Orlando
Calheiros: André Mendonça é o novo mito da direita brasileira
Certa
altura de sua obra, o filósofo e historiador Thomas Carlyle afirmou que “a
história do mundo é apenas a biografia dos grandes homens” e ele não poderia
estar mais enganado.
Afinal,
além do equívoco galopante de reduzir eventos históricos complexos à vida e à
obra de homens específicos — e o uso do masculino aqui não é acidental ou
genérico —, Carlyle ignorava que muitos desses “grandes homens” não passavam de
personagens comuns, elevados pela memória histórica à condição de heróis ou
vilões conforme estivessem entre os vencedores ou os vencidos.
Infelizmente,
essa formulação se tornou um vício do nosso imaginário. Ela está presente na
forma como narramos histórias, sejam elas do cinema, da literatura ou da vida
real.
Não
importa onde: numa galáxia muito distante ou numa eleição presidencial, nossas
narrativas tendem à explicação fácil do herói contra o vilão – aquele indivíduo
que, contra tudo e contra todos, é capaz de fazer a roda da história girar.
Como
não sou crítico de arte, preocupo-me com as histórias que nos são mais próximas
— aquelas chamadas de reais ou de notícias —, principalmente as que narram a
política. Nelas, a transformação da realidade em dramaturgia não é apenas uma
questão de estilo, mas de disputa pelo nosso imaginário, pela nossa memória e,
sobretudo, pela nossa atenção.
A
política contemporânea parece necessitar de personagens: heróis, vilões,
antagonistas, redenções e conflitos sintetizados em poucos minutos de
noticiário. E é justamente aí que a fabricação desses mitos se torna
politicamente perigosa.
A
atenção que dispensamos a esses personagens nos impede de ver o que existe por
trás e quem, de fato, rege o espetáculo.
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A tentação dos ‘grandes homens’ e a política como espetáculo
Pegue-se,
por exemplo, aquele que acabou se confundindo com a própria palavra mito no
Brasil recente: o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O
capitão foi incensado como herói – ou vilão, o pioneiro de uma revolução
conservadora. Na realidade, jamais passou de um filhote bastardo de uma trama
que incluía o Judiciário, as Forças Armadas, empresariado e setores da imprensa
(na qual Sergio Moro era o preferido).
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Bolsonaro
foi alçado a mito a despeito da própria biografia. Trata-se de um militar que
sequer chegou ao topo da carreira, reformado por razões disciplinares, e de um
parlamentar que, em mais de duas décadas de Congresso, aprovou apenas dois
projetos — um deles destinado a financiar o desenvolvimento de uma “pílula
milagrosa” contra o câncer.
Um
homem comum, elevado à condição de mito, passou, como presidente, a fabricar os
próprios antagonistas para explicar por que não conseguia encarnar o personagem
revolucionário que haviam construído para ele. Nascia assim a imagem de
Alexandre de Moraes e Rodrigo Maia como os grandes inimigos da direita
brasileira.
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De ‘vilões’ a alvos: Moraes e Maia
Justamente
eles.
Alexandre
de Moraes, ex-ministro da Justiça de Michel Temer, do MDB, que, já como
integrante do STF, em 2018, integrou a decisão da Corte que negou o habeas
corpus ao então ex-presidente Lula – medida que serviria de prelúdio para sua
prisão, e Rodrigo Maia, um dos articuladores do impeachment de Dilma Rousseff e
base do governo de Bolsonaro.
Não
precisamos ser particularmente inteligentes para notar que ambos estavam
diretamente envolvidos em acontecimentos que pavimentaram o caminho para a
ascensão do próprio Jair Bolsonaro e para a criação do “Mito”.
Essas
biografias foram convenientemente esquecidas para dar lugar a narrativas
maniqueístas. Enquanto o conflito ocorria nos noticiários, esquecia-se que
todos estavam no mesmo palco e faziam parte do mesmo espetáculo.
Afinal,
não foi Bolsonaro, Moraes ou Maia que patrocinaram, por anos a fio, o
antipetismo e a sanha antiesquerdista da mídia hegemônica. Não foram eles que
financiaram protestos que atacavam figuras e organizações ligadas à esquerda.
Nem foram eles que injetaram recursos em campanhas de políticos conservadores e
investiram no impulsionamento de suas candidaturas e ideias nas redes sociais.
Jair
Bolsonaro, Alexandre de Moraes e Rodrigo Maia eram – e são – apenas homens,
transformados em protagonistas de uma trama muito maior do que suas próprias
biografias. E da mesma forma que foram alçados ao centro do palco, são
abandonados ao sabor das circunstâncias: Bolsonaro está preso e inelegível,
Rodrigo Maia longe dos holofotes, e Moraes alvo das mesmas forças que antes
comemoravam sua ascensão. As mesmas que, agora, trabalham para transformar seu
principal opositor, André Mendonça, em herói.
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André Mendonça e a reconstrução conveniente de uma biografia
Os
personagens mudam. A estrutura narrativa permanece. A biografia precisa ser
reorganizada para que um novo protagonista ocupe o palco.
Mendonça,
cuja trajetória política e institucional é muito anterior à atual disputa,
passa a ser apresentado como o “herói conservador” capaz de enfrentar o que
seus apoiadores chamam de ditadura do STF.
Para
que a narrativa funcione, apagam-se fatos incômodos. Ignoram-se as relações que
manteve, por meio de seu instituto Iter, com Daniel Vorcaro; o encontro fora da
agenda oficial; e as decisões favoráveis aos interesses dessa rede.
Da
mesma maneira, omite-se que, a despeito de todas as evidências, Mendonça só
abriu uma investigação sobre os milhões enviados por Daniel Vorcaro ao exterior
(supostamente para financiar o filme “Dark Horse”) depois de uma série de
reportagens feitas pelo Intercept Brasil. E que, depois disso, simplesmente o
processo estagnou.
Mais
uma vez, a biografia real dá lugar ao personagem mítico.
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O mito Flávio Bolsonaro e a ameaça à soberania nacional
E com
qual intuito? Citando Gilmar Mendes, até as pedras sabem que Mendonça, ao se
transformar no “herói conservador” encarregado de expor as entranhas do
Supremo, acabou se tornando uma peça central da narrativa eleitoral de Flávio
Bolsonaro.
O
ministro “terrivelmente evangélico” parece pronto para retribuir o apoio de sua
indicação e preparar o terreno para uma nova ascensão política. Trata-se da
fabricação de um novo mito. Ao implodir simbolicamente a Corte, Mendonça
entrega a Flávio Bolsonaro a narrativa redentora de que ele precisava.
Agora,
a biografia de Flávio Bolsonaro – recheada de suspeitas de corrupção e lavagem
de dinheiro, de envolvimento direto com o caso Master – vai sendo
convenientemente esquecida para dar lugar ao “grande homem” que vai livrar o
Brasil da corrupção do Judiciário.
É aí
que a farsa se torna mais perigosa. Enquanto nos distraímos com os embates de
Mendonça, Moraes e Flávio no noticiário, esquecemos quem financia o espetáculo
e lucra na bilheteria.
Ignoramos,
por exemplo, que não estamos em uma disputa doméstica eleitoral comum.
Ignoramos que os EUA estão atuando diretamente por um dos lados dessa disputa,
utilizando instrumentos econômicos e diplomáticos para pressionar instituições
brasileiras.
O
debate no momento não é apenas sobre quem vai ocupar a presidência, mas sobre
os limites da própria soberania brasileira – ou se o Brasil continuará sendo um
país soberano ou aceitará novamente o papel de quintal de Washington, como
ocorreu durante a ditadura militar.
• Jeferson Miola: Instituto de André
Mendonça assinou contratos milionários e sem licitação com órgãos públicos
O ITER,
instituto fundado pelo ministro André Mendonça em 2024, assinou contrato de R$
1.635.900 sem licitação com o Tribunal de Justiça do Amazonas em julho passado.
O
contrato tem como objeto 60 vagas de magistrados e servidores no curso “MBA em
Novas Tendências da Atuação Jurídica em Tribunais Superiores”.
O
Tribunal justificou a contratação “pela crescente complexidade da atuação
jurídica perante os tribunais superiores, especialmente diante da centralidade
do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça na definição de
questões constitucionais e infraconstitucionais relevantes”.
E
alegou que “a oportunidade de contratação ora apresentada revela-se singular,
tanto pela especificidade do conteúdo programático quanto pela qualificação do
corpo docente”, presumivelmente integrado pelo ministro André Mendonça.
Embora
não tenha nenhum aluno matriculado para o curso, o TJ já empenhou R$ 699.801,67
do seu orçamento para o ITER.
Em
julho de 2025 o instituto ITER assinou outro contrato milionário, também sem
licitação, no valor de R$ 1.228.505,55 com o Consórcio Intermunicipal da Região
Oeste Metropolitana de São Paulo para “ministrar cursos e palestras em diversas
áreas do direito e administração pública, no âmbito da Escola de Governo do
CIOESTE”.
Os
contratos com o TJ do Amazonas e o Consórcio Intermunicipal não são inéditos.
Em dois anos de funcionamento do ITER, no Portal Nacional de Contratações
Públicas encontram-se pelo menos 41 contratos celebrados pelo instituto do
ministro André Mendonça –sempre sem licitação– com governos estaduais,
prefeituras e câmaras municipais, Tribunais de Contas de Estados e do Município
de São Paulo e Tribunais de Justiça.
O ITER
oferece cursos que, em tese, não caracterizariam alta especialização ou
exclusividade de conhecimento para justificar dispensa ou inexigibilidade de
licitação.
Os
cursos versam sobre “O domínio dos recursos extraordinários”, “A arte e a
ciência da oratória”, “Planejamento e gestão de obras públicas”, “Concessões e
parcerias público-privadas”, “Gestão de projetos, orçamento, licitação e
logística na Segurança Pública”, “Liderando para uma gestão de resultados” e,
ironia para quem burla licitação, também um curso sobre “Nova Lei de Licitações
e Contratos”.
O ITER
assinou contratos com os governos de Roraima e do Rio de Janeiro, e, ao mesmo
tempo, André Mendonça participava de julgamentos dos governadores daqueles
estados no TSE.
O
governo Antonio Denarium, de Roraima, contratou o ITER por R$ 273,6 mil em
fevereiro de 2025. E, em agosto, quando o julgamento de Denarium chegou no TSE,
Mendonça pediu vista e suspendeu o julgamento. Posteriormente, votou pela
cassação.
O ITER
foi contratado pelo governo Cláudio Castro, do Rio, em janeiro de 2026, por R$
518 mil, com novo contrato de R$ 53 mil com a PGE do RJ em março.
Com a
retomada do julgamento do caso depois do pedido de vista do ministro “KN”, em
24/3 Mendonça votou pela manutenção da elegibilidade de Cláudio Castro. E no
plenário do STF ele adiantou o voto e se posicionou pela realização de eleições
indiretas para governador, o que significaria entregar à bancada bolsonarista e
do Comando Vermelho na ALERJ a prerrogativa de designar algum comparsa para o
governo temporário.
Após a
divulgação do encontro secreto de Mendonça com Vorcaro ocorrido na sede do ITER
em 14/3/2025, o ministro repentinamente comunicou seu desligamento e o da sua
esposa do ITER, “doando a integralidade de suas quotas e sem receber qualquer
contrapartida financeira”.
Depois
da decisão de desligamento do ITER tomada em 2 de setembro passado, foi
revelado que no ano de 2025 o instituto do ministro André Mendonça recebeu R$
5,2 milhões da Cedro Participações, holding pertencente a Lucas Kallas,
parceiro de “negócios” de Daniel Vorcaro.
• Jeferson Miola: Nunes Marques mentiu que
“não pediu nada” a Vorcaro
O
ministro Kássio Nunes Marques alegou, por meio de nota do seu gabinete, que
“nunca trocou mensagens com o banqueiro [Daniel Vorcaro] nem pediu nada a ele”.
Ele
classificou como “irresponsáveis quaisquer tentativas de relacionar a atuação
do Ministro com os serviços prestados pelo filho ou quaisquer terceiros”.
Esta
afirmação de Nunes Marques não é verdadeira, conforme mostram várias mensagens
do celular de Daniel Vorcaro estranhamente “não vistas” pelo ministro André
Mendonça, decerto cegado pela obsessão de só caçar Alexandre de Moraes.
Existem
dezenas de mensagens do desembargador do TRF1 Newton Ramos em diálogos com
gente do staff de Vorcaro e com o próprio banqueiro para tratar de viagens,
aluguel de mansões, hospedagem em hotéis luxuosos, camarotes de carnaval, áreas
VIP e festas que beneficiaram diretamente o ministro Kássio Nunes Marques
Em uma
mensagem de 7/3/2025, por exemplo, uma prestadora de serviços de nome Rayanna
cobra de Vorcaro o pagamento de R$ 10.000 que seria devido a uma mulher que
“ficou com o kassio! Ela tá me cobrando aqui” [sic], disse a interlocutora.
Num
diálogo com Vorcaro em 4/7/2025, o ex-diretor jurídico do Banco Master Luiz
Rennó comenta sobre o pagamento de R$ 500 mil por mês a Kelvin Marques, filho
de Kássio Nunes Marques.
Além
dos diálogos de terceiros em nome dele, o próprio ministro fez diretamente um
pedido a Leonardo Serrano Giunchetti, apontado pela PF como operador de
logística e de viagens de Vorcaro, que “operava como um concierge de luxo e
intermediário financeiro”.
Na
mensagem a Leo Giunchetti no dia 5 de dezembro de 2024, Nunes Marques pede para
seu mecenas uma viagem ao exterior para cinco pessoas durante o recesso
judicial:
“Bom
dia, Leo.
[Aqui é
o] Ministro Kassio.
Preciso
da sua ajuda para formatar uma viagem de uns 10 dias, entre 8 e 18 de janeiro,
para 5 pessoas.
De
preferência com guias e motoristas de Vans que falem português ou espanhol.
Inicialmente,
imaginei Viena, com bate volta nas cidades próximas como Bratislava, Budapeste,
Graz ou Salzburgo.
Outra
opção seria o Peru.
Mas
estou aberto a outras opções se tiverem algum roteiro pré-programado.
Muito
Obrigado”
Os
arquivos mostram que Giunchetti encaminhou este pedido de Kássio a Vorcaro para
receber autorização: “É pra atender ele independente ou faço e faturo pra vc?
Me avisa, dani. Só pra eu saber como respondê-lo, please?????”.
E
Vorcaro então respondeu: “Sim. Atende. Tudo.”.
As
provas encontradas pela PF no celular do banqueiro mafioso desmentem
categoricamente as explicações do ministro Kássio Nunes Marques.
Além de
pedir favores diretamente ao esquema do Vorcaro, seu filho Kelvin recebia 500
mil reais por mês e a “Turma do KN” operava os interesses dele e dos seus
amigos íntimos, como o desembargador do TRF1 e sua esposa, titular de contrato
de R$ 427 milhões com o Master.
Fonte:
The Intercept/Viomundo

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