quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Assessora de Flávio Bolsonaro negociou emenda com miliciano condenado no caso Marielle

Uma assessora de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tratou, em 2023, da liberação de emendas parlamentares enviadas pelo senador com o miliciano Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, que foi condenado em fevereiro deste ano pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ).

O montante de R$ 199 mil foi enviado por Flávio a um projeto de futebol do Ifop (Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio), no Rio. A entidade fica localizada no bairro Taquara, uma área de influência do ex-deputado Chiquinho Brazão e do conselheiro do TCE (Tribunal de Contas do Rio de Janeiro) Domingos Brazão –condenados como mandantes da morte de Marielle.

A Polícia Federal vê indícios de desvios de recursos no envio dos repasses. As informações foram inicialmente publicadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, com base em diálogos obtidos pela PF entre Calixto e a assessora de Flávio, Maria de Fátima Bezerra Castro. A Folha de S.Paulo também teve acesso às conversas.

Em nota, a assessoria de Flávio, atualmente candidato à Presidência pelo PL, disse que os repasses foram feitos dentro da lei e seguiram critérios técnicos do Ministério do Esporte.

“A entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei”, afirma.

Os irmãos Brazão foram condenados, cada um, a 76 anos e 3 meses de prisão pelo STF em fevereiro por terem sido os mandantes da morte de Marielle e chefiarem de uma milícia na zona oeste do Rio de Janeiro. Calixto recebeu pena de 9 anos de reclusão por integrar o grupo.

A reportagem entrou em contato com o advogado de Robson Calixto, Gabriel Habib, por mensagem e por ligação nesta segunda-feira (21), mas não houve resposta. Cleber Lopes, que representa Chiquinho, disse que não se manifestaria. A defesa de Domingos Brazão no caso Marille informou que não cuida desse tema relacionado a emendas. O espaço segue aberto para os demais citados.

<><> Conversas

Nos diálogos, coletados de um celular de Calixto em março de 2024, quando ele foi alvo de busca e apreensão no caso Marielle, o miliciano afirma ao contato salvo como “Fafa Flávio Bolsonaro”: “Amiga vê com o nosso Senador se consegue [sic] nos ajudar”.

A assessora do candidato do PL pede que ele mande um email ou um ofício com a solicitação, o que é feito por Calixto. Ela, então, pergunta quando o miliciano iria a Brasília. “Vou em Novembro, será que consegue nos ajudar com alguma coisa?”, respondeu.

Os diálogos entre eles se estenderam até março de 2024, com cobranças de Calixto por “notícias boas” e um pedido para que Flávio Bolsonaro não esquecesse o Ifop. “Vê se o senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto”, diz ele em uma conversa de novembro. “Pode deixar”, afirma a assessora. Dias depois, Mária de Fátima declara que ligaria para Calixto.

“Consultamos as destinações parlamentares e não tinha nada do nosso Senador, porém estamos no aguardo”, escreveu o miliciano em 22 de março de 2024.

Além da negociação envolvendo as mensagens, os registros mostram a funcionária do senador pedindo ingressos para um desfile na Sapucaí. “Joinha!!! Já estou te perturbando rsrsrs será que consegue 4 ingressos pro desfile das campeãs no camarote Arpoador?”, enviou a assessora de Flávio a Calixto.

A solicitação foi classificada pelos investigadores como vantagem indevida.

Em outra troca de mensagens, de outubro de 2023, Maria de Fátima convida o assessor de Chiquinho Brazão para ir a uma cerimônia de entrega de coletes para a Polícia Militar do Rio e cobrar pessoalmente Flávio pela liberação dos recursos. “Leva o deputado”, diz ela a Calixto.

Em julho, a PF deflagrou uma operação sobre suspeitas de desvios de emendas parlamentares destinadas por Chiquinho Brazão a ONGs no Rio, para apurar os crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A investigação, diz a polícia, identificou que parte dos recursos provenientes de emendas parlamentares federais destinados a entidades sem fins lucrativos, que mantinham contratos e parcerias com órgãos da administração pública federal, teria sido desviada mediante pagamentos indevidos, utilização de empresas interpostas e mecanismos destinados a ocultar a origem e o destino dos valores.

•        Quem é o miliciano que negociou emenda com assessora de Flávio Bolsonaro

revelação de que o gabinete do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) negociou o direcionamento de verbas públicas articuladas por um operador da milícia fluminense colocou no centro dos holofotes nacionais a figura de Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”. O escândalo emergiu com os desdobramentos da Operação Emendatio da Polícia Federal, que interceptou mensagens trocadas em 2023 no celular do miliciano. A apuração detalhou que Peixe manteve diálogo direto com Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar do senador, usando de sua proximidade para negociar o envio de verbas federais a áreas sob controle de seu grupo armado.

A articulação resultou no envio de uma emenda parlamentar assinada por Flávio Bolsonaro no valor exato de R$ 199.999,79 para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), localizado na Taquara, Zona Oeste do Rio. Sob o pretexto oficial de financiar o projeto de futebol infantil “Jogadores do Futuro”, uma auditoria técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) e da PF descobriu que o dinheiro foi integralmente desviado. O montante acabou repassado para um escritório de advocacia pertencente aos próprios donos da entidade por meio de contratos de fachada e simulação de concorrência. Como contrapartida pela facilitação do recurso, mensagens interceptadas mostraram a assessora de Flávio cobrando de Peixe quatro ingressos de camarote no Sambódromo durante o Carnaval carioca, configurando forte suspeita de vantagem indevida.

Para compreender como um operador do crime organizado obteve livre trânsito e capacidade de barganha junto ao gabinete de um senador da República, é preciso examinar a trajetória de Robson Calixto Fonseca no ecossistema do crime de “colarinho branco” do Rio de Janeiro.

<><> Do crime organizado ao gabinete de Flávio Bolsonaro

Ex-policial militar, miliciano e operador político-financeiro, Peixe foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no início de 2026 a uma pena de 9 anos de prisão em regime fechado. A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal o classificaram como o braço operacional e o principal elo político da organização criminosa armada chefiada pelos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão. Sua marca registrada sempre foi a capacidade de circular com extrema facilidade entre as forças de segurança, as estruturas formais do Estado e as lideranças paramilitares da Zona Oeste.

Foi nas comunidades de Rio das Pedras e da Taquara, consideradas o berço do milicianismo fluminense, que Peixe consolidou seu poder. Longe de ser um mero homem de frente focado no confronto armado, ele exercia funções estratégicas de logística, finanças e articulação. Relatórios de investigação e delações premiadas, como a do ex-PM Ronnie Lessa, revelam que Peixe comandava o mercado imobiliário clandestino em Jacarepaguá, chefiando esquemas de grilagem de terras, loteamentos irregulares e construções ilegais cujos lucros irrigavam a estrutura da milícia, além de gerenciar redes de extorsão contra comerciantes e agiotagem. No plano bélico, Lessa o apontou como o intermediário original na busca por armamentos pesados, incluindo a submetralhadora HK MP5 utilizada nos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018.

Para garantir trânsito livre nos bastidores do poder e revestir suas atividades criminosas com uma fachada de legalidade, Calixto acumulava cargos públicos. Enquanto mantinha o status de policial militar, atuou por anos como assessor de extrema confiança de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). Era desse gabinete oficial que ele articulava as demandas da milícia e estabelecia pontes com diversos agentes políticos. Mesmo após o assassinato de Marielle Franco e o cerco policial contra os Brazão, Peixe permaneceu ativo no “crime institucionalizado”, especializando-se na captação de recursos públicos para alimentar os currais eleitorais do grupo.

Atualmente, enquanto Calixto cumpre sua pena em regime fechado pela condenação no caso Marielle Franco, as novas descobertas sobre o desvio da emenda geraram desdobramentos jurídicos e políticos de grande impacto em Brasília. Partidos de oposição acionaram a PGR para apurar o nível de conhecimento e envolvimento direto do senador Flávio Bolsonaro sobre as tratativas de sua assessora com o miliciano. Por sua vez, a defesa do parlamentar sustenta que a indicação da emenda seguiu critérios estritamente técnicos e que a fiscalização da aplicação do dinheiro competia aos órgãos de controle e ao Ministério do Esporte.

•        Partidos vão à PGR por ligação de Flávio Bolsonaro e miliciano envolvido na morte de Marielle

A bancada do PSOL na Câmara acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para pedir o aprofundamento das investigações sobre a relação entre o senador e Robson Calixto, conhecido como Peixe, apontado como homem de confiança de Domingos Brazão e condenado no processo relacionado ao assassinato da vereadora Marielle Franco.

O líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), pediu ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determine uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) em todas as emendas parlamentares destinadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a entidades do terceiro setor no Rio de Janeiro desde 2019.

As duas iniciativas têm como ponto de partida uma emenda de R$ 199 mil destinada, em novembro de 2023, ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), investigado na Operação Emendatio.

Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Calixto mostram tratativas entre ele e uma assessora de Flávio Bolsonaro, Maria de Fátima Bezerra Castro, relacionadas à liberação dos recursos. Os registros indicam que a verba foi transferida ao instituto em 29 de novembro de 2023.

Segundo reportagem do Estadão, a assessora também teria solicitado a Calixto quatro ingressos para um camarote no desfile das escolas campeãs do Carnaval do Rio. A investigação trata o pedido como possível vantagem indevida, sem que o material divulgado confirme a entrega dos ingressos.

O Ifop já era alvo de apurações de órgãos de controle. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), incorporada ao inquérito da PF, identificou pagamentos realizados pelo instituto a um escritório de advocacia pertencente aos próprios dirigentes da entidade. O fato é tratado pelos investigadores como possível indício de desvio de finalidade dos recursos públicos.

Diante desse cenário, Uczai pediu ao STF que sejam obtidos os documentos relativos ao repasse e que a CGU examine as demais emendas destinadas por Flávio Bolsonaro a organizações do terceiro setor no Rio de Janeiro. O deputado também solicitou que sejam avaliadas medidas para suspender novas parcerias e transferências ao Ifop e a outras entidades investigadas até a conclusão das auditorias.

Já o PSOL pede que Flávio Bolsonaro seja ouvido pela PGR para esclarecer se tinha conhecimento das conversas entre seus assessores e Calixto, se participou direta ou indiretamente da escolha e liberação dos recursos e se manteve contato com o miliciano, representantes das entidades ou outros intermediários.

A bancada também quer saber quem indicou as instituições beneficiadas, se houve orientação ou autorização do senador para que seu gabinete negociasse a destinação das verbas e se ele tinha conhecimento sobre a aplicação dos recursos e a prestação de contas.

Uczai, por sua vez, solicitou o encaminhamento das informações à PF, à PGR e ao ministro Alexandre de Moraes, relator da Operação Emendatio.

Flávio Bolsonaro não é alvo dos mandados da operação e afirma que a destinação das emendas seguiu a legislação e os critérios técnicos estabelecidos pelo Ministério do Esporte. O senador também sustenta que a execução dos recursos é responsabilidade das entidades beneficiárias e que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle.

•        Perfis estrangeiros fazem posts pagos no X sobre suposto favoritismo de Flávio, diz site

Publicações patrocinadas no X em apoio à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República foram feita por contas registradas fora do Brasil fizeram p. Os posts usam previsões da plataforma Polymarket para apresentar Flávio como favorito na disputa. O próprio X identifica as publicações como Paid Partnership, ou “Parceria paga”. As informações são do Metrópoles.

A legislação brasileira restringe o impulsionamento de propaganda eleitoral por terceiros. A Lei das Eleições também proíbe que partidos e candidatos recebam, direta ou indiretamente, recursos de origem estrangeira.

<><> Posts usam Polymarket

Um levantamento do site Factchequeado identificou 13 publicações patrocinadas pela Polymarket no X entre março e maio deste ano. Segundo a análise, 11 traziam mensagens favoráveis a políticos de direita ou críticas a nomes da esquerda.

No Brasil, uma das publicações afirmou que Flávio havia ultrapassado Lula  nas previsões da Polymarket e apresentou o movimento como sinal de favoritismo eleitoral. A mesma estratégia foi identificada em conteúdos sobre candidatos da Colômbia e do Peru.

Desde junho de 2025, a Polymarket é parceira oficial de previsões de mercado do X.

<><> Relação com Trump Jr.

Donald Trump Jr., filho do presidente dos Estados Unidos, é investidor da Polymarket por meio da empresa 1789 Capital e integra o conselho consultivo da plataforma desde 2025. A entrada ocorreu após um aporte do fundo.

Em abril deste ano, o governo brasileiro bloqueou o acesso à Polymarket e a outros mercados de previsão, sob o argumento de que as plataformas não tinham autorização para oferecer contratos ou apostas no país envolvendo política e eleições.

<><> Repercussão entre bolsonaristas

Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, republicou no X algumas das publicações patrocinadas sobre o desempenho do senador na Polymarket. Perfis bolsonaristas também compartilharam os conteúdos e repetiram a frase “vai ser no primeiro turno”.

Entre os perfis que reproduziram as publicações estão os de Mário Frias (PL-SP), Lucas Pavanato (PL-SP) e Allan dos Santos. A repetição das mensagens, porém, não comprova por si só a existência de uma ação coordenada entre as contas.

 

Fonte: Folhapress

 

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