Como
as ideias atravessam fronteiras
Em
algum momento, as ideias aprenderam a viajar. Já não circulam apenas em livros,
manifestos ou discursos diplomáticos. Viajam em vídeos, conferências
internacionais, campanhas eleitorais, redes sociais e grupos de mensagens,
acompanhando políticos, consultores, influenciadores e operadores digitais que
atravessam fronteiras levando consigo técnicas, linguagens, contatos e
experiências. Às vezes, é possível acompanhar esse percurso.
Em
outubro de 2019, São Paulo recebeu, pela primeira vez, uma edição brasileira da
Conservative Political Action Conference (CPAC), tradicional encontro do
conservadorismo norte-americano. A iniciativa nasceu da aproximação de Eduardo
Bolsonaro com Matt Schlapp, então presidente da American Conservative Union.
Na abertura, Eduardo Bolsonaro chamou a CPAC Brasil de “embrião” de um
movimento conservador internacional: pessoas se encontrariam, trocariam
contatos e, depois, organizariam novos encontros, fazendo a rede crescer.
Cinco
anos depois, a fotografia era mais ampla. Na CPAC Brasil de 2024 estavam Jair
Bolsonaro e Javier Milei, além de José Antonio Kast, do Chile, Gustavo
Villatoro, ministro de Nayib Bukele em El Salvador, e políticos brasileiros
mais jovens, entre eles Nikolas Ferreira. Em conjunto, essas presenças
mostravam como experiências nacionais começavam a transformar-se em repertórios
internacionais.
Nikolas
Ferreira permite observar um desses mecanismos. Depois de participar de uma
CPAC nos Estados Unidos, destacou organizações como Turning Point USA e PragerU
e, particularmente, Charlie Kirk como exemplos de uma geração capaz de disputar
com a esquerda o terreno da cultura e da juventude. Construiria depois, no
Brasil, uma poderosa máquina individual de comunicação política.
Fernando
Cerimedo permite enxergar um outro mecanismo. Consultor argentino de
comunicação, circulou por ambientes ligados a Javier Milei, manteve relações
com o bolsonarismo e atuou posteriormente junto ao presidente boliviano Rodrigo
Paz. No Brasil, ganhou notoriedade após a eleição de 2022, ao contestar, sem
apresentar provas, a confiabilidade das urnas eletrônicas.
Em
2026, a polícia boliviana encontrou uma pequena estrutura descrita pelas
autoridades como uma “fazenda de bots”, em um endereço ligado a Fernando
Cerimedo. O episódio tornou concreto algo que poderia parecer apenas uma
metáfora: a circulação política possui infraestrutura. Bots, plataformas,
influenciadores, consultores, conferências e redes de financiamento podem
multiplicar narrativas e fazer uma experiência produzida num país reaparecer,
adaptada à linguagem política de outro.
Não é
preciso imaginar uma central secreta distribuindo ordens. Essas redes podem
funcionar de maneira muito mais flexível: pessoas se encontram, observam
experiências consideradas bem-sucedidas, aprendem métodos, compartilham
contatos e adaptam linguagens. Uma experiência transforma-se em exemplo; o
exemplo, em repertório; e o repertório, modificado pelas condições locais,
volta a circular.
Modelos
políticos raramente são importados inteiros. Viajam como repertórios. Resta
saber para onde estão viajando.
<><>
Não é apenas uma disputa eleitoral
Seria
tentador interpretar essa circulação apenas como a expressão internacional de
uma nova direita latino-americana. Isso capturaria parte do fenômeno, mas
deixaria escapar sua dimensão geopolítica, justamente quando a posição da
América Latina no sistema internacional volta a ganhar importância.
Durante
grande parte do século XX, os Estados Unidos ocuparam posição predominante no
hemisfério. O século XXI alterou esse quadro: a China tornou-se o maior
parceiro comercial da América do Sul e ampliou sua presença em mineração,
energia, infraestrutura, telecomunicações, tecnologia e financiamento. Para
Washington, essa expansão passou a representar também um problema estratégico.
Há
razões materiais para isso. A América Latina reúne recursos essenciais à
transição energética e tecnológica, além de alimentos, biodiversidade,
infraestrutura e mercados importantes. A geografia voltou a importar num
hemisfério que os Estados Unidos historicamente consideraram central à sua
segurança.
É nesse
cenário que devemos observar as redes políticas que atravessam nossas
fronteiras. Isso não significa supor um plano comandado de Washington, para o
qual não possuímos evidências, mas reconhecer convergências entre determinados
projetos latino-americanos e uma visão geopolítica que procura reafirmar a
centralidade dos Estados Unidos no hemisfério diante da expansão chinesa.
Essas
convergências assumem formas distintas: na Argentina, na redefinição das
alianças externas promovida por Javier Milei; no Paraguai, no aprofundamento da
cooperação estratégica e militar com Washington; na Bolívia, na circulação de
operadores e infraestruturas de comunicação política; e, no Brasil, em
propostas de reorganização das relações com os Estados Unidos, a China e os
BRICS. Na Venezuela, em janeiro de 2026, surgiu a manifestação extrema desse
novo ambiente: o emprego direto da força militar norte-americana na operação
que capturou Nicolás Maduro e Cilia Flores e os levou aos Estados Unidos.
Embora
muito diferentes e sem que devam ser confundidos, esses fenômenos recolocam
diante da América Latina uma questão antiga e fundamental: a soberania.
<><>
O laboratório latino-americano
A
América Latina tornou-se, assim, um laboratório político, não porque seus
países caminhem na mesma direção, mas precisamente porque experimentam
respostas diferentes para dilemas que atravessam suas fronteiras.
Na
Argentina, Javier Milei coloca a questão de quanto do Estado pode ser
desmontado para que uma nova ordem econômica emerja; em El Salvador, Nayib
Bukele, até onde uma sociedade aceita poderes excepcionais em troca de
segurança. O Chile oferece outra experiência: a explosão social de 2019 abriu
caminho para uma tentativa de reconstrução constitucional, mas duas propostas
foram rejeitadas nas urnas, mostrando que a insatisfação com a ordem existente
não produz necessariamente consenso sobre o que deverá substituí-la.
O
Paraguai introduz outro dilema. Em 2026, entrou em vigor um acordo sobre o
estatuto das forças com os Estados Unidos, permitindo a presença temporária de
pessoal militar e civil norte-americano em atividades previamente acordadas. O
governo de Santiago Peña afirma que o acordo não instala bases permanentes nem
transfere território e o apresenta como aprofundamento de uma aliança
estratégica.
Não se
trata, portanto, de uma ocupação imposta, mas de uma decisão soberana. A
questão é mais difícil: até onde uma aliança livremente escolhida amplia a
capacidade de agir de um país e a partir de que ponto passa a condicionar suas
escolhas futuras?
A
Venezuela ocupa o extremo oposto. Entre a intervenção norte-americana de
janeiro de 2026 e a opção paraguaia existe uma enorme distância, mas também um
amplo espectro de relações capazes de ampliar ou restringir a autonomia de um
Estado: comércio e dívida, tecnologia e infraestrutura digital, armamentos,
cadeias produtivas e controle de recursos estratégicos.
É esse
espectro, entre a escolha autônoma e a imposição externa, que nos obriga a
atualizar o significado de soberania.
<><>
A capacidade de fazer a próxima escolha
Soberania,
no século XXI, não significa produzir tudo dentro das próprias fronteiras nem
manter igual distância dos Estados Unidos, da China, da Europa ou de qualquer
outro polo de poder. Significa preservar a capacidade de escolher: cooperar com
os Estados Unidos quando os interesses convergem, negociar com a China quando
convém, construir projetos com os vizinhos e rever alianças quando as
circunstâncias recomendarem.
Essa
autonomia, porém, depende de capacidades próprias. Pouco adianta possuir lítio
se outros controlam o refino, os materiais ativos e a fabricação das baterias;
ou terras raras, se permanecem no exterior a separação, a metalurgia, os ímãs e
o conhecimento industrial. Mesmo um grande produtor de alimentos pode ser
vulnerável se depende de cadeias externas para fertilizantes, máquinas,
sensores e infraestrutura digital. A mesma lógica vale para semicondutores,
inteligência artificial, medicamentos, energia, telecomunicações e defesa.
Vale
também para as alianças. Elas podem ampliar a capacidade de agir de um país,
mas a dependência começa quando restringem suas alternativas futuras. Podemos,
portanto, submeter muitas das experiências latino-americanas a um teste
simples: depois de cada escolha, o país terá mais ou menos capacidade de fazer
a próxima?
A
soberania não é a única questão que essas experiências colocam diante do
Brasil. El Salvador introduz outra, igualmente decisiva: a relação entre
democracia, segurança e eficácia do Estado.
Nayib
Bukele respondeu a um problema real. Depois de anos de violência, extorsão e
controle territorial pelas gangues, El Salvador registrou uma forte redução dos
homicídios, transformando Nayib Bukele em referência internacional e suas
políticas de segurança em um modelo observado por outros países. Ignorar esses
resultados seria tão inadequado quanto considerar apenas seus efeitos
imediatos.
O
estado de exceção prolongado, as detenções em massa e a expansão dos poderes
estatais levantam outra questão: que direitos uma sociedade aceita restringir
em nome da segurança e como impedir que instrumentos criados para uma
emergência se tornem formas permanentes de governo?
Esse
dilema também atravessa fronteiras. Diante do crime organizado, ganha força a
promessa de recuperar rapidamente a segurança ampliando a liberdade de ação da
polícia, endurecendo penas e reduzindo garantias processuais. O Brasil conhece
o medo que alimenta esse tipo de resposta e tem razões para estudar a
experiência salvadorenha sem demonizá-la nem a transformar em modelo.
Nayib
Bukele nos obriga, assim, a formular duas perguntas: o Estado consegue proteger
seus cidadãos e fazê-lo sem converter a exceção em regra? Uma democracia
incapaz de oferecer segurança perde legitimidade; um Estado que a oferece sem
limites ao próprio poder pode comprometer a democracia que pretende proteger.
<><>
Há também uma disputa sobre a sociedade
As
ideias que viajam não carregam apenas concepções econômicas, geopolíticas ou de
segurança, mas também projetos de sociedade. Parte das novas redes
conservadoras latino-americanas encontrou nas igrejas, nos movimentos
religiosos e nas chamadas guerras culturais uma poderosa infraestrutura de
mobilização.
A
participação política de cidadãos religiosos é parte legítima de uma democracia
plural, que deve assegurar a cada pessoa o direito de professar sua fé e
organizar-se politicamente a partir de suas convicções. A fronteira é
ultrapassada quando essa liberdade se confunde com o direito de uma confissão
transformar suas crenças em normas obrigatórias para toda a sociedade.
É aí
que o Estado laico se torna indispensável. Longe de ser hostil à religião, ele
garante que diferentes crenças – e também a ausência delas – convivam sob as
mesmas leis, sem que qualquer grupo imponha aos demais sua profissão de fé.
Essa fronteira entre convicção religiosa e poder do Estado também estará
presente na eleição brasileira.
É aqui
que a viagem das ideias encontra o Brasil. Em 4 de outubro, mais de 158 milhões
de brasileiros estarão habilitados a escolher o presidente, deputados e
senadores. Estarão em disputa diferentes projetos sobre o papel do Estado, a
inserção internacional do país, a segurança pública, os direitos civis, a
relação entre religião e poder político, o lugar da ciência e da educação e o
destino de nossos recursos naturais.
A
eleição colocará, portanto, diferentes respostas para uma pergunta maior: que
país pretendemos ser em um mundo que está sendo reorganizado?
As
experiências latino-americanas não oferecem uma receita, mas tornam mais
visíveis alguns dos dilemas envolvidos: entre ruptura e reconstrução, segurança
e limites ao poder, soberania jurídica e autonomia estratégica, circulação
transnacional de técnicas políticas e preservação da soberania territorial.
Nenhuma
dessas experiências determina o caminho brasileiro. Todas, porém, nos ajudam a
enxergar melhor as escolhas que estamos prestes a fazer.
<><>
Onde está a outra rede?
Chegamos,
então, à pergunta talvez mais incômoda. CPAC, Turning Point, Cerimedo,
Eduardo Bolsonaro, Nikolas Ferreira e outros atores compreenderam algo
fundamental: ideias não se transformam em força política apenas porque parecem
convincentes. Precisam de infraestrutura – organizações, comunicadores,
financiamento, formação de quadros, plataformas e narrativas capazes de
traduzir uma experiência nacional para a linguagem política de outro país.
Alguns
projetos aprenderam a construir essa infraestrutura. Onde está a rede
latino-americana capaz de fazer circular, com eficiência comparável, um projeto
de soberania, democracia, desenvolvimento científico, redução das desigualdades
e integração produtiva?
Não
partimos do zero. A região já dispõe de universidades e centros de pesquisa,
empresas e bancos de desenvolvimento, movimentos sociais, organizações da
sociedade civil e instituições como Mercosul e CELAC. O desafio é transformar
capacidades dispersas em um ecossistema capaz de atuar de forma coordenada.
Reinventar
a integração latino-americana não significa, portanto, construir uma rede
política de sinal contrário, mas uma arquitetura de cooperação capaz de
transformar recursos dispersos em capacidades compartilhadas.
Durante
décadas, integração regional significou sobretudo comércio: reduzir tarifas,
ampliar mercados, harmonizar regras e facilitar a circulação de mercadorias.
Tudo isso continua importante, mas já não basta num mundo em que tecnologia,
energia, minerais críticos, infraestrutura digital e defesa se tornaram
elementos centrais da disputa econômica e geopolítica.
A
América Latina possui parcela extraordinária dos recursos materiais necessários
a esse mundo, mas controla uma fração muito menor das cadeias que os
transformam em poder econômico e tecnológico. Exportamos matérias-primas e
importamos máquinas, componentes, tecnologias, propriedade intelectual e os
serviços nos quais se concentra parcela crescente do valor.
A
integração produtiva sul-americana talvez precise, portanto, começar por outra
pergunta: não apenas o que podemos vender uns aos outros, mas o que precisamos
aprender a fazer juntos?
Há
possibilidades concretas. O lítio argentino, boliviano e chileno pode ser
articulado à ciência, aos mercados e à capacidade industrial brasileira;
recursos minerais podem alimentar centros tecnológicos e cadeias produtivas
regionais; e a escala sul-americana pode sustentar projetos compartilhados em
saúde, energia, infraestrutura digital, inteligência artificial e defesa.
Integração
passaria, assim, a significar não apenas circulação de mercadorias, mas
acumulação conjunta de capacidades. Cooperar com os vizinhos não exige abrir
mão da autonomia nacional; em áreas estratégicas, a escala regional pode
ampliar a capacidade de decisão de cada país diante das grandes potências.
Esse
núcleo produtivo sul-americano não esgota o horizonte da integração. Em escala
mais ampla, a cooperação latino-americana pode articular posições políticas,
científicas e tecnológicas e criar espaços de concertação internacional. As
duas escalas são complementares: uma constrói capacidades materiais
compartilhadas; a outra amplia a capacidade de ação coletiva da região.
<><>
O Brasil não pode oferecer o que não possui
Há,
entretanto, uma condição incontornável: o Brasil não pode propor à América
Latina aquilo que não consegue construir dentro de casa. Um país profundamente
desigual, que ainda convive com escolas deficientes, violência organizada,
baixa produtividade, infraestrutura incompleta e dificuldades para transformar
ciência em inovação, não se torna referência regional apenas por possuir
dimensões continentais, recursos naturais e boas universidades.
Liderança,
soberania e inovação não decorrem automaticamente dessas vantagens, assim como
integração regional não nasce de discursos. Dependem da capacidade de
transformar potencial em instituições, conhecimento em produção e projeto
político em resultados que a sociedade possa perceber.
Essa
talvez seja uma das lições mais importantes das experiências de Javier Milei e
Nayib Bukele, independentemente da avaliação de seus governos: resultados
importam. Um projeto brasileiro baseado em democracia, soberania, redução das
desigualdades e integração regional só será sustentável se conseguir promover
crescimento, aumentar a segurança, reduzir desigualdades, transformar ciência
em capacidade produtiva e melhorar concretamente as condições de vida. Nenhuma
corrente política deveria deter o monopólio da ideia de eficácia.
Mas
resultados também precisam ser avaliados pelas capacidades que deixam para o
futuro. Uma política pode resolver um problema imediato e destruir instrumentos
necessários para enfrentar o seguinte; aumentar a segurança reduzindo controles
institucionais; ou atrair investimentos criando dependências tecnológicas.
Importa não apenas o resultado alcançado, mas também o país que permanece capaz
de agir depois dele.
O
futuro da América Latina já está sendo disputado nas urnas e nas redes, nas
universidades e nas igrejas, nas empresas e nas fábricas. Alguns projetos
compreenderam que ideias precisam de caminhos para viajar e os construíram:
conferências aproximaram dirigentes, organizações formaram quadros, consultores
atravessaram fronteiras e plataformas transportaram narrativas até que
experiências nacionais se transformassem em repertórios internacionais.
Ao
mesmo tempo, Estados Unidos e China intensificaram a competição por mercados,
minerais, infraestrutura, tecnologia e influência. É no encontro entre essas
redes políticas e a disputa geopolítica que a eleição brasileira de 2026
adquire uma dimensão maior.
Em 4 de
outubro, o Brasil não escolherá apenas a Presidência e o Congresso. Estarão
também em disputa o papel do Estado, a inserção internacional do país, os
limites do poder, a maneira de enfrentar a violência, o lugar da religião, da
ciência e dos direitos na vida pública e a autonomia que pretendemos preservar.
As
experiências de nossos vizinhos ajudam a compreender essas escolhas. Mostram
também que, enquanto alguns projetos construíram redes eficientes para fazer
ideias atravessarem fronteiras, ainda não articulamos com eficácia comparável
as capacidades políticas, científicas, industriais e institucionais necessárias
a um projeto regional de democracia, desenvolvimento, soberania e integração
produtiva.
O
Brasil possui escala econômica, recursos naturais, ciência e instituições; seus
vizinhos, capacidades que, combinadas às nossas, podem ampliar a margem de
escolha da região. O desafio é transformar essas possibilidades dispersas em
capacidades compartilhadas na América do Sul e fortalecer, a partir delas, a
cooperação latino-americana.
As
ideias já aprenderam a viajar. Talvez seja hora de construir, na América
Latina, os caminhos para que também circulem o conhecimento, a tecnologia, a
democracia e, sobretudo, a capacidade de decidir o próprio futuro.
É isso
que torna ainda mais decisiva uma das perguntas presentes nas urnas brasileiras
de 4 de outubro: depois da escolha que fizermos, teremos mais ou menos
capacidade de fazer as próximas?
Fonte:
Por Celso Pinto de Melo, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário