sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Não é apenas uma eleição: é uma escolha sobre o Brasil que queremos

A menos de duas semanas do primeiro turno, o Brasil precisa olhar para além da disputa de imagens, das frases ensaiadas e das oscilações das pesquisas. Em 4 de outubro, estará em jogo muito mais do que a escolha de quem ocupará o Palácio do Planalto. O voto definirá a direção do país, as prioridades do Estado e as condições em que continuaremos a disputar nosso futuro.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro exige esse olhar. Há diferenças de programa econômico, de compromisso social e de relação com as instituições que a linguagem aparentemente neutra da “alternância de poder” não pode esconder. A alternância é uma virtude democrática quando os concorrentes reconhecem que o poder é temporário, a oposição é legítima e a derrota eleitoral deve ser respeitada.

O problema começa quando um movimento pretende usufruir dessas garantias sem oferecer aos demais a mesma segurança.

<><> A democracia também está na mesa

Para quem enfrenta dificuldades para pagar as contas, falar em instituições pode parecer distante. Mas a democracia tem consequências materiais. É nela que trabalhadores podem se organizar, cobrar salários, denunciar abusos e disputar o orçamento público. É nela que a população pode exigir atendimento, contestar decisões e pressionar governos sem ser tratada como inimiga.

A liberdade política não resolve, sozinha, a desigualdade. Mas seu enfraquecimento reduz a capacidade de enfrentá-la. Quem depende dos serviços públicos, do salário e da proteção social tem muito a perder quando a força substitui a negociação e quando a reivindicação passa a ser tratada como ameaça à ordem.

É por isso que a defesa da democracia precisa caminhar com a defesa de uma vida melhor. Não basta invocar a Constituição sem discutir o preço dos alimentos, o endividamento das famílias, a qualidade do emprego e o tempo de espera por uma consulta médica. Uma democracia que não responde às necessidades da população abre espaço para aqueles que exploram a frustração e oferecem soluções autoritárias para problemas que não pretendem resolver.

O projeto associado a Lula se distingue por reconhecer a responsabilidade do Estado em uma sociedade profundamente desigual. Combater a fome, sustentar a renda, ampliar oportunidades e investir em serviços públicos não são concessões ocasionais aos mais pobres. São obrigações de um país que pretende se desenvolver.

Essa orientação precisa ser defendida e aprofundada. O Brasil não superará suas desigualdades se tratar o investimento social como desperdício e a proteção dos privilégios como exigência técnica.

<><> Cobrar Lula sem apagar a diferença

Defender a reeleição de Lula não exige imaginar um governo sem erros. Exige avaliar escolhas, resultados, limites e alternativas concretas. Há motivos para cobrar mais: serviços públicos melhores, enfrentamento dos privilégios tributários, investimento produtivo, proteção ambiental e uma política econômica capaz de ampliar as possibilidades de crescimento.

Também é necessário questionar o peso dos juros e os limites impostos ao investimento público. A responsabilidade fiscal não pode ser reduzida a uma contabilidade que enxerga com nitidez o gasto social, mas naturaliza outros compromissos do orçamento. É preciso discutir quem paga, quem recebe e quais despesas ampliam a capacidade produtiva e o bem-estar da sociedade.

Ao mesmo tempo, nenhum indicador favorável autoriza desconsiderar a experiência de quem continua vivendo com dificuldades. A melhora de uma média nacional pode conviver com trabalho precário, dívidas e insegurança. Quem reclama do custo de vida precisa ser ouvido. A defesa de um governo perde credibilidade quando transforma toda crítica em desinformação ou ingratidão.

É justamente essa possibilidade de cobrar, corrigir e avançar que deve orientar a escolha. O apoio a Lula pode ser firme e exigente. Pode reconhecer a importância de seu projeto social e, simultaneamente, reclamar mais coragem para enfrentar os mecanismos que reproduzem a concentração de renda e de poder.

O erro seria converter as insuficiências desse governo em absolvição automática de seu adversário. Uma dificuldade real não torna verdadeira qualquer promessa de solução. A rejeição a um governante tampouco elimina a obrigação de examinar a trajetória e os compromissos de quem pretende substituí-lo.

<><> Flávio precisa responder pelo projeto que representa

Flávio Bolsonaro deve ser avaliado por suas próprias posições e por sua atuação pública. Não se trata de atribuir a um filho responsabilidade automática pelos atos do pai. Trata-se de reconhecer que uma candidatura vinculada ao bolsonarismo carrega uma herança política e precisa explicar o que pretende preservar ou abandonar nela.

O desgaste das instituições, os ataques à credibilidade das urnas e a transformação de adversários em inimigos não podem desaparecer da discussão eleitoral por conveniência de campanha. O Brasil viveu uma experiência de radicalização cujas consequências chegaram à invasão e à depredação das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. Essa memória impõe perguntas que nenhuma operação de marketing deveria dispensar.

Flávio reconhece, sem ressalvas oportunistas, a legitimidade do sistema eleitoral e o dever de aceitar a derrota? Rejeita qualquer tentativa de intimidação das instituições? Como se posiciona diante da responsabilização, com devido processo legal, daqueles que atentam contra a ordem democrática? Seu compromisso é com as regras constitucionais ou com a proteção política de seu próprio campo?

Essas exigências valem para todos os candidatos. Tornam-se especialmente relevantes quando a força política que sustenta uma candidatura fez do confronto institucional um instrumento de mobilização.

E há um programa econômico a esclarecer. Como serão financiados saúde e educação? Quais compromissos existem com a valorização do salário mínimo, a proteção social e o emprego? Que patrimônio público se pretende preservar ou vender? Quem suportará o custo dos ajustes anunciados como inevitáveis?

“Eficiência” precisa significar mais do que cortar. “Liberdade” precisa alcançar também quem depende do próprio trabalho. “Ordem” precisa incluir o respeito aos direitos de quem discorda.

Há ainda uma distinção indispensável: defender a democracia não significa conferir imunidade à crítica a ministros do Supremo, parlamentares ou integrantes de qualquer órgão de Estado. Suspeitas exigem apuração, decisões exigem fundamentação e autoridades devem prestar contas. A resposta democrática a uma crise institucional é ampliar a transparência e aplicar a lei. Transformar essa crise em licença para destruir controles apenas troca problemas reais por um poder ainda menos fiscalizado.

<><> Soberania não é adereço de campanha

A relação com os Estados Unidos também precisa entrar nesse debate. O tarifaço anunciado pelo governo Trump em 2025 mostrou como decisões externas podem atingir a produção, o emprego e as escolhas brasileiras. A soberania tem efeitos concretos sobre a economia; não se resume ao uso da bandeira em manifestações.

Qual deve ser a atitude de quem pretende governar o Brasil diante de pressões estrangeiras? Defender os interesses e as riquezas nacionais, negociar com firmeza e preservar a autonomia das instituições brasileiras. A afinidade ideológica com um governante de outro país não pode se sobrepor a essa obrigação.

Flávio precisa esclarecer onde se posiciona quando os interesses políticos do bolsonarismo e as exigências de proteção ao Brasil entram em conflito. O mesmo critério deve orientar a avaliação de qualquer candidato: nenhum projeto de poder tem legitimidade para tratar prejuízos ao próprio país como vantagem eleitoral.

Isso não significa hostilidade aos Estados Unidos nem alinhamento incondicional com qualquer outra potência. Significa ter política externa própria, diversificar parcerias e recusar a ideia de que o Brasil precisa pedir autorização para definir seu caminho.

Um país capaz de conversar com diferentes governos, ampliar mercados e defender seus interesses dispõe de mais alternativas. A submissão estreita essas possibilidades.

<><> O futuro não pode ser decidido pelo esquecimento

Nas semanas finais, a disputa tende a comprimir questões complexas em vídeos, acusações e frases de efeito. Mas a decisão não pode ser entregue à velocidade das redes. É preciso perguntar o que cada projeto fará com o Estado, quais interesses terão prioridade e que espaço restará para os que discordarem.

Também será necessário olhar para o Congresso. A capacidade de governar, a composição do orçamento e a proteção dos direitos dependem de escolhas que vão além da Presidência. Eleger um projeto no Executivo e fortalecer forças empenhadas em bloqueá-lo no Legislativo produz consequências que precisam ser consideradas no momento do voto.

Não há vitória assegurada, nem resultado escrito de antemão. Uma eleição se decide por escolhas efetivas, e a memória política não se preserva sozinha. Precisa ser sustentada pelo debate público, por fatos e pela disposição de enfrentar argumentos sem desprezar as inquietações da população.

É nessa perspectiva que defendo Lula: pelo compromisso com a inclusão social, pela possibilidade de cobrar avanços dentro da democracia e pela defesa de um Brasil com autonomia para construir seu desenvolvimento. Esse apoio não suspende a crítica. Dá a ela uma direção: melhorar o país, ampliar direitos e enfrentar desigualdades.

O Brasil não precisa de um governante acima de qualquer cobrança. Precisa de um governo que reconheça o direito de ser cobrado, que veja na pobreza uma responsabilidade pública e que respeite os limites constitucionais do poder.

Em 4 de outubro, escolheremos quem governará e em que direção o país seguirá. O descontentamento merece respostas. O futuro exige responsabilidade. E a democracia não pode depender da disposição dos derrotados de aceitá-la apenas quando vencem.

•        O futuro do Brasil pode ser decidido em um único turno. Por Florestan Fernandes Jr

A eleição de 2026 entra em sua reta final com um claro afunilamento do quadro eleitoral. Os candidatos que tentaram se apresentar como alternativas de terceira via perdem espaço, enquanto suas intenções de voto se desidratam progressivamente. Nas últimas pesquisas, Lula mantém, em primeiro turno, uma vantagem apertada de três a cinco pontos percentuais sobre Flávio Bolsonaro. O cenário revela uma disputa cada vez mais concentrada e mantém aberta a possibilidade de que a eleição seja decidida já no dia 4 de outubro.

Talvez seja melhor que a esquerda faça um esforço concentrado nesta reta final, para evitar que um eventual segundo turno se transforme em uma disputa excessivamente apertada e incerta.

Ao falar na ONU, Lula acenou para os eleitores indecisos e também para aqueles que se identificam com o campo da direita democrática, ao alertar para as ameaças que pairam sobre o nosso país. Em um contexto de avanço do governo Trump sobre a América Latina e de retomada de uma política mais intervencionista dos Estados Unidos na região, Lula reagiu à volta da lógica da Doutrina Monroe ao afirmar, numa formulação que remete ao título do livro de Paulo Nogueira Batista Jr., que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

É nesse ponto que a eleição ganha uma dimensão estratégica e que a campanha pela reeleição do presidente deve concentrar um de seus focos principais.

Afinal, que presidente queremos para o Brasil? Um presidente que defenda um país soberano, capaz de negociar com os Estados Unidos em condições próprias, ou um governo disposto a renunciar a parcelas da autonomia nacional para se alinhar aos interesses políticos e econômicos da maior potência do mundo?

Pelo perfil de parte dos governos de extrema-direita que chegaram ao poder nos últimos anos na América Latina, com todo o apoio de Washington, é possível identificar o perfil dos “líderes” escolhidos a dedo para trabalhar cegamente pelos interesses do governo Trump. Alguns desses governantes têm trajetórias marcadas por denúncias de corrupção, acusações envolvendo grupos paramilitares ou estruturas criminosas.

Na Colômbia, Abelardo de La Espriella construiu sua carreira como advogado criminalista defendendo personagens envolvidos em casos de narcotráfico, lavagem de dinheiro e paramilitarismo. Entre seus clientes esteve Alex Saab, que foi acusado pelas autoridades estadunidenses de lavagem de dinheiro.

No Chile, José Antonio Kast é filho de Michael Kast Schindele. Uma ficha encontrada no Arquivo Federal alemão registra a filiação de um Michael Kast ao Partido Nazista, em 1942. A documentação coincide com os dados biográficos do pai de Kast. Não à toa, o pré-candidato do Chile se diz um admirador do ditador Augusto Pinochet.

Mas talvez o ponto mais importante, ao observar a aproximação de governos latino-americanos com o projeto político de Trump e Marco Rubio, seja discutir quais são os resultados concretos dessa escolha para suas populações: pobreza, desigualdade, precarização do trabalho e dificuldades no acesso a serviços públicos. É preciso olhar para esses resultados com dados, e não apenas com slogans políticos.

O Brasil já viveu, entre 2019 e 2022, uma experiência de governo marcada por forte alinhamento político com Donald Trump, responsável por uma das maiores tragédias sanitárias de sua história, pelo agravamento da fome e por uma crise institucional que culminou nos ataques contra a nossa democracia em 8 de janeiro de 2023. Durante o governo Bolsonaro, o país chegou a registrar mais de 700 mil mortes por Covid-19.

Agora, o adversário de Lula é justamente um dos filhos de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro também carrega uma trajetória política marcada por escândalos: foi acusado de praticar a chamada “rachadinha” em seu gabinete como deputado, de ter relações com milicianos e, no caso do filme Dark Horse, é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.

Mais recentemente, a relação entre Flávio Bolsonaro e os interesses dos Estados Unidos ganhou uma dimensão ainda mais concreta com a discussão sobre as tarifas impostas por Trump ao Brasil. Documentos do governo americano revelados durante a campanha apontaram que questões relacionadas à eleição brasileira apareceram nas negociações entre Washington e Brasília.

É nesse cenário que a discussão sobre soberania deixa de ser uma abstração. A eleição brasileira ocorrerá em um momento de forte disputa geopolítica, no qual Washington procura não apenas ampliar sua influência sobre a América Latina, mas transformar a região num verdadeiro protetorado, enquanto alguns governos da região se aproximam abertamente da estratégia de Trump.

A eleição não é entre Lula e Flávio. Na realidade, é entre Lula e Trump.

No fim, a questão central é menos ideológica do que parece: quem ocupará o Palácio do Planalto terá de decidir até onde o Brasil está disposto a ir para preservar sua soberania diante da maior potência do mundo.

E essa talvez seja uma das questões decisivas que o eleitor brasileiro terá de responder em 2026: um Brasil que negocia com Washington como país soberano ou um Brasil cuja política externa passa a ser condicionada pelos interesses de Washington?

 

Fonte: Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247

 

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