Insubstituível,
água exige políticas de controle internacional para não virar chantagem
diplomática
Em
entrevista ao Mundioka, especialistas defendem a criação de mecanismos para a
discussão de imbróglios envolvendo o recurso, vital para a sobrevivência humana
tanto em sua ingestão direta quanto na agricultura.
Aprendemos,
desde os primeiros anos de escola, a importância da água para o ser humano,
sendo este recurso vital para o corpo e seu respectivo funcionamento. A união
dos dois átomos de hidrogênio com um de oxigênio norteou a formação da
sociedade como a conhecemos hoje, que cresceu no entorno de rios e lagos de
água doce.
Apesar
de mais de 70% da superfície terrestre ser coberta por água, apenas 2,5% é
doce. Dessa pequena porcentagem, estima-se que até 70% estejam em geleiras e
calotas polares, 30% em lençóis freáticos e aquíferos e menos de 1% disponível
de forma considerada acessível para o consumo humano.
O
desenvolvimento de tecnologias para transpor o curso de rios e a construção de
barragens, no entanto, alteraram a geografia dessas bacias hidrográficas.
Quando feito com uma nascente de água estreitamente nacional, a discussão se
limita àquele país. Porém, quando a obra impacta múltiplos Estados, a discussão
pode escalar para uma questão existencial e, consequentemente, militar.
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que é
necessário criar mecanismos multilaterais para evitar que a água se torne uma
arma na diplomacia internacional.
Bernardo
Salgado, professor adjunto do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID/UFRJ), conta que a água sempre foi
um ativo estratégico. Nos dias de hoje, o recurso ganhou a atenção da academia,
que desenvolve estudos geopolíticos acerca de disputas nesse campo.
"A
água crescentemente orienta a política dos Estados, tanto pelo uso dos rios, de
lagos, de oceanos, quanto visando um desenvolvimento de programas que
incentivem a criação de leis, de tratados de integração e de cooperação, porque
a gente sabe também que existem muitas bacias hidrográficas que são
transfronteiriças."
Salgado
explica que a legislação mundial sobre água foi estabelecida em 1997, nas
Nações Unidas, e ficou conhecida como Convenção da Organização das Nações
Unidas (ONU) sobre Cursos de Água Internacionais. O documento, segundo o
especialista, tenta impedir que a posição favorável de um país em relação a um
rio ou fonte de água doce seja convertida em uma soberania absoluta sobre o
mesmo, estabelecendo uma relação equitativa de uso.
"Se
a gente pega do ponto de vista da geografia hídrica a posição, a montante
confere a um estado ribeirinho superior o que alguns autores denominam de poder
geográfico, que é a capacidade material, de fato, de alterar unilateralmente o
curso do rio antes que ele alcance os demais Estados."
O
analista conta que os países que estão na cabeceira de um curso d’água possuem
três vantagens:
controle
sobre o volume de liberação de água, relevante para a aquicultura e geração
elétrica;
retenção
da água em períodos de escassez, podendo ser usada como poder de barganha;
arquitetar
unilateralmente uma infraestrutura de grande escala, como uma barragem ou
hidroelétrica.
"Não
existe, no direito internacional contemporâneo, uma regra segundo a qual o
território onde nasce o rio possui automaticamente direito sobre suas águas. E
aí isso entra também na questão de cooperação internacional, de governança
hídrica."
Vinicius
Modolo Teixeira, professor de geopolítica na Universidade do Estado do Mato
Grosso (Unemat), diz que a convenção da ONU para águas internacionais não foi
ratificada por diversos países, incluindo todos da América do Sul, que contam
com 30% dos recursos hídricos renováveis do mundo.
"Nesse
caso, não tem um tribunal de uso obrigatório para você levar pleitos sobre
água. Acabam gerando demandas para as cortes nacionais de Justiça, que vão
arbitrar esses casos, e nem sempre também a decisão da Corte é respeitada. Você
não tem ali uma palavra definitiva. A ONU peca por apenas ser consultiva e não
ser uma organização que pode, de certa maneira, impor essas decisões."
Modolo
Teixeira acredita que uma entidade, "de maneira logicamente equilibrada,
razoável e séria", é necessária para colocar em prática o bom senso. Ele
cita como disputas atuais no campo hidrográfico um dos rios mais famosos do
mundo, o Nilo. A Etiópia construiu uma grande barragem, inaugurada em 2025, em
ação que foi vista pelo Egito como "uma ameaça à sua soberania e
sobrevivência".
"A
partir de 2026, o Egito declarou que não vai permitir novas barragens etíopes
no curso superior do Nilo. E isso foi de uma maneira ameaçadora, não é
simplesmente uma forma de dizer de maneira política ou diplomática. […] É uma
falha [não ter uma entidade de controle], mas é uma falha que vem de um sistema
que a gente entende como falido e desprovido de capacidade de gerenciamento dos
conflitos, não só naturais, mas como um todo da vida social no mundo."
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Água é sinônimo de segurança
Ambos
os especialistas ressaltaram, durante a entrevista, a abundância de água
presente no Brasil, tendo destaque o Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA) e
o Aquífero Guarani. O país é a nação com a maior quantidade de água doce no
mundo, com Rússia e Canadá completando o pódio.
Salgado,
no entanto, ressalta que as principais bacias hidrográficas brasileiras são
compartilhadas com os vizinhos sul-americanos, exigindo das nações do
continente uma "integração regional".
"Se
você perguntasse se eu acho que o Brasil está consolidando uma adequada
geopolítica de água, eu diria tanto que sim, quanto que não. Diria que a gente
tem uma potencialidade muito grande nos recursos hídricos, é invejável, nós
temos uma reposição muito grande […], só que, se ela não for muito bem
aproveitada, se ela não for muito bem cuidada, se ela não tiver uma gestão
eficiente e com eficácia, isso pode também deixar de ser um ativo
estratégico."
Para
Salgado, há de se relacionar segurança hídrica com segurança alimentar, uma vez
que é a partir dessa água que as safras brasileiras são produzidas, tanto para
uso interno quanto para exportação.
"A
segurança alimentar e a segurança hídrica têm que caminhar lado a lado,
principalmente quando a gente fala de uma América do Sul, porque aqui nós temos
os dois. O Brasil se apresenta como uma superpotência agrícola e como uma
superpotência hídrica. Portanto, a gente tem aqui dois dos principais
sustentáculos, duas das principais variáveis de poder do sistema internacional
ao longo do século XXI."
Modolo
Teixeira entende que a concentração de água no Brasil, em especial em áreas
como a Floresta Amazônica, pode gerar disputas por essas regiões,
principalmente por parte das potências estrangeiras. Se outrora a força foi
usada mundo afora pelo petróleo, um líquido que pode ser substituído na maioria
de suas funções, a água poderá representar o próximo recurso a ser disputado
por Estados.
"A
água não tem um substituto natural. É essencial à vida e também para projetos
de alimentação da nossa humanidade. Sem a água, a gente não tem nada realmente
sendo executado, não tem condição de sobrevivência. Então, nesse sentido
estratégico, a água tem um diferencial."
Fonte:
Sputnik Brasil

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