sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Pochmann: Por que o IBGE cria novos mapas e estatísticas

Retratar um país não significa apenas contar sua população ou medir sua economia. Significa construir instrumentos capazes de acompanhar a realidade que muda continuamente. Quando a sociedade se transforma, também precisam mudar as categorias, os métodos, as pesquisas e até os mapas utilizados para compreendê-la.

Esse parece ser um dos principais desafios da atualidade do IBGE no momento em que completa nove décadas de existência. A inovação estatística e geocientífica deixa de significar apenas produzir mais informações e passa a envolver algo mais profundo, como a ampliação da capacidade de enxergar grupos sociais, territórios, atividades econômicas e relações com o mundo que as formas tradicionais de representação não captavam plenamente.

Tal mudança pode ser simbolizada pelo ineditismo da nova geração de novos mapas-múndi apresentado pelo Instituto. No mapa produzido no contexto do G20, o Brasil aparece no centro da representação mundial, enquanto no cenário dos BRICS, o mapa-múndi aparece de forma invertida. Mais recentemente, o mapa múndi Riqueza de Espécies 2025 combinou três alterações importantes como a centralização do Brasil, a inversão à orientação convencional Norte–Sul e adoção da projeção Equal Earth reconhecida oficialmente pela ONU, ao mesmo tempo em que representou a riqueza potencial de anfíbios, aves, mamíferos, répteis, crustáceos e peixes de água doce em células de 100 km².

Nenhuma dessas escolhas muda a geografia física do planeta. Elas mudam, entretanto, a perspectiva a partir da qual ela é observado. O Norte no alto, a Europa próxima ao centro e as grandes distorções territoriais da projeção tradicional de Mercator são convenções históricas, não determinações naturais. Colocar o Sul no alto ajuda a recordar que não existe um “em cima” geográfico dotado de superioridade intrínseca. Centralizar o Brasil, por sua vez, permite olhar o mundo a partir da posição que o país ocupa na América do Sul, no Atlântico e nas relações com África, Ásia e demais regiões do Sul Global.

Essa discussão ganhou ainda maior relevância internacional em setembro de 2026, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, por 164 votos a um e seis abstenções, a resolução “Correct the Map”, que incentiva o emprego de projeções capazes de representar de maneira mais adequada as dimensões relativas dos continentes quando essa comparação for relevante. A resolução menciona a Equal Earth como alternativa e chama atenção especialmente para a histórica sub-representação visual da África. Não institui um mapa mundial único nem elimina outros tipos de projeção, mas reconhece que a cartografia também influencia a maneira como as sociedades percebem o mundo.

O reposicionamento cartográfico ocorre justamente quando a própria globalização se torna mais policêntrica. O dinamismo econômico e demográfico já não se concentra exclusivamente no velho eixo do Atlântico Norte. Ásia, África e América Latina ganham peso crescente nas relações internacionais, enquanto o chamado Sul Global amplia sua presença nos fóruns multilaterais, nas redes comerciais, nas questões climáticas e na discussão sobre biodiversidade. O novo mapa não determina essa mudança, mas oferece outra maneira de visualizá-la.

É significativo, nesse sentido, que a biodiversidade tenha sido incorporada à própria representação do planeta. Num século marcado pela emergência climática, pela transição energética e pela crescente importância dos recursos naturais, o território brasileiro passa a ser visto também pelo patrimônio ambiental que contém. Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal, Caatinga e Pampa deixam de ser apenas porções do território nacional para integrar uma questão planetária sobre clima, água, espécies e sustentabilidade.

A mesma lógica de ampliar o campo de visão apareceu no destaque na disseminação do 13o Censo Demográfico do IBGE. O retrato censitário brasileiro avançou na identificação e no detalhamento de populações e territórios historicamente menos visíveis. Pela primeira vez em um censo brasileiro, a população quilombola foi identificada como grupo étnico em escala nacional, a partir de metodologia que envolveu também participação e consulta às comunidades.

A população indígena recebeu novos recortes territoriais e informações sobre línguas, condições dos domicílios e presença dentro e fora das Terras Indígenas. As pessoas com deficiência passaram a ser retratadas a partir de diferentes domínios de dificuldades funcionais, permitindo aprofundar o conhecimento sobre suas condições de vida. E as Favelas e Comunidades Urbanas receberam tratamento estatístico e geográfico específico, permitindo localizar e caracterizar milhões de brasileiros que vivem em territórios historicamente marcados pela urbanização desigual.

Não se trata apenas de acrescentar novos temas a uma pesquisa antiga. Trata-se de aumentar a resolução com que a sociedade brasileira é observada. Quanto mais diversa se torna a realidade, menos suficiente é descrevê-la apenas por grandes médias nacionais. Conhecer desigualdades exige saber quem são as pessoas, onde vivem e em que condições participam da sociedade.

Esse movimento avança agora para populações que nem sequer cabiam integralmente na estrutura tradicional do Censo Demográfico. O primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua procura superar uma limitação histórica da estatística baseada no domicílio. Seu objetivo é contar e caracterizar demográfica e socioeconomicamente pessoas para as quais a rua pode assumir simultaneamente as funções de moradia, trabalho, circulação e sobrevivência.

Outra inovação busca conhecer melhor o Brasil que vive além do próprio Brasil. O projeto de construção de uma plataforma sobre brasileiros no exterior reúne informações e cooperação com o Ministério das Relações Exteriores, Polícia Federal, Tribunal Superior Eleitoral e organismos internacionais. Se milhões de brasileiros vivem fora do território nacional, mas mantêm vínculos familiares, econômicos, culturais e políticos com o país. Conhecer o Brasil contemporâneo exige também ultrapassar os limites territoriais do recenseamento convencional.

A inovação inclusiva alcança igualmente o mundo do trabalho. A sociedade de serviços hiperconectada produziu ocupações que dificilmente poderiam ser compreendidas apenas pelas categorias utilizadas no século passado. Motoristas, entregadores e prestadores de serviços trabalham mediados por plataformas digitais, algoritmos e aplicativos que influenciam preços, jornada, escolha de clientes e organização da atividade.

Por isso, a PNAD Contínua investigou pela primeira vez o trabalho por meio de plataformas digitais em 2022, retornou ao tema em 2024 e ampliou novamente a investigação em 2025, inclusive para incorporar trabalho secundário e plataformas de comércio eletrônico. A pesquisa passou a observar rendimento, jornada, informalidade, previdência e grau de dependência dos trabalhadores em relação às plataformas.

Também nesse caso a estatística precisa acompanhar a realidade, e não esperar que a realidade continue cabendo nas categorias construídas quando emprego, empresa e local de trabalho possuíam fronteiras muito mais definidas.

O mesmo princípio chega ao centro da mensuração econômica. O Produto Interno Bruto precisa alcançar, tanto quanto metodologicamente possível, o conjunto das atividades que efetivamente compõem a economia. Informalidade, novas formas de serviços, transformações digitais e atividades de difícil observação desafiam sistemas de contas construídos a partir de estruturas econômicas anteriores.

A revisão do Sistema de Contas Nacionais, com a substituição da referência de 2010 pela de 2021, permite incorporar novas fontes de informação, registros administrativos, classificações atualizadas e aperfeiçoamentos metodológicos. O esforço de ampliar a cobertura inclui estudos sobre atividades econômicas que tradicionalmente permanecem fora das fontes convencionais, desde que atendam aos critérios estabelecidos pelos manuais internacionais de Contas Nacionais.

O objetivo não é aumentar artificialmente o PIB, mas reduzir a distância entre a economia efetivamente existente e a economia que os instrumentos estatísticos conseguem captar. A economia muda quando novas tecnologias aparecem, plataformas reorganizam mercados, novas ocupações se difundem e atividades antes pouco observadas ganham relevância. A mensuração econômica precisa mudar junto com ela.

Forma-se, assim, uma mesma linha de transformação institucional. Os novos mapas ampliam a perspectiva geográfica; o Censo aprofunda a visibilidade de indígenas, quilombolas, moradores de favelas e comunidades urbanas e pessoas com deficiência; novos censos procuram alcançar a população em situação de rua e brasileiros residentes no exterior; as pesquisas amostrais acompanham as novas formas de trabalho da economia digital; e as Contas Nacionais buscam ampliar a cobertura da atividade econômica brasileira.

São operações muito diferentes, mas orientadas por a mesma ideia de não obrigar uma realidade em transformação a caber nas categorias do passado. Inovar, nesse sentido, significa também incluir, reconhecendo que aquilo que não é contado, localizado, classificado ou medido tende a permanecer com menor visibilidade para a sociedade e para as políticas públicas. Uma estatística nacional adequada ao século XXI precisa, portanto, reduzir continuamente suas zonas de invisibilidade.

É nesse processo que a missão do IBGE de “retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento de sua realidade e ao exercício da cidadania” adquire nova dimensão. Retratar o Brasil contemporâneo exige combinar estatística e geociência para compreender uma sociedade mais diversa, móvel, digitalizada, ambientalmente estratégica e integrada a um mundo em transformação.

O velho mapa permitiu conhecer o Brasil que se formou nos séculos XIX e XX. O desafio agora é construir os mapas, as pesquisas e as categorias capazes de revelar o Brasil que emerge no século XXI. O mapa continua essencial. Mas, quando o mundo muda, é preciso também mudar a maneira de desenhá-lo.

•        Vice da CAE avalia adoção de medidas contra “práticas nocivas” de empresas estrangeiras

 O senador Laércio Oliveira (PP-SE), vice-presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, afirmou que avalia apresentar medidas legislativas para enfrentar o que classificou como “prática nociva” de empresas estrangeiras que chegam ao Brasil oferecendo produtos ou serviços por valores inferiores aos praticados pelos concorrentes nacionais.

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Ao abordar o tema, o senador citou empresas chinesas como exemplo e disse estar estudando de que maneira poderá atuar no Senado. “Eu tenho pensado de que forma eu posso agir dentro do Senado, politicamente, seja através de projeto, de qualquer outro instrumento legislativo, de que forma eu posso fazer esse enfrentamento”, afirmou Oliveira Oliveira em entrevista ao EsferaCast, videocast do Esfera Brasil, de acordo com o site Poder360.

O parlamentar descreveu uma dinâmica na qual uma companhia estrangeira entra no mercado brasileiro cobrando menos que os concorrentes nacionais, ganha espaço diante de empresas que não conseguem acompanhar os preços e, posteriormente, eleva os valores depois de consolidar sua posição.

“As empresas que concorriam legalmente, regulamentadas, pagando impostos, tudo certinho, essas empresas não conseguem mais competir. E logo, logo, quando essa empresa que veio de fora no nosso país, que dominou esse mercado, os preços começam a subir, duplicar, triplicar, e aí fica uma espécie de um golpe aplicado ao mercado”, disse.

<><> Cade acompanha disputa no mercado de entregas

A discussão levantada por Oliveira ocorre em meio ao acompanhamento do mercado de entrega de comida por aplicativos pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Desde o fim de 2025, a Superintendência-Geral do órgão mantém procedimento para acompanhar o funcionamento desse mercado em cinco municípios, monitorando iFood, 99Food, Keeta e Rappi.

Em junho de 2026, o iFood apresentou uma representação contra a 99Food, controlada pela chinesa Didi, e contra a Keeta, marca pertencente à também chinesa Meituan. Na representação, o iFood alegou que as duas concorrentes sustentariam preços abaixo do custo por meio de aportes de capital externo.

A alegação faz parte da disputa concorrencial entre as empresas e está submetida à análise das autoridades responsáveis.

No início de setembro, o Tribunal do Cade rejeitou uma medida cautelar solicitada pela Keeta contra cláusulas de exclusividade impostas pela 99Food e determinou o avanço da investigação sobre as práticas adotadas no setor.

<><> Estudo defende atuação preventiva

O debate sobre os efeitos da disputa entre plataformas também é objeto de um estudo do Instituto Esfera de Estudos e Inovação, frente acadêmica do Esfera Brasil. O levantamento foi produzido em parceria com o iFood e assinado pelo economista Fernando Meneguin.

O estudo sustenta que o Cade deveria atuar preventivamente, antes que uma disputa prolongada entre empresas provoque consequências que, segundo o autor, já foram observadas no mercado chinês, como redução das margens dos restaurantes, queda na renda dos entregadores e concentração do mercado nas plataformas com maior disponibilidade de capital.

O levantamento menciona estudos acadêmicos chineses que apontaram redução de receita e lucro dos restaurantes durante períodos de forte queima de caixa por concorrentes recém-chegados. Também são citados dados sobre redução da remuneração dos entregadores durante a disputa por pedidos.

<><> China avançou na regulação das plataformas

Na China, a resposta à disputa no setor avançou pela via regulatória. Em junho, a Administração Estatal de Regulação do Mercado (Samr), autoridade antitruste chinesa, colocou em consulta pública um conjunto de regras de conduta destinado às plataformas de entrega.

Entre as medidas estão a proibição da venda abaixo do custo e a exigência de transparência sobre a origem dos recursos utilizados pelas empresas para financiar campanhas promocionais.

No Brasil, a discussão ocorre simultaneamente em duas frentes. Enquanto o Cade acompanha as práticas adotadas pelas plataformas no mercado de entregas, Laércio Oliveira avalia utilizar um projeto ou outro instrumento legislativo no Senado para tratar da entrada de empresas estrangeiras que oferecem preços inferiores aos praticados pelos concorrentes locais.

 

Fonte: Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras/Brasil 247

 

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