidades
e permitir reivindicações de direitos. Aquilo que foi classificado reage, por
assim dizer, à classificação.
Chamamos
de espiral normativa uma dinâmica mais geral desse processo (Silva, 2026c).
Conceitos emergem de práticas que procuramos organizar e explicitar; depois
retornam a elas, disciplinando usos e abrindo possibilidades de ação. As
práticas assim modificadas voltam a pressionar os conceitos. Não é um círculo,
porque há história nesse movimento: tanto a classificação quanto as práticas
podem ser transformadas. Uma gramática se estabiliza, encontra resistência e
volta a ser disputada.
É nesse
sentido que podemos tratar o DSM como um território gramatical disputável. Por
“gramática” não entendemos apenas regras sintáticas ou normas formais. Em um
sentido inspirado em Wittgenstein (2023), a gramática estabelece critérios de
uso e participa da constituição do significado. O que se segue quando dizemos
que alguém é autista? Deficiência, doença, diferença, identidade, necessidade
de suporte? Que direitos e adaptações decorrem do diagnóstico? Disputar
“autismo” significa disputar também algumas das inferências materiais
autorizadas por seu uso.
O
conflito em torno da neurodivergência não é, portanto, uma controvérsia sobre
palavras mais ou menos adequadas. Ele atravessa práticas médicas, familiares,
educacionais e jurídicas. A autoridade médica é indispensável, mas não esgota a
questão, porque as consequências do diagnóstico ultrapassam a clínica. Pessoas
autistas e suas famílias, pesquisadores, educadores, psicólogos e instituições
públicas encontram o conceito em práticas diferentes e também participam de sua
transformação.
A
comparação feita por Schwartzman entre autismo e Síndrome de Down é reveladora
nesse aspecto. A Síndrome de Down possui marcadores biológicos bem definidos; o
autismo não apresenta o mesmo tipo de delimitação. Mas por que conceitos
diferentes precisariam funcionar segundo o mesmo modelo? Muitos conceitos que
organizam nossas práticas possuem casos limítrofes e zonas de indeterminação.
“Inteligência”, “depressão”, “deficiência” ou “violência” não dependem de uma
propriedade única imediatamente observável capaz de decidir antecipadamente
todos os casos. Mas isso tampouco torna irreais os fenômenos que organizam.
Conceitos
fazem mais do que nomear. Eles organizam práticas, agrupam fenômenos e tornam
algumas inferências materiais, que fixam o significado de nossas expressões,
disponíveis enquanto bloqueiam outras (Brandom, 1994). Mulheres eram
assassinadas por serem mulheres antes do conceito de “feminicídio”; práticas
hoje reconhecidas como assédio ou racismo estrutural também precedem esses
vocabulários. Os conceitos não criaram tais fenômenos. Permitiram reuni-los de
outra maneira, reconhecer relações antes dispersas e modificar nossas respostas
a eles.
Para
fazer esse trabalho, um conceito precisa também estabelecer diferenças. Uma
cerca que não deixa nada de fora já não cerca coisa alguma. O mesmo vale para
“autismo”: reconhecer a historicidade e a plasticidade do conceito não
significa eliminar seus limites, mas admitir que eles podem ser revistos quando
evidências e transformações nas próprias práticas pressionam os critérios
existentes. É nesse sentido que regras gramaticais constituem significado: elas
organizam o que conta como aplicação correta do conceito e o que estamos
autorizados a inferir a partir dele (Brandom, 1994; Wittgenstein, 2023).
A
imagem da linguagem como espelho fidedigno de uma realidade independente começa
então a nos servir pouco (Rorty, 1979). Conceitos passam a integrar a realidade
que organizam e podem modificar aquilo que fazemos. Um conceito pode modificar
o passado em função de pressionar as maneiras que percebemos, narramos e
classificamos experiências pregressas, mas também modifica o futuro porque
disciplina e orienta futuras decisões e comportamentos. Um diagnóstico, por
exemplo, pode levar alguém a reinterpretar episódios da infância, reconhecer
relações entre experiências que pareciam desconectadas ou descobrir direitos e
formas de cuidado que antes não apareciam como possibilidades. Nesse sentido
preciso, conceitos podem produzir realidade, uma vez que não criam acontecimentos
passados, mas modificam a maneira como eles se relacionam com nosso presente e
interferem nas possibilidades que percebemos para o futuro.
É por
isso que preferimos pensar a linguagem como alavanca (Silva, 2026a; 2026b).
Conceitos como “feminicídio”, “racismo estrutural” ou “neurodivergência”
permitem explicitar relações que estavam emaranhadas em práticas mais difusas,
em jogos de linguagem dispersos, e contestar inferências materiais ou quadros
de incompatibilidades que funcionavam quase sem serem percebidos. Ao
reorganizar aquilo que conseguimos reconhecer, também alteram nossas
possibilidades de ação.
Uma
alavanca, porém, não move qualquer coisa em qualquer direção. Ela depende de um
ponto de apoio e encontra a resistência daquilo sobre o qual atua (Silva,
2026c). O mesmo ocorre com nossos conceitos. Podemos disputar sua gramática,
mas não decidir arbitrariamente seu significado. Há fenômenos que resistem às
classificações e evidências que precisam ser consideradas. Uma revisão pode
tornar visíveis diferenças importantes, mas também apagá-las ou ampliar tanto
uma categoria que ela deixe de discriminar aquilo para que foi criada.
É nesse
contexto que falamos em soberania gramatical, a saber, a possibilidade de uma
comunidade participar da explicitação e da revisão dos conceitos que organizam
sua forma de vida (Xavier; Silva, 2026). Isso não significa que cada indivíduo
possa determinar privadamente o significado de “autismo”, nem que especialistas
devam perder sua autoridade específica. Significa que nenhuma instituição
possui a última palavra sobre todas as consequências de um conceito que
atravessa práticas tão diferentes.
A
história da homossexualidade na psiquiatria deixa ainda outra lição. Pessoas
que eram objeto de uma classificação médica passaram também a disputar seus
pressupostos e consequências. Isso não tornou a questão subjetiva, porque
pesquisas, práticas clínicas e critérios de normalidade também mudaram. É nesse
sentido que entendemos soberania gramatical como participação ativa na disputa
pelos critérios que organizam uma classificação, e não como voluntarismo
semântico.
Afinal,
quem pode disputar a gramática de um diagnóstico? Não estamos perguntando
apenas quem pode aplicar corretamente critérios já estabelecidos, mas quem pode
participar da discussão sobre esses próprios critérios. Um diagnóstico
interfere no acesso a tratamentos, adaptações, direitos e recursos, além de
afetar a maneira como uma pessoa é percebida e pode compreender a si mesma. Se
suas consequências ultrapassam a clínica, a discussão sobre sua gramática
também não pode ocorrer exclusivamente dentro dela.
É aqui
que o ativismo neurodivergente se torna filosoficamente interessante.
“Neurodiversidade” e “neurodivergência” não são apenas substitutos mais
agradáveis para palavras consideradas ofensivas. Esses conceitos interferem na
gramática da deficiência ao pressionar algumas das inferências materiais
associadas ao diagnóstico. O trabalho de Chapman (2023), ao reconstruir
historicamente a própria ideia de normalidade, ajuda a mostrar que aquilo que
tomamos como funcionamento normal é contingente e histórico, portanto, também
depende das formas de vida e dos ambientes que organizamos.
O que,
afinal, se segue de “essa pessoa é autista”? Deficiência, necessidade de
suporte, uma maneira diferente de perceber o ambiente, uma identidade? Algumas
dessas descrições podem conviver e adquirir pesos diferentes conforme a pessoa
e a situação. Nenhum exame do cérebro resolveria sozinho essa questão. Mesmo
que conhecêssemos muito melhor as bases biológicas do autismo, ainda
precisaríamos decidir quais diferenças são relevantes, que apoios devem ser
oferecidos e quais expectativas sociais merecem ser revistas. Conhecer um
cérebro não decide por nós o que significa viver bem com ele.
O
movimento da neurodiversidade desloca justamente o lugar onde procuramos a
inadequação. Pensemos em alguém com grande sensibilidade auditiva trabalhando
em um ambiente de conversas simultâneas, telefones e interrupções constantes.
Onde está a dificuldade? Certamente há uma característica real, objetiva,
daquela pessoa, mas sua transformação em impedimento depende também do
ambiente. Modificado o ambiente, a dificuldade pode diminuir ou deixar de
impedir determinada atividade. A deficiência não precisa ser pensada
exclusivamente como algo localizado dentro de um indivíduo; pode emergir também
da relação entre determinadas capacidades e um meio organizado segundo
expectativas específicas.
Há
precedentes para esse tipo de deslocamento gramatical. Quando Black is
Beautiful se tornou um lema político, não se propunha uma teoria estética
segundo a qual toda pessoa negra seria necessariamente bela. O slogan
interrompia inferências materiais historicamente sedimentadas que ligavam
“negro” à inferioridade, à feiura e à vergonha. A palavra permanecia, mas
algumas das consequências associadas a ela começavam a ser disputadas. A
linguagem funcionava como alavanca. Operações semelhantes podem ocorrer quando
certezas que pareciam constituir o pano de fundo de nossas práticas são
explicitadas e colocadas em questão (Xavier; Silva, 2026). Em outros contextos,
temos chamado de violência gramatical justamente a estabilização de regras e
inferências que restringem sistematicamente as possibilidades de articulação de
sentido e de autodeterminação de grupos minorizados (Praxedes; Silva, 2025;
Santana; Silva, 2025).
“Neurodivergente”
pode exercer uma função semelhante. O termo cria distância em relação às
inferências que ligam automaticamente diferença cognitiva, déficit e
anormalidade. Isso não exige negar sofrimento ou necessidades intensas de
suporte. Permite questionar se uma classificação clínica deve determinar
antecipadamente as capacidades e possibilidades de vida de quem recebe o
diagnóstico. O problema da normalidade, como mostra Chapman (2023), não pode
ser inteiramente separado da história dos ambientes e das formas de vida em que
certas capacidades se tornaram esperadas e outras passaram a aparecer como
desvios.
Vista
dessa maneira, a neurodivergência não aparece apenas como distância em relação
a um centro neurotípico. Ela pode revelar características de ambientes que
permanecem invisíveis para quem transita por eles sem dificuldade. Uma sala de
aula ou um escritório parecem neutros até perguntarmos que padrões de atenção,
comunicação, sociabilidade e tolerância sensorial pressupõem. O ativismo
neurodivergente não reivindica apenas a entrada de novas pessoas em
instituições que permaneceriam intactas. Em seus momentos mais interessantes,
disputa os próprios critérios pelos quais esses ambientes foram organizados. É
uma forma de política da linguagem que atua sobre as possibilidades de vida
inscritas em nossos jogos de linguagem (Silva; Xavier; Andrade, 2026).
O DSM
também pertence a esse nicho normativo. Seus diagnósticos podem ser
fundamentais para orientar tratamentos, reconhecer necessidades de suporte e
garantir direitos. Ao mesmo tempo, interferem no que médicos procuram, no que
famílias aprendem a perceber, nas adaptações consideradas justificadas e na
maneira como pessoas diagnosticadas compreendem sua própria experiência. É por
isso que a disputa não pode ser reduzida a uma oposição entre médicos e
ativistas, ciência e experiência. Uma categoria excessivamente ampla pode
apagar diferenças clinicamente relevantes e dificultar a distribuição de
recursos; uma definição estreita demais pode tornar invisíveis pessoas com
necessidades importantes.
Nenhuma
teoria filosófica pode decidir de antemão onde deve passar a fronteira do
diagnóstico. A soberania gramatical exige apenas que essa fronteira permaneça
justificável e disputável, reconhecendo que a experiência das pessoas
classificadas não substitui a pesquisa científica, mas integra a realidade à
qual ela deve responder. Pensar a linguagem como alavanca não significa
abandonar a objetividade: classificamos um mundo que não inventamos e que
oferece resistência às nossas classificações. Mas, uma vez estabelecidas, elas
também passam a fazer parte desse mundo, reorganizando nossa compreensão do
passado, orientando práticas no presente e abrindo ou fechando possibilidades
futuras. Diagnósticos precisam responder às evidências; justamente porque
possuem história e interferem nas vidas que classificam, sua gramática precisa
permanecer aberta à revisão e à disputa.
Fonte:
Por Marcos Antonio da Silva Filho, Fredson Andrade e Lucas Guttemberg, em A
Terra é Redonda

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