sábado, 26 de setembro de 2026

Cannabrava: A maior crise da história do Supremo brasileiro

O Supremo Tribunal Federal atravessa uma crise que já não pode ser tratada apenas como uma disputa interna entre ministros ou como mais um episódio da turbulenta vida política brasileira. A crise chegou à opinião pública e atingiu aquilo que uma Corte Suprema tem de mais precioso: a confiança da sociedade.

O STF é o guardião da Constituição e a última instância da Justiça. Quando a população deixa de acreditar em quem deve assegurar o cumprimento da lei, é a própria democracia que começa a ser colocada em xeque.

Pesquisa AtlasIntel/Estadão divulgada nesta semana mostra um quadro dramático: seis em cada dez brasileiros dizem não confiar no Supremo, enquanto apenas 34% manifestam confiança.

Na avaliação individual dos ministros, segundo a sondagem, Cármen Lúcia é a única cuja imagem positiva supera a negativa. André Mendonça, Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Luiz Fux, Cristiano Zanin, Gilmar Mendes, Edson Fachin, Nunes Marques e Dias Toffoli aparecem com avaliação negativa superior à positiva.

O quadro torna-se ainda mais grave quando se chega ao escândalo envolvendo o Banco Master. Segundo os dados da mesma pesquisa que estamos tomando como referência, 85,1% dos entrevistados afirmam acreditar que há envolvimento direto de ministros do STF no caso; 4,4% dizem que não e 10,5% não sabem responder.

É indispensável fazer aqui uma distinção: a pesquisa mede a percepção da sociedade; ela não constitui prova de envolvimento criminal de qualquer ministro. As investigações e os procedimentos relativos ao caso Master ainda estão em andamento, e o próprio Supremo informa que parte do mérito das questões submetidas ao Tribunal ainda não foi examinada.

Mas justamente aí está a dimensão institucional do problema. Independentemente do que as investigações venham a concluir, o fato de parcela tão expressiva da sociedade acreditar que integrantes da mais alta Corte do país possam estar envolvidos em irregularidades revela uma ruptura profunda de confiança. ,

A sondagem aponta ainda forte apoio ao impeachment de ministros — 60% no caso de Dias Toffoli e 49,8% no de Alexandre de Moraes. Mais uma vez, trata-se da opinião dos entrevistados, não de julgamento sobre a responsabilidade jurídica dos ministros.

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O Supremo não é um tribunal qualquer. A Constituição lhe atribui a guarda da própria Constituição. É para ele que convergem as grandes controvérsias institucionais quando as demais instâncias já não podem resolvê-las. Se a sociedade deixa de acreditar na imparcialidade, na independência e na integridade daqueles que ocupam essa posição, surge uma pergunta inquietante: se não se confia na última instância da Justiça, a quem recorrer?

Por isso, defender o Supremo como instituição não pode significar proteger ministros de investigações, questionamentos ou responsabilidades. É justamente o contrário. A preservação da Corte exige que qualquer suspeita seja esclarecida com transparência, respeito ao devido processo legal e igualdade perante a lei. O presidente do STF, Edson Fachin, já declarou diante da crise que “nenhuma autoridade está acima da Constituição” e que os fatos devem ser apurados pelos procedimentos legais.

E torna-se mais urgente do que nunca a criação de um Código de Ética do Supremo Tribunal Federal. Fachin colocou essa iniciativa entre as prioridades de sua gestão e designou Cármen Lúcia para relatar a proposta. Segundo o próprio Tribunal, o objetivo é estabelecer regras destinadas a prevenir conflitos de interesse, consolidar normas de conduta e ampliar a transparência. Depois dos acontecimentos recentes, Fachin voltou a classificar a adoção desse código como uma medida urgente.

Um Código de Ética, evidentemente, não substituirá a Constituição, as leis nem as investigações. Mas poderá estabelecer limites transparentes para comportamentos, relações pessoais, conflitos de interesse e outras situações capazes de comprometer a imagem de independência da magistratura. Quanto maior o poder exercido, maior deve ser a responsabilidade de quem o exerce.

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A crise do Supremo, portanto, não diz respeito apenas aos onze ministros que ocupam suas cadeiras. Diz respeito à República. O Brasil precisa de um STF forte, independente e respeitado — e essa força não pode resultar apenas da autoridade que a Constituição lhe confere. Precisa nascer também da confiança da sociedade. Recuperá-la exige transparência, investigação rigorosa, responsabilidade e regras éticas inequívocas. Porque, quando se perde a confiança na instituição encarregada de guardar a Constituição, não é apenas o Supremo que se enfraquece. É a democracia brasileira.

•        Alessandro Vieira pede impeachment do ministro Kassio Nunes Marques

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) apresentou, nesta quinta-feira (24), um pedido de impeachment por crime de responsabilidade contra o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF) e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O parlamentar denuncia o ministro por crime de responsabilidade pela suposta participação em julgamentos em que sejam considerados suspeitos, o que é incompatível com o decoro do cargo.

Segundo a denúncia, o caso envolve a Destilaria Alcídia e precatórios bilionários citados nas investigações sobre o Banco Master. O documento também menciona mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Daniel Vorcaro e pagamentos e benefícios envolvendo pessoas próximas ao ministro, como a do grupo chamado "Turma do KN", formado por pessoas próximas ao ministro, e uma negociação de contrato de honorários de até R$ 427 milhões relacionada à liberação de cerca de R$ 8,5 bilhões em precatórios do setor sucroalcooleiro.

"O decoro exigido de ministro da Suprema Corte não se mede apenas pela prova de um resultado indevido, mas pela preservação da aparência de imparcialidade, sem a qual a jurisdição constitucional perde legitimidade", afirma o senador na denúncia.

Vieira pede que o Senado receba a denúncia, abra comissão especial, produza provas e ouça testemunhas. Ao final, requer a perda do cargo e a inabilitação para função pública por oito anos. O pedido será analisado pelo Senado, a quem cabe processar e julgar ministros do STF em casos de crime de responsabilidade.

•        Escândalo de Moraes com Vorcaro 'energizou' a direita brasileira perto da eleição e 'eclipsou' caso Dark Horse, diz NYT

Um escândalo de corrupção que está sacudindo a eleição no Brasil. É assim que o influente jornal americano New York Times (NYT) definiu as suspeitas contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, em reportagem publicada nesta quinta-feira (24/9).

"Um escândalo explosivo que liga o ministro Moraes a um banqueiro desmoralizado no centro de um esquema de fraude bilionário mergulhou a mais alta corte do Brasil em uma crise, remodelando uma disputa presidencial acirrada a apenas algumas semanas da eleição", define a reportagem assinada por Ana Ionova, correspondente do jornal no Brasil.

Moraes é descrito pelo jornal como "figura polarizadora", enxergada por parte da população como um "herói que protegeu a democracia brasileira" ou como "vilão que empregou métodos autoritários para atingir a extrema-direita".

O jornal diz que o ministro e o Judiciário desempenharam "papel fundamental na defesa da integridade do voto e na garantia de uma transferência pacífica de poder", referindo-se à atuação no julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Também é ressaltado o papel do ministro "no complexo debate global sobre os limites e a fiscalização do que pode ser dito online, e atraíram a ira, bem como sanções, do presidente Trump".

"Ainda assim, em sua busca por proteger a democracia, Moraes também prendeu pessoas sem julgamento e censurou discursos online, com pouca transparência e escassas possibilidades de recurso", ponderou o jornal.

As revelações de que Moraes é possivelmente o autor de mensagens trocadas com Daniel Vorcaro, inclusive tratando sobre a prisão do banqueiro, "energizaram a direita brasileira", mobilizando apoio a Flávio Bolsonaro, segundo o jornal.

"Da noite para o dia, a revelação se tornou uma importante questão eleitoral, provocando indignação entre os brasileiros."

O escândalo, avalia o cientista político Luciano da Ros, entrevistado pela reportagem, "deu à campanha de Flávio um slogan simples": "Votar em Lula é votar em Alexandre de Moraes", mesmo que o presidente tenha tentado se distanciar do ministro e não foi o responsável por sua indicação ao STF.

O texto menciona ainda a investigação contra Flávio Bolsonaro sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai. Flávio pediu e recebeu dinheiro de Vorcaro. Mas, segundo a reportagem, o caso acabou "eclipsado" pela crise em que o STF se colocou.

Além das suspeitas sobre Moraes, o Corte também terá que se debruçar sobre acusações de que o ministro André Mendonça agiu com parcialidade no caso Master.

Toda a situação colocou o Supremo "no centro de uma tempestade política", diz o jornal.

O NYT repercutiu a sessão de 15 de setembro, a chamando de "dramática" e com debate "acalorado".

"Desde então, novas revelações ligaram Vorcaro a outros ministros do Supremo, incluindo o ministro que hoje supervisiona a autoridade eleitoral do país, aprofundando a crise", publicou o jornal sem mencionar o nome do ministro Kassio Nunes Marques.

Mensagens de Vorcaro reveladas pelo site Metrópoles mostraram que o banqueiro tinha um contrato que previa honorários de até R$ 427 milhões com o escritório de uma advogada apontada como integrante da chamada "Turma do KN", o que seria uma referência às iniciais do ministro.

"Com confiança pública em ruínas, especialistas temem que a corte tenha dificuldades para repelir novos ataques às instituições brasileiras, como interferência eleitoral dos Estados Unidos, desinformação alimentada por inteligência artificial ou uma contestação do resultado eleitoral caso [Flávio] Bolsonaro perca", diz o jornal.

O NYT ainda coloca a eleição brasileira em contexto na América Latina, afirmando que o pleito "poderá medir se a esquerda conseguirá conter o avanço da direita na conquista de presidências em vários países" das região.

 

Fonte: Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil/BBC News Brasil

 

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