Eleições:
A juventude virou conservadora?
Apesar
da maioria se declarar de direita, pesquisas mostram que jovens desejam Estado
que garanta políticas de emprego. Sonha com prosperidade, sabotada por ajustes
fiscais que pouco compreendem. Mas esquerda se perde porque deixou de disputar
agenda econômica...
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O falso moralismo e a disputa da racionalidade cotidiana
É tão
difícil assim disputar a racionalidade econômica com o neoliberalismo?
A
lógica da extrema-direita convence. Ela faz sentido na pele de quem acorda às
5h da manhã. E talvez o maior erro do campo progressista tenha sido transformar
essa disputa de narrativas numa queda de braço moral ou num debate de conceitos
que, à primeira vista, parecem distantes e abstratos para quem está tentando
sobreviver ao mês.
Teimamos
em levar a conversa para um lugar que simplesmente não conversa com as aflições
reais da maioria das pessoas. Quando não nos prendemos a um jargão técnico
insulado, caímos no vício de tratar quem discorda de nós como ignorante,
alienado ou fascista. Agimos como se a nossa única função política fosse
“resgatar os ignorantes da caverna” platônica ou, em um impulso punitivo,
simplesmente atear fogo no suposto fascista.
Enquanto
nos ocupamos desse moralismo higienista, nos escapa o óbvio: na materialidade
do dia a dia, na revolta diária de quem vê a renda ser corroída antes do dia
15, a extrema-direita tem oferecido respostas. São respostas muitas vezes
falseadas, baseadas no ódio e numa pseudo-racionalidade meritocrática, mas são
respostas simples, objetivas e sedutoras. Do outro lado, a esquerda tradicional
frequentemente oferece apenas um saudosismo de conquistas passadas, a defesa
burocrática do status quo e um aparente contentamento com pequenas políticas
públicas pontuais, sem jamais demandar ou pautar as reformas estruturais que o
tempo presente exige.
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A juventude não virou conservadora; ela só quer sonhar
Não se
trata de um “surto conservador” inexplicável. Quando olhamos para as pesquisas
récem-divulgadas pelo Projeto Brief, a radiografia da juventude brasileira
revela um retrato muito mais complexo e pragmático do que a caricatura do
“jovem fascistizado”.
É
verdade que 38% dos jovens brasileiros hoje se declaram de direita e 17% se
identificam abertamente com a extrema-direita, enquanto apenas 18% se dizem de
esquerda, uma fatia menor do que em ciclos eleitorais anteriores. No entanto, o
maior bloco, expressivos 44%, se declara de centro, sinalizando uma rejeição
sumária a rótulos ideológicos clássicos e filiações partidárias.
Há um
cansaço estrutural: 57% dos jovens não confiam em partidos políticos e 49%
acreditam que a democracia poderia funcionar sem eles. Quando 58% afirmam
preferir um “líder forte” às instituições tradicionais, ou quando 3 em cada 10
passam a admitir saídas autoritárias, isso não é necessariamente o desejo
intrínseco pela ditadura, mas sim o sintoma gritante de uma profunda fadiga
institucional com a ineficácia do sistema atual. A grande maioria (66%) ainda
defende a democracia como ideal, mas exige que ela entregue resultados
concretos.
E quais
são esses resultados? Para 61% dos jovens, os principais problemas do país são
a pobreza, o desemprego e a falta de acesso a direitos. Mais revelador ainda:
55% defendem que o Estado deve ser o garantidor de políticas de emprego, uma
bandeira historicamente progressista que encontra eco inclusive entre aqueles
jovens que se dizem de direita.
Portanto,
o jovem de 20 anos que critica a CLT ou desacredita da carteira assinada não
precisa de uma aula paternalista de história sobre a Era Vargas. Ele precisa
ser compreendido.
Esse
jovem tem desejos materiais concretos e legítimos: moradia digna, transporte
com qualidade, direito ao lazer, poder de consumo e autonomia. Quando ele olha
para a CLT hoje, o que enxerga não é a proteção social romantizada nos livros
de história, mas a promessa de jornadas exaustivas e salários que mal cobrem o
aluguel e o mercado. A sua alternativa passa a ser sonhar com o
empreendedorismo ou com a flexibilidade da “autonomia”, porque esse sonho de
prosperidade simplesmente não parece caber nas estruturas rígidas e
precarizadas que a esquerda insiste em defender sem propor melhorias.
O mesmo
fenômeno ocorre no campo da educação. Há um descrédito crescente em relação ao
ensino superior e à pós-graduação. De nada adianta panfletar a importância da
universidade para a “formação da cidadania” ou citar os dados do recente
relatório Education at a Glance (OCDE), que mostram que quem tem diploma no
Brasil chega a ganhar, em média, 150% a mais do que quem concluiu apenas o
ensino médio. Esse dado estatístico, por si só, vira uma abstração fria diante
da realidade sentida nas ruas.
O jovem
observa ao seu redor os escombros da promessa da mobilidade social: dezenas de
diplomados pela expansão das universidades federais, Prouni e Fies que hoje
estão desempregados, sublocados, endividados ou pilotando aplicativos de
transporte. Em um país que transforma talentos científicos e graduados em
motoristas de Uber, qual é o incentivo real para passar quatro anos estudando,
dormindo pouco e comprometendo a renda?
Pior: a
mesma pesquisa da OCDE aponta que 24% dos jovens brasileiros de 18 a 24 anos
estão na condição de NEET (não estudam, não trabalham e não estão em
treinamento), uma taxa devastadora quando comparada à média de 14% dos países
ricos. Entre as jovens mulheres, o número assustador chega a 29%. São milhões
de vidas em um limbo produtivo e existencial.
E para
aqueles que tentam a sorte no mercado, a macroeconomia atua como um teto de
vidro. Como sonhar com a casa própria ou em abrir o próprio negócio quando a
taxa de juros permanece cronicamente na casa dos dois dígitos? A alta dos juros
e o encarecimento do crédito imobiliário adiam indefinitivamente o sonho do
primeiro imóvel para a esmagadora maioria. Na melhor das hipóteses, sob uma
ótica urbana e paulistana do privilégio, a conquista se resume a ficar
confinado em microapartamentos de qualidade construtiva duvidosa, pagando o
dobro do valor original em juros para o sistema financeiro ao longo de 30 anos.
Para a maioria esmagadora do país, nem esse microapartamento é uma realidade
acessível; a moradia continua sendo o fantasma do aluguel ou a ocupação
precarizada. O mesmo vale para quem tenta comprar um veículo de trabalho:
paga-se o dobro do preço por conta dos juros, para ver o bem depreciar em dois
anos.
Se a
extrema-direita cresce nessa lacuna, não é porque o jovem virou fascista da
noite para o dia. É porque, vendendo a ilusão do indivíduo contra o sistema, a
extrema-direita capturou o direito de permitir que a juventude volte a sonhar
com a melhora de vida. E nós? Continuaremos sendo os defensores da manutenção
de um status quo sufocante e de um passado que já não atende ao presente?
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O passado não basta e o coração da disputa: política fiscal e monetária na vida
real
Não se
trata, de forma alguma, de abandonar a história ou apagar os avanços inegáveis
dos governos do PT, que tiraram milhões da extrema miséria, democratizaram o
consumo e expandiram o acesso às universidades. Mas precisamos encarar a
realidade sem rodeios: o que foi feito no passado já não basta para responder
ao presente.
Pesquisas
globais sobre confiança no futuro apontam um sinal de alerta dramático no
Brasil. Hoje, apenas 55% dos brasileiros acreditam que seus filhos terão uma
vida melhor do que a deles. Embora o país ainda conserve um sopro de esperança
maior do que nações centrais como os Estados Unidos (41%) ou a França (34%), o
dado marca uma queda acentuada na crença histórica da mobilidade social
ascendente. O diagnóstico de quem vive no Brasil de hoje é claro: há baixo
crescimento econômico, escassez de empregos de qualidade, desigualdade
persistente e um estrangulamento na formação profissional.
Esta é
a primeira geração em décadas que olha para o amanhã com medo de andar para
trás. É nessa ausência de perspectiva que a extrema-direita se instala. E
quando a esquerda se limita a defender o passado de forma ufanista, sem acolher
a dor do presente, ela se torna reativa, cética e sem projeto de futuro.
Para
mudar esse jogo, precisamos trazer a disputa econômica para a mesa do café da
manhã. E isso exige desarmar as armadilhas teóricas do neoliberalismo que hoje
operam como se fossem senso comum:
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A falácia da Austeridade Fiscal e o custo concreto do “superávit”
Imprimiu-se
no imaginário coletivo a metáfora simplista de que “o governo funciona como a
casa da gente e não pode gastar mais do que ganha”. Trata-se de um dogma
neoliberal devastador, infelizmente assimilado até por setores progressistas ao
defenderem travas rígidas de gastos e metas obsessivas de superávit primário.
A
pesquisa do Projeto Brief expõe uma profunda contradição nessa consciência
social: se por um lado 55% dos jovens, inclusive a maioria dos jovens de
direita, defendem que o Estado deve ser o garantidor de políticas de emprego,
há um enorme abismo de compreensão sobre como a austeridade funciona. Quando a
sociedade aceita passivamente que o Estado precisa “cortar gastos”, ela está
autorizando a destruição das próprias travas e instrumentos que geram empregos.
É
preciso explicitar o óbvio contábil que a Faria Lima esconde: o superávit
primário do Estado nada mais é do que o déficit do setor privado. Quando o
governo retira dinheiro da circulação para fazer caixa e pagar juros da dívida,
ele está drenando a renda das famílias e o faturamento das empresas.
A
austeridade fiscal não é neutra; ela tem cor, gênero e endereço. A história
recente do Brasil provou que quando o investimento público cresceu, reduzindo o
abismo de renda entre homens e mulheres, brancos e negros, o gasto do governo
serviu como indutor: aumentou a renda das famílias, que consumiram mais,
fazendo o investimento privado das empresas crescer a reboque.
Em
contrapartida, quando o Estado impõe bloqueios e teto de gastos na saúde, na
educação e no combate à desigualdade, quem paga a conta desproporcionalmente
são as mulheres. Na ausência de creches em tempo integral, postos de saúde
estruturados e redes estatais de apoio a idosos e pessoas com deficiência, o
Estado transfere a conta do bem-estar social para o trabalho não remunerado de
cuidado dentro de casa. Isso empurra milhões de mulheres para fora do mercado
de trabalho ou as submetem a duplas e triplas jornadas exaustivas.
Além
disso, fala-se muito na necessidade de formar “capital humano”, mas do que
adianta formar cientistas e técnicos em universidades públicas se o garrote
fiscal proíbe o Estado de investir em infraestrutura, indústria de transição
ecológica, logística e tecnologia capaz de absorver esses cérebros? Sem
investimento público, o capital humano formado vira mão de obra qualificada sem
mercado, engrossando a fila dos aplicativos.
O
investimento público de qualidade em infraestrutura e ciência não é despesa: é
o que cria demanda, eleva a produtividade e viabiliza o empreendedorismo real.
O pequeno negócio de bairro só prospera se a população local tiver salário no
bolso para consumir. O salário e o investimento governamental precisam voltar a
ser vistos como motor da economia, e não como um “custo” a ser esmagado.
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A agiotagem institucional da Taxa de Juros
Da
mesma forma, a política monetária não pode continuar sendo um feudo
inexpugnável de burocratas e operadores do mercado financeiro. A taxa de juros
esfola a sociedade e precisa aparecer no debate público como uma pauta de
sobrevivência popular.
Hoje,
cerca de 40% do orçamento das famílias brasileiras está comprometido
exclusivamente com o pagamento e serviço de dívidas. Essa renda sequestrada
pelos juros altos do cartão de crédito, do cheque especial e dos empréstimos
consignados é dinheiro que deixa de ir para a feira, para o vestuário, para o
lazer ou para o comércio local.
Sob o
pretexto de “combater a inflação”, a taxa de juros em patamares abusivos
paralisa a economia real por dois lados: sufoca o poder de compra dos
consumidores e inviabiliza o crédito produtivo para o micro e pequeno
empresário, que não consegue tomar empréstimo para expandir seu negócio ou
modernizar sua produção.
O
escândalo da assimetria neoliberal fica evidente no tratamento conferido às
duas pontas: enquanto o trabalhador comum tem seu nome negativado e corre o
risco de perder bens por dívidas irrisórias, grandes corporações, bilionários e
multinacionais acumulam passivos bilionários que são perdoados, anistiados e
renegociados dezenas de vezes através de subsídios e refis exclusivos.
A
disputa pela taxa de juros e pelo fim da austeridade não é uma discussão
acadêmica estéril; é a luta direta pelo preço do aluguel, pelo valor da comida
e pela chance real de o brasileiro voltar a planejar a própria vida.
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A eleição que se aproxima e a arena do possível
Estamos
às vésperas de uma eleição crucial e não podemos cair na armadilha cínica do
“tanto faz”. Não é tanto faz.
De um
lado, a candidatura da extrema-direita, personificada na figura de Flávio
Bolsonaro, representa a aceleração brutal dessa mesma agenda neoliberal: mais
austeridade, mais desmonte de serviços públicos, privatização de direitos
básicos e o esmagamento definitivo da capacidade do Estado de induzir o
desenvolvimento. Essa saída aprofunda a barbárie e entrega a juventude ao
desamparo total, mascarado sob o disfarce mítico do “empreendedorismo salvador”
e da viração individual.
A
vitória do campo democrático liderado por Lula é fundamental porque garante a
manutenção da própria arena onde a democracia e a disputa política ainda são
possíveis. No entanto, é preciso dizer com absoluta clareza: a eleição do campo
progressista é apenas o ponto de partida, jamais a linha de chegada.
O
trágico é observar que, ao longo do atual mandato, o próprio governo parece ter
capitulado no campo das ideias. Em vez de disputar a narrativa econômica com a
sociedade, abraçou o arcabouço fiscal, conviveu com a manutenção de juros
extorsivos e viu seu próprio Ministério da Fazenda adotar a retórica do
mercado, acenando frequentemente para a necessidade de “apertar ainda mais os
cintos”. Fala-se em limites de correlação de forças no Congresso, o que é uma
realidade inegável, mas o erro crasso reside em sequer fazer a disputa pública
sobre o papel do Estado.
Se o
governo continuar encastelado na responsabilidade fiscal ortodoxa, na
conciliação tática com o mercado financeiro e na simples retórica de saudades
do passado, continuará alimentando exatamente o caldo de cultura que faz a
extrema-direita florescer.
Nossa
juventude não é fascista nem conservadora por natureza; ela está desesperada
por um futuro digno e por horizontes reais. Se o neoliberalismo colonizou até a
nossa própria imaginação econômica a ponto de acreditarmos que “não há
alternativa”, cabe a nós provar o contrário. O Estado forte, o investimento
público indutor e a garantia de direitos não são relíquias ultrapassadas do
século XX, mas as únicas ferramentas capazes de devolver à sociedade o direito
de sonhar, projetar e realizar o amanhã.
Fonte:
Por Iago Chaves, em Outras Palavras

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