Cannabrava:
Por que só Moraes?
A crise
que sacode o Supremo Tribunal Federal (STF) é grave demais para ser reduzida a
Alexandre de Moraes. No entanto, é sobre ele que se concentra grande parte do
noticiário e das pressões políticas. Não se trata de poupar Moraes. Tudo o que
envolve o ministro, sua família e o Banco Master deve ser rigorosamente
investigado. Mas as informações que vêm à tona mostram que Daniel Vorcaro
construiu relações que alcançavam diferentes ministros, seus familiares,
advogados, políticos e personagens influentes em Brasília. A pergunta,
portanto, é inevitável: por que só Moraes?
Comecemos
pelo próprio Moraes. Documentos da Receita Federal enviados à Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado indicam que o Banco Master
declarou pagamentos de R$ 40,1 milhões, somente em 2024, ao escritório Barci de
Moraes, do qual sua mulher, Viviane Barci de Moraes, é sócia. O contrato previa
pagamentos durante três anos e um valor total próximo de R$ 130 milhões. O
escritório contestou as informações divulgadas sobre os pagamentos. É dinheiro
demais e proximidade demais para que o assunto não seja completamente
esclarecido.
Mas
Moraes está longe de ser o único personagem dessa história.
André
Mendonça, atual relator do caso Master, confirmou que se encontrou com Vorcaro.
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF) indicam que o encontro de março
de 2025 teria se estendido por aproximadamente duas horas; Mendonça afirma que
a conversa durou apenas de 20 a 30 minutos e tratou de precatórios.
Há
ainda o Instituto Iter, do qual Mendonça era sócio. Vorcaro foi convidado para
pelo menos dois eventos relacionados ao instituto, embora não haja confirmação
de que tenha comparecido. Em setembro, Mendonça anunciou sua saída da
sociedade, e Flávio Dino pediu a Fachin uma investigação formal sobre as
relações entre o Master e o Iter.
Outro
nome que aparece é o da advogada Dalide Barbosa Alves Corrêa. Uma auditoria
interna do Banco de Brasília (BRB) encontrada pela Polícia Federal registra que
seu escritório recebeu R$ 33 milhões do Master em 2024. Mais significativo
ainda: executivos do próprio banco referiam-se a ela em mensagens como um
suposto “canal direto com o STF”. Em outras conversas, foi apresentada como
ligada a Gilmar Mendes. Dalide e Gilmar negam qualquer sociedade, e o
escritório afirma que ela jamais atuou para o Master no Supremo. A própria PF
ainda não produziu conclusão sobre a legalidade desse contrato. Portanto, há
fatos a esclarecer, e não uma condenação pronta.
A teia
chega também aos filhos de ministros. Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux,
trocou mensagens com Vorcaro entre 2024 e 2025, combinou encontros e recebeu do
banqueiro oferta de convites para camarote no Carnaval do Rio. Em outra
mensagem, orientou Vorcaro a procurar por e-mail a secretária do ministro Fux
no STF. A assessoria de Rodrigo sustenta que não houve transação financeira
entre ele e Vorcaro.
Kevin
Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, também aparece nas mensagens.
Há referência a pagamentos de R$ 500 mil mensais por intermédio da Consult
Inteligência Tributária, empresa que, segundo dados do Conselho de Controle de
Atividades Financeiras (Coaf) divulgados pela imprensa, recebeu R$ 6,6 milhões
do Master em um ano.
Kevin
nega ter trabalhado para o Banco Master ou recebido dinheiro de Vorcaro.
Reconhece ter recebido R$ 281,6 mil da Consult, mas afirma que o pagamento
correspondeu a serviços tributários sem qualquer relação com o Supremo.
Nem
mesmo a história começa ou termina nos atuais ministros. O escritório da
família do ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski
recebeu pelo menos R$ 6,1 milhões do Master. O contrato começou em 2023 e
continuou até agosto de 2025. A assessoria de Lewandowski afirma que ele deixou
a sociedade quando assumiu o Ministério da Justiça, em fevereiro de 2024,
ficando o escritório sob controle de familiares. A circunstância é
especialmente relevante porque a Polícia Federal estava subordinada ao
ministério que ele comandava, embora isso, por si só, não demonstre
interferência de Lewandowski nas investigações.
E ainda
há Dias Toffoli, primeiro relator do caso Master no Supremo. Ele deixou a
condução do processo depois que a PF encaminhou a Fachin informações sobre
transferências financeiras envolvendo empresa de sua família e fundos
relacionados ao Master. Documentos divulgados pela imprensa também indicaram
que Toffoli viajou, em julho de 2025, em avião de empresa que tinha Vorcaro
como sócio.
Não
estamos, portanto, diante de um episódio isolado envolvendo Alexandre de
Moraes. Estamos diante de uma rede de relações entre um banco privado, grandes
escritórios de advocacia, políticos, ministros e familiares de integrantes da
mais alta Corte do país. Algumas dessas relações podem ter explicações
perfeitamente legais; outras estão sob investigação. É exatamente por isso que
todas devem ser esclarecidas com o mesmo rigor.
O
próprio tamanho do escândalo financeiro mostra a dimensão do problema. As
investigações sobre as operações entre o Master e o BRB tratam de bilhões de
reais e de suspeitas de créditos sem lastro. Não estamos falando apenas de
mensagens indiscretas ou relações sociais inconvenientes. Estamos falando de
dinheiro, influência e decisões que podem envolver recursos públicos.
E então
voltamos à pergunta inicial: por que só Moraes?
Há uma
circunstância política impossível de ignorar. Moraes tornou-se o rosto mais
visível das investigações e processos contra Jair Bolsonaro e integrantes de
seu entorno pela tentativa de golpe e pelos acontecimentos de 8 de Janeiro.
Isso não torna falsas as suspeitas relacionadas ao Master, nem pode funcionar
como salvo-conduto para o ministro. Mas também não prova que a concentração dos
ataques nele decorra dessas decisões. A coincidência política existe e merece
ser examinada; a causalidade precisa ser demonstrada.
Por
isso, a saída não é defender Moraes contra as investigações. É exatamente o
contrário: investigar Moraes e todos os demais com o mesmo rigor. Investigar
contratos, pagamentos, encontros, mensagens e eventuais conflitos de interesse.
Investigar os ministros quando houver elementos para isso, seus familiares
quando forem citados e os agentes políticos e financeiros que orbitavam o Banco
Master.
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O
Supremo não recuperará sua autoridade sacrificando um de seus integrantes para
preservar os demais. Tampouco recuperará a confiança pública protegendo
qualquer ministro. Se existe uma crise no STF, que ela seja enfrentada por
inteiro. Se existe uma rede em torno do Master, que toda a rede seja exposta.
Nenhuma toga pode servir de escudo — mas nenhuma pode ser escolhida previamente
para servir de bode expiatório.
• Especialistas veem possível manipulação
estrangeira em relatório usado por Mendonça contra Moraes
No
documento de defesa às acusações do ministro André Mendonça, Alexandre de
Moraes colocou em dúvida a autenticidade e a veracidade do relatório usado por
Mendonça para acusá-lo.
Moraes
denunciou que o relatório não foi “realizado integralmente na Polícia Federal,
como apontam seus metadados, indicando que a inserção inicial e final do
extenso e criminoso relatório foi no mesmo dia, ou seja, que teria sido
realizado em poucas horas”.
O
ministro explicou que “os metadados do relatório demonstram que a abertura e
finalização do relatório foi feita no mesmo dia, ou seja, foi ‘plantado’ nos
computadores da PF e não inteiramente produzido por eles”.
Moraes
apontou, inclusive, que “das 52 notas apresentadas (extraídas do bloco de NOTAS
de Daniel Vorcaro), 47 não foram nem localizadas na área de conversação do
WhatsApp” [sic], ou seja, não foram encontradas em nenhuma conversação
armazenada no aparelho do banqueiro, confirmando a possibilidade de terem sido
enxertadas posteriormente à apreensão.
No
requerimento de 24 de agosto, Mendonça concedeu prazo de 72 horas para a PF
apresentar o relatório sobre menções a Moraes.
Moraes
considerou este prazo de 72 horas curtíssimo, “impossível para aquele
relatório”. E reafirmou que “os metadados comprovam que o relato não foi
produzido efetivamente pela Polícia Federal, mas sim por agentes externos –
pela forma de produção, provavelmente estrangeiros”, que teriam “plantado” a
peça manipulada nos arquivos da PF.
Moraes
relatou que “há, inclusive, a suspeita de que o providencial afastamento do
Diretor da PF, que estranhamente foi comemorado por autoridades estrangeiras,
foi para que não pudesse averiguar a produção externa desse relatório”,
presumivelmente durante o tempo necessário para a manipulação da prova.
Em
várias passagens da sua defesa, Moraes sustentou que o documento usado por
Mendonça foi produzido “com auxílio de órgão externo, provavelmente órgão
estrangeiro, demonstrando clara tentativa de interferência externa nas eleições
brasileiras de 2026”.
“Não é
demais relembrar as inúmeras pressões estrangeiras contra a Justiça brasileira
e esse STF, inclusive com a cassação do visto de diversas autoridades e a
aplicação da Lei Magnitsky” [sic], ele registrou.
Consultados
sobre a veracidade da hipótese sustentada pelo ministro Alexandre de Moraes,
especialistas em geopolítica e em perícia criminal consideraram tecnicamente
possível a possibilidade de adulteração, considerando as informações citadas
por Moraes sobre registros dos metadados.
Os
especialistas também convergem na opinião de que a tecnologia empregada em tais
casos segue o padrão tecnológico dominado por agências como a CIA, dos Estados
Unidos, e o Mossad, de Israel; com maior desconfiança de autoria recaindo sobre
a segunda.
No
entanto, independentemente de qual possa ter sido a agência estrangeira de
inteligência e espionagem envolvida, o fato grave e concreto é que um ministro
da Suprema Corte acusou um colega de estar sendo assessorado por entidade
estrangeira para atacá-lo e para interferir na eleição.
Na
sessão do STF de 15 de setembro, Mendonça rebateu nervosamente as acusações de
uso da PF para a perseguição política de Moraes, porém silenciou em relação à
acusação de ter usado um relatório manipulado por estrangeiros.
Diante
da possibilidade técnica de que o relatório usado por Mendonça para acusar
Moraes possa ter sido manipulado externamente à PF e por órgão estrangeiro, é
urgente que o presidente Edson Fachin providencie uma perícia técnica para
apurar o caso.
• Caso Master expõe ministros, familiares
e relações sob suspeita
O
Supremo Tribunal Federal reuniu-se durante seis horas para enfrentar uma crise
e terminou a sessão mergulhado ainda mais profundamente nela. Não decidiu se
Alexandre de Moraes será investigado, não resolveu a controvérsia sobre o
tratamento dado aos ministros citados no caso Master e exibiu ao país uma Corte
dividida, com ministros acusando ministros. O pedido de vista de Flávio Dino
interrompeu o julgamento, mas não interrompeu a crise.
O que
está em discussão já ultrapassou há muito a figura de Alexandre de Moraes. O
material produzido pela Polícia Federal a partir dos dados extraídos do celular
de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, abriu uma caixa que alcança
ministros, familiares de ministros, advogados e personagens próximos à mais
alta instância do Judiciário. A própria existência e a validade jurídica de
parte dessa investigação tornaram-se objeto da batalha travada dentro do
Supremo.
A
sessão terminou sem decisão. Quando Flávio Dino pediu vista, havia quatro votos
pela tramitação separada dos casos de Moraes e André Mendonça — Edson Fachin,
Luiz Fux, Cármen Lúcia e o próprio Mendonça — e três pela reunião dos processos
— Cristiano Zanin, Moraes e Gilmar Mendes. Dino havia manifestado posição
favorável à reunião, mas pediu que seu voto não fosse computado ao solicitar
vista. Tem agora prazo regimental de até 90 dias para devolver o processo.
Mas
talvez o mais grave não esteja no placar. Está no que as investigações da
Polícia Federal vêm revelando. O relatório que chegou ao Supremo foi elaborado
a partir de informações extraídas do celular de Vorcaro e aponta supostos
diálogos relacionados a Moraes. O ministro contesta o relatório, nega
irregularidades e afirma que as acusações têm motivação político-eleitoral. A
Procuradoria-Geral da República também questiona a validade jurídica de parte
do material. Cabe à investigação estabelecer o que efetivamente ocorreu.
E
Moraes não está sozinho nessa história. As investigações da PF revelaram
relações de Vorcaro com pessoas do entorno de outros ministros. No caso de
Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, aparecem contatos e encontros com o
banqueiro, conversas sobre possível contratação profissional e sua presença
como convidado em camarote VIP relacionado a Vorcaro no Carnaval. Rodrigo Fux
afirma que a aproximação profissional não resultou em contrato.
Mais
delicadas são as mensagens envolvendo Kevin Marques, filho do ministro Kassio
Nunes Marques. Em conversa encontrada no celular de Vorcaro, o então diretor
jurídico do Master, Luiz Rennó, menciona pagamentos de R$ 500 mil por mês
associados ao advogado. Isso não significa que esteja comprovado que Kevin
tenha recebido mensalmente esse valor.
Ele
reconhece ter recebido R$ 281,6 mil de uma consultoria contratada pelo Master,
por serviços jurídicos tributários, mas nega ter trabalhado para o banco ou
recebido dinheiro de Vorcaro. É justamente essa diferença entre mensagem
apreendida, indício e fato comprovado que a Polícia Federal precisa esclarecer.
As
revelações atingem também André Mendonça e outros personagens ligados ao
Supremo. Dino pediu que a entidade criada por Mendonça seja investigada por
suas relações com o Master. O julgamento envolvendo Mendonça está previsto para
os próximos dias. E surge uma pergunta inevitável: qual é o critério? Se as
relações atribuídas a Moraes com Vorcaro justificam apuração, as relações que
aparecem envolvendo familiares e pessoas próximas de outros ministros também
precisam ser esclarecidas. Não pode haver uma régua para um ministro e outra
para os demais.
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Foi
nesse ambiente que a sessão descambou para um confronto público entre
integrantes da Corte. Flávio Dino falou no “momento mais corrupto da história”
do Judiciário. Gilmar Mendes, decano do Supremo, lançou uma frase devastadora:
“Até a máfia tem ética. É preciso ter decência”. Cármen Lúcia declarou estar
profundamente consternada e triste e reconheceu o mal-estar cívico provocado
pelo próprio STF. Não eram adversários do Supremo fazendo essas acusações. Eram
ministros do Supremo falando do ambiente existente dentro do Judiciário.
Gilmar
Mendes também atacou violentamente André Mendonça por ter afastado o
diretor-geral da Polícia Federal. Para o decano, alguém com conhecimento mínimo
do significado institucional da PF não deveria ter tomado uma decisão dessa
natureza. O confronto entre os ministros deixou de ser apenas jurídico e
transformou-se numa demonstração pública da deterioração das relações internas
da Corte.
Alexandre
de Moraes, por sua vez, apresentou uma defesa de 44 páginas. Sustenta que as
acusações são criminosas e mentirosas e atribui sua origem a uma vingança de
aliados daqueles que tentaram destruir a democracia e foram condenados. Nega a
autenticidade ou a interpretação dada a supostos diálogos.
A
Polícia Federal, entretanto, afirma ter identificado contatos a partir do
cruzamento dos dados extraídos na investigação. É justamente essa contradição
que precisa ser esclarecida por meio do devido processo, e não resolvida pela
simples aceitação da versão de uma das partes.
O
Estado de S. Paulo, que há dias vem defendendo a saída de Moraes, classificou a
sessão, em editorial, como um “espetáculo degradante no Supremo” e voltou a
sustentar que caberia ao Senado tomar providências contra o ministro. É a
posição política e editorial do jornal, não uma conclusão judicial. Mas mostra
até onde chegou o desgaste público da mais alta Corte do país.
A crise
envolve também a própria Polícia Federal. Discute-se a legalidade dos atos
investigativos, quem poderia determiná-los e até a existência formal de um
inquérito.
Dino
observou que, se não havia inquérito, atos tipicamente investigativos
destinados a identificar interlocutores das mensagens poderiam ser considerados
nulos. Fux sustentou que não existia investigação formal contra Moraes. É uma
controvérsia jurídica que o próprio Supremo terá de resolver.
O
problema maior, porém, é institucional. O Supremo é o guardião da Constituição
e a última instância do Poder Judiciário. Seus integrantes não podem estar
acima das exigências de transparência que aplicam aos demais cidadãos. Tampouco
podem ser condenados previamente por vazamentos, manchetes ou disputas
internas. É justamente por isso que as investigações precisam chegar ao fim.
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O
pedido de vista pode adiar uma decisão por até 90 dias. Não poderá apagar as
mensagens encontradas pela Polícia Federal, as relações reveladas, os
pagamentos que precisam ser esclarecidos nem o espetáculo de divisão
protagonizado pelos próprios ministros.
A saída
não está no corporativismo nem no linchamento. Está na investigação de todos os
fatos, com os mesmos critérios para todos, direito de defesa, transparência e
responsabilidade. Se nada houver, que os nomes sejam limpos. Se houver
irregularidades, que sejam apontados os responsáveis, seja quem for. A
credibilidade do Supremo não será recuperada escondendo a crise. Será
recuperada enfrentando-a.
Fonte:
Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global/Brasil 247

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