A
agricultura que inova em rede
A
inovação pelos pares está abrindo o mais fértil caminho para superar os
impasses a que conduziu o padrão tecnológico subjacente ao modelo agroalimentar
contemporâneo. O Brasil está na vanguarda global desse movimento que, longe de
representar uma irrealista e nostálgica volta ao passado, aponta para o que de
mais avançado se faz hoje para juntar a oferta de alimentos, fibras e energia à
regeneração dos tecidos socioambientais que até aqui o crescimento agropecuário
tem sistematicamente destruído.
Bioinsumos
fabricados nas fazendas e em cooperativas de agricultores familiares podem-se
converter em componentes decisivos da redução no uso de produtos sintéticos e
químicos altamente poluentes, dependentes de importações e que representam
custos com os quais os agricultores podem cada vez menos arcar.
Estas
afirmações contrariam a convencional sabedoria econômica para a qual a
“inovação livre” (título do livro fundamental que Eric von Hippel publicou em
2017, hoje considerado um clássico no tema) reduziria o incentivo para a
invenção e, em consequência, bloquearia o progresso tecnológico. Por esse
raciocínio, é a institucionalização dos direitos de propriedade que garante aos
inventores um monopólio provisório sobre seus resultados e, em função desta
segurança, estimula seu trabalho.
Eric
von Hippel mostra, no entanto, que mesmo antes da emergência dos softwares
livres, o compartilhamento das invenções e das inovações daí decorrentes fez
parte do próprio desenvolvimento da indústria em diversos setores da economia.
O compartilhamento trouxe não apenas vantagens reputacionais, mas abriu caminho
ao aperfeiçoamento do que foi inventado.
A
característica da inovação pelos pares, nos dias de hoje, é que ela se apoia
firmemente no trabalho de diferentes comunidades científicas. No empenho em
superar os impasses atuais do sistema agroalimentar, esta junção é
especialmente promissora.
Mais
que isso, longe de se limitar a cientistas trabalhando em suas bancadas e
repassando às indústrias os produtos de suas inovações, por sua vez
padronizados, submetidos a normas de segurança e vendidos a seus consumidores,
a inovação pelos pares opera em rede: o agricultor e o pecuarista deixam de ser
os aplicadores de uma receita sobre a qual não exercem qualquer influência e se
convertem, ao contrário, nos nós decisivos de uma rede sociotécnica que o
filósofo francês Bruno Latour caracterizou como uma rosa dos ventos.
No
centro da rosa dos ventos está a ciência, ou seja, a compreensão dos processos
biológicos, físicos e químicos dos quais a produção depende. A rede não é
apenas social. Ela é constituída por microrganismos, pela relação entre fungos
e raízes das plantas, pela capacidade de os animais de criação aumentarem a
fertilidade do solo, pelos insetos, pelas bactérias, pelas rochas, cujo pó será
utilizado nas plantações, ou seja, por um conjunto de elementos que formam o
agroecossistema do qual o agricultor depende e nele interfere permanentemente.
Por
isso, é uma rede sociotécnica. De aplicador de um receituário pronto e acabado,
o agricultor se transforma em gestor do ecossistema em que se insere, da vida
que está em sua base, da relação com seus pares, com seus clientes e com os
potenciais dos territórios em que se localiza.
É claro
que estas imagens não poderiam estar mais distantes da esmagadora maioria dos
agricultores, que têm imensa dificuldade de se emancipar dos dispositivos
tecnológicos que lhes permitem obter safras cada vez maiores, com redução,
entretanto, de seus ganhos, em função do aumento dos custos de seus insumos e
da ampliação de sua insegurança, por não saberem se estes insumos, hoje quase
totalmente importados, estarão disponíveis para a compra.
O atual
desafio do sistema agroalimentar brasileiro não consiste em produzir cada vez
mais e sim em usar a biodiversidade, a microbiologia e o conhecimento dos
agroecossistemas para construir uma agricultura tropical cada vez mais
autônoma, competitiva, biologicamente eficiente e com soluções baseadas na
natureza.
O
Brasil inovou globalmente, já em 2009, reconhecendo o direito à produção
própria de bioinsumos, sem registro prévio. Esse caminho foi ampliado e ganhou
um marco legal específico com a Lei nº. 15.070/2024, que consolidou esse
direito. Bioinsumos compreendem entre outros, biofertilizantes, inoculantes,
condicionadores biológicos, bioestimulantes, semioquímicos, metabólitos e
agentes de controle.
A
importância desse conjunto não está na substituição de um inseticida químico
por um microbiológico e sim, no manejo dos microbiomas, na eficiência da
nutrição vegetal, na fixação e na ciclagem de nutrientes, na solubilização de
minerais, ou seja, na ambição de transformar profundamente as bases
tecnológicas de um setor decisivo da economia brasileira.
No
entanto, conforme carta aberta enviada ao Presidente da República por 27
entidades e centenas de agricultores e pesquisadores, a regulamentação da lei
dos bioinsumos acaba por tratá-los sob a mesma lógica com que aborda os
agrotóxicos, superestimando seus riscos, dificultando seu registro e inibindo
assim o virtuoso processo de inovação compartilhada em que eles se apoiam.
A carta
explica que “exigências regulatórias indiferenciadas mais próprias de moléculas
químicas do que de organismos vivos tendem a favorecer empresas que já possuem
estruturas regulatórias em larga escala, em geral, as mesmas multinacionais que
hoje dominam o mercado de insumos convencionais. Uma regulamentação pensada
para estimular a inovação biológica descentralizada pode, na prática,
aprofundar a concentração que já existe”.
Ao
contrário das tecnologias em que se baseia o crescimento atual do sistema
agroalimentar, os métodos regenerativos que emergem da inovação pelos pares
valorizam não apenas as interações entre diferentes atores locais, mas também
os próprios recursos materiais, energéticos e bióticos de cada território.
Não se
trata de autarcia ou isolamento e sim de transformar o conhecimento minucioso
destes recursos nos insumos em que se apoia a oferta de produtos agropecuários,
permitindo a expansão de seus efeitos multiplicadores sobre um variado conjunto
de atividades.
É por
aí que a descarbonização e a adoção de trajetórias regenerativas para seu
crescimento dará sua mais importante contribuição para reduzir a concentração
de renda e de riqueza que marca hoje, de forma tão pronunciada, o setor
agropecuário.
Fonte:
Por Ricardo Abramovay e Eduardo Martins, em A Terra é Redonda

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