sexta-feira, 25 de setembro de 2026

As ambições da China com IA em meio às conversas de Trump com Xi

Nas imensas pastagens da Mongólia Interior, no norte da China, agricultores estão colhendo belas batatas ao lado de novos vizinhos: enormes blocos retangulares que alimentam as plataformas chinesas de inteligência artificial (IA).

A região de Ulanqab, com suas estepes e vulcões, é uma fronteira digital improvável.

Ela foi oficialmente, por anos, a "capital da batata" da China. Mas, agora, seus campos também se tornaram o local de construção de diversos centros de dados, no momento em que os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, se reúnem para discutir, entre outras coisas, a segurança da IA.

Centenas de trabalhadores, com seus capacetes amarelos, carregam equipamentos pesados para o local da construção, enquanto o soldador lança faíscas dos andaimes de metal. Acima deles, enormes guindastes se movimentam com precisão para construir os telhados e homens se equilibram em escadas para rebocar a alvenaria.

"Esta é a velocidade chinesa", brinca um trabalhador. Ele descreve seu país como "maníaco pela infraestrutura", rindo enquanto se afasta.

"Existe uma fase todos os anos. Esta é a segunda fase", explica um engenheiro elétrico. "Haverá muitas outras em seguida."

A inteligência artificial está no centro da competição entre a China e os Estados Unidos. Para isso, o poder de computação dos data centers da região é fundamental.

Para o Partido Comunista Chinês, estes edifícios são fundamentais para a segurança nacional e econômica do país. Quando estiverem terminados, eles ajudarão a guiar sua missão de incluir a IA em 90% das indústrias e da sociedade até 2030.

A China não está apenas construindo a infraestrutura. O país também está criando um conjunto de talentos.

Jovens engenheiros e pesquisadores, agora, observam o país como um local repleto de oportunidades, em parte, devido às tensões com os Estados Unidos e às restrições à imigração impostas por Donald Trump, que azedaram o "sonho americano" de muitos chineses.

"Menos estudantes e pesquisadores estão se mudando para os Estados Unidos e mais estão retornando para a China. É algo muito claro", explica Jack Zhang, da Universidade de Ciência e Tecnologia da China.

Ele próprio foi recrutado por um programa de alto nível, depois de estudar na Universidade Yale, nos EUA, e em Cambridge, no Reino Unido.

"Eu quis levar parte do trabalho de IA que fazia no laboratório e aplicá-lo à saúde e medicina humana", ele conta.

"Isso exige mais recursos, mais pessoas e, às vezes, mais apoio do governo. E pode ser difícil ter acesso a isso no exterior."

A expansão das capacidades chinesas em relação à IA é uma das razões que levaram Washington a afirmar que não quer interromper seus desenvolvimentos no setor, mesmo com os alertas da indústria sobre os eventuais perigos da alta velocidade do avanço da tecnologia.

"Quem vencer a IA, vence", declarou Trump na semana passada.

O CEO (diretor-executivo) da empresa de IA Anthropic, Dario Amodei, pediu que seja mantida a proibição, liderada pelos Estados Unidos, da venda de chips e equipamentos avançados para a China. Para ele, uma liderança chinesa "causaria graves riscos para os Estados Unidos e o mundo".

Esta afirmação não é o que o presidente Xi gostará de ouvir ao chegar a Washington, nesta quarta-feira (23/9). O jornal estatal chinês Global Times, que ecoa as opiniões de Pequim, rejeitou os temores dos Estados Unidos como sendo parte de um "roteiro da Guerra Fria" para "conter" a ascensão da China.

Mas a preocupação chinesa não é apenas alcançar os Estados Unidos. Pequim também está promovendo um modelo alternativo.

O próprio Xi vem incentivando as empresas chinesas de IA a desenvolver modelos mais baratos de código aberto, que permitam às pessoas, empresas e países modificá-los conforme desejarem.

Esta estratégia também opõe os modelos chineses aos desenvolvedores americanos, como a OpenAI e a Anthropic, que usam técnicas de modelos fechados, mantendo seus elementos de design em segredo.

Um dos motivos que levaram Pequim a adotar este sistema é que funcionou bem para eles. E, compartilhando a tecnologia, as empresas chinesas de IA conseguiram inovar rapidamente.

Tudo isso ajudou a China a superar um dos seus maiores desafios: a falta de acesso a chips avançados, que ajudariam o país com seu maior poder de computação.

Mas Pequim também quer maior participação para definir as regras que regem a IA. Xi vem pedindo repetidamente maior regulamentação e um enquadramento global a ser seguido pelos demais.

Com o aumento dos apelos pela segurança da IA, a cúpula desta semana na Casa Branca é especialmente significativa.

Será que os dois lados conseguirão colaborar para a regulamentação da IA? Seria realista uma eventual negociação para reduzir a velocidade do seu desenvolvimento?

Certamente não parece ser o caso quando se observa lugares como Ulanqab, onde as ambições chinesas em relação à IA estão tomando forma.

A China está construindo centenas de data centers para empresas como Huawei, ByteDance e DeepSeek, em províncias escassamente povoadas: Ulanqab, Ningxia e Gansu, no norte, e Guizhou, no sudoeste do país.

O país já instalou enormes capacidades de produção de energia renovável (eólica e solar) naquelas regiões, onde a terra é mais barata e o clima é mais frio e, por isso, a demanda por água é menor.

Tudo isso não significa que não haja preocupações, nem desvantagens.

A China quer que a maior parte dos seus centros de dados sejam alimentados por energia verde até 2030, mas parte da sua rede elétrica ainda é alimentada por carvão.

O abastecimento de água ainda é uma preocupação nas áridas regiões da Mongólia Interior.

Aldeias inteiras foram relocadas, mas é difícil calcular o número e a compensação oferecida aos moradores. É um tema que poucas pessoas discutem, pois pode ser perigoso expressar abertamente seus receios.

"Estes big data não têm absolutamente nada a ver com as pessoas comuns", diz um morador local, falando de forma anônima, longe das câmeras. "Que benefícios eles nos trouxeram?"

Ele afirma que poucos moradores locais encontraram empregos ali. Outros nos contaram sobre seu receio de que sua terra seja tomada e que eles não possam mais ganhar a vida com a agricultura.

Mas também há os otimistas, como um homem que se identificou à reportagem com o sobrenome Zhang. Ele estava ao lado dos colhedores de batatas, em um campo perto dos data centers.

Zhang conta que seus filhos conseguiram encontrar empregos ali.

"A China, agora, está na vanguarda do mundo", afirma ele.

"Não é como nos anos 1960, quando estávamos relativamente atrasados. A China está fazendo tudo certo, agora. Seja no desenvolvimento econômico ou em outras áreas, ela está se saindo bem."

As pesquisas parecem indicar que existe pouca oposição à IA ou à sua adoção disseminada, em comparação com muitos outros países. Mas é difícil avaliar estes números, em um panorama de forte censura.

Pequim tem deixado muito claro que observa a IA como solução para sua força de trabalho envelhecida e está automatizando rapidamente sua produção e suas indústrias. Isso vem gerando ansiedade em relação à perda de empregos, o que também é algo difícil de avaliar.

Mas este é um país que forma cerca de cinco milhões de profissionais no setor de ciência e tecnologia todos os anos, o que é muito mais que os cerca de 500 mil formandos anuais dos Estados Unidos.

E, com um número maior deles permanecendo na China, surge um ecossistema de inovação crescente.

O desenvolvedor de IA Dang Ronghao, de 27 anos, trabalha para uma das empresas líderes em tecnologia. Ele afirma que as universidades chinesas estão ficando mais abertas, o que permite a ele conversar com pesquisadores de todo o mundo, da sua base em Xangai, no leste da China.

"Observei pesquisas combinando IA com fusão nuclear, IA com astrofísica, IA com novos materiais e IA com o desenvolvimento de novos medicamentos", ele conta. "Acho que estamos entrando em uma boa era."

Ainda assim, alguns defendem que a China ainda recompensa a conformidade, não o questionamento.

"Não é tão aberto quanto eu gostaria", afirma o professor Liu Jun, do Departamento de Ciência de Dados e Estatística da Universidade Tsinghua, em Pequim. Ele estudou nas Universidades de Stanford e Harvard, nos Estados Unidos.

"Continuo incentivando os estudantes aqui a fazer mais perguntas, a questionar mais, mas é difícil mudar. Acho que, em parte, é a cultura e, em parte, é o sistema."

Longe dos laboratórios onde o professor Liu e outros questionam as fronteiras da IA, muitos cidadãos chineses ainda enfrentam problemas econômicos mais imediatos, como a lentidão da economia, o desemprego cada vez maior dos jovens, a queda dos gastos da população e a disparada dos preços dos imóveis.

E, nas regiões rurais, o envelhecimento da população é outro problema crescente.

"Big data e tudo o mais... muito bom. Mas não tem nada a ver comigo", afirma um agricultor da Mongólia Interior, enquanto avança em uma carroça para observar suas ovelhas.

Ele afirma que não usa a IA para nada. E raramente usa a internet.

A tela do seu telefone celular está quebrada e o wifi vem de um dongle de bolso. Ele paga pouco mais de 40 yuans (US$ 6, cerca de R$ 31) por mês.

"Não mudou nada para mim, na verdade", ele conta. "Não sei sobre o futuro."

Este tipo de ceticismo pode vir a ser um desafio para Pequim.

Existem tantas mudanças ocorrendo por aqui e em todo o país, mas é difícil saber quantas pessoas são tão dedicadas quanto seus líderes, neste futuro repleto de tecnologia.

¨      Principais temas da cúpula entre Trump e Xi em Washington

O presidente da China, Xi Jinping, fará esta semana, pela primeira vez em mais de uma década, uma visita de Estado aos Estados Unidos a convite do presidente Donald Trump. Xi chegou a Washington nesta quarta-feira (23/09) e ficará nos EUA até sexta. Esta será a segunda visita de Estado entre Xi e Trump este ano, após a realizada pelo presidente americano a Pequim em maio. Na ocasião, ambos os governos concordaram, entre outras questões, em estabelecer um canal de diálogo intergovernamental sobre inteligência artificial (IA).

Nos quatro meses desde aquele encontro, Xi viu uma expansão do comércio chinês com o mundo, enquanto Trump, envolvido na guerra com o Irã e enfrentando baixos índices de aprovação, busca ter o que apresentar aos eleitores americanos, insatisfeitos com o aumento dos preços e prestes a ir às urnas nas eleições de meio de mandato, em novembro. Espera-se que sejam discutidos assuntos como a guerra no Irã, inteligência artificial (IA), a trégua na guerra tarifária prestes a expirar e Taiwan, a ilha autônoma cuja soberania é reivindicada por Pequim.

<><> Trégua ou retorno à guerra comercial?

A visita ocorrerá poucos dias após negociações realizadas em Nova York entre o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng. Os mercados estarão atentos a sinais de uma extensão da trégua tarifária anunciada após a reunião entre Trump e Xi na Coreia do Sul, em outubro passado, e que expirará em 10 de novembro. Esse acordo interrompeu uma guerra comercial na qual as duas maiores economias do mundo ameaçaram as cadeias globais de abastecimento com tarifas retaliatórias mútuas que chegaram a superar 100%. A trégua tarifária suspendeu parte das tarifas e restrições adotadas durante meses de escalada, incluindo alguns controles chineses sobre a exportação de terras raras.

As conversas entre He e Bessent abordaram a aplicação dos acordos alcançados em rodadas anteriores, o comércio e o investimento bilateral e também incluíram um diálogo sobre inteligência artificial, que ambas as partes pretendem continuar. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que os países farão "alguns anúncios sobre agricultura e barreiras não tarifárias". Um passo que a China poderia adotar facilmente seria reduzir as tarifas sobre importações agrícolas americanas.

<><> Aviões e produtos agrícolas

Trump buscará anunciar vitórias comerciais antes das eleições legislativas de meio de mandato de novembro, incluindo a confirmação de compras de grande visibilidade, como aeronaves da Boeing e produtos agrícolas. Greer afirmou na segunda-feira que a China está avançando no compromisso de comprar 200 aeronaves da Boeing, mas não indicou que novos pedidos estejam próximos. Trump declarara em maio que a China poderia ampliar sua encomenda da Boeing para até 750 aeronaves. No entanto, o diretor-presidente da Boeing, Kelly Ortberg, reduziu na semana passada expectativas de analistas do setor de que a China possa anunciar uma nova encomenda da Boeing durante os encontros entre Trump e Xi. Após a cúpula de maio, a Casa Branca comunicou que a China se comprometeu a comprar pelo menos 17 bilhões de dólares por ano em produtos agrícolas americanos em 2026, 2027 e 2028.

O senador republicano Pete Ricketts, presidente da subcomissão de Relações Exteriores do Senado para o Leste Asiático, afirmou na semana passada que Trump deverá pressionar Xi a cumprir esses compromissos e a concretizar promessas de abrir o mercado chinês a mais exportações de carne bovina dos Estados Unidos.

<><> Terras raras

Pequim tem pressionado os Estados Unidos a adiar ainda mais uma regra que impedirá milhares de empresas chinesas de receber tecnologia avançada americana, enquanto Washington deseja que Pequim facilite os embarques de terras raras e minerais críticos essenciais para aplicações de alta tecnologia, que vão da fabricação de automóveis e aeronaves ao setor de defesa. Especialistas afirmam que Trump adotou uma postura menos combativa do que o habitual antes de sua reunião com Xi devido ao crescente poder da China no setor de minerais estratégicos. Segundo a consultoria AlixPartners, a China controla até 70% da mineração mundial de terras raras, 85% da capacidade de refino e cerca de 90% da produção de ligas metálicas e ímãs de terras raras. Até o momento, o governo Trump não ameaçou impor tarifas elevadas sobre importações chinesas nem proibir exportações de tecnologia dos Estados Unidos, em contraste com as posturas agressivas que antecederam cúpulas anteriores. No ano passado, em retaliação às tarifas de Trump, a China restringiu as exportações de terras raras e provocou turbulências nos mercados globais.

<><> Taiwan

Um dos temas mais delicados é um pacote de armas para Taiwan no valor de 14 bilhões de dólares, aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos em janeiro de 2025, mas que o governo de Trump ainda não levou adiante. Os aliados dos Estados Unidos na Ásia têm demonstrado preocupação crescente de que, para garantir ganhos econômicos, Trump possa atenuar o apoio de Washington a Taiwan, a ilha democrática que a China considera uma província rebelde. Embora os Estados Unidos, como a maioria dos países, não mantenham relações diplomáticas formais com Taipé, Washington é o principal apoiador internacional e fornecedor de armas de Taiwan.

Trump afirmou que Xi o pressionou sobre as vendas de armas dos Estados Unidos para Taiwan durante a visita de maio, tendo posteriormente descrito o pacote pendente de 14 bilhões de dólares como uma "moeda de troca" nas negociações.

Segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, os Estados Unidos estão considerando adiar as vendas de armamento a Taiwan para 2027 devido aos encontros previstos entre Trump e Xi ao longo deste ano. Além das armas, pessoas familiarizadas com os esforços chineses disseram à agência de notícias Reuters que Pequim também espera convencer Trump a declarar publicamente que os Estados Unidos se opõem à independência de Taiwan, em vez de afirmar apenas que não a apoiam, que é a formulação adotada por Washington há décadas. Qualquer mudança na posição dos Estados Unidos sobre Taiwan seria altamente controversa, levantando questionamentos sobre a disposição de Washington em defender a ilha e provocando oposição no Congresso.

<><> Guerra no Irã

A China mantém laços estreitos com Teerã e é, de longe, a maior compradora mundial das exportações de petróleo iraniano. Washington considera que Xi dispõe de uma capacidade única de exercer pressão sobre Teerã, mas tem demonstrado pouca disposição de usá-la. Bessent disse que Trump e Xi discutirão os vínculos financeiros da China com Teerã durante a cúpula. No entanto, apesar da frustração de Washington com Pequim, Bessent evitou impor punições a bancos chineses quando anunciou uma "ofensiva econômica" contra o Irã no mês passado e advertiu países a reduzirem seus negócios com o Irã. Na semana passada, Trump minimizou uma reportagem segundo a qual o Irã teria obtido imagens de satélite de uma base na Jordânia junto a entidades chinesas antes de um ataque, em julho, que matou três militares americanos.

<><> Inteligência artificial

Analistas veem a IA como uma possível área de cooperação, dadas suas implicações para a segurança nacional, a competitividade econômica e as capacidades militares, bem como as preocupações compartilhadas por Estados Unidos e China quanto ao uso indevido da tecnologia.Mas apesar desse potencial, as duas principais potências mundiais em IA também se veem como concorrentes, o que dificulta a cooperação. "Eles veem pouca razão para colaborar em áreas nas quais acreditam que a vantagem competitiva é fundamental", observa o cientista político Ja Ian Chong, da Universidade Nacional de Singapura.

Bessent declarou, após as conversas do fim de semana com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, que os dois lados discutiram a criação de um novo diálogo bilateral sobre IA. Isso incluiria um sistema de notificação voltado para objetivos e ameaças comuns, abrangendo incidentes relacionados à IA que atinjam um nível de relevância para a segurança nacional. O diretor-presidente da empresa americana de IA Anthropic, Dario Amodei, alertou neste mês que uma eventual predominância chinesa na inteligência artificial poderia representar riscos à segurança dos Estados Unidos. A mídia estatal chinesa rejeitou o alerta, classificando-o como produto de uma "mentalidade de Guerra Fria", enquanto Trump descartou os apelos para desacelerar o desenvolvimento da IA, afirmando que "forças muito negativas" estão levantando preocupações exageradas.

 

Fonte: BBC News Mundo/DW Brasil

 

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