quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A crise no STF nas disputas por quem é “cristão legítimo” nas redes evangélicas

A vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula entre eleitores evangélicos aumentou de 23 para 30 pontos percentuais em um eventual segundo turno, segundo a pesquisa Quaest divulgada em 21 de setembro. Flávio passou de 51% para 58% nesse segmento, enquanto Lula permaneceu com 28%.

Os números chegam em um momento em que lideranças religiosas tornam mais explícitos seus posicionamentos eleitorais. Mas parte dessa mobilização política acontece também fora dos púlpitos. Lideranças mais radicalizadas podem estar menos vocais dentro das igrejas, mas seguem usando as redes sociais e outros espaços para circunscrever o voto religioso à direita.

Nas últimas semanas, um dos episódios em que esse movimento apareceu com força não aconteceu diretamente na campanha eleitoral, mas no Supremo Tribunal Federal.

O embate entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, no contexto das investigações relacionadas ao caso Master, mobilizou nas redes sociais discursos baseados em uma leitura espiritual dos acontecimentos na Corte. É o que mostra a oitava edição do monitoramento Narrativas Evangélicas e Contexto Eleitoral, realizado pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque.

Entre 31 de agosto e 13 de setembro, foram analisados 573 perfis de influenciadores evangélicos e lideranças religiosas e políticas. Nesse período, profecias, pedidos de oração, personagens bíblicos e referências à batalha espiritual foram mobilizados para interpretar a crise no Supremo. André Mendonça passou a ser apresentado como “escolhido”, “ungido” e “instrumento de Deus”, enquanto Alexandre de Moraes foi associado a um campo moral e espiritual adversário.

Mensagens religiosas publicadas anteriormente também voltaram a circular e passaram a ser reinterpretadas diante dos acontecimentos recentes. Uma profecia da pastora Valnice Milhomens feita meses antes foi recuperada como confirmação de que Deus estaria agindo por meio de Mendonça. Silas Malafaia voltou a compartilhar uma mensagem de setembro de 2025 em que afirmava que Deus derrotaria Moraes “no tempo certo”. Durante os atos de 7 de setembro, em São Paulo, Sônia Hernandes orou por Mendonça, enquanto ela e Estevam Hernandes convocaram correntes de oração em apoio ao ministro.

A mobilização também recorreu a personagens bíblicos. Mendonça foi comparado a Daniel na cova dos leões e associado, em conteúdos compartilhados pelo senador Magno Malta, à história de Ester. Moraes, por sua vez, apareceu relacionado ao rei Belsazar e, em algumas imagens favoráveis a Mendonça, recebeu representações demoníacas.

Essas referências compõem uma gramática religiosa em que Mendonça aparece como um cristão autêntico e verdadeiro, perseguido e injustiçado, enquanto Moraes ocupa o campo espiritual adversário. A disputa no Supremo passa, assim, a ser narrada também como uma batalha entre o bem e o mal. 

Nessa narrativa, Mendonça enfrenta não apenas adversários individuais, mas um “sistema corrompido”, associado por essas lideranças à esquerda no Executivo e no STF. A controvérsia entre ministros passa, assim, a circular também por meio de categorias religiosas de bem e mal. 

Essa mobilização, no entanto, não surgiu de forma orgânica no campo evangélico. Um dos gatilhos foi o próprio Mendonça. Em 4 de setembro, o ministro publicou um vídeo direcionado a aliados no qual faz uma oração. As lideranças reagiram ao material, contribuindo para ampliar a circulação das postagens em sua defesa. 

A defesa de Mendonça acontece em um contexto em que o monitoramento também identifica maior explicitação dos posicionamentos eleitorais de algumas lideranças religiosas. Na mesma quinzena, cresceram tanto as manifestações de apoio a Flávio Bolsonaro quanto os conteúdos de mobilização contra Lula.

Estevam Hernandes declarou voto em Flávio Bolsonaro, que também esteve em igrejas durante o período. Cláudio Duarte intensificou a campanha “Lula não”, com um vídeo que alcançou mais de 1 milhão de pessoas. Valnice Milhomens também ampliou conteúdos contrários a Lula recorrendo a referências bíblicas, pautas morais e à linguagem da batalha espiritual.

É nesse contexto que Mendonça também ganha centralidade política. A mensagem que essas lideranças passam é a de que o cristão, para ser legítimo, não pode ser de esquerda, precisa ser de direita. Mendonça materializa, nessas narrativas, o lugar de uma liderança íntegra e associada ao bolsonarismo. 

A movimentação ocorre enquanto as principais candidaturas buscam caminhos distintos de aproximação com o eleitorado evangélico. Flávio Bolsonaro tem frequentado igrejas e se vinculado a lideranças religiosas. Lula, por sua vez, afirmou que não pretende realizar atos políticos dentro de igrejas e sua estratégia tem sido menos visível. Algumas iniciativas de aproximação, como a participação de Janja cantando um hino gospel com o pastor Kleber Lucas no lançamento da campanha, soaram forçadas ao campo evangélico. 

O monitoramento também mostra que o campo evangélico não se movimenta em uma única direção. André Janones, deputado federal e liderança política com identidade evangélica, publicou 151 conteúdos e alcançou 5,1 milhões de interações no período analisado. Nos últimos relatórios, percebemos uma reação maior da esquerda por meio de Janones, que também recorre a uma gramática de guerra e convocação em defesa de Lula. Benedita da Silva, Marina Silva, Henrique Vieira e Aava Santiago também aparecem entre as lideranças evangélicas à esquerda acompanhadas pelo levantamento. 

Nada disso significa que a mobilização religiosa em torno de Mendonça explique o desempenho de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos. Pesquisa eleitoral e monitoramento de redes medem fenômenos diferentes, e não há elementos nesses materiais para estabelecer uma relação de causa e efeito.

O que o monitoramento permite observar é a mensagem construída por determinadas lideranças nesse contexto, que tem associado suas posições políticas como decorrências naturais ou necessárias da fé cristã. O crescimento de reações no campo da esquerda, nesse contexto da crise no STF, demonstra como o evento aprofundou disputas pelo “voto evangélico” nas redes e reativou debates sobre quais cristianismos podem ocupar legitimamente o espaço público.  

•        Advogada ligada a Nunes Marques faz visitas frequentes a Vorcaro na prisão e causa estranheza

A frequência das visitas da advogada Camilla Ramos a Daniel Vorcaro na prisão tem provocado estranhamento entre defensores do ex-banqueiro, segundo informações publicadas pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo. Camilla tinha um contrato que previa honorários de até R$ 427 milhões com o Banco Master e aparece associada, em mensagens encontradas no celular de Vorcaro, à chamada “Turma do KN”.

De acordo com a coluna, “KN” seria uma referência ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF). Camilla e o marido, o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), são apontados nos diálogos como integrantes desse grupo. O casal é descrito como próximo do ministro, que afirma nunca ter autorizado terceiros a falarem em seu nome.

A presença da advogada chama atenção porque, segundo três advogados ouvidos pela coluna, ela não atua na área criminal nem em processos diretamente ligados à defesa pessoal de Vorcaro. O ex-banqueiro mantém uma lista com 23 advogados autorizados a visitá-lo na prisão. A maior parte deles integra escritórios de criminalistas responsáveis por seus processos ou acompanha a liquidação do Banco Master.

Ainda segundo os relatos, as visitas de Camilla teriam dinâmica diferente das demais. Quando ela chega para conversar com Vorcaro, outros defensores precisam deixar a sala para que a reunião ocorra a sós. Um dos profissionais afirmou à coluna que a situação indica o tratamento de informações sensíveis e sigilosas, que não seriam compartilhadas com o restante da defesa.

A assessoria de Camilla Ramos nega irregularidades e afirma que as visitas têm como objetivo atualizar Vorcaro sobre ações bilionárias envolvendo precatórios adquiridos pelo Banco Master contra a União. Outros advogados do ex-banqueiro, porém, questionam a justificativa, sob o argumento de que o banco foi liquidado e não está mais sob a administração de Vorcaro. Para eles, eventuais informações sobre o andamento dessas causas deveriam ser repassadas ao liquidante responsável pelos ativos e passivos da instituição.

As mensagens encontradas no celular de Vorcaro também mencionam a proximidade de Newton Ramos com o grupo. Segundo a coluna, o desembargador aparece em diálogos tratando de hospedagens e acesso a eventos. Kassio Nunes Marques, por sua vez, já viajou em avião de uma empresa de Vorcaro para participar de uma festa de aniversário de Camilla em Alagoas.

Em nota enviada à coluna, a defesa da advogada afirmou que Camilla atua regularmente em processos envolvendo precatórios do Banco Master e negou qualquer irregularidade. “A advogada Camila Ramos é regularmente habilitada em cerca de 20 processos para prestação de serviços jurídicos em casos envolvendo precatórios adquiridos pelo Banco Master, nenhum deles em tramitação no STF, razão pela qual realiza visitas regulares ao ex-banqueiro para atualizá-lo sobre detalhes do andamento processual”, diz o texto.

A nota também afirma que “os contratos em questão são lícitos, regulares e continuam e continuam sob apreciação do Poder Judiciário”. Em outro trecho, a manifestação sustenta que “a atuação da advogada e do escritório em defesa do Banco Master ocorreu dentro dos limites legais e mediante a devida habilitação nos respectivos processos”.

•        Mendonça e Nunes Marques votam a favor de Dallagnol contra limitações impostas pelo TSE

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, por 5 votos a 2, manter as restrições impostas à campanha de Deltan Dallagnol (Novo), candidato ao Senado pelo Paraná. André Mendonça e Kassio Nunes Marques divergiram da maioria e votaram contra a medida, sob o argumento de que as limitações poderiam provocar prejuízos à candidatura. Embora o registro da candidatura de Dallagnol permaneça válido, a decisão mantida pelo TSE restringe sua participação em atividades eleitorais enquanto a controvérsia jurídica sobre sua candidatura segue em análise.

Entre as limitações impostas estão a proibição de pedir votos, participar de debates e utilizar a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, além de restrições relacionadas ao uso de recursos públicos destinados à campanha.

<><> Mendonça e Nunes Marques divergem da maioria

Mendonça e Nunes Marques ficaram vencidos no julgamento. Os dois ministros entenderam que as restrições impostas durante o período eleitoral poderiam causar danos à candidatura caso Dallagnol obtivesse posteriormente uma decisão favorável.

O entendimento não prevaleceu. A maioria do TSE decidiu manter a medida determinada pelo ministro Floriano de Azevedo Marques, preservando as limitações às atividades de campanha.

O julgamento terminou, portanto, com cinco votos favoráveis à manutenção das restrições e dois contrários.

<><> TSE mantém restrições à campanha

A controvérsia está relacionada às circunstâncias da exoneração de Dallagnol do Ministério Público Federal. A discussão envolve a aplicação da Lei da Ficha Limpa e a avaliação sobre os efeitos jurídicos da saída do então procurador da instituição.

Floriano de Azevedo Marques considerou que acontecimentos posteriores não afastaram a necessidade de analisar se houve irregularidade no momento da exoneração.

“A manutenção do deferimento de candidatura que em tese seja absolutamente inviável pode acarretar graves riscos ao processo eleitoral, inclusive sistêmicos”, afirmou o ministro, segundo a reportagem.

A medida liminar foi concedida a partir de um pedido apresentado pela Coligação Paraná Para Todos e pela Federação Brasil da Esperança. A tutela cautelar buscava atribuir efeito imediato ao recurso apresentado contra a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), que havia deferido o registro de Dallagnol.

De acordo com o material apresentado, integram a iniciativa PDT, PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PRD e Solidariedade.

<><> Defesa de Dallagnol questiona liminar

A defesa de Dallagnol contesta a decisão e afirma que a liminar foi concedida em um procedimento sigiloso, sem que o candidato tivesse sido ouvido previamente. Os advogados também alegam que não tiveram, inicialmente, acesso integral ao pedido que fundamentou a tutela cautelar.

A equipe jurídica do candidato cita ainda uma decisão de Floriano de Azevedo Marques, de 28 de agosto, relacionada a Anthony Garotinho. Segundo a defesa, naquela ocasião o ministro afastou restrições determinadas pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) ao uso de recursos públicos e ao horário eleitoral enquanto o registro da candidatura permanecia sob análise.

Os advogados sustentam que, naquele processo, o entendimento considerou o tempo de campanha perdido como um dano irreversível. A defesa argumenta que, no caso de Dallagnol, foi adotada solução diferente, apesar de o TRE-PR ter deferido o registro.

<><> Caso remete à cassação de 2023

A situação atual ocorre três anos depois de outro julgamento envolvendo a situação eleitoral de Dallagnol.

Em maio de 2023, o TSE cassou por unanimidade o registro da candidatura de Dallagnol a deputado federal nas eleições de 2022. Na ocasião, a Corte reformou decisão do TRE-PR que havia aprovado seu registro.

Naquele julgamento, o TSE analisou recursos apresentados pelo então Partido da Mobilização Nacional (PMN) e pela Federação Brasil da Esperança contra a decisão da Justiça Eleitoral paranaense.

Agora, a nova disputa jurídica ocorre durante a campanha de Dallagnol ao Senado pelo Paraná. Com o placar de 5 votos a 2, permanecem em vigor as restrições às atividades eleitorais enquanto prossegue a discussão judicial relacionada à candidatura.

 

Fonte: Por Flávio Conrado e Lorena Mochel, no Le Monde/Brasil 247

 

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