Fazendas
de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts
Uma
rede de fazendas de conteúdo gerado por inteligência artificial promove, a
partir de 255 perfis identificados com pautas da extrema direita no Instagram,
ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal), desinformação eleitoral e violência
política de gênero.
Um
levantamento do Instituto Democracia em Xeque obtido pelo Aos Fatos mostrou que
as contas publicaram ou coassinaram 1.204 posts em uma estrutura que utiliza
posts colaborativos para distribuir conteúdo identificado com o bolsonarismo e
compartilhar audiência entre os perfis.
Juntas,
as publicações produzidas pela fazenda acumularam 58 milhões de visualizações e
5 milhões de curtidas e comentários entre 15 de agosto e 15 de setembro.
Cada
ligação do gráfico representa um post publicado em conjunto entre os perfis
Na
semana passada, Aos Fatos revelou que uma rede de perfis no Instagram simulava
apoio popular espontâneo ao ministro André Mendonça a partir de uma estratégia
de engajamento artificial chamada astroturfing. Mapeados inicialmente por Aos
Fatos, os perfis também realizaram publicações em conjunto às contas analisadas
pelo instituto.
O
levantamento confirma que as páginas pró-Mendonça não atuavam isoladamente e
estavam inseridas em uma estrutura mais complexa de produção e amplificação de
conteúdo com IA voltada à promoção de figuras do campo bolsonarista e baseada
em mecanismos semelhantes de atuação. Os perfis foram derrubados pelo Instagram
após reportagem do Aos Fatos.
Content
farms, ou fazendas de conteúdo, são estruturas voltadas à produção rápida e em
grande volume de publicações, muitas vezes de maneira automatizada e com foco
em atrair audiência e engajamento, não na qualidade da informação.
No caso
analisado pelo Democracia em Xeque, similar à identificada anteriormente por
Aos Fatos, a distribuição ocorre em rede: diferentes perfis publicam juntos e
compartilham suas audiências por meio do recurso de collabs do Instagram.
Quase
metade dos posts (586) identificados pelo instituto foi publicado em
colaboração com outras contas, e essas peças concentraram 63% de todo o
engajamento do período. Em alguns casos, um mesmo conteúdo apareceu
simultaneamente em até seis perfis.
A rede
foi dividida pelo instituto em seis núcleos principais formados entre perfis
que se compartilham. O maior deles concentra 60 perfis em torno da
@narrativascuriosastv, uma página de memes e vídeos curtos que deixou de
publicar no início de setembro. O grupo foi responsável por 617 posts, pouco
mais da metade de todas as publicações analisadas, e por 54% do engajamento
registrado.
Perfis
marcados em verde inflaram onda pró-Mendonça no Instagram, conforme reportagem
do Aos Fatos
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Léo Índio e cursos de IA
Entre
as contas que integram o principal núcleo está a @leoindiobolsonaro,
administrada por Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, primo de Flávio,
Eduardo e Carlos Bolsonaro. Alvo do inquérito que investiga a tentativa de
golpe de Estado de 2023, ele teve a prisão decretada em 2025 e atualmente está
foragido na Argentina.
O
perfil participou de 111 publicações da rede — em 15 delas como autor principal
—, acumulando 754 mil interações e quase 6 milhões de visualizações. O
levantamento identificou conteúdos com ataques políticos e violência de gênero,
todos gerados por IA.
A
relação de Léo Índio com o principal núcleo da ‘fazenda de IA’ também passa
pela divulgação de ferramentas para produção de conteúdos políticos com uso de
inteligência artificial. Em fevereiro, o Observatório IA nas Eleições registrou
que publicações transfóbicas feitas por ele contra a deputada Érika Hilton
(PSOL-SP) eram usadas para divulgar um curso de produção de conteúdo sintético.
O mesmo
treinamento também era promovido pela @narrativascuriosastv e outros perfis da
fazenda. Divulgado como apartidário, o curso é vendido por R$ 167 e possui mais
de 90 módulos, dentre eles “Criando Vídeos Virais com o Bolsonaro e o Lula” e
dicas de como remover a marca d’água de conteúdos artificiais. Em algumas
aulas, o perfil era utilizado como exemplo de produção das peças.
A
Kiwify, responsável por hospedar o curso, disse que os módulos considerados
problemáticos haviam sido removidos por violarem as regras da plataforma. Aos
Fatos não conseguiu acesso ao curso para verificar a alegação.
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Poucos posts, milhões de interações
Apesar
do alto volume de publicações, a audiência da fazenda se concentra em poucos
conteúdos. Os 25 posts de maior engajamento, equivalentes a 2,1% da amostra,
reuniram mais da metade (53%) de todas as curtidas e comentários contabilizados
pelo instituto.
A
publicação mais popular foi um vídeo publicado pelo perfil @imperio_patriotico
em 16 de agosto que associa a premiação de uma adolescente de 14 anos em uma
olimpíada de matemática a uma crítica ao governo. A peça acumulou 651 mil
interações (13%) e ainda pedia que os seguidores passassem a seguir outro
usuário.
A
@imperio_patriotico também está entre as contas de maior repercussão, com 1,1
milhão de interações e 8,3 milhões de visualizações no período. A líder é a
@narrativascuriosastv, com 1,5 milhão de interações e 17,2 milhões de
visualizações.
Todas
adotam a mesma prática identificada anteriormente pelo Aos Fatos entre os
perfis ligados a Mendonça: direcionar seguidores para outras contas que
integram a rede da fazenda. Em 30 de agosto, uma publicação da
@narrativascuriosastv que acumulou 129 mil interações pediu que o público
acompanhasse um “novo perfil” porque o atual “pode cair a qualquer momento”.
Três
dias depois, o perfil deixou de publicar na base analisada. Na mesma data, uma
conta alternativa (@narrativascuriosastv3.0) começou a publicar conteúdo
próprio. O Democracia em Xeque considera a sequência um indício de preparação
para eventual perda da outra página.
A conta
original foi bloqueada em resposta a uma liminar da Justiça Eleitoral. Já o
perfil ‘reserva’, com 10,6 mil seguidores, segue ativo e perpetuando o mesmo
padrão de publicações, uso de colaborações e aceno à religiosidade.
Ao
tratar da derrubada sem mencionar possíveis violações às regras da plataforma,
as publicações sugerem uma ideia de “perseguição” contra contas bolsonaristas.
Não há
menções à decisão da Justiça nem à possibilidade de os perfis se enquadrarem
nas diretrizes da Meta sobre comportamento inautêntico coordenado, que proíbem
redes de contas falsas ou automatizadas que atuem em conjunto para manipular o
engajamento ou ampliar conteúdos artificialmente.
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STF, violência de gênero e família Bolsonaro
Humor e
paródia aparecem como os temas de maior engajamento, somando 34% das
interações. Conteúdos relacionados a Lula, ao PT e à primeira-dama Rosângela da
Silva, a Janja, representam outros 16%; STF, Alexandre de Moraes e André
Mendonça, 10%; e publicações de promoção da família Bolsonaro, do PL e do
número 22, 7%.
Parte
das publicações utiliza inteligência artificial para produzir ataques
misóginos. O instituto identificou, por exemplo, montagens hipersexualizadas de
Janja, ataques contra parlamentares e uma imagem sintética que sexualizava a
estátua da Justiça na Praça dos Três Poderes.
No
conteúdo sobre o Supremo, o relatório identifica uma divisão entre as
representações dos ministros. Moraes aparece como adversário das páginas,
enquanto Mendonça é glorificado e retratado como contraponto ao colega. Entre
os exemplos citados, estão publicações com frases como “Mendonça pode prender
Alexandre de Moraes” e “Mendonça Shad é o terror do STF”.
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Políticos na fazenda
As
contas também direcionam publicações a políticos. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é a
figura mais marcada nas legendas, citado por seu perfil oficial em 34 posts.
Leandro de Jesus (PL-BA), Bia Kicis (PL-DF) e a ex-primeira dama Michelle
Bolsonaro também aparecem entre os nomes mais mencionados. As hashtags
recorrentes incluem #direita, #lula, #bolsonaro e #stf.
O
caminho inverso é menos frequente, mas existe. No período analisado, sete
perfis classificados como políticos ou candidatos foram autores ou coautores de
publicações junto à rede.
Entre
eles estão o deputado estadual Leandro de Jesus (PL-BA), que aparece no mesmo
núcleo de @narrativascuriosastv e @leoindiobolsonaro, e o vereador Rafael
Policial (PL-MT), que integra outro agrupamento no qual também aparece Léo
Índio.
O
perfil nacional do PL (Partido Liberal) também fez uma publicação em
colaboração com uma das páginas da rede. As relações demonstram coautorias,
marcações e compartilhamento de audiência entre as páginas e contas políticas,
mas não atribui aos políticos ou partidos a administração ou a coordenação da
fazenda.
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Sem rótulos
Outro
achado do relatório é a baixa presença da identificação de conteúdo sintético
oferecida pelo Instagram. Apenas 155 dos 1.204 posts (12,9%) apresentavam
alguma identificação de uso de inteligência artificial. Em 134 casos, o próprio
autor declarou ter usado a tecnologia; nos demais, a identificação veio de
metadados incorporados aos arquivos.
Mesmo
minoritários, as publicações em que o uso de IA foi declarado pelo autor
concentraram 44% de todo o engajamento da rede.
Ao
todo, 71% das publicações não contavam com qualquer registro de uso de IA. O
instituto ressalta, contudo, que isso não significa que não houve uso da
tecnologia, já que as contas foram incluídas no monitoramento pelo conteúdo que
publicam, e não pela existência do rótulo.
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Rede de Mendonça aparece em análise paralela
Em uma
análise paralela feita a pedido do Aos Fatos, o instituto identificou que
páginas reveladas pela reportagem de 16 de setembro sobre a fabricação de apoio
popular a André Mendonça estavam conectadas a outras fazendas de conteúdo
gerado por IA.
A rede
atua de forma independente da fazenda descrita no relatório, mas possui
ligações com os perfis encontrados pelo Democracia em Xeque e o mesmo padrão de
atuação.
A
reportagem havia identificado 24 perfis dedicados ao ministro e mostrou que
contas bolsonaristas com audiências já consolidadas utilizavam collabs,
reproduziam peças idênticas e convocavam seus seguidores a acompanhar essas
páginas.
Metade
deles existia anteriormente com outras identidades e foram convertidas em
páginas de apoio ao magistrado no início de setembro, quando a crise no STF se
intensificou.
A
análise do Democracia em Xeque ampliou essa rede. Foram identificados 20 perfis
que usavam nomes ou apelidos de políticos ou de Mendonça acompanhados de termos
como “apoio” e “presidente” ou de sufixos numéricos. Nenhum deles era uma conta
oficial.
Quatro
estavam na lista de páginas classificadas pelo instituto como fazendas de
conteúdo com IA; os demais se conectam a elas principalmente por meio de
publicações em colaboração.
Esse
grupo formava um núcleo de 28 perfis que publicou 84 conteúdos e somou 2,9
milhões de interações no período analisado. Faziam parte dele páginas com
variações dos nomes de Flávio e Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Eduardo
Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e André Mendonça.
Entre
as contas classificadas pelo instituto como produtoras de conteúdo com IA
estava a @andremendoncas3, já identificada pelo Aos Fatos como uma das páginas
usadas para fabricar a percepção de apoio espontâneo ao magistrado. No período,
ela participou de cinco publicações, que somaram cerca de 367 mil interações e
3,1 milhões de visualizações.
A
@andremendoncas2, maior perfil identificado na investigação anterior do Aos
Fatos, não publicou nem coassinou posts capturados diretamente pela base no
período. Mesmo assim, apareceu no levantamento porque era marcada repetidamente
por páginas que usam os nomes de Nikolas, Michelle e Flávio Bolsonaro.
Políticos e candidatos também citaram a conta em publicações.
O
padrão coincide com o que a reportagem anterior havia identificado manualmente:
a @nikolasferreiradms3, por exemplo, convocou sua audiência a seguir a
@andremendoncas2, enquanto diferentes páginas bolsonaristas distribuíram peças
iguais para promover perfis do ministro.
Uma
rede de fazendas de conteúdo gerado por inteligência artificial promove, a
partir de 255 perfis identificados com pautas da extrema direita no Instagram,
ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal), desinformação eleitoral e violência
política de gênero.
Um
levantamento do Instituto Democracia em Xeque obtido pelo Aos Fatos mostrou que
as contas publicaram ou coassinaram 1.204 posts em uma estrutura que utiliza
posts colaborativos para distribuir conteúdo identificado com o bolsonarismo e
compartilhar audiência entre os perfis.
Juntas,
as publicações produzidas pela fazenda acumularam 58 milhões de visualizações e
5 milhões de curtidas e comentários entre 15 de agosto e 15 de setembro.
Cada
ligação do gráfico representa um post publicado em conjunto entre os perfis
Na
semana passada, Aos Fatos revelou que uma rede de perfis no Instagram simulava
apoio popular espontâneo ao ministro André Mendonça a partir de uma estratégia
de engajamento artificial chamada astroturfing. Mapeados inicialmente por Aos
Fatos, os perfis também realizaram publicações em conjunto às contas analisadas
pelo instituto.
O
levantamento confirma que as páginas pró-Mendonça não atuavam isoladamente e
estavam inseridas em uma estrutura mais complexa de produção e amplificação de
conteúdo com IA voltada à promoção de figuras do campo bolsonarista e baseada
em mecanismos semelhantes de atuação. Os perfis foram derrubados pelo Instagram
após reportagem do Aos Fatos.
Content
farms, ou fazendas de conteúdo, são estruturas voltadas à produção rápida e em
grande volume de publicações, muitas vezes de maneira automatizada e com foco
em atrair audiência e engajamento, não na qualidade da informação.
No caso
analisado pelo Democracia em Xeque, similar à identificada anteriormente por
Aos Fatos, a distribuição ocorre em rede: diferentes perfis publicam juntos e
compartilham suas audiências por meio do recurso de collabs do Instagram.
Quase
metade dos posts (586) identificados pelo instituto foi publicado em
colaboração com outras contas, e essas peças concentraram 63% de todo o
engajamento do período. Em alguns casos, um mesmo conteúdo apareceu
simultaneamente em até seis perfis.
A rede
foi dividida pelo instituto em seis núcleos principais formados entre perfis
que se compartilham. O maior deles concentra 60 perfis em torno da
@narrativascuriosastv, uma página de memes e vídeos curtos que deixou de
publicar no início de setembro. O grupo foi responsável por 617 posts, pouco
mais da metade de todas as publicações analisadas, e por 54% do engajamento
registrado.
<><>
STF, violência de gênero e família Bolsonaro
Humor e
paródia aparecem como os temas de maior engajamento, somando 34% das
interações. Conteúdos relacionados a Lula, ao PT e à primeira-dama Rosângela da
Silva, a Janja, representam outros 16%; STF, Alexandre de Moraes e André
Mendonça, 10%; e publicações de promoção da família Bolsonaro, do PL e do
número 22, 7%.
Parte
das publicações utiliza inteligência artificial para produzir ataques
misóginos. O instituto identificou, por exemplo, montagens hipersexualizadas de
Janja, ataques contra parlamentares e uma imagem sintética que sexualizava a
estátua da Justiça na Praça dos Três Poderes.
No
conteúdo sobre o Supremo, o relatório identifica uma divisão entre as
representações dos ministros. Moraes aparece como adversário das páginas,
enquanto Mendonça é glorificado e retratado como contraponto ao colega. Entre
os exemplos citados, estão publicações com frases como “Mendonça pode prender
Alexandre de Moraes” e “Mendonça Shad é o terror do STF”.
Fonte:
Por Bianca Bortolon, Aos Fatos/Agencia Pública

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