Como
é feito o controle de voo dos helicópteros — e por que alguns 'somem do radar'
mesmo sem acidentes
Nesta
terça-feira (22/9), o Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC)
confirmou a morte do cantor Rick, da dupla sertaneja Rick & Renner, em um
acidente com um helicóptero em Santa Catarina.
A
corporação confirmou que o cantor estava entre as cinco pessoas encontradas
próximas aos destroços da aeronave.
O
helicóptero saiu de Porto Belo em direção a São Joaquim, ambas cidades
catarinenses.
Para
quem vê de fora — ou de dentro, mas como passageiro e não como piloto —, a
ideia comum é de que toda aeronave é intensamente monitorada e acompanhada por
radares e outros equipamentos 100% do tempo.
Mas nem
sempre um veículo aéreo é controlado por equipamentos e centrais em solo. E
isto ajuda a explicar parte das perdas de contato ou das aeronaves que
"somem do radar".
"Os
helicópteros apresentam um perfil de operação bastante diverso em relação à
maioria das aeronaves, operando com frequência mais próximos ao solo e
realizando decolagens e pousos verticais em diferentes tipos de locais",
explica o engenheiro aeronáutico João Paulo Eguea, professor na Universidade de
São Paulo (USP).
"Esses
pontos de decolagem e pouso podem estar situados em aeroportos, dentro de
cidades ou até mesmo em áreas não preparadas, como terrenos de terra ou
gramados. Por essas características, os helicópteros também podem operar em
situações mais sujeitas à influência das condições meteorológicas."
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Instrumental vs. visual
Para
entender esse cenário, primeiro é preciso dividir os voos em dois grandes
grupos: os que realizam a operação voando por instrumentos e os que estão em
voo visual.
"A
operação e o controle de helicópteros podem ocorrer em diferentes regimes de
voo. A aeronave pode operar com o auxílio de instrumentos, que permitem apoiar
a operação em condições de menor visibilidade, ou em regime de voo visual, no
qual é necessária visibilidade do exterior e dos arredores da aeronave",
contextualiza Eguea.
"No
caso dos instrumentos, e isso vale para helicópteros ou qualquer outra
aeronave, órgãos de controle de tráfego aéreo monitoram o movimento [do
veículo] o tempo inteiro. E ele tem de voar seguindo estritamente a rota
definida no plano de voo", diz o consultor aeronáutico, empresário e
piloto Raul Marinho, diretor-técnico da Associação Brasileira de Aviação Geral.
Para
qualquer desvio dessa rota, é preciso autorização da torre de controle.
O outro
formato é o voo visual. "Então as aeronaves voam em um espaço chamado
classe delta, em que podem voar do jeito que quiserem, sem seguir uma rota
específica", explica Marinho.
"No
caso de helicópteros executivos, que voam com transporte de passageiros sobre o
continente, é extremamente raro que eles operem sob instrumentos. Em 95% dos
casos, são voos visuais", pontua o diretor-técnico.
Marinho
explica que existe até um serviço de informações de voo para essas aeronaves,
que pode ser acionado e entrar em comunicação.
"Mas
elas não são monitoradas especificamente, a não ser que entrem em espaços
controlados ou restritos", afirma. "Como regra geral, elas voam do
jeito que quiserem e não existe monitoramento."
"Os
sistemas de controle de tráfego aéreo se baseiam em tecnologias que utilizam
ondas de rádio. Alguns sistemas detectam a presença das aeronaves a partir da
reflexão dessas ondas, enquanto outros funcionam por meio da troca de
informações com o transponder da aeronave", explica o professor da USP.
Mas
então, o que significa perder o sinal?
Há
outras duas questões a serem observadas, especialmente em casos de
anormalidades. A primeira são os radares que monitoram o espaço aéreo. Por
causa dos obstáculos cada vez mais comuns quanto mais próximos do solo, quanto
mais baixo um veículo voa, mais difícil é de ser detectado.
O sinal
do radar, afinal, pode ser prejudicado por uma construção alta e,
principalmente, por formações geográficas, como montanhas.
"Helicópteros
muitas vezes escapam de radares. Esse é um dos motivos pelos quais eles acabam
sendo muito úteis para o crime, para atividades criminosas, porque têm
habilidade de voar em alturas em que os radares não pegam", exemplifica
Marinho.
Não é
difícil concluir que "sumir do radar" pode significar que um veículo
estava em altitude detectável pelos aparelhos e, de repente, porque perdeu
altitude ou caiu, deixou de ser rastreável.
"No
caso específico, ele pode ter perdido o contato do radar e, então, entre aspas,
sumido do radar porque está a baixa altura ou tem a sombra de um morro
[prejudicando a detecção] ou alguma coisa assim", conjectura Marinho.
"O
sinal de rádio também pode ser perdido devido à baixa altura. Mas nesse caso
pode ser problema no equipamento mesmo."
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Em caso de emergência
Em caso
de emergência, há ainda um outro sistema. Chamado de ELT, sigla em inglês para
transmissor localizador de emergência, é um dispositivo obrigatório em
aeronaves que pode ser acionado pelo piloto por meio do transponder ou deveria
ser acionado imediatamente em caso de impacto.
"Se
o ELT não foi acionado, como no caso em particular, ou não estava em emergência
e não sofreu acidente, ou simplesmente o ELT não funcionou", diz Marinho.
"Dadas
as características desses sistemas e da própria operação dos helicópteros, voos
realizados em regiões com menor cobertura podem sofrer limitações de detecção
devido à influência do relevo, da vegetação e de outros obstáculos",
afirma Eguea.
"Nesse
contexto, a expressão 'sumir do radar' significa, de forma simplificada, deixar
de estar no campo de 'visão' desses sistemas."
Ele
enfatiza que isso não significa, necessariamente, "a ocorrência de um
incidente ou de algum problema".
"Por
isso, o termo pode ser considerado impreciso. Por exemplo, uma aeronave que
tenha pousado em segurança em uma região sem infraestrutura aeroportuária pode
deixar de ser detectada por esses sistemas, mesmo permanecendo segura e sem
representar risco para outras aeronaves", pontua.
"Em
determinadas situações, o que pode gerar maior preocupação é a ausência
prolongada de qualquer tipo de comunicação proveniente da aeronave ou de seus
ocupantes. Nesses casos, pode haver a indicação de que algum tipo de incidente
tenha ocorrido."
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17 acidentes por ano
Dados
do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Sipaer)
registram 182 acidentes de helicópteros no país desde 2016 — até agora, foram
15 neste ano.
É uma
média de 17 ocorrências por ano. "Considerando o tamanho da frota,
atualmente em 1686 aeronaves, esse número está na média em comparação a outros
países", avalia Marinho.
Quase
um em cada três acidentes de helicópteros (29% do total) resulta em vítimas
fatais. Segundo levantamento da ABAG, as maiores causas de ocorrências do tipo
são motivadas por, na ordem, perda de controle em voo, falha ou mau
funcionamento do motor e colisão com obstáculo durante a decolagem.
Aeronaves
de uso privado são as que mais se envolvem em acidentes, seguidas pelas das
companhias de táxi aéreo.
"No
caso de táxi aéreo, a empresa é obrigada a monitorar o voo de alguma maneira,
seja colocando algum instrumento de monitoramento, seja por radar", diz
Marinho. "No caso de voo privado, como é o caso [da ocorrência atual], não
existe essa obrigatoriedade."
Eguea
analisa que, no cenário brasileiro, a maior parte dos helicópteros está no
segmento de operações de táxi aéreo. "Nesse setor, o Brasil se destaca
como um dos países com maior frota desse tipo de aeronave e maior número de
horas de voo", diz.
"A
avaliação da segurança operacional deve considerar o número de ocorrências por
100 mil horas de voo", argumenta Eguea. Ele cita o Relatório Anual de
Segurança Operacional 2025, publicado pela Agência Nacional de Aviação Civil
(Anac) para concluir que, por conta dessa relação "entre ocorrências e
horas voadas", o país tem índices muito bons.
"O
relatório também demonstra que, no caso da aviação de táxi-aéreo realizada com
helicópteros, a ocorrência de acidentes e fatalidades é extremamente
baixa", acrescenta o professor.
"Dessa
forma, justamente por serem eventos pouco frequentes nesse setor, quando
acidentes acontecem, o impacto gerado tende a ser elevado, principalmente
quando envolvem figuras públicas."
"As
operações de aviação no Brasil estão em constante crescimento e atendem a
rigorosos requisitos de operação e fiscalização. Dessa forma, a ocorrência de
incidentes ou acidentes aéreos deve ser encarada como uma exceção, e os dados
obtidos a partir de cada ocorrência são utilizados como referência para o
aprimoramento contínuo das normas e dos procedimentos de segurança, com o
objetivo de reduzir a possibilidade de que eventos semelhantes voltem a
ocorrer", comenta o professor Eguea.
Fonte:
BBC News Brasil

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