Eleição
e civilidade
Patologia
do nosso tempo, a deslegitimação permanente das instituições democráticas, a
descrença na representação política e nos desenvolvimentos dos saberes
científicos, afetam a vida em comum, cujo ideário é o de sustentar o máximo de
sobrevivência, justiça e liberdade, ideário fundado na experiência dos
governantes, suas ações e seu exemplo.
Eis por
que as eleições presidenciais que se aproximam encontram em Lula a continuidade
e ampliação das condições que asseguram a democracia e a fortalecem, contrárias
a todas as formas de preconceito e fundamentalismos, por meio de uma
racionalidade política que não é cálculo de dominação, “realismo político”, mas
“engenho e arte”.
Em
termos práticos, suas realizações na saúde pública, na educação, na segurança,
no planejamento habitacional nas diferentes regiões longínquas do país, como
também na cultura, se exercem porque há a livre circulação do pensamento e o
exercício do dissenso, garantidores da vida pública e da concórdia social.
Lula
não é apenas um nome, pois traz consigo uma identidade política que deu vida às
promessas democráticas de direitos e cidadania, propiciadoras institucionais do
exercício da lei e dos laços de philia social, que se constituem na confiança e
na autoridade.
Esta
não significa, em Lula, poder ou coerção, mas uma responsabilidade, em um
momento de crise do político e advento de tendências totalitárias, tais como
Hannah Arendt as caracterizou: “o sujeito ideal do reino totalitário não é nem
o nazista convicto, nem o comunista convicto, mas o homem para o qual a
distinção entre fato e ficção (isto é, a realidade da experiência) e a
distinção entre o verdadeiro e o falso (isto é, as normas do pensamento) não
existem mais” (As origens do totalitarismo).
O que
se consagrou na fórmula “fake news” – negação da eficácia de vacinas, da
existência da crise climática, entre outras – o que atesta uma recusa da
objetividade do mundo, de valores que acolhem a multiplicidade de desejos e a
pluralidade de interesses.
Neste
sentido, o que produz ativamente a discórdia e as perversões políticas, é a
indiferenciação entre o público e o privado, com a formação de dinastias
governamentais, com a “politização da família” e a despolitização da pólis.
Assim, ocorrem regressões da sociedade, nas quais se transforma quem pensa de
maneira diferente em inimigo público, como na prática dos “cancelamentos” e
perseguições pessoais. Aqui, a agressividade não é apenas um afeto subjetivo,
mas uma ação que inibe os sentimentos sociais de compaixão, empatia e
fraternidade, comprometendo não apenas a democracia, como também o próprio
“processo civilizatório”.
Produzindo
uma “solidariedade mística”, a forma dogmática da política não é sem analogia
com o passado, evocando as pregações de Adolf Hitler que, em um discurso
proferido em 1926, declarava: “ o único sentimento estável é o ódio”. Assim, em
lugar de uma verdade simbólica universalmente aceita, inscreve-se uma outra que
não é desenvolvida pelo intelecto, não consiste em um saber raciocinado: “a
mentira permanente [se torna] verdade orgânica” (Alfred Rosenberg, in O mito do
século XX).
Por
isso, é com Fernando Haddad, ex-Ministro da Educação, que o governo de São
Paulo poderá fortalecer a educação formadora da autonomia, da “livre faculdade
de julgar”, que é o exercício crítico, crítico no sentido do discernimento,
luta contínua contra seu empobrecimento, em particular na privatização do
espaço público pelas novas mídias e por gerações “formadas” pelo tiktok.
É na
Escola e na Universidade que se formam o pensamento, o cidadão e o
aprimoramento da convivência social. Nas palavras de Marilena Chaui: “O que
significa exatamente formação? Antes de mais nada, como a própria palavra
indica, uma relação com o tempo: é introduzir alguém ao passado de sua cultura
(no sentido antropológico do termo, isto é, como ordem simbólica ou de relação
com o ausente), é despertar alguém para as questões que esse passado engendra
para o presente, e é estimular a passagem do instituído ao instituinte. […]A
obra de pensamento só é fecunda quando pensa e diz o que sem ela não poderia
ser pensado nem dito, criando em seu próprio interior a posteridade que irá
superá-la. Ao instituir o novo sobre o que estava sedimentado na cultura, a obra
de arte e de pensamento reabre o tempo e forma o futuro, quando o presente é
apreendido como aquilo que exige de nós o trabalho da interrogação, da reflexão
e da crítica, de tal maneira que nos tornamos capazes de elevar ao plano do
conceito o que foi experimentado como questão, pergunta, problema, dificuldade”
(Marilena Chaui, A Universidade pública sob nova perspectiva).
Contra
o “desmoronamento epistemológico” do contemporâneo neoliberal e privatizante –
cuja base é a competição universal nos mercados globais e sua lógica da
eliminação do concorrente –, a formação educacional e política é resistência à
expropriação do tempo da formação de ideias e da argumentação. É nos tempos
longos e não no curto prazo do cálculo da acumulação, reposição e acréscimo do
capital que se desenvolvem valores e opiniões, o que declina sob a
intolerância, imune ao melhor argumento.
Foi
neste horizonte que Lula criou, com o ProUni, inúmeras Universidades nas
diversas regiões do país, abrangendo os esquecidos da República, fortalecendo
“a vida do espírito” e da sociedade. E Fernando Haddad, como ex-Ministro da
Educação, lhes deu alma, constituindo, pelas práticas e conhecimentos que a
educação produz, barreira contra todas as formas de violência, de absolutismo e
de tirania.
A
política educacional que se desenvolveu com Fernando Haddad é a da formação do
indivíduo e de efetivação de suas habilidades, formação em sentido amplo,
humanista e técnico, tendo por objetivo a autarquia individual e a emancipação
social.
Com
isto, a educação se contrapõe ao populismo e à mentira como forma de governo,
de que o “trumpismo”, que hoje se expande, é a manifestação: “Este exprime de
maneira cristalina um tríplice colapso: moral, epistemológico e ecológico. No
plano moral, Donald Trump não foi eleito apesar de suas mentiras, seus crimes e
desprezo das regras [republicanas], mas por causa deles […]. A passagem da
desagregação moral à desagregação epistêmica se opera pela destruição das
instituições das verdades (educação, pesquisa, mídias) pela mentira sistemática
e manipulação das representações” (Paul Zawadski e François Bafoil, Violências,
crueldades, denegações).
E,
porque, nesta época de incertezas e mutações geopolíticas, uma política de
respeito à vida é imperativa, Lula não cede a pressões políticas e econômicas
externas, tampouco adere à violência das guerras. Lula e Fernando Haddad
resgatam a importância da diplomacia como política da alteridade e da amizade.
Lula na Presidência do Brasil e Fernando Haddad no governo do Estado de São
Paulo reabrem o futuro e a esperança. Pois, se o medo e a destrutividade são
paixões subjacentes aos autoritarismos, “Eros pertence à democracia” (Herbert
Marcuse).
Fonte:
Por Olgaria Matos, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário