Imperator
Nero Claudius Caesar Donald Trump
É
curioso como os imperadores do período de decadência do Império norte-americano
assemelham-se aos do Império Romano decadente. Não é preciso dizer que enormes
diferenças distinguem o Império Romano do século I d.C. do Império
norte-americano do século XXI d.C. O que torna ainda mais surpreendentes as
semelhanças entre seus líderes: figuras megalomaníacas, grotescas, brutais, que
monopolizam o poder e são responsáveis por grandes catástrofes.
Entre
os representantes mais conhecidos dessas dinastias imperiais romanas, podemos
citar: Calígula, conhecido por ter nomeado seu cavalo para o Senado; Caracala,
por ter massacrado a população de Alexandria (100 mil mortos); Heliogábalo, por
levar uma vida de devassidão e exigir que fosse adorado como sumo sacerdote;
Cômodo, por ordenar o assassinato de sua esposa Victorina e por rebatizar Roma
de “Colonia Commodiana”. Por fim, Domiciano reinou como um monarca de direito
divino, fazendo com que fosse tratado de Dominus; ele introduziu as lutas das
gladiadoras.
Mas há
uma figura que parece encarnar ao máximo o espírito dessa decadência imperial:
Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus, conhecido como Nero. Sua fama
negativa atravessou os séculos. Consideradas as devidas proporções, ele é um
Alguns
episódios do reinado de Nero (54-68 d.C.) e o do imperador Donald Trump
ilustram sua semelhança, através dos séculos:
O
incêndio de Roma (64 d.C.): a maior parte da cidade de Roma foi consumida por
um incêndio que algumas fontes antigas atribuíram ao próprio Nero. Enquanto a
cidade ardia e seus habitantes fugiam, Nero, instalado nas alturas do Quirinal,
tocava lira e cantava. Seu equivalente de 2026 d.C., o Imperador Donald Trump,
assiste, confortavelmente instalado nas janelas da Casa Branca, ao incêndio das
florestas e de inúmeras casas, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o
planeta.
Não foi
ele quem ateou fogo diretamente, mas, por meio de seu negacionismo climático
(“é uma farsa”), sua recusa a qualquer política de descarbonização, seu apoio
entusiástico às energias fósseis e seu desmantelamento de toda pesquisa sobre o
clima, lançou mais combustível ao fogo. É verdade que ele não cantou nem tocou
lira, mas jogou tranquilamente golfe enquanto o mundo queimava. Os gramados
estavam bem regados com a água que faltava aos bombeiros.
Após o
incêndio, Nero estava interessado em reconstruir a cidade de acordo com seu
gosto estético e mudar seu nome para “Nerópolis”. O imperador Donald Trump, por
ser muito modesto, não propõe mudar “Washington” para “Trumptown”: limita-se a
transformar o famoso Kennedy Center no “Donald Trump Center”.
Nero
mandou construir palácios suntuosos em Roma, mesmo que isso significasse
destruir vastas construções. Sua “Casa Dourada”, Domus Aurea, era um enorme
complexo palaciano que se estendia por quase todo o Monte Palatino e parte do
Esquilino. O imperador Donald Trump está construindo um salão de baile
gigantesco – 8.360 metros quadrados! – na Casa Branca. Primeira etapa, já
concluída: destruição da ala leste da Casa Branca e do Jardim Jacqueline
Kennedy. Custo estimado: 400 milhões de dólares.
Diante
da ira popular, em busca de um bode expiatório, Nero acusou os cristãos de
terem provocado o incêndio. Seu sucessor de 2026, o imperador Donald Trump,
apontou os imigrantes latinos sem documentos como responsáveis por todos os
males dos Estados Unidos. Nero entregou os cristãos aos leões na arena; Donald
Trump entregou os imigrantes aos assassinos do ICE.
Nero
tentou comprar a simpatia da plebe: cada cidadão recebeu 400 sestércios na
ascensão do imperador. O imperador Donald Trump quer comprar o voto dos
cidadãos prometendo a cada um 5.000 dólares caso os republicanos vençam as
eleições de meio de mandato.
Para
comemorar seus aniversários, ou as festas romanas, os imperadores organizavam
jogos, espetáculos circenses e lutas para entreter a multidão: “Panem et
Circenses”, “Pão e Circo”, escreviam os cronistas. Nero organizou corridas de
bigas e lutas de gladiadores. O confronto dos cristãos com os leões fazia parte
do espetáculo. Para comemorar seu aniversário e o 250º aniversário da
independência dos Estados Unidos, Donald Trump organizou uma espécie de circo:
uma enorme jaula e uma enorme arena para lutas de MMA, um esporte brutal de
confronto em que todos os golpes são permitidos. O jornal Le Monde definiu os
lutadores como “gladiadores dos tempos modernos”.
Nero
adorava organizar noites de devassidão e violência, nas quais eram “convidados”
jovens mulheres e homens, alguns dos quais acabavam mortos. Donald Trump, antes
de sua ascensão ao trono imperial, participou de várias “festas” com “mulheres
muito jovens” (Trump dixit), organizadas por seu amigo Jeffrey Epstein.
Como
todos os imperadores, Nero gravou sua imagem nas moedas de prata romanas. O
imperador Donald Trump colocou sua efígie nas moedas de um dólar e nas notas de
250 dólares americanos.
As
atrocidades de Nero acabaram por levantar contra ele a Gália, a Lusitânia e a
Espanha. Ele mobilizou suas legiões para derrotá-las, mas acabou sendo traído
por seus próprios pretorianos. O imperador Donald Trump também mobilizou suas
legiões contra os persas, mas acabou num impasse total. Ressaltemos, no
entanto, algumas diferenças: Nero assassinou sua própria mãe, Agripina, e sua
esposa, Popeia; pelo que se sabe, esse não é o caso de Donald Trump.
Enredado
em suas manobras, Nero foi obrigado a se suicidar. Seu herdeiro moderno, o
imperador Donald Trump, cometeu uma espécie de suicídio político, enredado nos
meandros do Estreito de Ormuz.
Fonte:
Por Michael Löwy, em A Terraé Redonda

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