Desigualdade
também é uma escolha
Mais de
40% de toda a riqueza criada no mundo neste século fluiu para o 1% mais rico da
população. À metade mais pobre da humanidade – cerca de 4 bilhões de pessoas –
coube apenas 1%. Já no Brasil os dados apontam que 37,3% da riqueza declarada
está com o 1% mais rico.
A
desigualdade não é inevitável; ela resulta de escolhas. Escolhas sobre quem
paga impostos e quem recebe benefícios fiscais; sobre quanto investimos em
saúde, educação, proteção social, transporte, infraestrutura urbana e acesso a
direitos; sobre as condições de trabalho; sobre quem participa das decisões e
quem permanece à margem delas.
Se
escolhas políticas ajudam a produzir desigualdade, elas também podem reduzi-la.
Mas fazer escolhas melhores exige, antes de tudo, compreender melhor o
problema: sua escala, suas diferentes dimensões, suas causas e as políticas
capazes de enfrentá-lo.
É por
isso que consideramos tão importante a proposta de criação do Painel
Internacional sobre Desigualdade (International Panel on Inequality, IPI, na
sigla em inglês), uma iniciativa liderada pelo professor Joseph Stiglitz, que
será apresentada às Nações Unidas no próximo dia 23 de setembro. Brasil, África
do Sul, Noruega e Espanha estão entre os países que defendem a iniciativa.
A
proposta é criar uma estrutura científica internacional e independente, capaz
de sistematizar evidências sobre as desigualdades, acompanhar sua evolução e
aproximar a produção de conhecimento das políticas públicas e da governança
global. A iniciativa nasce reunindo especialistas de diferentes regiões e
disciplinas, vinculados a instituições de referência na produção de
conhecimento e no apoio à formulação de políticas públicas.
A
experiência da crise climática oferece um precedente importante. Ao reunir e
avaliar conhecimento científico produzido em diferentes países, o Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) contribuiu para
estabelecer uma base comum de evidências para o debate internacional. A
desigualdade, pela dimensão alarmante que alcançou e pelos impactos que produz,
também exige uma capacidade permanente e coordenada de diagnóstico.
Mas a
importância de um painel dessa natureza dependerá não apenas das perguntas que
formular, mas também de quem terá voz na produção das respostas.
O
debate global sobre desigualdade precisa refletir muito mais a experiência do
Sul Global e das populações mais afetadas por ela. Países que convivem há
décadas com desigualdades extremas – e, sobretudo, as pessoas e comunidades que
as vivenciam diretamente – não podem ser tratados apenas como objetos de estudo
ou fontes de dados. Devem participar da definição das agendas de pesquisa, das
metodologias e das interpretações. Incorporar essas perspectivas não é apenas
uma questão de representatividade: é condição para compreender como as
desigualdades são produzidas, como se manifestam em diferentes contextos e
quais respostas têm maior possibilidade de transformá-las.
O
Brasil tem uma trajetória importante de políticas de combate à pobreza e à
fome, ampliação do acesso a serviços e garantia de direitos. Durante sua
presidência do G20, ajudou a colocar a fome, a pobreza e as desigualdades no
centro da agenda internacional. Nos últimos anos, políticas públicas
contribuíram para que o país saísse novamente do Mapa da Fome e alcançasse os
menores níveis de pobreza e desigualdade de renda de suas séries históricas. O
país também criou o ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial, incorporando
explicitamente a mensuração e o enfrentamento das desigualdades raciais à sua
implementação da Agenda 2030.
Mas o
Brasil e a América Latina continuam profundamente desiguais, e a concentração
de riqueza permanece um desafio central. Essa é também uma questão global: em
diferentes sociedades, gênero, classe, raça e etnia se combinam com
desigualdades territoriais – entre regiões, cidades e zonas rurais, centros e
periferias – de maneiras distintas. Incorporar essas dimensões é essencial para
entender quem é mais afetado pela desigualdade e quais políticas podem
efetivamente reduzi-la.
Avançamos
muito na produção de conhecimento capaz de orientar políticas de redução das
desigualdades. Ainda assim, persistem lacunas e divergências sobre suas causas,
seus efeitos e as respostas mais eficazes. No Brasil, avançar nesse
conhecimento significa recorrer também à experiência de gestores públicos,
pesquisadoras e pesquisadores, movimentos sociais e organizações que há décadas
ajudam a compreender como renda, raça, gênero e território se combinam na
produção das desigualdades — inclusive na experiência de mulheres negras, povos
indígenas e populações de territórios historicamente marginalizados, sobre os
quais diferentes desigualdades frequentemente se sobrepõem.
O
Brasil tem muito a oferecer. Dispõe de instituições públicas de pesquisa
reconhecidas, ampla produção acadêmica, sistemas de dados e estatísticas,
experiência acumulada em políticas de redução das desigualdades e uma sociedade
civil ativa. Ao participar desde o início da construção do IPI, o país tem
condições de exercer um papel de liderança em sua consolidação.
Para
isso, será importante sustentar um forte apoio brasileiro ao IPI e, ao mesmo
tempo, articular governo, universidades, instituições de pesquisa e sociedade
civil em torno dessa agenda. O Brasil já conta com iniciativas importantes,
como o Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades e seu Observatório
Brasileiro das Desigualdades. A construção do IPI pode também servir de impulso
para fortalecer os instrumentos domésticos de enfrentamento às desigualdades,
estabelecendo metas mais claras, aprimorando sua mensuração e avaliando de
forma mais sistemática como as principais políticas públicas contribuem para
reduzi-las.
Essa
articulação entre as dimensões nacional e internacional é especialmente
importante. O Brasil pode trazer para o país conhecimento produzido em outras
partes do mundo e, ao mesmo tempo, levar ao debate global perguntas, evidências
e experiências que nascem da realidade brasileira.
Evidentemente,
nenhum painel científico substituirá a política. Não cabe à ciência decidir
quais impostos cobrar, onde investir recursos públicos ou quais direitos uma
sociedade deseja assegurar. Mas cabe a ela mostrar, com independência e rigor,
as consequências dessas escolhas: quem ganha, quem perde e quais desigualdades
são reduzidas ou aprofundadas. O IPI poderá ajudar a construir uma base comum
de evidências, identificar onde existem consensos e tornar mais claras as
questões sobre as quais ainda há incerteza ou divergência.
A
criação do IPI oferece ao mundo uma oportunidade de tratar a desigualdade com a
urgência, o rigor científico e a cooperação internacional que sua dimensão
exige. O Brasil já está ajudando a construir essa resposta. Agora, pode
contribuir decisivamente para sua consolidação e, ao mesmo tempo, avançar na
construção de instrumentos nacionais ainda mais robustos para enfrentar suas
próprias desigualdades. Ao fazê-lo, leva ao centro do debate global o
conhecimento, as experiências e as vozes de uma sociedade que conhece
profundamente as consequências da desigualdade – e a possibilidade de
transformá-la.
Fonte:
Por Viviana Santiago, Jayati Ghosh e
Adriana Abdenur , no Le Monde

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