Pochmann:
Por que o IBGE cria novos mapas e estatísticas
Retratar
um país não significa apenas contar sua população ou medir sua economia.
Significa construir instrumentos capazes de acompanhar a realidade que muda
continuamente. Quando a sociedade se transforma, também precisam mudar as
categorias, os métodos, as pesquisas e até os mapas utilizados para
compreendê-la.
Esse
parece ser um dos principais desafios da atualidade do IBGE no momento em que
completa nove décadas de existência. A inovação estatística e geocientífica
deixa de significar apenas produzir mais informações e passa a envolver algo
mais profundo, como a ampliação da capacidade de enxergar grupos sociais,
territórios, atividades econômicas e relações com o mundo que as formas
tradicionais de representação não captavam plenamente.
Tal
mudança pode ser simbolizada pelo ineditismo da nova geração de novos
mapas-múndi apresentado pelo Instituto. No mapa produzido no contexto do G20, o
Brasil aparece no centro da representação mundial, enquanto no cenário dos
BRICS, o mapa-múndi aparece de forma invertida. Mais recentemente, o mapa múndi
Riqueza de Espécies 2025 combinou três alterações importantes como a
centralização do Brasil, a inversão à orientação convencional Norte–Sul e
adoção da projeção Equal Earth reconhecida oficialmente pela ONU, ao mesmo
tempo em que representou a riqueza potencial de anfíbios, aves, mamíferos,
répteis, crustáceos e peixes de água doce em células de 100 km².
Nenhuma
dessas escolhas muda a geografia física do planeta. Elas mudam, entretanto, a
perspectiva a partir da qual ela é observado. O Norte no alto, a Europa próxima
ao centro e as grandes distorções territoriais da projeção tradicional de
Mercator são convenções históricas, não determinações naturais. Colocar o Sul
no alto ajuda a recordar que não existe um “em cima” geográfico dotado de
superioridade intrínseca. Centralizar o Brasil, por sua vez, permite olhar o
mundo a partir da posição que o país ocupa na América do Sul, no Atlântico e
nas relações com África, Ásia e demais regiões do Sul Global.
Essa
discussão ganhou ainda maior relevância internacional em setembro de 2026,
quando a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, por 164 votos a um e seis
abstenções, a resolução “Correct the Map”, que incentiva o emprego de projeções
capazes de representar de maneira mais adequada as dimensões relativas dos
continentes quando essa comparação for relevante. A resolução menciona a Equal
Earth como alternativa e chama atenção especialmente para a histórica
sub-representação visual da África. Não institui um mapa mundial único nem
elimina outros tipos de projeção, mas reconhece que a cartografia também
influencia a maneira como as sociedades percebem o mundo.
O
reposicionamento cartográfico ocorre justamente quando a própria globalização
se torna mais policêntrica. O dinamismo econômico e demográfico já não se
concentra exclusivamente no velho eixo do Atlântico Norte. Ásia, África e
América Latina ganham peso crescente nas relações internacionais, enquanto o
chamado Sul Global amplia sua presença nos fóruns multilaterais, nas redes
comerciais, nas questões climáticas e na discussão sobre biodiversidade. O novo
mapa não determina essa mudança, mas oferece outra maneira de visualizá-la.
É
significativo, nesse sentido, que a biodiversidade tenha sido incorporada à
própria representação do planeta. Num século marcado pela emergência climática,
pela transição energética e pela crescente importância dos recursos naturais, o
território brasileiro passa a ser visto também pelo patrimônio ambiental que
contém. Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal, Caatinga e Pampa deixam de
ser apenas porções do território nacional para integrar uma questão planetária
sobre clima, água, espécies e sustentabilidade.
A mesma
lógica de ampliar o campo de visão apareceu no destaque na disseminação do 13o
Censo Demográfico do IBGE. O retrato censitário brasileiro avançou na
identificação e no detalhamento de populações e territórios historicamente
menos visíveis. Pela primeira vez em um censo brasileiro, a população
quilombola foi identificada como grupo étnico em escala nacional, a partir de
metodologia que envolveu também participação e consulta às comunidades.
A
população indígena recebeu novos recortes territoriais e informações sobre
línguas, condições dos domicílios e presença dentro e fora das Terras
Indígenas. As pessoas com deficiência passaram a ser retratadas a partir de
diferentes domínios de dificuldades funcionais, permitindo aprofundar o
conhecimento sobre suas condições de vida. E as Favelas e Comunidades Urbanas
receberam tratamento estatístico e geográfico específico, permitindo localizar
e caracterizar milhões de brasileiros que vivem em territórios historicamente
marcados pela urbanização desigual.
Não se
trata apenas de acrescentar novos temas a uma pesquisa antiga. Trata-se de
aumentar a resolução com que a sociedade brasileira é observada. Quanto mais
diversa se torna a realidade, menos suficiente é descrevê-la apenas por grandes
médias nacionais. Conhecer desigualdades exige saber quem são as pessoas, onde
vivem e em que condições participam da sociedade.
Esse
movimento avança agora para populações que nem sequer cabiam integralmente na
estrutura tradicional do Censo Demográfico. O primeiro Censo Nacional da
População em Situação de Rua procura superar uma limitação histórica da
estatística baseada no domicílio. Seu objetivo é contar e caracterizar
demográfica e socioeconomicamente pessoas para as quais a rua pode assumir
simultaneamente as funções de moradia, trabalho, circulação e sobrevivência.
Outra
inovação busca conhecer melhor o Brasil que vive além do próprio Brasil. O
projeto de construção de uma plataforma sobre brasileiros no exterior reúne
informações e cooperação com o Ministério das Relações Exteriores, Polícia
Federal, Tribunal Superior Eleitoral e organismos internacionais. Se milhões de
brasileiros vivem fora do território nacional, mas mantêm vínculos familiares,
econômicos, culturais e políticos com o país. Conhecer o Brasil contemporâneo
exige também ultrapassar os limites territoriais do recenseamento convencional.
A
inovação inclusiva alcança igualmente o mundo do trabalho. A sociedade de
serviços hiperconectada produziu ocupações que dificilmente poderiam ser
compreendidas apenas pelas categorias utilizadas no século passado. Motoristas,
entregadores e prestadores de serviços trabalham mediados por plataformas
digitais, algoritmos e aplicativos que influenciam preços, jornada, escolha de
clientes e organização da atividade.
Por
isso, a PNAD Contínua investigou pela primeira vez o trabalho por meio de
plataformas digitais em 2022, retornou ao tema em 2024 e ampliou novamente a
investigação em 2025, inclusive para incorporar trabalho secundário e
plataformas de comércio eletrônico. A pesquisa passou a observar rendimento,
jornada, informalidade, previdência e grau de dependência dos trabalhadores em
relação às plataformas.
Também
nesse caso a estatística precisa acompanhar a realidade, e não esperar que a
realidade continue cabendo nas categorias construídas quando emprego, empresa e
local de trabalho possuíam fronteiras muito mais definidas.
O mesmo
princípio chega ao centro da mensuração econômica. O Produto Interno Bruto
precisa alcançar, tanto quanto metodologicamente possível, o conjunto das
atividades que efetivamente compõem a economia. Informalidade, novas formas de
serviços, transformações digitais e atividades de difícil observação desafiam
sistemas de contas construídos a partir de estruturas econômicas anteriores.
A
revisão do Sistema de Contas Nacionais, com a substituição da referência de
2010 pela de 2021, permite incorporar novas fontes de informação, registros
administrativos, classificações atualizadas e aperfeiçoamentos metodológicos. O
esforço de ampliar a cobertura inclui estudos sobre atividades econômicas que
tradicionalmente permanecem fora das fontes convencionais, desde que atendam
aos critérios estabelecidos pelos manuais internacionais de Contas Nacionais.
O
objetivo não é aumentar artificialmente o PIB, mas reduzir a distância entre a
economia efetivamente existente e a economia que os instrumentos estatísticos
conseguem captar. A economia muda quando novas tecnologias aparecem,
plataformas reorganizam mercados, novas ocupações se difundem e atividades
antes pouco observadas ganham relevância. A mensuração econômica precisa mudar
junto com ela.
Forma-se,
assim, uma mesma linha de transformação institucional. Os novos mapas ampliam a
perspectiva geográfica; o Censo aprofunda a visibilidade de indígenas,
quilombolas, moradores de favelas e comunidades urbanas e pessoas com
deficiência; novos censos procuram alcançar a população em situação de rua e
brasileiros residentes no exterior; as pesquisas amostrais acompanham as novas
formas de trabalho da economia digital; e as Contas Nacionais buscam ampliar a
cobertura da atividade econômica brasileira.
São
operações muito diferentes, mas orientadas por a mesma ideia de não obrigar uma
realidade em transformação a caber nas categorias do passado. Inovar, nesse
sentido, significa também incluir, reconhecendo que aquilo que não é contado,
localizado, classificado ou medido tende a permanecer com menor visibilidade
para a sociedade e para as políticas públicas. Uma estatística nacional
adequada ao século XXI precisa, portanto, reduzir continuamente suas zonas de
invisibilidade.
É nesse
processo que a missão do IBGE de “retratar o Brasil com informações necessárias
ao conhecimento de sua realidade e ao exercício da cidadania” adquire nova
dimensão. Retratar o Brasil contemporâneo exige combinar estatística e
geociência para compreender uma sociedade mais diversa, móvel, digitalizada,
ambientalmente estratégica e integrada a um mundo em transformação.
O velho
mapa permitiu conhecer o Brasil que se formou nos séculos XIX e XX. O desafio
agora é construir os mapas, as pesquisas e as categorias capazes de revelar o
Brasil que emerge no século XXI. O mapa continua essencial. Mas, quando o mundo
muda, é preciso também mudar a maneira de desenhá-lo.
• Vice da CAE avalia adoção de medidas
contra “práticas nocivas” de empresas estrangeiras
O senador Laércio Oliveira (PP-SE),
vice-presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, afirmou que
avalia apresentar medidas legislativas para enfrentar o que classificou como
“prática nociva” de empresas estrangeiras que chegam ao Brasil oferecendo
produtos ou serviços por valores inferiores aos praticados pelos concorrentes
nacionais.
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Ao
abordar o tema, o senador citou empresas chinesas como exemplo e disse estar
estudando de que maneira poderá atuar no Senado. “Eu tenho pensado de que forma
eu posso agir dentro do Senado, politicamente, seja através de projeto, de
qualquer outro instrumento legislativo, de que forma eu posso fazer esse
enfrentamento”, afirmou Oliveira Oliveira em entrevista ao EsferaCast,
videocast do Esfera Brasil, de acordo com o site Poder360.
O
parlamentar descreveu uma dinâmica na qual uma companhia estrangeira entra no
mercado brasileiro cobrando menos que os concorrentes nacionais, ganha espaço
diante de empresas que não conseguem acompanhar os preços e, posteriormente,
eleva os valores depois de consolidar sua posição.
“As
empresas que concorriam legalmente, regulamentadas, pagando impostos, tudo
certinho, essas empresas não conseguem mais competir. E logo, logo, quando essa
empresa que veio de fora no nosso país, que dominou esse mercado, os preços
começam a subir, duplicar, triplicar, e aí fica uma espécie de um golpe
aplicado ao mercado”, disse.
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Cade acompanha disputa no mercado de entregas
A
discussão levantada por Oliveira ocorre em meio ao acompanhamento do mercado de
entrega de comida por aplicativos pelo Conselho Administrativo de Defesa
Econômica (Cade).
Desde o
fim de 2025, a Superintendência-Geral do órgão mantém procedimento para
acompanhar o funcionamento desse mercado em cinco municípios, monitorando
iFood, 99Food, Keeta e Rappi.
Em
junho de 2026, o iFood apresentou uma representação contra a 99Food, controlada
pela chinesa Didi, e contra a Keeta, marca pertencente à também chinesa
Meituan. Na representação, o iFood alegou que as duas concorrentes sustentariam
preços abaixo do custo por meio de aportes de capital externo.
A
alegação faz parte da disputa concorrencial entre as empresas e está submetida
à análise das autoridades responsáveis.
No
início de setembro, o Tribunal do Cade rejeitou uma medida cautelar solicitada
pela Keeta contra cláusulas de exclusividade impostas pela 99Food e determinou
o avanço da investigação sobre as práticas adotadas no setor.
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Estudo defende atuação preventiva
O
debate sobre os efeitos da disputa entre plataformas também é objeto de um
estudo do Instituto Esfera de Estudos e Inovação, frente acadêmica do Esfera
Brasil. O levantamento foi produzido em parceria com o iFood e assinado pelo
economista Fernando Meneguin.
O
estudo sustenta que o Cade deveria atuar preventivamente, antes que uma disputa
prolongada entre empresas provoque consequências que, segundo o autor, já foram
observadas no mercado chinês, como redução das margens dos restaurantes, queda
na renda dos entregadores e concentração do mercado nas plataformas com maior
disponibilidade de capital.
O
levantamento menciona estudos acadêmicos chineses que apontaram redução de
receita e lucro dos restaurantes durante períodos de forte queima de caixa por
concorrentes recém-chegados. Também são citados dados sobre redução da
remuneração dos entregadores durante a disputa por pedidos.
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China avançou na regulação das plataformas
Na
China, a resposta à disputa no setor avançou pela via regulatória. Em junho, a
Administração Estatal de Regulação do Mercado (Samr), autoridade antitruste
chinesa, colocou em consulta pública um conjunto de regras de conduta destinado
às plataformas de entrega.
Entre
as medidas estão a proibição da venda abaixo do custo e a exigência de
transparência sobre a origem dos recursos utilizados pelas empresas para
financiar campanhas promocionais.
No
Brasil, a discussão ocorre simultaneamente em duas frentes. Enquanto o Cade
acompanha as práticas adotadas pelas plataformas no mercado de entregas,
Laércio Oliveira avalia utilizar um projeto ou outro instrumento legislativo no
Senado para tratar da entrada de empresas estrangeiras que oferecem preços
inferiores aos praticados pelos concorrentes locais.
Fonte:
Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras/Brasil 247

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