Empresa
ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás
A
empresa escolhida pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para
fornecer parte da tecnologia do programa de videomonitoramento Muralha Paulista
foi, neste ano, alvo de questionamentos de órgãos de controle em São Paulo e em
Goiás. As suspeitas têm semelhanças e diferenças nos dois estados, mas, de
maneira geral, os contratos com a empresa de tecnologia Paladium Corp
(atualmente chamada de Pax IA) foram questionados por falta de licitação e
riscos relacionados ao tratamento dos dados pessoais e biométricos da
população.
Em São
Paulo, após apontamentos do Tribunal de Contas do Estado, a parceria de R$ 476
milhões com a empresa — firmada sem licitação — foi rescindida “amigavelmente”
em junho deste ano. Já em Goiás, a Paladium é alvo de uma ação na Justiça: o
contrato de R$ 183 milhões foi suspenso por liminar, mas foi retomado em agosto
após recurso da empresa.
O
principal questionamento estava ligado à ausência de licitação, no entanto, os
contratos nos dois estados podem ter colocado dados sensíveis da população nas
mãos de uma empresa privada — que tem como sócia uma holding nos Estados
Unidos.
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Por que isso importa?
• Programas de videomonitoramento com
câmeras nas ruas têm se expandido nas cidades brasileiras, mas lidam com dados
sensíveis da população, protegidos pela Lei Geral de Proteção de Dados
• Caso reeleito, o governador Tarcísio de
Freitas promete ampliar o Muralha Paulista para as 645 cidades do interior de
São Paulo
• Programa paulista já foi alvo de
críticas por uso sem regulamentação
Os
programas de videomonitoramento têm sido usados por políticos como bandeira
para aprimorar mecanismos de segurança pública – a violência é o tema que mais
preocupa o brasileiro, segundo pesquisas.
Lançado
em 2024, o Muralha Paulista é um dos carros-chefes de Tarcísio. Em seu plano de
governo para uma possível reeleição, o candidato pretende levar a tecnologia
para todos os 645 municípios paulistas. Em Goiás, o vice-governador Daniel
Vilela (MDB), favorito nas pesquisas, também promete a ampliação do IA Contra o
Crime para cidades do interior. A iniciativa começou a ser estruturada na
gestão do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que concorre à presidência.
Não é a
primeira vez que o Muralha Paulista é alvo de críticas. Em 2024, a Agência
Pública revelou que o programa funcionou por mais de um ano e meio sem
regulação. Assim, agentes com acesso ao sistema não tinham limites definidos
quanto ao que podiam fazer com os dados da população. Os programas de
videomonitoramento captam imagens em tempo real por meio de câmeras espalhadas
em lugares públicos e cruzam com bases de dados dos cidadãos, permitindo
consultas a informações sigilosas sem autorização judicial.
Agora,
problema parecido segue acontecendo — mas com os dados sensíveis nas mãos de
uma empresa privada.
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Em Goiás, dados seriam propriedade da empresa
Em maio
deste ano, quando o vice-governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB) decidiu
aprimorar o programa de videomonitoramento IA Contra o Crime, o plano era
ambicioso: ampliar de pouco mais de 400 para quase 5 mil o número de câmeras
nas ruas, distribuídas por 194 cidades do estado. Os equipamentos seriam
conectados a uma plataforma de inteligência artificial capaz de identificar
placas de veículos, fazer reconhecimento facial e cruzar dados biométricos.
Segundo
o Ministério Público de Goiás (MPGO), que entrou com uma ação civil pública
contra a Paladium e a empresa estatal GoTech (antiga GoiásTelecom), responsável
pelo contrato, uma das preocupações era com a base de dados sensíveis da
população goiana, cujos sistemas de dados seriam operados, processados e
tratados pela empresa privada.
A
promotora Leila Maria de Oliveira afirma haver violação e falta de conformidade
com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Ela destaca na ação que os acordos
firmados estabelecem que “toda a tecnologia, software, código-fonte,
algoritmos, arquitetura tecnológica, know-how e demais ativos intelectuais
utilizados na execução do projeto permanecerão de propriedade exclusiva da
Paladium”, sem compartilhamento ou cessão dos direitos a qualquer órgão
público.
“Isso é
grave, pois os dados privados dos cidadãos permanecerão sob a responsabilidade
de uma empresa privada, sem efetivo controle estatal”, escreve Oliveira na
ação, que também critica a ausência de licitação. “Em matéria de
videomonitoramento inteligente com reconhecimento facial, o dano não é apenas
patrimonial; ele alcança a probidade administrativa, a legalidade da atuação
policial, a segurança da informação e direitos fundamentais à proteção de
dados”, completa.
Como a
propriedade intelectual da solução permanece sob domínio exclusivo da Paladium,
em caso de rescisão ou falha de pagamento, a licença seria revogada, gerando um
cenário de dependência tecnológica (“lock-in”), destaca a ação. Inclusive, na
Matriz de Alocação de Riscos, elaborada por funcionários da Secretaria-Geral do
governo de Goiás (SGG) antes da contratação, os técnicos avaliaram como “alto”
o risco de dependência tecnológica.
A
promotora destaca outro ponto de preocupação para argumentar o seu pedido de
liminar de suspensão do contrato. Trata-se do fato de a Paladium ter em seu
quadro societário a Paladium Holdings LLC, com sede na cidade de Wilmington, em
Delaware, nos Estados Unidos, que, segundo a ação, foi “registrada perante as
autoridades brasileiras na condição de investidora”.
“Dessa
forma, a presença de controladora estrangeira, associada à concentração da
propriedade intelectual da solução tecnológica, à ausência de garantias
contratuais e à relevância estratégica dos dados tratados, reforçam a
necessidade de preservação cautelar do interesse público”, escreve na ação.
Segundo Oliveira, região de Delaware já foi indicada por autoridades de
segurança brasileiras como um “paraíso fiscal” do crime organizado.
Oliveira
menciona ainda a suspensão, no Paraná, de um pregão eletrônico para
aprimoramento do programa Olho Vivo – que também usa inteligência artificial
para monitoramento das ruas, veículos e pessoas. O Tribunal de Contas do Paraná
suspendeu o pregão após 35 dias, destacando, entre outros pontos, o risco ao
tratamento de dados pessoais sensíveis da população paranaense.
“Formalizado
o contrato, o tratamento de dados biométricos e comportamentais de cidadãos
passaria a ocorrer de imediato, em larga escala, sem que estejam
suficientemente demonstradas as salvaguardas exigidas pela LGPD [Lei Geral de
Proteção aos Dados]”, escreveu Fernando Augusto Mello Guimarães, conselheiro do
Tribunal de Contas do Paraná. No estado, havia envolvimento da Paladium em
apenas uma das etapas do programa, mas a empresa não participou diretamente do
pregão.
A
exposição de dados sensíveis para empresas privadas é um risco, na avaliação de
Flávia Bernardini, professora de Ciência da Computação da Universidade Federal
Fluminense, sobretudo quando há laços corporativos com empresas estrangeiras, o
que compromete a soberania brasileira dos dados de seus cidadãos.
“A
gente está simplesmente pegando nossos dados sensíveis de pessoas físicas
brasileiras e dando para outro país, sabe-se lá para quê”, disse. “Os riscos
são justamente de as pessoas não estarem cientes do porquê os dados delas estão
sendo usados. Tem um risco para o cidadão e também tem um risco para a
soberania nacional”, avaliou.
Visão
também compartilhada pela advogada especialista em direito digital e
tecnologia, Erica Costa. Segundo ela, se o contrato fosse executado pelos
governos ou por empresas estatais, os caminhos do armazenamento e manuseio dos
dados seriam mais claros. “A gente não sabe onde a Paladium está armazenando
esses dados, por quanto tempo e se quando esse contrato acabar, como é que
esses dados vão ser deletados”, analisou.
Procurada,
a Pax IA respondeu que o armazenamento e a governança dos dados ficam sob
responsabilidade da empresa estatal e que a empresa “atua exclusivamente como
operadora dos dados, seguindo as determinações do poder público”. Destaca ainda
que, por obrigação contratual, todos os dados são armazenados no território
nacional.
“Como é
padrão no país, o uso de reconhecimento facial é restrito à localização de
pessoas com mandado de prisão em aberto e de pessoas desaparecidas, e o acesso
é limitado a policiais com perfil de inteligência formalmente autorizados. A
Pax utiliza a mesma tecnologia de reconhecimento facial adotada pela Polícia
Federal”, afirma a nota da empresa, destacando que nenhuma decisão é tomada
pela plataforma: toda identificação exige confirmação humana de agente público,
registrada e auditável.
A Pax
diz ainda que “os projetos preveem inúmeras salvaguardas relativas ao
tratamento de dados”, o que inclui a implementação de política de segurança da
informação (com exclusão periódica de dados), adoção de criptografia, controle
de acesso baseado em perfis, autenticação multifator, e auditorias regulares de
conformidade com a LGPD, entre outras.
Questionado
pela reportagem, o governo de Goiás respondeu pela Gootech, e disse que os
dados captados “ficarão armazenados no Brasil”, por meio de um data center
contratado pela estatal. Além disso, “todo acesso é monitorado pelo sistema e
logs de acesso são guardados, de tal forma que toda ação praticada no sistema
seja rastreável”. “É importante salientar também que os dados não ficam
armazenados indefinidamente: os dados brutos são descartados após 15 dias de
armazenamento”, diz a nota.
O
governo do Paraná disse que os questionamentos feitos pelo Tribunal de Contas
do Estado relacionados ao processo de licitação para a ampliação do projeto,
que prevê a aquisição de aproximadamente 20 mil novas câmeras, estão sendo
respondidos pela Superintendência-Geral de Governança de Serviços e Dados.
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Em São Paulo, plano apresentado era ‘genérico demais’
Em São
Paulo, a empresa chegou ao Muralha Paulista por meio de uma parceria com a
empresa estatal Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo
(Prodesp), em uma contratação que ocorreu por dispensa de licitação. O governo
paulista, na ocasião, destinou R$ 476 milhões à estatal para aprimorar o
programa. A Prodesp, por sua vez, terceirizou a execução do serviço e
subcontratou a Paladium para fornecer a tecnologia.
O
Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) abriu uma apuração após
denúncias de supostas irregularidades na contratação, que foi firmada por meio
de uma “parceria em oportunidade de negócio”.
Na
avaliação do conselheiro Dimas Ramalho, do TCE, o plano de negócios apresentado
à parceria era “genérico demais”: não definia com clareza como os recursos
seriam divididos entre a estatal e a Paladium, tampouco estabelecia critérios
técnicos para determinar essa divisão.
A falta
de detalhamento compromete princípios como a transparência e a boa gestão de
recursos públicos, segundo Ramalho. “Nesse sentido, haveria opacidade
financeira e pouca transparência em relação ao real contorno e conteúdo
jurídico do ajuste, impedindo o adequado controle e o exercício de mecanismos
de governança”, argumentou no relatório do TCE-SP.
Assim
como levantado pelos especialistas ouvidos pela Pública, o conselheiro também
alertou para o risco de a Prodesp atuar apenas como uma “mera intermediária”
entre o governo paulista e a empresa privada, permitindo que a Paladium tivesse
acesso a vantagens que, segundo ele, deveriam ser restritas a órgãos públicos.
Diante
dos questionamentos, o TCE-SP notificou a Prodesp, a Paladium e a SSP. Na
sequência, no dia 11 de junho, a pasta de segurança anunciou o fim do acordo
por meio de uma “rescisão amigável”. Após a rescisão, o caso foi arquivado pelo
Tribunal de Contas.
A
celebração dos contratos por meio de estatais intermediadoras – como aconteceu
em São Paulo e Goiás – é classificada pelo professor André Saddy, do curso de
Direito Administrativo da Universidade Federal Fluminense (UFF), como
“triangulação contratual”: uma empresa pública é contratada pelo estado para
prestar determinado serviço e, posteriormente, subcontrata uma empresa privada
para executar a parte dela.
A
manobra não é irregular. “A legislação não impede uma subcontratação de uma
empresa privada para a prestação de um serviço, mas ela estabelece, dependendo
da natureza do serviço, percentuais”, explicou Saddy.
O
problema, no caso de Goiás, estaria na proporção do valor repassado à empresa
de tecnologia. A estatal GoTech recebeu R$ 304 milhões do governo e,
posteriormente, firmou contrato sem licitação com a Paladium, para a qual
repassou quase 60% do valor. Segundo o MPGO, a subcontratação feita pela
estatal goiana não poderia ultrapassar os 30% do valor total.
Por
meio de sua assessoria de imprensa, a Pax AI afirmou que, em São Paulo, “todos
os procedimentos abertos – perante o Tribunal de Contas do Estado e o
Ministério Público – foram arquivados, sem que houvesse qualquer constatação de
irregularidade.” A nota afirma ainda que não recebeu nenhum valor referente a
esta parceria, já que “a remuneração dependia do efetivo desenvolvimento e
comercialização da solução tecnológica” e que cabia à Prodesp.
Em
nota, o Governo de Goiás disse que “não há subcontratação”. O caso, portanto,
seria “uma parceria estratégica vinculada a oportunidade de negócio para, em
comunhão de esforços e de forma associativa”. A resposta ressaltou ainda que
“na oportunidade de negócio, a relação é eminentemente associativa, regulada
pelas regras do direito privado, de forma horizontal e coordenada”.
Por
meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública respondeu que “cancelou em
junho o contrato administrativo com a Prodesp para prestação de serviços de
tecnologia do programa Muralha Paulista”, e que não houve ônus para a pasta. O
órgão afirmou ainda que o cancelamento atendeu a razões técnicas listadas em
despacho e que o Tribunal de Contas do Estado arquivou as representações
relacionadas.
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Capital da empresa se multiplicou em poucos meses
A
Paladium foi fundada em julho de 2024 com capital social de R$ 20. No entanto,
segundo os dados da empresa consultados na Junta Comercial do Estado de São
Paulo (Jucesp), o capital saltou para R$ 212 milhões em dois anos, após a
entrada da Paladium Holdings LLC, o aporte de empresas de tecnologia do Vale do
Silício nos EUA e os três contratos firmados no Brasil.
Três
meses após a sua fundação, a empresa trocou a sua equipe de sócios, chegando ao
seu atual administrador, o empresário David Peixoto dos Santos e a Paladium
Holdings LLC, empresa sediada em Wilmington, Delaware (EUA), cuja sócia
majoritária, representada no Brasil por Sylvia Weiss Chan.
Desde
então, a sócia sediada nos EUA passou a injetar e redistribuir capital em uma
cadência constante, com aportes de R$ 38 milhões e R$ 50 milhões em novembro e
dezembro de 2025, respectivamente. O salto expressivo veio em janeiro de 2026,
quando o capital saltou para R$ 140,2 milhões. Hoje, a empresa acumula R$ 212
milhões.
A
expansão financeira e o crescimento da Paladium permitiram uma contratação de
peso: o ex-delegado da Polícia Federal e ex-secretário de Segurança Pública do
Rio Grande do Sul, Sandro Caron em dezembro de 2025
Em meio
às investigações que corriam em São Paulo, Paraná e Goiás, a empresa conquistou
um aporte de 40 milhões de dólares (R$ 206 milhões) de fundos da Greenoaks e
Benchmark, empresas do Vale do Silício, o principal polo tecnológico do mundo
que abriga as Big Techs como Google e a Meta.
Fonte:
Por Rafael Custódio, em Agência Pública

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