ENTRE
A CRISE E O TERROR: Como a normalização da violência sustentou a nazificação da
Alemanha
O filme
Uma infância alemã, lançado em 2026, e dirigido por Fatih Akin, retrata, pelos
olhos de uma criança – Nanning Bohn –, um tempo de crise e desalento. Sobre a
ilha reclusa de Amrum se desenvolve não apenas a história do cotidiano
conturbado das semanas finais da II Guerra, marcado pelo suicídio de Hitler,
mas também um retrato da forma como diferentes entendimentos políticos sobre o
nazismo puderam coexistir e se expressar no momento derradeiro do regime
nazista. No universo de Amrum expressaram-se, através da narrativa fílmica de
Fatih Akin, a desintegração da Alemanha e, mais do que isso, pequenos e grandes
embates ideológicos.
Tais
embates povoam uma percepção sobre o cotidiano no regime nazista que vem
ganhando a atenção da historiografia nos últimos anos. Em O povo de Hitler
(2025), Vinicius Liebel contribui para essa linha e apresenta um debate que vai
muito além do estudo do nazismo e da nazificação da Alemanha. Chama a atenção
para o fato de que, como um fenômeno cultural de massas, o nazismo teria sido
amplamente exibido, nas últimas décadas, através de filmes, documentários
livros e seriados, muitos dos quais propõem “dar conta” do fenômeno em suas
variantes política, econômica, de guerra ou social. E apesar de cada um desses
produtos culturais se concentrar em um aspecto daquela experiência, é o olhar
sobre o cotidiano – como aquele de Nanning Bohn – que revela como o regime
totalitário alemão se edificou para muito além da máquina violenta estatal. Sua
construção se costurou ao tecido social de maneira ordinária, conectada ponto a
ponto com a vida e a cotidianidade dos cidadãos e cidadãs da Alemanha, dos
lugares mais remotos, como a ilha de Amrum, até os grandes centros urbanos,
como Berlin.
Como
foi possível? No primeiro capítulo, intitulado “O nazismo no campo das ideias”,
o autor sublinha que os nazistas não se utilizaram apenas da força física e da
violência do Estado, mas construíram práticas e visões de mundo que se
ampararam em conceitos e imagens distribuídas na experiência cotidiana alemã.
Para dar uma dimensão mais clara desse ponto, cita a metáfora de Hannah Arendt
para ilustrar como o processo de organização do regime se operou. Arendt
utiliza a cebola como referência imagética-estrutural do sistema nazista: ao
cortá-la, é possível enxergar as suas várias camadas. Ao centro, a menor camada
seria a cúpula do regime. Para Liebel “são eles que projetam a ideologia em
suas aparições e ações, em seus discursos e em seus escritos”. (Liebel, 2025, p
19.); quanto mais distante do núcleo, mais difusa se tornam as ações em termos
ideológicos – o que não significa que não tenham concordância com os
princípios. Dessa forma, Hitler se torna o centro de um sistema social que
passa a orbitar em torno de sua imagem e de suas ações. Esse é um ponto
importante que será sustentado em diferentes níveis: a propaganda nazista, por
meio de discursos, práticas simbólicas e visuais se torna instrumento eficaz do
sistema, aproximando os pontos onde a ideologia direta do partido já não
chegava. Nos eventos, espaços e também no dia a dia, entre as maiores e as
menores paisagens do cotidiano, a dupla imagem alemã podia ser notada: um
representante nazista sempre falava e, ao mesmo tempo, toda a presença nazista
autorizava a hegemonia e a soberania do regime em estandartes, fardas e
uniformes. Discurso e presença legitimavam constantemente o regime.
As
motivações para que a aceitação, em termos gerais, ocorresse estão expressas no
capital econômico e emocional que era circulante na Alemanha já no período
entreguerras. Para Liebel, o mundo em ruínas fazia com que diante da sensação
de imobilismo, muitos buscassem uma alternativa que pudesse inserir novamente
as pessoas e a Alemanha na posição de destaque do mundo. A construção
mitológica de Hitler começa nesse espaço: precário economicamente, confuso
politicamente e emocionalmente debilitado. É assim que a imagem do Führer foi
construída: “para servir de farol para a militância e para a população em
geral.” (Liebel, 2025, p 23). Um dos
pilares dessa nova realidade política foi a “comunidade do povo”.
A
Volksgemeinschaft foi construída a partir de uma ideia de formação da Alemanha
como comunidade de alto desempenho. Na visão dos nazistas, a cidadania era uma
questão de raça, que via seus principais elementos “naturais fundadores”
ameaçados pelos direitos civis concedidos pelo Estado. A “comunidade do povo”
era, portanto, fundada na tradição, na pureza e na naturalidade da herança do
povo alemão, no sangue. Referia-se aos indivíduos que compartilhavam a origem
étnica e que, por isso, eram os verdadeiros cidadãos da Alemanha. Na esteira
dessa concepção, o antissemitismo encaixaria os judeus como um dos principais
grupos de estrangeiros que corrompiam a Volksgemeinschaft. Mas, não apenas
eles: o antiliberalismo e o anticomunismo também marcaram as reivindicações
dentro dessa comunidade, que gradualmente se torna também uma comunidade
emocional ideológica.
A
construção dessa comunidade emocional e ideológica se torna central na
argumentação ao demonstrar que boa parte dos cidadãos aderia ao nazismo por
medo, por insegurança ou por suspeita deliberada de qualquer situação que
pudesse lhes ocorrer. Outra parcela da população seguiu “a adesão voluntaria e
ideológica, o engajamento intuitivo ou a simpatia irrefletida” (Liebel, 2025, p
45). Vinicius Liebel deixa claro, no capítulo intitulado “O nazismo nas
estruturas de poder” (Liebel, 2025, p 49), dois pontos fundamentais para pensar
o campo político naquele contexto e tê-lo como experiência visível e sensível
para o conhecimento histórico: as estruturas de poder dentro do sistema nazista
foram organizadas a partir de um momento de crise profunda, não apenas econômica,
mas sobretudo política. E sua resposta se torna, rapidamente,
ultraconservadora.
O
conservadorismo e os usos da violência, não apenas por meio do aparato estatal
e das estruturas físicas de poder violento, erguem-se no totalitarismo alemão a
partir dos usos gradativos de mecanismos de convencimento e elaboração desse
campo emocional e político. O autor ressalta que quando os nazistas chegaram ao
poder, seu apoio não era amplamente aceito e muitos ainda o viam com
desconfiança. Algumas questões se abrem então no livro: “quem eram os
indivíduos que compunham as fileiras nazistas, e como eram recrutados? Como os
nazistas tentavam convencer os alemães de suas ideias, e como buscavam manter
essas ideias vivas durante o regime? Quem votou nos nazistas? Quem os
apoiou?”.
As
perguntas são provocativas e desconcertantes na medida em que convocam a
compreender a dimensão de aceitação, participação e adesão que o regime teve na
sociedade alemã para além de estruturas de vigília e policiamento. Havia algo a
mais costurado ao tecido social que os nazistas perceberam ser possível e
necessário para a ascensão do regime. Como parte fundamental dessa conquista
estava a edificação de um regime visual. A propaganda teria a função de, por um
lado, doutrinar e manter os indivíduos que estavam antes distantes de qualquer
regime político, soltos na estrutura social da crise que os antecedeu; por
outro lado, destruir a realidade e criar uma nova com base nas suas
projeções.
Não
foram, para Liebel, os aspectos racionais que guiaram a população, mas sim suas
emoções. Os momentos de crise são especialmente importantes para a mobilização
da massa indiferente, pois é a partir da raiva, do medo, do desamparo e da
insatisfação em geral, que a construção de um campo político-emocional se
estrutura para esse amplo contingente de pessoas. A juventude hitlerista
(Hitlerjugend) – que aparece nas cenas de Uma infância alemã, colocada pela
família de Nanning como um valor primordial para as crianças – mobiliza as
emoções nos jovens e busca garantir a manutenção do regime em diferentes
gerações. Da mesma forma, outras organizações, como a Liga das Jovens Alemãs
(Bund Deutscher Madel), expressavam-se como uma continuidade da educação dos
valores e sentimentos políticos, culturais e sociais do nazismo. No capítulo
intitulado “O nazismo no cotidiano”, Liebel argumenta que as organizações e
instituições foram conduzidas pelo regime para que o seu aparato de controle
não fosse apenas um domínio de cima para baixo; pelo contrário, zelava-se para
que ele acontecesse de forma capilarizada e fizesse parte do cotidiano dos
cidadãos comuns, diante de todo o conjunto social. Para isso, a dupla dinâmica
que operava entre a difusão do terror – como as perseguições e o misterioso
funcionamento dos campos de concentração – associava-se ao processo de
alinhamento para, assim, promover uma “homogeneização de toda a sociedade”
(Liebel, 2025, p 147).
A
ideologia totalitária do regime nazista nunca alcançou o seu objetivo maior e
final, que seria a transformação de toda a sociedade em uma “deserto de ideias”
no qual toda a dinâmica social funcionasse apenas de acordo com suas premissas.
Ainda assim, com um regime estético, de símbolos, práticas e repetições no
campo político, o nazismo criou um aspecto de normalidade que, por trás de todo
o maquinário do terror, parecia comum, o que Liebel definiu como “normalidade
adaptada” (Liebel, 2025, p 149.). Talvez essa seja, para o livro como um todo,
a ideia mais importante que é elaborada pelo autor: a mescla da
excepcionalidade de um regime altamente violento, persecutório e controlador
com, por outro lado, a normalidade que decorre de ações cotidianas, como sair,
tomar café, ir ao mercado, entrar e sair do trabalho, etc.. Ou seja, “mesmo em
uma ditadura, boa parte da população ainda poderá viver “normalmente”,
adaptando-se aos novos tempos” (Liebel, 2025, p 157).
Essa
zona de contato entre o velho e o novo ocorre, para o autor, na dimensão da
cultura e das práticas políticas do cotidiano, em que a convivência entre
tradições e inovações se sustenta por dinâmicas possíveis entre passado,
presente e futuro. Entre grandes inovações e pequenas ou antigas práticas, a
costura feita pelo regime incluía desde conservadores que remoíam um passado
glorioso alemão, a classe média ascendente que ansiava pela manutenção de uma
Alemanha que não conseguiu se modernizar na democracia, passando pela educação
das crianças e jovens para retomada e construção do futuro, agora sob o regime
nazista. E, dessa forma, o trânsito entre tradições e modernizações era
consolidado de forma adaptável ao cotidiano, sendo a violência justificável para
garantir o beneficio e a segurança de grupos distintos, ao longo de toda a
estrutura social. Nesse campo, Liebel salienta que é difícil julgar que todos
os cidadãos e cidadãs eram antissemitas e queriam o extermínio dos judeus,
concordando com todas as práticas violentas do regime. Mas “é possível afirmar
que a lógica administrativa, ideológica e de ação do Terceiro Reich apontava
para a realização do genocídio” (Liebel, 2025, p 196). Se a eliminação dos
judeus era um objetivo claro desde o inicio do nazismo ou se ela surgiu como
uma resposta do desenvolvimento conjuntural, permanece em aberto. Para o autor,
existem alguns pontos para reflexão fundamentais, como a elaboração de um
Estado racial desde o princípio do regime nazista, a mobilização da classe média
em torno desse estado de pureza e a exclusão da cidadania daqueles que não
pertenciam ao regime racial de “sangue alemão”.
Quando
escreve seu último capítulo, “Depois de 1945”, Liebel salienta que após a
derrota da Alemanha na guerra, o rastro de destruição abrira espaço para
reflexões mais profundas, no mundo todo, sobre direitos humanos e sobre como a
violência havia se consolidado na vida dos cidadãos e cidadãs. Depoimentos
sobre a memória da geração de alemães que eram crianças nesse contexto e se
tornaram adultos no pós-guerra – filhos e netos – apontam para um silêncio que
era atravessado não apenas por vergonha de um passado que foi, de certa forma,
experienciado – ainda que como uma criança e sem dimensionar a brutalidade do
regime – mas também para um desejo de esquecer, diante dos horrores revelados
pelas documentações que surgiram nas décadas seguintes. A experiência da
nazificação da vida ganha centralidade no debate trazido pelo autor, na medida
em que expõe diferentes formas de participação no regime, tanto como vítimas
quanto apoiadores. Assim como vemos na película de Fatih Akin, o nazismo
construiu formas de convivialidade muito distintas. Em um regime visual e
emocional conduzido por instituições alinhadas à ideologia, os nazistas
normalizaram a intolerância, a insensibilidade e a violência, moldando o que
seria “o povo de Hitler”. O volume produzido por Liebel mostra essa dinâmica
com um olhar apurado, abrindo possibilidades múltiplas de reflexões. Um ganho
imenso para a historiografia brasileira.
Fonte:
Por Helen Rotta, em Le Monde

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