sexta-feira, 25 de setembro de 2026

'Está tudo interligado': como o domínio tecnológico do Norte Global promove o colonialismo digital

À Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a supremacia tecnológica de países do Norte Global reproduz a dinâmica do período colonial, na qual a metrópole extraía matérias-primas e recursos naturais das colônias para gerar riqueza no centro.

A concentração do poder sobre a inteligência artificial (IA) em alguns países tem potencial para minar democracias e agravar desigualdades. É o que alertou o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, em palestra na Índia, na qual salientou que um dos principais desafios do Sul Global hoje é impedir que a tecnologia se transforme em instrumento de dominação.

"Independentemente do caminho que escolhermos, é essencial que a cooperação internacional em inteligência artificial seja orientada pela ética, pelo respeito à soberania e, acima de tudo, por uma abordagem humanista, que também pressupõe cuidado com o meio ambiente", afirmou.

Amorim defendeu que a cooperação internacional em IA tenha participação ativa de países do Sul Global na definição das regras em torno da tecnologia. A fala é alinhada ao anúncio dado pelo presidente chinês, Xi Jinping, na última cúpula do BRICS, em Nova Deli, na qual defendeu que a IA seja tratada como um bem público internacional e anunciou que a China vai criar um sistema de código aberto para uso e desenvolvimento conjunto de todos os países do grupo.

Em entrevista à Sputnik Brasil, José Sérgio da Silva Cristóvam, professor adjunto de direito administrativo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz que a noção de soberania digital é bastante recente, e que a supremacia de países do Norte Global, sobretudo dos EUA, na área trouxe uma nova onda de colonialismo.

Ele aponta que a inteligência artificial está levando o mundo a uma nova correlação de forças e se consolidando como uma grande, senão a principal, ferramenta de poder e de dependência entre países.

"Inclusive, as guerras que nós temos em curso no globo estão, em toda nitidez, se deslocando das guerras mais tradicionais, dos embates propriamente bélicos, para embates eminentemente de tecnologia e relacionados à inteligência artificial", observa.

No caso dos EUA, a ideia de supremacia tecnológica está deixando um pouco a órbita do Estado e sendo direcionada para grandes conglomerados de empresas multinacionais, muitas vezes, em condições de igualdade com Estados, ou até de supremacia. Logo, ele considera um "equívoco parcial" afirmar que os EUA estão "jogando esse jogo" como um Estado nacional, quando, na verdade, defendem interesses de empresas que têm sede no país e dialogam a partir de uma lógica de interesse comum.

O professor considera que hoje a dominação colonialista não se limita ao âmbito do território, ela se desloca para o domínio tecnológico, onde a inteligência artificial tem papel central por ser "a fronteira mais impactante" dentre as novas tecnologias que ascenderam nas últimas décadas.

"É a ferramenta e a dimensão que nós temos mais dificuldade de antever os passos. Há quem diga, inclusive, que a inteligência artificial pode rapidamente deixar de se submeter a controles humanos propriamente ditos."

Ele enfatiza que o impacto dessa nova dimensão de domínio é gigantesco para países do Sul Global, e destaca que somente desenvolvendo padrões sólidos, voltados à soberania digital e tecnológica, será possível para países da periferia capitalista global avançar nesse terreno.

Diante disso, ele conta que, em 2024, desenvolveu junto com um colega, o professor Tanderson Pereira de Souza, um artigo acadêmico que defendia que a soberania brasileira passa pela soberania digital e a capacidade do país se tornar um grande player em tecnologia e IA.

A proposta era criar uma IA nacional, que deram o nome de "IA Bethânia", em homenagem à cantora Maria Bethânia, por ser uma artista de grande expressão da cultura nacional.

"Uma grande marca de uma defesa no sentido de que o Brasil precisa desenvolver, investir fortemente para desenvolver sistemas, modelagens e ferramentas de inteligência artificial para satisfazer as suas demandas e para consolidá-lo como um grande player nesse debate tecnológico", explica.

Ele aponta a IA Bethânia como uma proposta decolonial, eminentemente nacionalista, ancorada nas vontades e dimensões constitucionais do que são efetivamente os interesses a serem defendidos.

"A ideia de uma IA Bethânia ganha muita força, porque é um grande pacto nacional e, claro, a demandar um esforço orçamentário gigantesco, mas que colocaria a nação efetivamente em uma ideia de um eixo de soberania tecnológica, soberania digital e fora de uma dimensão de colonialidade que aprisionasse facilmente os interesses nacionais."

Mateus de Oliveira Fornasier, professor do mestrado e doutorado em direito da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ/RS), afirma que as novas tecnologias reproduzem a lógica colonial ao reconfigurar a antiga divisão entre centro e periferia.

Ele, que desde 2014 coordena o grupo de pesquisa Direitos Humanos, Democracia e Tecnologias de Informação e Comunicação, diz que no período colonial histórico, a metrópole extraía matérias-primas e recursos naturais das colônias para gerar riqueza no centro. "Hoje, a experiência digital diária das populações do Sul Global é tratada como uma 'matéria-prima gratuita'", afirma.

Esses dados minerados, diz Fornasier, alimentam algoritmos de IA sediados "em um centro ubíquo e invisível, controlado por poucas corporações multinacionais de tecnologia". Diante disso, o lucro, a capacidade de previsão e o poder de decisão continuam concentrados no Norte Global, enquanto os cidadãos periféricos são convertidos em "cidadãos Big Data", cujas escolhas e comportamentos são induzidos em tempo real por sistemas opacos.

"Esse sistema recria a histórica divisão entre centro e periferia, na qual a experiência digital das populações do Sul é continuamente minerada como matéria-prima para treinar algoritmos, gerando lucros e capacidade de decisão concentrados fora dos nossos países."

O primeiro impacto disso é a erosão da soberania tecnológica e econômica dos países periféricos, que perdem a capacidade de decidir autonomamente como organizar seus próprios dados e economias, ficando reféns de licenças, infraestruturas em nuvem e ecossistemas fechados do Norte. Dessa forma, a tecnologia se torna um mecanismo de manutenção da hegemonia norte-americana por meio das big techs, que dominam os principais elos do ecossistema digital global.

"Essas empresas impõem uma espécie de 'legislação privada transnacional' por meio de seus Termos de Uso e Padrões de Comunidade. Essas regras privadas regulam a liberdade de expressão, o debate político e o mercado em centenas de países, muitas vezes ignorando as leis locais e se sobrepondo às soberanias nacionais sem qualquer (ou com pouco) controle democrático", afirma.

Rafael Evangelista, pesquisador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp) e professor da pós-graduação em Divulgação Científica e Cultural (Unicamp), diz que o colonialismo digital se dá por três eixos: pelo hardware, pelo software e pelos cabos. Ele avalia que há fatores culturais que levam alguns países, por uma mentalidade que é fruto da herança colonial, a adotarem tecnologias do Norte Global como se fossem naturalmente melhores.

Evangelista afirma ainda que as big techs norte-americanas e as tecnologias em torno da Internet têm uma relação próxima com o governo estadunidense, que foi exposta nas revelações do ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA Edward Snowden, em 2013. E essa tendência se agravou a partir do primeiro governo do presidente Donald Trump (2017-2021).

"Isso está claro em vários documentos que eles têm publicado que tentam articular uma rede de fornecimento de matéria-prima de data centers que esteja sob o controle dessas empresas, e que os países do Sul acabam ficando como fornecedores de matéria-prima ou então hospedando data centers."

<><> BRICS contra o colonialismo digital

Cristóvam frisa que o BRICS, desde a criação, causa profunda preocupação em mercados que já estavam consolidados, sobretudo a partir do eixo de interesses do "grande irmão do Norte", os EUA. Ele aponta que o grupo se consolida cada vez mais, não só do ponto de vista de mercado e conjunto de população, mas também sobre a questão tecnológica.

Ele avalia que a ideia da China de criar uma IA de código aberto tem impacto direto para o Brasil, que vem resistindo às investidas de Washington com relação às terras raras, essenciais para a tecnologia de ponta.

"Está tudo interligado. A questão também da soberania tecnológica e da supremacia tecnológica a partir de um eventual realinhamento de forças, usando o conjunto dos países do grupo do BRICS como alternativa aos modelos de desenvolvimento de IA fortemente concentrados nos EUA."

Fornasier, por sua vez, diz que a construção de uma regulação global da IA condizente com a complexidade social e os direitos humanos, como apontada por Amorim, passa por superar o modelo simplista de autorregulamentação das big techs. Segundo ele, o escrutínio da IA não pode ser dificultado pelo "segredo comercial" que rege as corporações.

"É preciso garantir auditorias independentes sobre os dados de treinamento e os impactos sociais das ferramentas. Também é fundamental a criação de normas vinculantes que atribuam responsabilidade civil, criminal e administrativa direta às grandes corporações desenvolvedoras quando seus modelos geram danos, discriminação ou desinformação em massa, dentre outros ilícitos."

Evangelista concorda que o combate ao domínio tecnológico do Norte poderia ser feito via articulação entre países do Sul Global, de forma a restaurar um balanço entre essas relações para o desenvolvimento da IA, algo que a China tem demonstrado ser possível. Porém, ele destaca que essa troca entre os países para a criação de um recurso comum não será facilitada pelas potências que hoje detêm o domínio sobre a tecnologia.

"Até porque cada aproximação que acontece entre os países do BRICS é acompanhada também de retaliações dos Estados Unidos. Então, é algo difícil, mas eu vejo como um potencial muito interessante."

¨      China dá salto critico em guerra eletrônica ao lançar 3 novos satélites ao espaço, diz jornal

Com o lançamento do trio de satélites Diting-01 ao espaço, a China deu um passo silencioso, mas crítico na guerra eletrônica baseada no espaço, escreveu o jornal South China Morning Post (SCMP).

Em 20 de setembro de 2026, o foguete Lijian-1 Y18 lançado do cosmódromo de Jiuquan, colocou no espaço nove satélites. Entre eles estavam três Diting-01, que entraram com sucesso na órbita planejada.

Os satélites receberam esse nome em homenagem ao Diting, uma criatura mística da traição chinesa, capaz de perceber o mundo ao seu redor por meio da audição. O nome reflete a principal função dos aparelhos: a detecção e a análise de sinais de rádio.

De acordo com o artigo, os satélites destinam-se à vigilância radioelétrica. Eles têm o potencial de detectar e rastrear navios militares, estações de radar ocultas e fontes de interferência radioeletrônica. Assim, os satélites podem ser utilizados para localizar objetos que emitem ativamente sinais de rádio.

A criação de um grupo de satélites semelhantes pode permitir a obtenção regular de informações sobre fontes de radiação em grandes áreas e complementar os meios tradicionais de reconhecimento terrestres e aéreos, destaca-se.

Com este lançamento, a China conseguiu entrar na companhia de nações ocidentais, incluindo os EUA e França, com monitoramento de rádio comercial baseado no espaço, resumiu o veículo de imprensa.

¨      EUA perdem na guerra comercial contra Pequim, aponta mídia

Após oito anos de tarifas historicamente altas, controles de exportação e muitas outras disputas, a política do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação à China foi um fracasso, escreveu uma mídia norte-americana às vésperas da primeira visita do presidente chinês Xi Jinping a Washington desde 2015.

O principal objetivo da imposição das tarifas era forçar a China a mudar seu modelo econômico, reduzir o apoio estatal à indústria e diminuir o desequilíbrio comercial com os EUA. No entanto, na opinião do autor do artigo, a China não se dispôs a fazer uma mudança fundamental em sua política econômica. Pelo contrário, o país manteve posições sólidas na produção industrial e nas exportações, e seu superávit comercial continua sendo significativo.

O autor também chama atenção para as consequências das medidas norte-americanas para os próprios EUA. As tarifas aumentaram os custos para as empresas e os consumidores americanos, e as restrições aos produtos e tecnologias chineses não levaram ao enfraquecimento esperado da base industrial chinesa.

No entanto, enfatiza-se que se o principal critério for a mudança no modelo econômico chinês e a redução significativa da vantagem industrial da China, então, segundo o autor, os objetivos estabelecidos não foram alcançados.

Artigo enfatiza que a política comercial dos EUA em relação à China não se mostrou suficientemente eficaz em conformidade com seus próprios critérios iniciais. O autor considera que as próximas negociações entre Donald Trump e Xi Jinping oferecem uma oportunidade para reavaliar os resultados da guerra comercial e refletir sobre quais objetivos a política americana deve perseguir daqui para frente.

O presidente chinês Xi Jinping visitará os Estados Unidos de 23 a 25 de setembro a convite de seu homólogo norte-americano Donald Trump. Esta visita será a primeira viagem do líder chinês aos Estados Unidos em mais de uma década. Os dois líderes devem discutir inteligência artificial, o Irã, Taiwan e comércio.

¨      China rebate críticas ao superávit e diz que tensão global decorre de demanda fraca pós-2008

A China voltou ao centro do debate após novo superávit acima de US$ 100 bilhões, reacendendo críticas ocidentais sobre desequilíbrios globais. Pequim rebate dizendo que suas exportações refletem demanda real por tecnologia e energia limpa, enquanto a fraqueza persistente da economia mundial desde 2008.

A economia chinesa avança rumo a um desenvolvimento de alta qualidade, apesar de um ambiente global mais complexo e de críticas recorrentes de parte da mídia ocidental. Para responder a interpretações consideradas distorcidas, o jornal asiático Global Times lançou uma coluna dedicada a esclarecer percepções sobre o desempenho econômico do país.

A divulgação dos dados comerciais de agosto reacendeu debates sobre o superávit chinês, que ultrapassou US$ 100 bilhões (aproximadamente R$ 511 bilhões) por quatro meses seguidos. Analistas como Michael Froman, presidente do think tank norte-americano Council on Foreign Relations, afirmam que o mundo estaria chegando ao limite para absorver a produção chinesa, sugerindo risco de crise global, argumento que ganhou repercussão em veículos ocidentais.

Segundo o artigo da mídia asiática, a China reconhece que seu superávit é elevado, mas atribui o fenômeno à divisão internacional do trabalho e aos padrões de poupança e consumo de cada país. Pequim sustenta que não busca deliberadamente superávits e que tem ampliado a demanda interna e as importações, para equilibrar possíveis discrepâncias na balança de pagamentos.

Já os déficits persistentes dos EUA e da Europa, segundo economistas chineses, são ignorados nas críticas sobre desequilíbrios globais, argumenta o jornal.

O crescimento das exportações chinesas em setores como circuitos integrados, máquinas e veículos de nova energia reflete, segundo o governo, uma demanda real impulsionada pela transição energética e pela modernização industrial. Para Pequim, esses produtos ampliam a oferta global e não representam excesso de capacidade artificial.

Autoridades chinesas afirmaram que parte das críticas ocidentais politiza o tema ao associá-lo a narrativas como "aperto chinês" e "choque chinês", que colocam Pequim no centro de tensões econômicas supostamente produzidas de forma artificial que tomam espaço de economias menores que do gigante asiático. Como contraponto, citam o papel da China na industrialização de países em desenvolvimento, com exportações de maquinário, infraestrutura e tecnologia que ajudaram economias asiáticas a expandir sua produção têxtil e manufatureira.

Para economistas chineses consultados pela mídia ao longo dos últimos meses, a preocupação atual reflete a demanda global fraca desde a crise de 2008, que reduziu o ritmo do comércio mundial e afetou economias ocidentais com desaceleração, desindustrialização e desequilíbrios internos.

Assim, a mídia conclui que o risco de uma nova crise dependeria menos da China e mais da capacidade das grandes economias de enfrentar transformações industriais, riscos financeiros e pressões protecionistas, alertando que barreiras comerciais que visam "corrigir" superávits costumam aumentar tensões comerciais.

Historicamente, superávits prolongados não foram exclusivos da China nem causaram crises globais. Países como Reino Unido, EUA, Japão e Alemanha já registraram superávits elevados em fases específicas, resultado de mudanças na divisão internacional do trabalho.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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