sábado, 26 de setembro de 2026

China tenta colocar um fim à guerra do Irã — mas não como Trump quer

Poucos dias antes da visita de grande importância do presidente da China, Xi Jinping, aos Estados Unidos, o governo chinês recebeu o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, em um um sinal da influência que exerce sobre o governo iraniano.

A guerra no Irã deve estar entre os principais assuntos da reunião entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e Xi nesta quinta-feira (24/9).

Desde o início do conflito, há sete meses, a China adota a mesma linha. O país condena os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e as sanções americanas contra o país. Ao mesmo tempo, vem defendendo o fim da guerra e, sobretudo, a reabertura do estreito de Ormuz.

Até agora, a China tem conseguido absorver relativamente bem os efeitos da guerra, graças às suas grandes reservas de petróleo e à diversificação de suas fontes de energia.

O país pode suportar os efeitos da guerra por mais tempo, mas os custos econômicos tendem a crescer, afirma Andrea Ghiselli, especialista em relações entre China e Oriente Médio da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Mas segundo Ghiselli, o governo chinês terá de conciliar seu interesse no fim da guerra com outras prioridades geopolíticas.

"A China não quer que o conflito se transforme em um ponto de atrito nas relações com os EUA", mas também "não vai prejudicar os principais interesses e reivindicações do Irã", acrescenta Ghiselli.

"Irã e China estão, de modo geral, alinhados e consideram que as ações agressivas dos EUA e de Israel estão na origem do conflito e explicam por que ele continua", afirma o especialista.

<><> Energia e economia

Como grande consumidora de energia, a China "sofre com a continuidade" da guerra, afirma Hamidreza Azizi, do International Crisis Group.

O petróleo responde por cerca de um quinto da energia consumida no país, mas mais de 70% desse petróleo é importado, segundo um relatório de 2025 da Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA, na sigla em inglês).

Em 2025, o Irã forneceu cerca de 1,4 milhões de barris de petróleo por dia à China, o equivalente a 12% das importações chinesas de petróleo bruto. Os demais países do Oriente Médio, juntos, responderam por 42% dessas importações.

A China conseguiu substituir parte do petróleo que deixou de receber do Irã e de outros produtores do Golfo por fornecimento da Rússia, do Brasil e de outros países exportadores. No entanto, substituir o gás adquirido na região seria consideravelmente mais difícil.

Os enormes estoques de petróleo da China têm ajudado o país a amortecer o impacto da guerra sobre seu abastecimento de energia. O tamanho das reservas é segredo de Estado, mas estimativas indicam que, em 2025, elas variavam entre 1 bilhão e 1,4 bilhão de barris.

"Se a China tinha cerca de 1,4 bilhão de barris armazenados quando a guerra começou, esse volume seria suficiente para cobrir 254 dias de importações do Oriente Médio, no ritmo de 2025", afirma Erica Downs, pesquisadora especializada no setor de energia da China na Universidade de Columbia, nos EUA.

Downs acrescenta que as reservas chinesas provavelmente durariam ainda mais porque, apesar da guerra, parte do petróleo importado do Oriente Médio continua chegando ao país.

No entanto, a China precisou recorrer a seus estoques de petróleo em três dos últimos quatro meses, inclusive em agosto, segundo Clyde Russell, colunista da agência de notícias Reuters, especializado em commodities na Ásia.

"O governo chinês provavelmente quer deixar de recorrer às reservas o quanto antes, para preservar uma margem de segurança considerável", afirma Downs, da Universidade de Columbia.

E, se os houthis, grupo militar e político do Iêmen apoiado pelo Irã, intensificarem os ataques contra a Arábia Saudita e ampliarem seu controle sobre o estreito de Bab al-Mandab, o mercado global de energia poderá ficar ainda mais instável.

Os problemas econômicos provocados pela guerra no Irã podem até desencadear uma crise econômica mundial, o que teria consequências negativas para a economia chinesa, fortemente dependente das exportações.

Desde 2019, o ritmo de crescimento da China vem diminuindo. A segunda maior economia do mundo enfrenta uma crise no setor imobiliário, tensões comerciais com o Ocidente e o aumento das dívidas dos governos locais.

Nesse cenário, as exportações líquidas responderam, no ano passado, por 32,7% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês, a maior proporção desde 1997, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), com sede em Washington D.C. Com o consumo interno ainda fraco, as exportações têm sido o principal motor do crescimento econômico.

<><> Sanções, bloqueio naval e negociações

Com a guerra em um impasse, o governo Trump continua intensificando a pressão econômica sobre o Irã. Os EUA alertaram que empresas, bancos e países que ajudem a sustentar a economia iraniana podem ser alvo de sanções secundárias.

Até agora, o governo americano evitou impor sanções aos principais bancos chineses, embora já tenha sancionado várias empresas e outras entidades do país. Essa cautela ocorre em um momento em que as tensões comerciais entre EUA e China continuam elevadas.

O governo chinês não aceitou publicamente o pedido dos EUA para aderir à campanha de pressão financeira contra o Irã. A China afirma ser contrária a "sanções unilaterais ilegais" e diz que sua cooperação com o Irã respeita o direito internacional.

A China provavelmente não deixará de comprar petróleo iraniano por causa da pressão dos EUA, afirma Azizi, do International Crisis Group. "Os chineses não querem abrir um precedente em que os EUA possam, por meio de pressão, obrigar empresas e bancos chineses a adotar suas políticas."

O bloqueio naval dos EUA, no entanto, reduziu drasticamente a capacidade do Irã de enviar petróleo aos compradores chineses.

Em março, o Irã exportava 2 milhões de barris de petróleo por dia. Em agosto, esse volume caiu para entre 220 mil e 255 mil barris diários. Desde que os EUA retomaram o bloqueio naval, em 14/7, nenhum carregamento de petróleo bruto iraniano conseguiu atravessar o estreito de Ormuz e chegar à China, segundo a Reuters.

O interesse da China em reduzir o impacto das sanções financeiras não significa necessariamente que o país tenha capacidade ou disposição para desafiar um bloqueio naval. Tentar romper o bloqueio poderia levar a China a um confronto de outra magnitude com os EUA. Não há sinais de que a liderança chinesa esteja disposta a arcar com esse custo.

A China deixou clara sua "preferência por um fim negociado para a guerra", afirma Ghiselli, da Universidade de Exeter, acrescentando que o país provavelmente tentará impedir que o Irã amplie o conflito.

"A China pode ajudar, e talvez ajude, a retomar as negociações. Pode até pressionar os iranianos a fazer algumas concessões que permitam ao presidente Trump reivindicar algum tipo de vitória e usar isso como justificativa para encerrar a guerra."

Mas, Ghiselli também acredita que a China pressionará para que qualquer acordo também traga ganhos concretos para o Irã, como o fim das sanções, o acesso a recursos financeiros congelados e a suspensão dos ataques militares.

¨      Na ONU, Irã acusa EUA de terrorismo enquanto aliados de Trump atacam a ordem multilateral

O presidente do Irã condenou os Estados Unidos e Israel pela guerra que travam contra seu país e se somou a outros mandatários para denunciar o fracasso da Organização das Nações Unidas (ONU) em proteger o povo palestino e pôr fim ao genocídio em Gaza, enquanto o mandatário argentino e outros aliados direitistas do governo estadunidense se dedicaram a questionar a existência dessa organização mundial.

Outros, porém, como o presidente espanhol, pediram que se redobre o compromisso com o multilateralismo e denunciaram as forças reacionárias que desejam enfraquecê-lo.

No início do segundo dia do debate de alto nível da Assembleia Geral da ONU, talvez a defesa mais apaixonada do multilateralismo tenha sido a do presidente espanhol, Pedro Sánchez, que pediu o repúdio às forças reacionárias que tentam enfraquecer essas instâncias.

Masoud Pezeshkian, presidente da República Islâmica do Irã, no início de seu discurso, mostrou aos delegados dos 193 países-membros uma foto de crianças em uma escola que foram mortas por um míssil estadunidense.

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“Estão vendo estas crianças? Estas crianças morreram sob as bombas, com armas utilizadas pelos Estados Unidos e Israel. Eram crianças inocentes que não haviam cometido crime algum”, disse.

“Ontem, o presidente dos Estados Unidos nos descreveu como ‘terroristas’, quando nós temos sido vítimas do terrorismo”, declarou Pezeshkian. “Vivemos em um mundo no qual os poderosos, em vez de pensar na humanidade, na justiça e na democracia, parecem ser aqueles que criam e protegem a instabilidade e a destruição.”

O mandatário iraniano qualificou a Palestina como “uma ferida aberta”, assinalando que, depois de décadas de resoluções da ONU sobre esse povo, “continuam a ocupação e a violência”. Concluiu seu discurso afirmando: “Nunca baixaremos a cabeça nem nos ajoelharemos”.

Washington, porém, tinha defensores e aliados na ONU, e um desfile de mandatários direitistas ofereceu um coro em sintonia com Donald Trump contra a organização multilateral.

“Transformou-se em uma organização inútil que só serve para alimentar uma casta de parasitas fatalmente arrogantes, disfarçados de burocratas bem-intencionados”, afirmou Javier Milei, presidente da Argentina. Os mandatários do Equador e de Honduras reiteraram suas posições de direita diante da atual ordem mundial.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, foi um dos vários oradores que tiveram o cuidado de não desagradar ao governo estadunidense e preferiu utilizar seu tempo na tribuna mundial para solicitar mais assistência internacional na guerra com a Rússia, agradecendo o apelo de Trump para pôr fim ao conflito.

O secretário de Estado Marco Rubio foi questionado nesta quarta-feira sobre o contraste entre as preocupações de aliados, como o presidente francês Emmanuel Macron, com a erosão das normas internacionais e um “retorno à lei da selva”, e a ameaça de Trump de “aniquilar” o Irã.

“Isso não é um ataque ao sistema internacional”, respondeu, mas advertiu que, “no fim das contas, nunca colocaremos a ordem internacional acima dos interesses dos Estados Unidos”.

Delcy Rodríguez, presidenta “encarregada” da Venezuela, também discursou perante a Assembleia Geral, concentrando-se no que chamou de “renascimento” de seu país por meio de uma série de reformas políticas, econômicas e “profundamente espirituais”, como parte de um “processo de transformação democrática” e de unidade plural. Prometeu que haverá eleições.

Disse que seu país atravessou uma “crise de convivência política que perturbou a vida nacional e nossa interação com o mundo” e que se impuseram “interesses alheios ao bem comum dos venezuelanos”, sem oferecer detalhes.

Acrescentou que desejava “agradecer ao presidente Donald Trump e a seu governo por sua disposição de retomar o caminho das relações diplomáticas e de cooperação com a Venezuela”, lembrando que a última vez em que houve um encontro entre os mandatários dos dois países foi em 2009.

Rodríguez celebrou o acordo petrolífero com Washington como “um dos maiores jamais assinados”. Fez uma referência a Bolívar, mas em nenhum momento mencionou Hugo Chávez nem fez qualquer referência a seu ex-chefe Nicolás Maduro, o presidente sequestrado que agora está encarcerado nesta mesma cidade.

Quando perguntaram a Rubio sobre a reunião de Rodríguez com Trump na noite de terça-feira, ele comentou que o encontro havia sido “muito breve”, mas que ambos discutiram o terremoto, temas econômicos, a transição política, o surgimento de novos meios de comunicação e a ampliação do espaço para os partidos políticos naquele país.

E, como repete quase todos os dias, Rubio condenou o governo “recalcitrante” de Cuba. Questionado se os Estados Unidos ainda contemplam uma ação militar, respondeu: “Nossa preferência é sempre abordar essas questões de maneira negociada, de maneira política, avançando por meio de mudanças substanciais em um país que não envolvam o uso da força militar… Não vou especular além disso e certamente não vou ameaçar com coisa alguma”.

Mas Rubio não é o único líder que procura influenciar o diálogo internacional à margem da passarela mundial da Assembleia Geral, nem é o único estadunidense.

Nesta mesma quarta-feira, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, convidou o presidente da Espanha, Sánchez, a primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, e o ex-presidente socialista de Portugal para sua residência oficial, a fim de conversar sobre estratégias impulsionadas por líderes progressistas.

“É realmente um privilégio poder aprender uns com os outros, reproduzir os êxitos dos outros e desenvolver estratégias” capazes de alcançar grandes avanços, comentou Mamdani.

Sánchez, diante da Assembleia Geral nesta tarde-noite, fez talvez a defesa mais apaixonada dos princípios da ONU e de sua Carta diante dos ataques de “governos reacionários”, anunciando:

“Subo a esta tribuna com um único objetivo: defender aquilo que muitos estão tentando destruir. Venho reivindicar os princípios e as ambições que inspiraram a criação desta organização, há 81 anos. Princípios e ambições que vários governos aqui presentes desprezam e pretendem desmantelar.”

Acusou esses governos reacionários — “todos sabemos quem são” — de promover uma tentativa de “demolição planejada” do multilateralismo.

Diante disso, destacou as mobilizações populares de massa “em defesa da natureza, da paz e dos direitos civis” e os governos “que apostam na cooperação, na justiça social e na sustentabilidade ambiental”, disse Sánchez.

Sublinhou que “o multilateralismo é o melhor instrumento que a humanidade possui para administrar sua diversidade e sua interdependência, especialmente em um mundo globalizado e multipolar como o atual”.

Para alcançar esse objetivo, propôs aumentar os investimentos nos organismos da ONU, incluindo o Tribunal Penal Internacional, reformar o Conselho de Segurança para torná-lo mais representativo e eleger uma mulher latino-americana como próxima secretária-geral.

Fez referência à crise em Ceuta e à maneira como a enfrentou “sem renunciar à decência” nem permitir “transformar o migrante em inimigo”.

A disputa pelo futuro da ordem internacional continuará aqui durante toda a semana.

 

Fonte: BBC News Mundo/Diálogos do Sul Global

 

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