quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Eleições: A juventude virou conservadora?

Apesar da maioria se declarar de direita, pesquisas mostram que jovens desejam Estado que garanta políticas de emprego. Sonha com prosperidade, sabotada por ajustes fiscais que pouco compreendem. Mas esquerda se perde porque deixou de disputar agenda econômica...

<><> O falso moralismo e a disputa da racionalidade cotidiana

É tão difícil assim disputar a racionalidade econômica com o neoliberalismo?

A lógica da extrema-direita convence. Ela faz sentido na pele de quem acorda às 5h da manhã. E talvez o maior erro do campo progressista tenha sido transformar essa disputa de narrativas numa queda de braço moral ou num debate de conceitos que, à primeira vista, parecem distantes e abstratos para quem está tentando sobreviver ao mês.

Teimamos em levar a conversa para um lugar que simplesmente não conversa com as aflições reais da maioria das pessoas. Quando não nos prendemos a um jargão técnico insulado, caímos no vício de tratar quem discorda de nós como ignorante, alienado ou fascista. Agimos como se a nossa única função política fosse “resgatar os ignorantes da caverna” platônica ou, em um impulso punitivo, simplesmente atear fogo no suposto fascista.

Enquanto nos ocupamos desse moralismo higienista, nos escapa o óbvio: na materialidade do dia a dia, na revolta diária de quem vê a renda ser corroída antes do dia 15, a extrema-direita tem oferecido respostas. São respostas muitas vezes falseadas, baseadas no ódio e numa pseudo-racionalidade meritocrática, mas são respostas simples, objetivas e sedutoras. Do outro lado, a esquerda tradicional frequentemente oferece apenas um saudosismo de conquistas passadas, a defesa burocrática do status quo e um aparente contentamento com pequenas políticas públicas pontuais, sem jamais demandar ou pautar as reformas estruturais que o tempo presente exige.

<><> A juventude não virou conservadora; ela só quer sonhar

Não se trata de um “surto conservador” inexplicável. Quando olhamos para as pesquisas récem-divulgadas pelo Projeto Brief, a radiografia da juventude brasileira revela um retrato muito mais complexo e pragmático do que a caricatura do “jovem fascistizado”.

É verdade que 38% dos jovens brasileiros hoje se declaram de direita e 17% se identificam abertamente com a extrema-direita, enquanto apenas 18% se dizem de esquerda, uma fatia menor do que em ciclos eleitorais anteriores. No entanto, o maior bloco, expressivos 44%, se declara de centro, sinalizando uma rejeição sumária a rótulos ideológicos clássicos e filiações partidárias.

Há um cansaço estrutural: 57% dos jovens não confiam em partidos políticos e 49% acreditam que a democracia poderia funcionar sem eles. Quando 58% afirmam preferir um “líder forte” às instituições tradicionais, ou quando 3 em cada 10 passam a admitir saídas autoritárias, isso não é necessariamente o desejo intrínseco pela ditadura, mas sim o sintoma gritante de uma profunda fadiga institucional com a ineficácia do sistema atual. A grande maioria (66%) ainda defende a democracia como ideal, mas exige que ela entregue resultados concretos.

E quais são esses resultados? Para 61% dos jovens, os principais problemas do país são a pobreza, o desemprego e a falta de acesso a direitos. Mais revelador ainda: 55% defendem que o Estado deve ser o garantidor de políticas de emprego, uma bandeira historicamente progressista que encontra eco inclusive entre aqueles jovens que se dizem de direita.

Portanto, o jovem de 20 anos que critica a CLT ou desacredita da carteira assinada não precisa de uma aula paternalista de história sobre a Era Vargas. Ele precisa ser compreendido.

Esse jovem tem desejos materiais concretos e legítimos: moradia digna, transporte com qualidade, direito ao lazer, poder de consumo e autonomia. Quando ele olha para a CLT hoje, o que enxerga não é a proteção social romantizada nos livros de história, mas a promessa de jornadas exaustivas e salários que mal cobrem o aluguel e o mercado. A sua alternativa passa a ser sonhar com o empreendedorismo ou com a flexibilidade da “autonomia”, porque esse sonho de prosperidade simplesmente não parece caber nas estruturas rígidas e precarizadas que a esquerda insiste em defender sem propor melhorias.

O mesmo fenômeno ocorre no campo da educação. Há um descrédito crescente em relação ao ensino superior e à pós-graduação. De nada adianta panfletar a importância da universidade para a “formação da cidadania” ou citar os dados do recente relatório Education at a Glance (OCDE), que mostram que quem tem diploma no Brasil chega a ganhar, em média, 150% a mais do que quem concluiu apenas o ensino médio. Esse dado estatístico, por si só, vira uma abstração fria diante da realidade sentida nas ruas.

O jovem observa ao seu redor os escombros da promessa da mobilidade social: dezenas de diplomados pela expansão das universidades federais, Prouni e Fies que hoje estão desempregados, sublocados, endividados ou pilotando aplicativos de transporte. Em um país que transforma talentos científicos e graduados em motoristas de Uber, qual é o incentivo real para passar quatro anos estudando, dormindo pouco e comprometendo a renda?

Pior: a mesma pesquisa da OCDE aponta que 24% dos jovens brasileiros de 18 a 24 anos estão na condição de NEET (não estudam, não trabalham e não estão em treinamento), uma taxa devastadora quando comparada à média de 14% dos países ricos. Entre as jovens mulheres, o número assustador chega a 29%. São milhões de vidas em um limbo produtivo e existencial.

E para aqueles que tentam a sorte no mercado, a macroeconomia atua como um teto de vidro. Como sonhar com a casa própria ou em abrir o próprio negócio quando a taxa de juros permanece cronicamente na casa dos dois dígitos? A alta dos juros e o encarecimento do crédito imobiliário adiam indefinitivamente o sonho do primeiro imóvel para a esmagadora maioria. Na melhor das hipóteses, sob uma ótica urbana e paulistana do privilégio, a conquista se resume a ficar confinado em microapartamentos de qualidade construtiva duvidosa, pagando o dobro do valor original em juros para o sistema financeiro ao longo de 30 anos. Para a maioria esmagadora do país, nem esse microapartamento é uma realidade acessível; a moradia continua sendo o fantasma do aluguel ou a ocupação precarizada. O mesmo vale para quem tenta comprar um veículo de trabalho: paga-se o dobro do preço por conta dos juros, para ver o bem depreciar em dois anos.

Se a extrema-direita cresce nessa lacuna, não é porque o jovem virou fascista da noite para o dia. É porque, vendendo a ilusão do indivíduo contra o sistema, a extrema-direita capturou o direito de permitir que a juventude volte a sonhar com a melhora de vida. E nós? Continuaremos sendo os defensores da manutenção de um status quo sufocante e de um passado que já não atende ao presente?

<><> O passado não basta e o coração da disputa: política fiscal e monetária na vida real

Não se trata, de forma alguma, de abandonar a história ou apagar os avanços inegáveis dos governos do PT, que tiraram milhões da extrema miséria, democratizaram o consumo e expandiram o acesso às universidades. Mas precisamos encarar a realidade sem rodeios: o que foi feito no passado já não basta para responder ao presente.

Pesquisas globais sobre confiança no futuro apontam um sinal de alerta dramático no Brasil. Hoje, apenas 55% dos brasileiros acreditam que seus filhos terão uma vida melhor do que a deles. Embora o país ainda conserve um sopro de esperança maior do que nações centrais como os Estados Unidos (41%) ou a França (34%), o dado marca uma queda acentuada na crença histórica da mobilidade social ascendente. O diagnóstico de quem vive no Brasil de hoje é claro: há baixo crescimento econômico, escassez de empregos de qualidade, desigualdade persistente e um estrangulamento na formação profissional.

Esta é a primeira geração em décadas que olha para o amanhã com medo de andar para trás. É nessa ausência de perspectiva que a extrema-direita se instala. E quando a esquerda se limita a defender o passado de forma ufanista, sem acolher a dor do presente, ela se torna reativa, cética e sem projeto de futuro.

Para mudar esse jogo, precisamos trazer a disputa econômica para a mesa do café da manhã. E isso exige desarmar as armadilhas teóricas do neoliberalismo que hoje operam como se fossem senso comum:

<><> A falácia da Austeridade Fiscal e o custo concreto do “superávit”

Imprimiu-se no imaginário coletivo a metáfora simplista de que “o governo funciona como a casa da gente e não pode gastar mais do que ganha”. Trata-se de um dogma neoliberal devastador, infelizmente assimilado até por setores progressistas ao defenderem travas rígidas de gastos e metas obsessivas de superávit primário.

A pesquisa do Projeto Brief expõe uma profunda contradição nessa consciência social: se por um lado 55% dos jovens, inclusive a maioria dos jovens de direita, defendem que o Estado deve ser o garantidor de políticas de emprego, há um enorme abismo de compreensão sobre como a austeridade funciona. Quando a sociedade aceita passivamente que o Estado precisa “cortar gastos”, ela está autorizando a destruição das próprias travas e instrumentos que geram empregos.

É preciso explicitar o óbvio contábil que a Faria Lima esconde: o superávit primário do Estado nada mais é do que o déficit do setor privado. Quando o governo retira dinheiro da circulação para fazer caixa e pagar juros da dívida, ele está drenando a renda das famílias e o faturamento das empresas.

A austeridade fiscal não é neutra; ela tem cor, gênero e endereço. A história recente do Brasil provou que quando o investimento público cresceu, reduzindo o abismo de renda entre homens e mulheres, brancos e negros, o gasto do governo serviu como indutor: aumentou a renda das famílias, que consumiram mais, fazendo o investimento privado das empresas crescer a reboque.

Em contrapartida, quando o Estado impõe bloqueios e teto de gastos na saúde, na educação e no combate à desigualdade, quem paga a conta desproporcionalmente são as mulheres. Na ausência de creches em tempo integral, postos de saúde estruturados e redes estatais de apoio a idosos e pessoas com deficiência, o Estado transfere a conta do bem-estar social para o trabalho não remunerado de cuidado dentro de casa. Isso empurra milhões de mulheres para fora do mercado de trabalho ou as submetem a duplas e triplas jornadas exaustivas.

Além disso, fala-se muito na necessidade de formar “capital humano”, mas do que adianta formar cientistas e técnicos em universidades públicas se o garrote fiscal proíbe o Estado de investir em infraestrutura, indústria de transição ecológica, logística e tecnologia capaz de absorver esses cérebros? Sem investimento público, o capital humano formado vira mão de obra qualificada sem mercado, engrossando a fila dos aplicativos.

O investimento público de qualidade em infraestrutura e ciência não é despesa: é o que cria demanda, eleva a produtividade e viabiliza o empreendedorismo real. O pequeno negócio de bairro só prospera se a população local tiver salário no bolso para consumir. O salário e o investimento governamental precisam voltar a ser vistos como motor da economia, e não como um “custo” a ser esmagado.

<><> A agiotagem institucional da Taxa de Juros

Da mesma forma, a política monetária não pode continuar sendo um feudo inexpugnável de burocratas e operadores do mercado financeiro. A taxa de juros esfola a sociedade e precisa aparecer no debate público como uma pauta de sobrevivência popular.

Hoje, cerca de 40% do orçamento das famílias brasileiras está comprometido exclusivamente com o pagamento e serviço de dívidas. Essa renda sequestrada pelos juros altos do cartão de crédito, do cheque especial e dos empréstimos consignados é dinheiro que deixa de ir para a feira, para o vestuário, para o lazer ou para o comércio local.

Sob o pretexto de “combater a inflação”, a taxa de juros em patamares abusivos paralisa a economia real por dois lados: sufoca o poder de compra dos consumidores e inviabiliza o crédito produtivo para o micro e pequeno empresário, que não consegue tomar empréstimo para expandir seu negócio ou modernizar sua produção.

O escândalo da assimetria neoliberal fica evidente no tratamento conferido às duas pontas: enquanto o trabalhador comum tem seu nome negativado e corre o risco de perder bens por dívidas irrisórias, grandes corporações, bilionários e multinacionais acumulam passivos bilionários que são perdoados, anistiados e renegociados dezenas de vezes através de subsídios e refis exclusivos.

A disputa pela taxa de juros e pelo fim da austeridade não é uma discussão acadêmica estéril; é a luta direta pelo preço do aluguel, pelo valor da comida e pela chance real de o brasileiro voltar a planejar a própria vida.

<><> A eleição que se aproxima e a arena do possível

Estamos às vésperas de uma eleição crucial e não podemos cair na armadilha cínica do “tanto faz”. Não é tanto faz.

De um lado, a candidatura da extrema-direita, personificada na figura de Flávio Bolsonaro, representa a aceleração brutal dessa mesma agenda neoliberal: mais austeridade, mais desmonte de serviços públicos, privatização de direitos básicos e o esmagamento definitivo da capacidade do Estado de induzir o desenvolvimento. Essa saída aprofunda a barbárie e entrega a juventude ao desamparo total, mascarado sob o disfarce mítico do “empreendedorismo salvador” e da viração individual.

A vitória do campo democrático liderado por Lula é fundamental porque garante a manutenção da própria arena onde a democracia e a disputa política ainda são possíveis. No entanto, é preciso dizer com absoluta clareza: a eleição do campo progressista é apenas o ponto de partida, jamais a linha de chegada.

O trágico é observar que, ao longo do atual mandato, o próprio governo parece ter capitulado no campo das ideias. Em vez de disputar a narrativa econômica com a sociedade, abraçou o arcabouço fiscal, conviveu com a manutenção de juros extorsivos e viu seu próprio Ministério da Fazenda adotar a retórica do mercado, acenando frequentemente para a necessidade de “apertar ainda mais os cintos”. Fala-se em limites de correlação de forças no Congresso, o que é uma realidade inegável, mas o erro crasso reside em sequer fazer a disputa pública sobre o papel do Estado.

Se o governo continuar encastelado na responsabilidade fiscal ortodoxa, na conciliação tática com o mercado financeiro e na simples retórica de saudades do passado, continuará alimentando exatamente o caldo de cultura que faz a extrema-direita florescer.

Nossa juventude não é fascista nem conservadora por natureza; ela está desesperada por um futuro digno e por horizontes reais. Se o neoliberalismo colonizou até a nossa própria imaginação econômica a ponto de acreditarmos que “não há alternativa”, cabe a nós provar o contrário. O Estado forte, o investimento público indutor e a garantia de direitos não são relíquias ultrapassadas do século XX, mas as únicas ferramentas capazes de devolver à sociedade o direito de sonhar, projetar e realizar o amanhã.

 

Fonte: Por Iago Chaves, em Outras Palavras

 

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