'Está
tudo interligado': como o domínio tecnológico do Norte Global promove o
colonialismo digital
À
Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a supremacia tecnológica de países do
Norte Global reproduz a dinâmica do período colonial, na qual a metrópole
extraía matérias-primas e recursos naturais das colônias para gerar riqueza no
centro.
A
concentração do poder sobre a inteligência artificial (IA) em alguns países tem
potencial para minar democracias e agravar desigualdades. É o que alertou o
assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais,
Celso Amorim, em palestra na Índia, na qual salientou que um dos principais
desafios do Sul Global hoje é impedir que a tecnologia se transforme em
instrumento de dominação.
"Independentemente
do caminho que escolhermos, é essencial que a cooperação internacional em
inteligência artificial seja orientada pela ética, pelo respeito à soberania e,
acima de tudo, por uma abordagem humanista, que também pressupõe cuidado com o
meio ambiente", afirmou.
Amorim
defendeu que a cooperação internacional em IA tenha participação ativa de
países do Sul Global na definição das regras em torno da tecnologia. A fala é
alinhada ao anúncio dado pelo presidente chinês, Xi Jinping, na última cúpula
do BRICS, em Nova Deli, na qual defendeu que a IA seja tratada como um bem
público internacional e anunciou que a China vai criar um sistema de código
aberto para uso e desenvolvimento conjunto de todos os países do grupo.
Em
entrevista à Sputnik Brasil, José Sérgio da Silva Cristóvam, professor adjunto
de direito administrativo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz
que a noção de soberania
digital
é bastante recente, e que a supremacia de países do Norte Global, sobretudo dos
EUA, na área trouxe uma nova onda de colonialismo.
Ele
aponta que a inteligência artificial está levando o mundo a uma nova correlação
de forças e se consolidando como uma grande, senão a principal, ferramenta de
poder e de dependência entre países.
"Inclusive,
as guerras que nós temos em curso no globo estão, em toda nitidez, se
deslocando das guerras mais tradicionais, dos embates propriamente bélicos,
para embates eminentemente de tecnologia e relacionados à inteligência
artificial", observa.
No caso
dos EUA, a ideia de supremacia tecnológica está deixando um pouco a órbita do
Estado e sendo direcionada para grandes conglomerados de empresas
multinacionais, muitas vezes, em condições de igualdade com Estados, ou até de
supremacia. Logo, ele considera um "equívoco parcial" afirmar que os
EUA estão "jogando esse jogo" como um Estado nacional, quando, na
verdade, defendem interesses de empresas que têm sede no país e dialogam a
partir de uma lógica de interesse comum.
O
professor considera que hoje a dominação colonialista não se limita ao âmbito
do território, ela se desloca para o domínio tecnológico, onde a inteligência
artificial tem papel central por ser "a fronteira mais impactante"
dentre as novas tecnologias que ascenderam nas últimas décadas.
"É
a ferramenta e a dimensão que nós temos mais dificuldade de antever os passos.
Há quem diga, inclusive, que a inteligência artificial pode rapidamente deixar
de se submeter a controles humanos propriamente ditos."
Ele
enfatiza que o impacto dessa nova dimensão de domínio é gigantesco para países
do Sul Global, e destaca que somente desenvolvendo padrões sólidos, voltados à
soberania digital e tecnológica, será possível para países da periferia
capitalista global avançar nesse terreno.
Diante
disso, ele conta que, em 2024, desenvolveu junto com um colega, o professor
Tanderson Pereira de Souza, um artigo acadêmico que defendia que a soberania
brasileira passa pela soberania digital e a capacidade do país se tornar um
grande player em tecnologia e IA.
A
proposta era criar uma IA nacional, que deram o nome de "IA
Bethânia", em homenagem à cantora Maria Bethânia, por ser uma artista de
grande expressão da cultura nacional.
"Uma
grande marca de uma defesa no sentido de que o Brasil precisa desenvolver,
investir fortemente para desenvolver sistemas, modelagens e ferramentas de
inteligência artificial para satisfazer as suas demandas e para consolidá-lo
como um grande player nesse debate tecnológico", explica.
Ele
aponta a IA Bethânia como uma proposta decolonial, eminentemente nacionalista,
ancorada nas vontades e dimensões constitucionais do que são efetivamente os
interesses a serem defendidos.
"A
ideia de uma IA Bethânia ganha muita força, porque é um grande pacto nacional
e, claro, a demandar um esforço orçamentário gigantesco, mas que colocaria a
nação efetivamente em uma ideia de um eixo de soberania tecnológica, soberania
digital e fora de uma dimensão de colonialidade que aprisionasse facilmente os
interesses nacionais."
Mateus
de Oliveira Fornasier, professor do mestrado e doutorado em direito da
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ/RS),
afirma que as novas tecnologias reproduzem a lógica
colonial
ao reconfigurar a antiga divisão entre centro e periferia.
Ele,
que desde 2014 coordena o grupo de pesquisa Direitos Humanos, Democracia e
Tecnologias de Informação e Comunicação, diz que no período colonial histórico,
a metrópole extraía matérias-primas e recursos naturais das colônias para gerar
riqueza no centro. "Hoje, a experiência digital diária das populações do
Sul Global é tratada como uma 'matéria-prima gratuita'", afirma.
Esses
dados minerados, diz Fornasier, alimentam algoritmos de IA sediados "em um
centro ubíquo e invisível, controlado por poucas corporações multinacionais de
tecnologia". Diante disso, o lucro, a capacidade de previsão e o poder de
decisão continuam concentrados no Norte Global, enquanto os cidadãos
periféricos são convertidos em "cidadãos Big Data", cujas escolhas e
comportamentos são induzidos em tempo real por sistemas opacos.
"Esse
sistema recria a histórica divisão entre centro e periferia, na qual a
experiência digital das populações do Sul é continuamente minerada como
matéria-prima para treinar algoritmos, gerando lucros e capacidade de decisão
concentrados fora dos nossos países."
O
primeiro impacto disso é a erosão da soberania tecnológica e econômica dos
países periféricos, que perdem a capacidade de decidir autonomamente como
organizar seus próprios dados e economias, ficando reféns de licenças,
infraestruturas em nuvem e ecossistemas fechados do Norte. Dessa forma, a
tecnologia se torna um mecanismo de manutenção da hegemonia norte-americana por
meio das big techs, que dominam os principais elos do ecossistema digital
global.
"Essas
empresas impõem uma espécie de 'legislação privada transnacional' por meio de
seus Termos de Uso e Padrões de Comunidade. Essas regras privadas regulam a
liberdade de expressão, o debate político e o mercado em centenas de países,
muitas vezes ignorando as leis locais e se sobrepondo às soberanias nacionais
sem qualquer (ou com pouco) controle democrático", afirma.
Rafael
Evangelista, pesquisador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo
(Labjor/Unicamp) e professor da pós-graduação em Divulgação Científica e
Cultural (Unicamp), diz que o colonialismo digital se dá por três eixos: pelo
hardware, pelo software e pelos cabos. Ele avalia que há fatores culturais que
levam alguns países, por uma mentalidade que é fruto da herança colonial, a
adotarem tecnologias do Norte Global como se fossem naturalmente melhores.
Evangelista
afirma ainda que as big techs norte-americanas e as tecnologias em torno da
Internet têm uma relação próxima com o governo estadunidense, que foi exposta nas
revelações
do ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA Edward
Snowden, em 2013. E essa tendência se agravou a partir do primeiro governo do
presidente Donald Trump (2017-2021).
"Isso
está claro em vários documentos que eles têm publicado que tentam articular uma
rede de fornecimento de matéria-prima de data centers que esteja sob o controle
dessas empresas, e que os países do Sul acabam ficando como fornecedores de
matéria-prima ou então hospedando data centers."
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BRICS contra o colonialismo digital
Cristóvam
frisa que o BRICS, desde a criação, causa profunda preocupação em mercados que
já estavam consolidados, sobretudo a partir do eixo de interesses do
"grande irmão do Norte", os EUA. Ele aponta que o grupo se consolida
cada vez mais, não só do ponto de vista de mercado e conjunto de população, mas
também sobre a questão tecnológica.
Ele
avalia que a ideia da China de criar uma IA de código aberto tem impacto direto
para o Brasil, que vem resistindo às investidas de Washington com relação às
terras raras, essenciais para a tecnologia de ponta.
"Está
tudo interligado. A questão também da soberania tecnológica e da supremacia
tecnológica a partir de um eventual realinhamento de forças, usando o conjunto
dos países do grupo do BRICS como alternativa aos modelos de desenvolvimento de
IA fortemente concentrados nos EUA."
Fornasier,
por sua vez, diz que a construção de uma regulação global da IA condizente com
a complexidade social e os direitos humanos, como apontada por Amorim, passa
por superar o modelo simplista de autorregulamentação das big techs. Segundo
ele, o escrutínio da IA não pode ser dificultado pelo "segredo
comercial" que rege as corporações.
"É
preciso garantir auditorias independentes sobre os dados de treinamento e os
impactos sociais das ferramentas. Também é fundamental a criação de normas
vinculantes que atribuam responsabilidade civil, criminal e administrativa
direta às grandes corporações desenvolvedoras quando seus modelos geram danos,
discriminação ou desinformação em massa, dentre outros ilícitos."
Evangelista
concorda que o combate ao domínio tecnológico do Norte poderia ser feito via
articulação entre países do Sul Global, de forma a restaurar um balanço entre
essas relações para o desenvolvimento da IA, algo que a China tem demonstrado
ser possível. Porém, ele destaca que essa troca entre os países para a criação
de um recurso comum não será facilitada pelas potências que hoje detêm o
domínio sobre a tecnologia.
"Até
porque cada aproximação que acontece entre os países do BRICS é acompanhada
também de retaliações dos Estados Unidos. Então, é algo difícil, mas eu vejo
como um potencial muito interessante."
¨
China dá salto critico em guerra eletrônica ao lançar 3
novos satélites ao espaço, diz jornal
Com o
lançamento do trio de satélites Diting-01 ao espaço, a China deu um passo
silencioso, mas crítico na guerra eletrônica baseada no espaço, escreveu o
jornal South China Morning Post (SCMP).
Em 20
de setembro de 2026, o foguete Lijian-1 Y18 lançado do cosmódromo de Jiuquan,
colocou no espaço nove satélites. Entre eles estavam
três Diting-01, que entraram com sucesso na órbita planejada.
Os
satélites receberam esse nome em homenagem ao Diting, uma criatura mística da
traição chinesa, capaz de perceber o mundo ao seu redor por meio da audição. O
nome reflete a principal função dos aparelhos: a detecção e a análise de sinais
de rádio.
De
acordo com o artigo, os satélites destinam-se à vigilância radioelétrica. Eles
têm o potencial de detectar e rastrear navios militares, estações de radar
ocultas e fontes de interferência radioeletrônica. Assim, os satélites podem
ser utilizados para localizar objetos que emitem ativamente sinais de rádio.
A
criação de um grupo de satélites
semelhantes
pode permitir a obtenção regular de informações sobre fontes de radiação em
grandes áreas e complementar os meios tradicionais de reconhecimento terrestres
e aéreos, destaca-se.
Com
este lançamento, a China conseguiu entrar na companhia de nações ocidentais, incluindo os EUA e França, com
monitoramento de rádio comercial baseado no espaço, resumiu o veículo de
imprensa.
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EUA perdem na guerra comercial contra Pequim, aponta
mídia
Após
oito anos de tarifas historicamente altas, controles de exportação e muitas
outras disputas, a política do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação à
China foi um fracasso, escreveu uma mídia norte-americana às vésperas da
primeira visita do presidente chinês Xi Jinping a Washington desde 2015.
O
principal objetivo da imposição das
tarifas
era forçar a China a mudar seu modelo econômico, reduzir o apoio estatal à
indústria e diminuir o desequilíbrio comercial com os EUA. No entanto, na
opinião do autor do artigo, a China não se dispôs a fazer uma mudança
fundamental em sua política econômica. Pelo contrário, o país manteve posições
sólidas na produção industrial e nas exportações, e seu superávit
comercial
continua sendo significativo.
O autor
também chama atenção para as consequências das medidas norte-americanas para os
próprios EUA. As tarifas aumentaram os custos para as empresas e os
consumidores americanos, e as restrições aos produtos e tecnologias chineses
não levaram ao enfraquecimento esperado da base industrial chinesa.
No
entanto, enfatiza-se que se o principal critério for a mudança no modelo
econômico chinês e a redução significativa da vantagem industrial da China,
então, segundo o autor, os objetivos estabelecidos não foram alcançados.
Artigo
enfatiza que a política comercial dos EUA em relação à China não se mostrou
suficientemente eficaz em conformidade com seus próprios critérios iniciais. O
autor considera que as próximas negociações entre Donald Trump e Xi Jinping
oferecem uma oportunidade para reavaliar os resultados da guerra comercial e refletir sobre
quais objetivos a política americana deve perseguir daqui para frente.
O
presidente chinês Xi Jinping visitará os Estados Unidos de 23 a 25 de setembro
a convite de seu homólogo norte-americano Donald Trump. Esta visita será a
primeira viagem do líder chinês aos Estados Unidos em mais de uma década. Os
dois líderes devem discutir inteligência artificial, o Irã, Taiwan e comércio.
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China rebate críticas ao superávit e diz que tensão
global decorre de demanda fraca pós-2008
A China
voltou ao centro do debate após novo superávit acima de US$ 100 bilhões,
reacendendo críticas ocidentais sobre desequilíbrios globais. Pequim rebate
dizendo que suas exportações refletem demanda real por tecnologia e energia
limpa, enquanto a fraqueza persistente da economia mundial desde 2008.
A economia chinesa avança rumo a um
desenvolvimento de alta qualidade, apesar de um ambiente global mais complexo e
de críticas recorrentes de parte da mídia ocidental. Para responder a
interpretações consideradas distorcidas, o jornal asiático Global
Times lançou uma coluna dedicada a esclarecer percepções sobre o desempenho econômico
do país.
A
divulgação dos dados comerciais de agosto reacendeu debates sobre o superávit
chinês, que ultrapassou US$ 100 bilhões (aproximadamente R$ 511 bilhões) por
quatro meses seguidos. Analistas como Michael Froman, presidente do think tank
norte-americano Council on Foreign Relations, afirmam que o mundo estaria
chegando ao limite para absorver a produção
chinesa,
sugerindo risco de crise global, argumento que ganhou repercussão em veículos
ocidentais.
Segundo
o artigo da mídia asiática, a China reconhece que seu superávit é elevado, mas
atribui o fenômeno à divisão internacional do trabalho e aos padrões de
poupança e consumo de cada país. Pequim sustenta que não busca deliberadamente
superávits e que tem ampliado a demanda interna e as importações, para
equilibrar possíveis discrepâncias na balança de pagamentos.
Já os déficits
persistentes
dos EUA e da Europa, segundo economistas chineses, são ignorados nas críticas
sobre desequilíbrios globais, argumenta o jornal.
O crescimento das
exportações chinesas
em setores como circuitos integrados, máquinas e veículos de nova energia
reflete, segundo o governo, uma demanda real impulsionada pela transição
energética e pela modernização industrial. Para Pequim, esses produtos ampliam
a oferta global e não representam excesso de capacidade artificial.
Autoridades
chinesas afirmaram que parte das críticas ocidentais politiza o tema ao
associá-lo a narrativas como "aperto chinês" e "choque
chinês", que colocam Pequim no centro de tensões econômicas supostamente
produzidas de forma artificial que tomam espaço de economias menores que do
gigante asiático. Como contraponto, citam o papel da China na industrialização de países em
desenvolvimento,
com exportações de maquinário, infraestrutura e tecnologia que ajudaram
economias asiáticas a expandir sua produção têxtil e manufatureira.
Para
economistas chineses consultados pela mídia ao longo dos últimos meses, a
preocupação atual reflete a demanda global fraca desde a crise de 2008, que
reduziu o ritmo do comércio mundial e afetou economias ocidentais com
desaceleração, desindustrialização e desequilíbrios internos.
Assim,
a mídia conclui que o risco de uma nova crise dependeria menos da China e mais
da capacidade das grandes economias de enfrentar transformações industriais,
riscos financeiros e pressões
protecionistas,
alertando que barreiras comerciais que visam "corrigir" superávits
costumam aumentar tensões comerciais.
Historicamente,
superávits prolongados não foram exclusivos da China nem causaram crises
globais. Países como Reino Unido, EUA, Japão e Alemanha já registraram
superávits elevados em fases específicas, resultado de mudanças na divisão
internacional do trabalho.
Fonte:
Sputnik Brasil

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