sábado, 26 de setembro de 2026

Orlando Calheiros: André Mendonça é o novo mito da direita brasileira

Certa altura de sua obra, o filósofo e historiador Thomas Carlyle afirmou que “a história do mundo é apenas a biografia dos grandes homens” e ele não poderia estar mais enganado.

Afinal, além do equívoco galopante de reduzir eventos históricos complexos à vida e à obra de homens específicos — e o uso do masculino aqui não é acidental ou genérico —, Carlyle ignorava que muitos desses “grandes homens” não passavam de personagens comuns, elevados pela memória histórica à condição de heróis ou vilões conforme estivessem entre os vencedores ou os vencidos.

Infelizmente, essa formulação se tornou um vício do nosso imaginário. Ela está presente na forma como narramos histórias, sejam elas do cinema, da literatura ou da vida real.

Não importa onde: numa galáxia muito distante ou numa eleição presidencial, nossas narrativas tendem à explicação fácil do herói contra o vilão – aquele indivíduo que, contra tudo e contra todos, é capaz de fazer a roda da história girar.

Como não sou crítico de arte, preocupo-me com as histórias que nos são mais próximas — aquelas chamadas de reais ou de notícias —, principalmente as que narram a política. Nelas, a transformação da realidade em dramaturgia não é apenas uma questão de estilo, mas de disputa pelo nosso imaginário, pela nossa memória e, sobretudo, pela nossa atenção.

A política contemporânea parece necessitar de personagens: heróis, vilões, antagonistas, redenções e conflitos sintetizados em poucos minutos de noticiário. E é justamente aí que a fabricação desses mitos se torna politicamente perigosa.

A atenção que dispensamos a esses personagens nos impede de ver o que existe por trás e quem, de fato, rege o espetáculo. 

<><> A tentação dos ‘grandes homens’ e a política como espetáculo

Pegue-se, por exemplo, aquele que acabou se confundindo com a própria palavra mito no Brasil recente: o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O capitão foi incensado como herói – ou vilão, o pioneiro de uma revolução conservadora. Na realidade, jamais passou de um filhote bastardo de uma trama que incluía o Judiciário, as Forças Armadas, empresariado e setores da imprensa (na qual Sergio Moro era o preferido).

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Bolsonaro foi alçado a mito a despeito da própria biografia. Trata-se de um militar que sequer chegou ao topo da carreira, reformado por razões disciplinares, e de um parlamentar que, em mais de duas décadas de Congresso, aprovou apenas dois projetos — um deles destinado a financiar o desenvolvimento de uma “pílula milagrosa” contra o câncer.

Um homem comum, elevado à condição de mito, passou, como presidente, a fabricar os próprios antagonistas para explicar por que não conseguia encarnar o personagem revolucionário que haviam construído para ele. Nascia assim a imagem de Alexandre de Moraes e Rodrigo Maia como os grandes inimigos da direita brasileira.

<><> De ‘vilões’ a alvos: Moraes e Maia

Justamente eles.

Alexandre de Moraes, ex-ministro da Justiça de Michel Temer, do MDB, que, já como integrante do STF, em 2018, integrou a decisão da Corte que negou o habeas corpus ao então ex-presidente Lula – medida que serviria de prelúdio para sua prisão, e Rodrigo Maia, um dos articuladores do impeachment de Dilma Rousseff e base do governo de Bolsonaro.

Não precisamos ser particularmente inteligentes para notar que ambos estavam diretamente envolvidos em acontecimentos que pavimentaram o caminho para a ascensão do próprio Jair Bolsonaro e para a criação do “Mito”.

Essas biografias foram convenientemente esquecidas para dar lugar a narrativas maniqueístas. Enquanto o conflito ocorria nos noticiários, esquecia-se que todos estavam no mesmo palco e faziam parte do mesmo espetáculo.

Afinal, não foi Bolsonaro, Moraes ou Maia que patrocinaram, por anos a fio, o antipetismo e a sanha antiesquerdista da mídia hegemônica. Não foram eles que financiaram protestos que atacavam figuras e organizações ligadas à esquerda. Nem foram eles que injetaram recursos em campanhas de políticos conservadores e investiram no impulsionamento de suas candidaturas e ideias nas redes sociais.

Jair Bolsonaro, Alexandre de Moraes e Rodrigo Maia eram – e são – apenas homens, transformados em protagonistas de uma trama muito maior do que suas próprias biografias. E da mesma forma que foram alçados ao centro do palco, são abandonados ao sabor das circunstâncias: Bolsonaro está preso e inelegível, Rodrigo Maia longe dos holofotes, e Moraes alvo das mesmas forças que antes comemoravam sua ascensão. As mesmas que, agora, trabalham para transformar seu principal opositor, André Mendonça, em herói.

<><> André Mendonça e a reconstrução conveniente de uma biografia

Os personagens mudam. A estrutura narrativa permanece. A biografia precisa ser reorganizada para que um novo protagonista ocupe o palco.

Mendonça, cuja trajetória política e institucional é muito anterior à atual disputa, passa a ser apresentado como o “herói conservador” capaz de enfrentar o que seus apoiadores chamam de ditadura do STF.

Para que a narrativa funcione, apagam-se fatos incômodos. Ignoram-se as relações que manteve, por meio de seu instituto Iter, com Daniel Vorcaro; o encontro fora da agenda oficial; e as decisões favoráveis aos interesses dessa rede.

Da mesma maneira, omite-se que, a despeito de todas as evidências, Mendonça só abriu uma investigação sobre os milhões enviados por Daniel Vorcaro ao exterior (supostamente para financiar o filme “Dark Horse”) depois de uma série de reportagens feitas pelo Intercept Brasil. E que, depois disso, simplesmente o processo estagnou.

Mais uma vez, a biografia real dá lugar ao personagem mítico.

<><> O mito Flávio Bolsonaro e a ameaça à soberania nacional

E com qual intuito? Citando Gilmar Mendes, até as pedras sabem que Mendonça, ao se transformar no “herói conservador” encarregado de expor as entranhas do Supremo, acabou se tornando uma peça central da narrativa eleitoral de Flávio Bolsonaro.

O ministro “terrivelmente evangélico” parece pronto para retribuir o apoio de sua indicação e preparar o terreno para uma nova ascensão política. Trata-se da fabricação de um novo mito. Ao implodir simbolicamente a Corte, Mendonça entrega a Flávio Bolsonaro a narrativa redentora de que ele precisava.

Agora, a biografia de Flávio Bolsonaro – recheada de suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro, de envolvimento direto com o caso Master – vai sendo convenientemente esquecida para dar lugar ao “grande homem” que vai livrar o Brasil da corrupção do Judiciário.

É aí que a farsa se torna mais perigosa. Enquanto nos distraímos com os embates de Mendonça, Moraes e Flávio no noticiário, esquecemos quem financia o espetáculo e lucra na bilheteria.

Ignoramos, por exemplo, que não estamos em uma disputa doméstica eleitoral comum. Ignoramos que os EUA estão atuando diretamente por um dos lados dessa disputa, utilizando instrumentos econômicos e diplomáticos para pressionar instituições brasileiras.

O debate no momento não é apenas sobre quem vai ocupar a presidência, mas sobre os limites da própria soberania brasileira – ou se o Brasil continuará sendo um país soberano ou aceitará novamente o papel de quintal de Washington, como ocorreu durante a ditadura militar.

•        Jeferson Miola: Instituto de André Mendonça assinou contratos milionários e sem licitação com órgãos públicos

O ITER, instituto fundado pelo ministro André Mendonça em 2024, assinou contrato de R$ 1.635.900 sem licitação com o Tribunal de Justiça do Amazonas em julho passado.

O contrato tem como objeto 60 vagas de magistrados e servidores no curso “MBA em Novas Tendências da Atuação Jurídica em Tribunais Superiores”.

O Tribunal justificou a contratação “pela crescente complexidade da atuação jurídica perante os tribunais superiores, especialmente diante da centralidade do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça na definição de questões constitucionais e infraconstitucionais relevantes”.

E alegou que “a oportunidade de contratação ora apresentada revela-se singular, tanto pela especificidade do conteúdo programático quanto pela qualificação do corpo docente”, presumivelmente integrado pelo ministro André Mendonça.

Embora não tenha nenhum aluno matriculado para o curso, o TJ já empenhou R$ 699.801,67 do seu orçamento para o ITER.

Em julho de 2025 o instituto ITER assinou outro contrato milionário, também sem licitação, no valor de R$ 1.228.505,55 com o Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de São Paulo para “ministrar cursos e palestras em diversas áreas do direito e administração pública, no âmbito da Escola de Governo do CIOESTE”.

Os contratos com o TJ do Amazonas e o Consórcio Intermunicipal não são inéditos. Em dois anos de funcionamento do ITER, no Portal Nacional de Contratações Públicas encontram-se pelo menos 41 contratos celebrados pelo instituto do ministro André Mendonça –sempre sem licitação– com governos estaduais, prefeituras e câmaras municipais, Tribunais de Contas de Estados e do Município de São Paulo e Tribunais de Justiça.

O ITER oferece cursos que, em tese, não caracterizariam alta especialização ou exclusividade de conhecimento para justificar dispensa ou inexigibilidade de licitação.

Os cursos versam sobre “O domínio dos recursos extraordinários”, “A arte e a ciência da oratória”, “Planejamento e gestão de obras públicas”, “Concessões e parcerias público-privadas”, “Gestão de projetos, orçamento, licitação e logística na Segurança Pública”, “Liderando para uma gestão de resultados” e, ironia para quem burla licitação, também um curso sobre “Nova Lei de Licitações e Contratos”.

O ITER assinou contratos com os governos de Roraima e do Rio de Janeiro, e, ao mesmo tempo, André Mendonça participava de julgamentos dos governadores daqueles estados no TSE.

O governo Antonio Denarium, de Roraima, contratou o ITER por R$ 273,6 mil em fevereiro de 2025. E, em agosto, quando o julgamento de Denarium chegou no TSE, Mendonça pediu vista e suspendeu o julgamento. Posteriormente, votou pela cassação.

O ITER foi contratado pelo governo Cláudio Castro, do Rio, em janeiro de 2026, por R$ 518 mil, com novo contrato de R$ 53 mil com a PGE do RJ em março.

Com a retomada do julgamento do caso depois do pedido de vista do ministro “KN”, em 24/3 Mendonça votou pela manutenção da elegibilidade de Cláudio Castro. E no plenário do STF ele adiantou o voto e se posicionou pela realização de eleições indiretas para governador, o que significaria entregar à bancada bolsonarista e do Comando Vermelho na ALERJ a prerrogativa de designar algum comparsa para o governo temporário.

Após a divulgação do encontro secreto de Mendonça com Vorcaro ocorrido na sede do ITER em 14/3/2025, o ministro repentinamente comunicou seu desligamento e o da sua esposa do ITER, “doando a integralidade de suas quotas e sem receber qualquer contrapartida financeira”.

Depois da decisão de desligamento do ITER tomada em 2 de setembro passado, foi revelado que no ano de 2025 o instituto do ministro André Mendonça recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding pertencente a Lucas Kallas, parceiro de “negócios” de Daniel Vorcaro.

•        Jeferson Miola: Nunes Marques mentiu que “não pediu nada” a Vorcaro

O ministro Kássio Nunes Marques alegou, por meio de nota do seu gabinete, que “nunca trocou mensagens com o banqueiro [Daniel Vorcaro] nem pediu nada a ele”.

Ele classificou como “irresponsáveis quaisquer tentativas de relacionar a atuação do Ministro com os serviços prestados pelo filho ou quaisquer terceiros”.

Esta afirmação de Nunes Marques não é verdadeira, conforme mostram várias mensagens do celular de Daniel Vorcaro estranhamente “não vistas” pelo ministro André Mendonça, decerto cegado pela obsessão de só caçar Alexandre de Moraes.

Existem dezenas de mensagens do desembargador do TRF1 Newton Ramos em diálogos com gente do staff de Vorcaro e com o próprio banqueiro para tratar de viagens, aluguel de mansões, hospedagem em hotéis luxuosos, camarotes de carnaval, áreas VIP e festas que beneficiaram diretamente o ministro Kássio Nunes Marques

Em uma mensagem de 7/3/2025, por exemplo, uma prestadora de serviços de nome Rayanna cobra de Vorcaro o pagamento de R$ 10.000 que seria devido a uma mulher que “ficou com o kassio! Ela tá me cobrando aqui” [sic], disse a interlocutora.

Num diálogo com Vorcaro em 4/7/2025, o ex-diretor jurídico do Banco Master Luiz Rennó comenta sobre o pagamento de R$ 500 mil por mês a Kelvin Marques, filho de Kássio Nunes Marques.

Além dos diálogos de terceiros em nome dele, o próprio ministro fez diretamente um pedido a Leonardo Serrano Giunchetti, apontado pela PF como operador de logística e de viagens de Vorcaro, que “operava como um concierge de luxo e intermediário financeiro”.

Na mensagem a Leo Giunchetti no dia 5 de dezembro de 2024, Nunes Marques pede para seu mecenas uma viagem ao exterior para cinco pessoas durante o recesso judicial:

“Bom dia, Leo.

[Aqui é o] Ministro Kassio.

Preciso da sua ajuda para formatar uma viagem de uns 10 dias, entre 8 e 18 de janeiro, para 5 pessoas.

De preferência com guias e motoristas de Vans que falem português ou espanhol.

Inicialmente, imaginei Viena, com bate volta nas cidades próximas como Bratislava, Budapeste, Graz ou Salzburgo.

Outra opção seria o Peru.

Mas estou aberto a outras opções se tiverem algum roteiro pré-programado.

Muito Obrigado”

Os arquivos mostram que Giunchetti encaminhou este pedido de Kássio a Vorcaro para receber autorização: “É pra atender ele independente ou faço e faturo pra vc? Me avisa, dani. Só pra eu saber como respondê-lo, please?????”.

E Vorcaro então respondeu: “Sim. Atende. Tudo.”.

As provas encontradas pela PF no celular do banqueiro mafioso desmentem categoricamente as explicações do ministro Kássio Nunes Marques.

Além de pedir favores diretamente ao esquema do Vorcaro, seu filho Kelvin recebia 500 mil reais por mês e a “Turma do KN” operava os interesses dele e dos seus amigos íntimos, como o desembargador do TRF1 e sua esposa, titular de contrato de R$ 427 milhões com o Master.

 

Fonte: The Intercept/Viomundo

 

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