Como
os EUA destruíram suas próprias forças armadas
Em 10
de setembro de 2001, o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld discursou diante da
nata do Pentágono em uma extensa palestra intitulada “Da Burocracia ao Campo de
Batalha”. Suas recomendações eram radicais — na verdade, estão entre as mais
impactantes da história militar dos EUA — mas, graças aos atentados terroristas
do dia seguinte, suas palavras permanecem esquecidas, enquanto suas
consequências jazem sob as areias do Iraque e do Afeganistão. “O tema de hoje é
um adversário que representa uma ameaça, uma ameaça séria, à segurança dos
Estados Unidos da América”, começou Rumsfeld, antes de revelar que a ameaça não
era a Al-Qaeda, mas a “burocracia do Pentágono”. “Não as pessoas, mas os
processos”, acrescentou, tranquilizando a todos. “Não os civis, mas os
sistemas. Não os homens e mulheres fardados, mas a uniformidade de pensamento e
ação que muitas vezes lhes impomos.” Em essência, o discurso de Rumsfeld
naquele dia visava preparar o terreno e predispor seus funcionários para uma
privatização massiva dos serviços do Departamento de Defesa. Era a realização
de um sonho antigo dos políticos republicanos e seus aliados corporativos em
Washington — que agora teriam à disposição uma mina de ouro de contatos
governamentais lucrativos.
Com os
trágicos eventos de 11 de setembro e a subsequente guerra terrestre em duas
frentes no Oriente Médio, Rumsfeld teve a oportunidade de implementar seu
programa com mínima oposição. Os resultados foram evidentes oito anos após o
início da Guerra ao Terror, quando o Departamento de Defesa tinha 95.461
contratados privados trabalhando para ele no Iraque, em comparação com 95.900
militares estadunidenses. O uso de contratados privados estava tão arraigado
que a promessa de Barack Obama, durante a campanha eleitoral de 2008, de acabar
com essa prática tornou-se apenas mais uma promessa não cumprida entre tantas
outras. Mas, embora a privatização do esforço de guerra seja um tema amplamente
explorado por diversos jornalistas, notadamente Jeremy Scahill, um aspecto do
programa recebeu pouca atenção — o plano de Rumsfeld para soldados na folha de
pagamento do Departamento de Defesa
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A guerra dentro da guerra
“Neste
período de recursos limitados”, continuou Rumsfeld, “precisamos de cada
centavo, cada boa ideia, cada inovação, cada esforço para ajudar a modernizar e
transformar as Forças Armadas dos EUA.” Isso só poderia ser feito mudando os
fundamentos de como o Pentágono funcionava, em um processo que mais tarde seria
chamado de “Transformação”: “Muitas das habilidades de que mais precisamos
também são muito requisitadas no setor privado, como todos vocês sabem. Para
competir, precisamos trazer para o Departamento de Defesa as práticas de
recursos humanos que já transformaram o setor privado.” Até mesmo o próprio
Departamento de Defesa deveria ser administrado como uma corporação: “Devemos
empregar as ferramentas dos negócios modernos. Pacotes de remuneração mais
flexíveis, técnicas modernas de recrutamento e melhor treinamento.” O que
Rumsfeld queria era um Exército dos EUA enxuto e simplificado — uma reversão do
que ficou conhecido como Doutrina Powell, em homenagem ao general da Operação
Tempestade no Deserto, Colin Powell, que acreditava no emprego de um grande
número de tropas, “força esmagadora” e uma estratégia de saída definida. Foi
uma abordagem arriscada para Rumsfeld. Mesmo antes do 11 de setembro, Powell,
então Secretário de Estado, já havia observado que “Nossas forças armadas estão
bastante sobrecarregadas, e há um limite para quantas dessas missões podemos
sustentar”. Isso se provaria um eufemismo. Mas Rumsfeld foi apoiado em sua nova
abordagem por seu chefe, o presidente George W. Bush, que, para grande
consternação de Powell, compartilhava da mesma visão: “Construir a força do
futuro não será fácil. Mudar a direção de nossas forças armadas é como mudar o
rumo de um navio poderoso”, disse Bush em maio de 2001. O clichê repetido à
exaustão é que tudo mudou em 11 de setembro, e de fato mudou para milhões de
estadunidenses.
A
invasão do Afeganistão começou com uma missão das Forças Especiais, inspirada
por Rumsfeld, para subornar senhores da guerra locais, apoiada por ataques
aéreos que dispensavam a necessidade de um contingente militar esmagador. Mas
os chamados neoconservadores não tinham terminado ainda: eles ambicionavam o
prêmio final, o Iraque, e, de fato, dezoito meses depois, e de forma muito mais
controversa, o país com a terceira maior reserva de petróleo do mundo foi
atacado — uma ação que o vice de Rumsfeld, Paul Wolfowitz, vinha defendendo
(novamente, com uma força reduzida ao estilo de Rumsfeld) na década de 1990. Ao
longo da década seguinte, bombas estadunidenses caíram sobre a Síria, o
Paquistão e o Iêmen, entre outros, enquanto o Oriente Médio se transformava em
uma conflagração de proporções dantescas, com civis, insurgentes e militares
estadunidenses todos envolvidos no conflito. As cobaias de Rumsfeld para seu
novo experimento de planejamento militar “flexível” foram os estadunidenses
patriotas que acreditavam estar se alistando para defender seu país — no auge
da Guerra ao Terror, 1,6 milhão deles haviam servido no Oriente Médio. Esse
número, equivalente à população de um país como a Estônia ou de uma cidade como
Filadélfia, deve ter surpreendido Rumsfeld, que havia baseado todo o seu plano
de guerra em uma força muito menor e uma guerra curta. De fato, logo após o 11
de setembro, o General Tommy Franks foi solicitado por Rumsfeld a estimar
quantas tropas uma invasão do Iraque exigiria. O último plano de contingência
para invadir o Iraque, datado de 1998, recomendava uma força de mais de 380.000
soldados. Mas, aparentemente sob pressão de Rumsfeld, o General Franks
apresentou seu plano “Início Gerado” com uma estimativa inicial de apenas
275.000 soldados. Até isso foi demais para Rumsfeld, que, em seu estilo
categórico característico, repreendeu o general e insistiu em uma força ainda
menor.
Segundo
Michael Gordon, correspondente militar do New York Times, “Eles
criaram uma variante chamada ‘arrancada’, onde você começa talvez com uma
divisão ou algo assim, e então os reforços chegam logo em seguida. Então, você
começa pequeno, mas continua enviando mais de acordo com as necessidades.” Essa
abordagem gerou o que foi chamado de “guerra dentro da guerra”, pois colocou
Rumsfeld em conflito com o General Eric Shinseki, o popular Chefe do
Estado-Maior do Exército, e o Secretário de Estado Powell, ambos (com razão)
acreditando que um grande número de tropas seria necessário para garantir a
segurança após o fim dos combates iniciais. O General Shinseki propôs
publicamente uma força de 200.000 homens, depois que sua frustração com a
intransigência de Rumsfeld sobre o assunto se tornou insuportável. Não
adiantou. Rumsfeld não o ouviu. Essa tática estava muito cegada pela ideologia
que contradizia diretamente os objetivos declarados da invasão — desarmar
Saddam Hussein. “Os Estados Unidos não tinham tropas suficientes para proteger
as centenas de locais suspeitos de conter armas de destruição em massa que
supostamente haviam sido identificados no Iraque, nem para garantir a segurança
das longas e porosas fronteiras do país”, escreveram Michael Gordon e o General
Bernard Trainor em seu livro Cobra II. “Se os iraquianos possuíssem
armas de destruição em massa e se grupos terroristas fossem prevalentes no
Iraque, como o governo Bush afirmava com tanta veemência, [o número limitado
de] forças estadunidenses poderia muito bem ter falhado em impedir que as armas
de destruição em massa fossem contrabandeadas para fora do país e caíssem nas
mãos das forças obscuras contra as quais o governo havia declarado guerra.” Mas
não foi apenas a ideologia a culpada pelos danos subsequentes às forças armadas
estadunidenses e seus objetivos de guerra; houve também uma dose considerável
de incompetência.
Após
muita discussão, Rumsfeld e Franks chegaram a um acordo e a força inicial
contava com 130.000 soldados, bem menor do que o previsto na década de 1990,
mas não tão reduzida quanto Rumsfeld esperava. De qualquer forma, o plano não
funcionou como esperado, e o número de tropas não era suficiente para controlar
a situação em um país de 30 milhões de habitantes. Gradualmente, mais militares
foram enviados, juntamente com contratados privados, à medida que a situação
mergulhava no caos após o desmantelamento da polícia e das forças armadas pelo
primeiro vice-rei, Paul Bremner, ter desencadeado uma onda de violência sem
fim.
Em
2005, os EUA tinham 150.000 soldados no Iraque e 19.500 no Afeganistão. Mas o
plano de guerra previa que as forças armadas não estavam preparadas para esse
tipo de mobilização — e estavam entrando em colapso. Em 2005, apenas dois anos
após o início da guerra no Iraque, já se falava abertamente sobre o fato de que
as forças armadas estadunidenses haviam chegado ao limite. Em uma audiência no
Senado em março daquele ano, o General Richard A. Cody expressou publicamente
essas preocupações: “O que me tira o sono é como será essa força totalmente
voluntária em 2007”. Mas ele não fazia ideia do que ocorreria. O pior ainda
estava por vir, pois naquele mesmo ano o exército não atingiu suas metas de
recrutamento pela maior margem desde 1979, época em que a sociedade
estadunidense ainda sofria com a chamada “Síndrome do Vietnã” e o exército era
muito maior, recrutando o dobro de soldados.
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Ponto de ruptura
Por
volta dessa época, um oficial do exército aposentado chamado Andrew F.
Krepinevich, escrevendo sob contrato com o Pentágono, divulgou um relatório
chocante e contundente sobre a capacidade das forças armadas estadunidenses de
manter seus níveis de tropas no Iraque sem comprometer o exército ou perder a
guerra. Seu diagnóstico era simples: as forças armadas dos EUA estavam
“enfrentando um longo período de mobilização contra forças irregulares que
travavam insurgências”, mas as forças terrestres necessárias para garantir a
estabilidade e a segurança no Afeganistão e no Iraque “claramente excediam as
disponíveis para a missão”. Para compensar, o exército estava introduzindo
mudanças indiretamente, às custas de suas tropas. Krepinevich apontou para o
frequente e intempestivo remanejamento de militares. “Soldados e brigadas estão
sendo mobilizados com mais frequência e por períodos mais longos do que o
Exército considera apropriado para atrair e reter o número de soldados
necessário para manter o tamanho e a qualidade da força solicitada.” Ele
ofereceu três soluções para superar a grave escassez de tropas: remanejar as
tropas existentes com ainda mais frequência; remanejá-las por períodos ainda
mais longos; ou mobilizar tropas terrestres do Corpo de Fuzileiros Navais dos
EUA.
As duas
primeiras dessas recomendações já haviam sido implementadas pelo exército, mas
era um jogo perigoso. “Com que frequência um soldado pode ser colocado em
perigo e ainda assim desejar permanecer no exército?”, questionou Krepinevich.
“Não está claro, nem mesmo para os líderes do exército, por quanto tempo essa
prática pode ser sustentada sem causar problemas de recrutamento e retenção.”
Suas conclusões não eram otimistas: o exército, disse ele, estava “numa corrida
contra o tempo”, na qual “sua capacidade de executar iniciativas de longo
prazo” estava comprometida pelo risco de “corroer a força com um declínio
catastrófico no recrutamento e na retenção”. Ele prosseguiu dizendo que seria
difícil não sobrecarregar tanto as forças ativas e da reserva “a ponto de os
problemas de recrutamento e retenção se tornarem tão graves a ponto de ameaçar
a eficácia da força”. A essa altura, então, todos — inclusive o próprio
Rumsfeld — sabiam que o exército precisava aumentar de tamanho. “Com as
demandas atuais impondo uma pressão tão grande sobre nossos militares, torna-se
mais crucial do que nunca que trabalhemos para aliviar seu fardo”, disse o
deputado Ike Stelton, que tinha um longo histórico de defesa de um exército
maior. Mas, com o recrutamento em baixa e a indignação com a guerra
generalizada, como isso seria possível?
Havia
uma medida que teria resolvido instantaneamente os problemas estruturais das
Forças Armadas: o recrutamento obrigatório. Mas era uma medida muito
controversa. O alistamento involuntário havia sido abolido pelo Congresso em
1973, ao final da Guerra do Vietnã. Na época em que Krepinevich escrevia, o
assunto entrou em debate nacional, embora o governo Bush permanecesse
implacavelmente contrário por puro interesse próprio. Quando Rumsfeld
testemunhou perante uma Subcomissão de Defesa do Comitê de Orçamento do Senado,
em abril de 2005, a questão foi levantada pelo senador democrata Daniel Inouye.
“Pela primeira vez em muitos anos, o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais
não estão atingindo suas metas de recrutamento. Há quem já esteja discutindo o
recrutamento obrigatório”, disse ele com tato diplomático. Exasperado, Rumsfeld
se inclinou para a frente na cadeira e aproximou a boca do microfone: “Acho que
as únicas pessoas que poderiam estar falando sobre recrutamento obrigatório são
aquelas que falam de um ponto de vista de quase completa ignorância”,
respondeu. “A última coisa de que precisamos é de uma convocação. Simplesmente
não precisamos.” Os democratas continuaram pressionando até que Charles Rangel,
um congressista de Nova York, reapresentou o Projeto de Lei do Alistamento
Militar em fevereiro de 2006, que, se aprovado, teria restabelecido o serviço
militar obrigatório para todos com até 42 anos de idade. “A cada dia que a
opção militar permanece em discussão, como declarado pelo presidente em seu discurso
sobre o Estado da União, no Irã, na Coreia do Norte e na Síria, o
restabelecimento do alistamento militar obrigatório é uma opção que também deve
ser considerada, quer queiramos ou não”, disse Rangel. “Se as Forças Armadas já
estão com dificuldades para recrutar o número necessário de soldados, o que
podemos fazer para preencher as fileiras se a guerra se espalhar do Iraque para
outros países? Podemos não ter outra escolha senão o alistamento obrigatório.”
O
projeto foi rejeitado pelo Congresso, para grande alegria do presidente Bush.
“Aplaudo a Câmara dos Representantes por rejeitar veementemente o projeto de
lei ‘Restabelecer o Alistamento Militar’”, disse ele posteriormente. “Se este
projeto de lei me fosse apresentado, eu o vetaria. As Forças Armadas
estadunidenses, compostas inteiramente por voluntários, são as melhores do
mundo, e restabelecer o serviço militar obrigatório seria uma má política.
Aumentamos os salários e os benefícios para garantir que nossas tropas tenham
os recursos necessários para lutar e vencer a guerra contra o terror. Quero que
todos os estadunidenses entendam que, enquanto eu for presidente, não haverá
serviço militar obrigatório.” Reinstaurar o serviço militar obrigatório não
teria tornado os EUA uma anomalia entre seus aliados: muitos ainda mantinham,
ou ainda mantêm, programas de recrutamento obrigatório, incluindo Israel e (até
2011) a Alemanha. No entanto, em uma guerra tão impopular e com um presidente
sob tanta pressão, o governo sabia que recrutar os jovens do país poderia ser a
gota d’água. Impedido de implementar o serviço militar obrigatório, o exército
recorreu a métodos de tentativas anteriores de aumentar as fileiras durante a
Guerra do Vietnã: não apenas recrutando entre os mais pobres da sociedade, mas
também alterando os regulamentos de alistamento. Em 1965, à medida que o
aumento das tropas no Vietnã do Sul crescia, o exército começou a abandonar
seus padrões de recrutamento e centenas de milhares de homens com QI entre os
mais baixos foram admitidos pela primeira vez. “Antes da escalada estadunidense
no Vietnã, esses homens eram rotineiramente rejeitados, mas com a guerra em
curso, esses ‘novos padrões’ foram repentinamente considerados aptos para
lutar. As taxas de rejeição despencaram”, escreve um historiador. Em 1966, o
então Secretário de Defesa Robert McNamara instituiu um programa chamado
“Projeto 100.000”, que visava aumentar o número de tropas em 100.000 dentro de
dois anos, admitindo civis que anteriormente não atendiam aos padrões exigidos.
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O novo visual
Sem o
serviço militar obrigatório e com as metas de recrutamento sendo constantemente
descumpridas, o governo Bush e o Pentágono elaboraram um plano semelhante. Ao
terceirizar inúmeras tarefas operacionais para corporações militares privadas
como a Blackwater e a DynCorp, que receberam bilhões de dólares em subsídios
governamentais para atuarem na linha de frente da Guerra ao Terror, o governo
lidou parcialmente com a lacuna entre sua demanda por tropas descartáveis e a oferta de tropas
qualificadas. Uma pequena coalizão de países, que mais tarde incluiu tropas da
OTAN no Afeganistão e da ONU no Iraque, ajudou a amenizar o déficit crônico de
tropas. Mas não foi suficiente. Em 2004, Bush tomou outra medida incomum para
sanar o problema: convocou 37.000 membros da Guarda Nacional para lutar nos
desertos do Iraque. Desde a Guerra da Coreia não havia ocorrido uma mobilização
de tal magnitude: a Guarda Nacional havia servido na Guerra do Golfo e no
Kosovo, mas em números nunca tão expressivos. Em junho de 2005, eles
representavam 45% do total do exército no Iraque. Havia também os incentivos
financeiros, que se tornaram bastante lucrativos para os militares e
prejudiciais para o Pentágono. A Rand Corporation conduziu um estudo
aprofundado que constatou que o orçamento do Departamento de Defesa para bônus
de alistamento e realistamento disparou entre 2000 e 2008, mais que dobrando
para US$ 1,4 bilhão em bônus de realistamento. O bônus médio de alistamento no
Exército aumentou de US$ 5.600 para cerca de US$ 18.000 por soldado no mesmo
período. Em apenas três anos, de 2006 a 2009, o Exército gastou US$ 1 bilhão
para recrutar 64.526 soldados da ativa e da reserva. Os bônus dos recrutas da
Reserva do Exército mais que dobraram no mesmo período, chegando a US$ 19.500. Mas
o estudo também descobriu que, no Exército, os próprios recrutadores tendem a
ser uma maneira mais eficaz em termos de custo para aumentar o efetivo militar
do que bônus de alistamento ou aumentos salariais. O governo Bush também seguiu
esse caminho. Para atingir suas metas de 2007, o exército incrementou sua força
de recrutamento de 8.000 homens com 2.000 novos assistentes.
Ao
mesmo tempo — e talvez o mais importante — aqueles que deveriam ter sido
expulsos estavam sendo autorizados a permanecer. Em junho de 2005, o Wall
Street Journal revelou um memorando interno para comandantes seniores que
considerava a crescente taxa de desistência — chamada de “attrition” no
jargão militar — “uma questão de grande preocupação”. “Precisamos do seu
esforço conjunto para reverter a tendência negativa”, dizia o memorando.
“Reduzindo o attrition em 1%, podemos salvar até 3.000 soldados do primeiro
período de serviço. Isso significa 3.000 soldados a mais em nossas formações.”
Era um apelo explícito para flexibilizar os padrões: a mensagem era que
soldados viciados em álcool e drogas, aqueles que perdessem o condicionamento
físico ou o equilíbrio mental não deveriam ser dispensados. Era hora de se
preparar para o pior. O WSJ citou um comandante de batalhão dizendo: “São os
caras que fazem controle de peso… os que faltam às aulas, os usuários de
drogas, etc., que consomem meu tempo e fazem meu cabelo ficar grisalho
prematuramente…” Muitas vezes, eles têm mais de um desses problemas
simultaneamente. Esses sentimentos não existiam isoladamente. Rumsfeld e o
Pentágono estavam, na verdade, permitindo o desmantelamento de toda a estrutura
regulatória de alistamento e permanência que as Forças Armadas dos EUA haviam
construído nos 25 anos desde o Vietnã. O enxuto exército precisava ser
fortalecido, e essa era a única maneira de fazê-lo. No fim, isso constituiu uma
reavaliação completa de quem era qualificado para servir nas Forças Armadas dos
EUA, uma reformulação total do serviço sem precedentes nos anais da história
moderna estadunidense. Nos dias relativamente tranquilos da Primeira Guerra do
Golfo, em 1990, as Forças Armadas dos EUA impediam o alistamento de criminosos.
Rejeitavam homens e mulheres com baixo QI ou sem diploma do ensino médio.
Impediam o alistamento ou expulsavam neonazistas e membros de gangues. Tratavam
ou dispensavam alcoólatras, viciados em drogas e doentes mentais. Recusavam os serviços
de cidadãos estrangeiros para lutar em suas guerras. Chega disso. Embora o
governo Bush tenha adotado políticas conservadoras praticamente em todo o país,
reservou sua dose de liberalismo para as Forças Armadas dos EUA, onde descartou
todas as regulamentações anteriormente consideradas sacrossantas que regiam o
recrutamento para a força de combate mais poderosa do mundo. Sob a égide da
Guerra ao Terror, as Forças Armadas dos EUA se tornaram uma Meca para os
“diferentes”, os estranhos e os maravilhosos (e perigosos) do país.
Durante
todo esse período, porém, os militares mantiveram uma postura serena diante do
público, como se tudo estivesse em ordem. Em agosto de 2007, quando a crise que
assolava a instituição já era amplamente conhecida, Michael Dominguez,
Subsecretário Adjunto Principal de Defesa para Pessoal e Prontidão, iniciou seu
depoimento em uma audiência no Congresso com elogios às Forças Armadas dos EUA:
“Permitam-me começar reconhecendo uma conquista histórica que muitos, incluindo
alguns de nossos próprios especialistas, teriam considerado impossível há
alguns anos”, disse ele. “Levamos um exército totalmente voluntário para a
guerra. Fizemos isso em uma economia forte, com 4,5% de desemprego. Muitas
vezes, pedimos a essa força e suas famílias que fizessem mais no curto prazo.
E, apesar de tudo isso, conseguimos manter as Forças Armadas desta nação com
pessoas muito acima da média em relação aos seus pares.” Isso simplesmente não
era verdade. O membro médio das forças armadas estadunidenses já não era muito
superior aos seus pares. O governo Bush, juntamente com um Pentágono
complacente (e o governo Obama logo em seguida), na verdade permitiu que as
forças armadas dos EUA passassem pela maior e mais rápida transformação de sua
história. E não foram apenas os soldados estadunidenses que saíram prejudicados
pela visão de Rumsfeld — as populações dos territórios ocupados foram
sacrificadas com rios de seu próprio sangue. Muitas das piores atrocidades das
guerras estão diretamente ligadas ao afrouxamento das normas de alistamento
para criminosos, extremistas racistas e membros de gangues, entre outros. Há
também a população estadunidense, que teve que conviver com membros de gangues
treinados pelos militares assolando suas cidades; bem como civis mexicanos que
pagaram com a vida na guerra contra as drogas, facilitada em parte pelos
militares estadunidenses. Os efeitos disso serão sentidos por décadas. Por fim,
há a segurança das próprias tropas. O afrouxamento dos padrões de inteligência
e peso corporal, por exemplo, comprometeu a prontidão operacional das forças
armadas e, sem dúvida, colocou em risco a vida de soldados estadunidenses e
aliados. Milhares de jovens dos EUA pagaram com a vida por essa insensatez. A
sociedade estadunidense mudou profundamente após os ataques de 11 de setembro e
durante as guerras subsequentes. De muitas maneiras, as forças armadas são um
reflexo da sociedade na qual são formadas, e as mudanças na composição das
forças armadas estadunidenses e em seus regulamentos durante esse período
refletiram um país em retrocesso político, cultural e econômico. À medida que
os Estados Unidos se tornavam cada vez mais intolerantes e fechados em si
mesmos, o radicalismo nas forças armadas estadunidenses aumentava. À medida que
os jovens ficavam cada vez mais obesos, o mesmo acontecia com os soldados. À
medida que o sistema de justiça criminal prendia cada vez mais pessoas, as
forças armadas tiveram que aumentar o número de criminosos admitidos. “Os
jovens de hoje estão mais acima do peso… e estão sendo acusados de crimes que, em
anos anteriores, não seriam considerados graves e poderiam nem mesmo
resultar em acusações”, reclamou um
porta-voz do exército em 2008. No auge da Guerra ao Terror, apenas um em
cada três homens na população em geral atendia
aos requisitos físicos, mentais, educacionais, entre outros, de
elegibilidade necessários para se alistar nas forças armadas antes do 11 de
setembro. “O número de pessoas que atendem aos nossos padrões de alistamento é
surpreendentemente baixo”, resmungou o Subsecretário Dominguez ao final de sua
declaração, na qual elogiava o sucesso das Forças Armadas. Para recrutar os
demais, as Forças Armadas dos EUA tiveram que mudar de maneiras profundas e
perigosas.
Fonte:
Por Matt Kennard - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasi

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