O
clã dos Cury: Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, na verdade ele
vem de família há décadas no poder
O
candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante – SP), até poucos
meses mais conhecido pelos seus milhões de livros best-sellers de autoajuda,
saltou de um nome com baixas intenções de voto até meados de agosto para cerca
de 7% do eleitorado, segundo a pesquisa Quaest, de 14 de setembro.
Cury se
apresenta como um intelectual, alguém culto e fora da política, capaz de
resolver os problemas mais complexos com inteligência emocional e uma gestão
tecnocrata. Na urna, seu nome consta como “Escritor Augusto Cury”. Ele reforça
o fato de ser médico, e até usa o sobrenome para fazer um trocadilho com “cura”
em seu slogan “O Brasil tem cura”.
Mas,
além da candidatura que hoje ocupa o terceiro lugar nas intenções de voto para
presidente, Cury tem um verdadeiro clã familiar na política, e que vem
dominando ao menos dois municípios no interior paulista. A família conta com um
sobrinho e um primo que concorrem neste ano, outro sobrinho eleito em 2024,
dois irmãos que foram vereadores e um patriarca que entrou na política na época
da ditadura, pelo Arena.
>>>>
Por que isso importa?
• A rede familiar do escritor Augusto Cury
está há décadas ocupando cargos políticos no interior paulista, o que contradiz
a visão de que o candidato é um outsider na disputa política
<><>
Sobrinhos consolidam nova geração no reduto político dos Cury
O
sobrinho mais velho de Cury, Daniel Augusto Cury (Avante – SP), 47 anos, é um
antigo conhecido do eleitor de Colina, no interior paulista, reduto político da
família. Sócio na empresa Semear Gestão em Agronegócio Ltda, uma distribuidora
de produtos agropecuários, Daniel concorreu pela primeira vez em 2016, sendo
eleito vereador pelo PDT na cidade.
Desde
então, Daniel tentou cargos em todas as eleições seguintes, perdendo em quase
todos. Primeiro foi a tentativa de chegar à prefeitura, pelo PSB em 2020,
depois, tentou ser deputado federal pelo mesmo partido em 2022, quando terminou
como suplente. Em 2024, repetiu o resultado, ficando em segundo lugar na
disputa pela prefeitura de Colina.
Agora,
em 2026, Daniel tenta novamente uma vaga na Câmara dos Deputados, mas dessa vez
pelo Avante, partido adotado por seu tio, candidato ao Planalto. Ele recebeu R$
34 mil da direção do partido via fundo especial para a campanha.
Neste
ano, o candidato não declarou bens ao Tribunal Superior Eleitoral, ao contrário
de outras campanhas. Ele registrou R$ 46 mil em 2020 — e apenas R$ 5 mil em
2024.
A
reportagem questionou Daniel sobre não ter declarado bens em 2026, que não
respondeu.
Enquanto
isso, seu irmão mais novo e também sobrinho de Augusto Cury, o corretor de
imóveis Rafael Cury (PSB – SP), de 42 anos, que já havia ficado como suplente
em 2016, garantiu a continuidade da família no Legislativo, sendo eleito
vereador em Colina em 2020 e reeleito em 2024 pelo PSB.
Rafael
declarou um patrimônio de R$ 12 mil em 2016, R$ 3,9 mil em 2020 e R$ 155 mil em
2024. A maior parte deste dinheiro, R$ 120 mil, seria o valor de um carro em
posse do vereador.
<><>
O primo e a campanha de marketing do escritor
A 18 km
de distância de Colina, em Barretos, a família tem outro candidato: Caio Cury
(Avante – SP), 35 anos, é agricultor e disputa sua primeira eleição,
concorrendo a deputado estadual. Com o nome de batismo Curi, com “I”, Caio é
filho de uma prima em primeiro grau de Augusto Cury, mas nas redes sociais
apresenta proximidade com o presidenciável.
O
sobrenome, de cara, garantiu um privilégio partidário: um número em sequência,
que normalmente é disputado entre os candidatos pela facilidade de memorização
para o eleitor.
Caio é
o candidato da família mais ativo nas redes sociais, postando vídeos com
Augusto Cury, que acompanha em agendas, e fazendo campanha ativa para o “tio”,
com memes em que o escritor ultrapassa outros nomes da direita na disputa pelo
terceiro lugar, como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos
(Missão).
Apesar
de constar como sócio nas empresas Cury Moura Serviços em Engenharia, Cury
Moura Educação Comércio de Livros e Fort Polpas e Frutas Congeladas, Caio Cury
não declarou bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quando embarcou no
projeto do tio para eleger ao menos um deputado federal e um deputado estadual
pelo Avante. Enquanto isso, o escritor registrou impressionantes R$ 242
milhões.
No
sábado, 5 de setembro, uma matéria da Folha de S. Paulo divulgou que três
empresas do escritor nos Estados Unidos ficaram de fora da declaração ao TSE:
“Cury Academia Comportamental”, a “Contemplare Investments” e a “Free Mind
Publish”. Outras duas empresas no Brasil também não foram registradas:
“Contemplare” e “Academia de Pensar e Brincar”. A publicação ainda afirma que a
equipe de Cury disse que “eventuais inconsistências na declaração apresentada
serão corrigidas” e que o patrimônio é de origem legal. Em uma atualização
padrão de meio de campanha, a candidatura declarou as empresas ao TSE.
As
estratégias das campanhas de Caio e Augusto Cury são tocadas pela Agência
Comunica Brasil, do advogado paraibano João Nascimento Jr., também responsável
pela imagem do humorista Manoel Gomes (Avante – SP), conhecido como Caneta
Azul.
De
acordo com o painel da Meta, que divulga os gastos dos candidatos com anúncios
em suas plataformas, Augusto Cury teria gasto R$ 150 mil em impulsionamento de
publicações entre 14 de junho e 11 de setembro, enquanto Caio Cury gastou R$
4,3 mil no mesmo período.
Segundo
o portal Metrópoles, na terça-feira, 8 de setembro, o deputado Otoni de Paula
(PSD-RJ) entrou com uma representação no TSE para investigar a campanha de
Cury. O escritor nega manipulações e afirma que o crescimento nas redes sociais
foi “natural” e que as pessoas “descobriram suas ideias”. O processo ainda
tramita no TSE.
<><>
Os irmãos e o patriarca da família
Daniel
e Rafael são filhos de Salomão Jorge Cury Filho, conhecido como “Mãozinho”,
vereador por cinco mandatos em Colina e irmão de Augusto Cury. Ele foi eleito
pelo PMDB em 1988, reeleito pelo PL em 1996, depois pelo extinto PTB em 2000 e
pelo PMDB outra vez em 2004 e 2008.
Em
2012, voltou ao PTB e foi eleito novamente, mesmo com sua candidatura
indeferida, tendo seu mandato cassado em 2013. Mãozinho ocupou o cargo de
presidente da Câmara de Vereadores de Colina em três situações: de 2000 a 2001,
de 2005 a 2006, e entre 2009 e 2010.
Assef
Jorge Cury, irmão de Mãozinho e Augusto Cury, também foi vereador, por dois
mandatos, pelo PSDB, entre 1997 e 2004.
Já o
patriarca da família, Salomão Jorge Cury, pai de Mãozinho, Assef e Augusto
Cury, falecido em 2024, exerceu cinco mandatos como vereador em Colina, entre
1964 e 1979, pelo Arena, entre 1979 e 1985, pelo PFL, durante o regime militar,
e pelo PL, entre os anos de 1985 a 1988, já na redemocratização. Salomão também
presidiu a Câmara Municipal de Colina.
<><>
A rede dos Cury
Para o
professor de sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo Costa
de Oliveira, que pesquisa famílias políticas, nepotismo e genealogia, apesar de
Augusto Cury se apresentar como alguém de fora da política, ele é sim fruto de
uma linhagem que estabeleceu relações políticas, econômicas e sociais ao longo
de décadas.
“Como
uma família política, ela tem aquela questão de poder local ao longo de várias
gerações. Também, além do poder legislativo local, tem uma ramificação no poder
judiciário; fenômeno frequente em famílias políticas. Isso certamente pesa na
própria decisão da candidatura do Augusto Cury; ele é originário de uma família
política. Então, não é apenas uma questão de que ele seria novo no campo
político. Não, ele é de uma importante e significativa família política do
poder local”.
Autor
de “Na Teia do Nepotismo – sociologia política das relações de parentesco e
poder político no Paraná e no Brasil”, Oliveira avalia que oligarquias como a
família Cury se mantêm influentes firmando laços com outros grupos do poder
local.
“Famílias
políticas estão entrelaçadas por relações matrimoniais, de casamentos,
negócios, atividade em sociedade. É um fenômeno muito frequente nos municípios
brasileiros. Eles casavam na própria comunidade, depois também casam com outra
família que também é da política lá de Colina, a família Brait”.
Os
Projetos de Lei n.º 183/2026 e 189/2026 da Câmara Municipal de Colina,
protocolados em 26 de agosto e 1.º de setembro deste ano, são exemplos de como
esse tipo de relação familiar, mesmo que distante, perpetua a influência local.
O
primeiro projeto, assinado pelo vereador Valdir Ricardo Brait (PSB – SP), primo
do colega de vereança e partido Rafael Cury, pretende rebatizar uma unidade
básica de saúde como “Dr. Salomão Jorge Cury”. O segundo, do vereador Mario
Henrique Barco Pinto Neto (MDB – SP), propõe mudar o nome do bairro “Jockey
Club” para “Salomão Jorge Cury”.
À
primeira vista, podem parecer apenas mudanças nos nomes de um equipamento
público ou de um bairro, mas são uma forma de poder simbólico de quem é
considerado importante na região.
E essa
cultura política “familiar” é um dos fatores que permite que tanto Daniel, já
veterano de eleições, quanto Caio, estreante na política, concorram, dessa vez
com verdadeiras chances de vencer, com o nome, imagem e partido do tio
escritor.
“Eles
(os sobrinhos) se beneficiam de todas as maneiras. Em primeiro lugar, com o
capital político de Augusto Cury, à medida que ele começa a se aproximar de
dois dígitos nas pesquisas. Eu acho que é uma rede, entendendo sociologicamente
o nepotismo como a relação entre famílias e poder político, é uma rede de
nepotismo. Política no Brasil é negócio de família, e é o caso da família do
Augusto Cury”, critica Oliveira.
Fonte:
Por Gabriel Barros, em Agência Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário