Setembro
Amarelo: entenda a importância da saúde mental no controle da glicose de quem
tem diabetes
A saúde
mental faz parte da rotina de tratamento que envolve muito mais do que
alimentação, insulina, atividade física e monitorização da glicose.
São
decisões que precisam ser tomadas todos os dias e que, dependendo do momento de
vida, podem gerar preocupação, ansiedade, culpa ou sensação de sobrecarga.
Receber
o diagnóstico, adaptar-se a uma nova rotina, lidar com mudanças no tratamento
ou acompanhar oscilações da glicemia podem trazer diferentes impactos
emocionais. Isso não significa que toda pessoa com diabetes terá problemas de
saúde mental, mas reconhecer quando o tratamento começa a pesar pode ajudar a
buscar apoio.
No
Setembro Amarelo, quando a saúde mental ganha espaço nas discussões sobre
prevenção, acolhimento e cuidado, olhar para essa relação também é importante
para quem vive com diabetes. Afinal, cuidar da condição envolve também
considerar como a pessoa está se sentindo ao longo desse processo.
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O impacto pode começar no diagnóstico
Receber
o diagnóstico de diabetes pode representar uma mudança importante na vida da
pessoa e da família. No caso do diabetes tipo 1, por exemplo, a descoberta
muitas vezes acontece de forma repentina, inclusive em situações que exigem
atendimento de urgência.
A
psicóloga Priscila Pécoli explica que algumas crianças e adolescentes chegam ao
diagnóstico durante um quadro de cetoacidose diabética. Nesses casos, a família
pode precisar lidar, praticamente ao mesmo tempo, com uma internação, novos
termos, medicamentos, insulina e uma condição que passa a fazer parte da
rotina.
Ela
compara esse momento à sensação de ter a casa atingida por um tornado, sem
tempo para se preparar para o que aconteceu.
Quando
a identificação ocorre antes de uma situação de urgência, pode haver mais
espaço para que a pessoa e a família recebam informações aos poucos. Ainda
assim, isso não significa ausência de sofrimento. O medo do que pode acontecer,
as dúvidas sobre o futuro e a necessidade de adaptação também podem provocar
ansiedade e causando preocupação com a saúde mental.
Por
isso, não existe uma única reação ao diagnóstico nem um prazo determinado para
que alguém se acostume com a nova rotina.
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A rotina do diabetes também envolve saúde mental
Depois
do diagnóstico, o impacto emocional pode continuar de outras formas. O
tratamento exige decisões frequentes sobre alimentação, atividade física,
medicamentos, insulina, glicemia e consultas.
Essa
carga pode contribuir para o chamado diabetes distress, termo usado para
descrever o sofrimento emocional relacionado às exigências de viver com a
condição e cuidar dela.
Os
Standards of Care in Diabetes 2026, da American Diabetes Association (ADA),
recomendam que aspectos psicossociais sejam considerados no acompanhamento e
que situações como diabetes distress, depressão e ansiedade sejam observadas ao
longo do tratamento.
Para o
psicólogo Cláudio Cancellieri, entrevistado pelo DiabetesCast, esse sofrimento
pode aparecer quando as exigências do tratamento ultrapassam os recursos que a
pessoa tem naquele momento para lidar com elas.
“Se não
estamos bem, não nos cuidamos”, resume o profissional.
Na
prática, isso pode significar que uma pessoa que está emocionalmente
sobrecarregada tenha mais dificuldade para manter algumas tarefas da rotina,
como monitorar a glicemia, aplicar a insulina, organizar as refeições ou
comparecer às consultas.
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Quando a responsabilidade vira cobrança
As
tecnologias também mudaram a forma como muitas pessoas acompanham o diabetes.
Sensores, bombas de insulina, aplicativos e outros recursos podem facilitar
decisões e aumentar a autonomia, mas também podem fazer com que a pessoa sinta
que precisa estar sempre observando os resultados.
Quando
a glicose sai da faixa esperada, pode surgir a sensação de que algo foi feito
errado. Para algumas pessoas, isso se transforma em culpa.
“Uma
das causas do distresse é essa culpa”, explica Cancellieri.
Mas a
glicemia não depende de uma única decisão. Sono, alimentação, atividade física,
hormônios, doenças, medicamentos, rotina e estresse estão entre os fatores que
podem interferir nos níveis de glicose.
Por
isso, transformar cada resultado fora da meta em uma avaliação sobre disciplina
ou responsabilidade individual pode tornar o tratamento ainda mais pesado.
O
acompanhamento do diabetes precisa considerar também esses fatores emocionais e
sociais. A ADA recomenda justamente que as questões psicossociais sejam
incorporadas ao cuidado, especialmente quando existem dificuldades persistentes
com o tratamento.
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Diabetes distress não é o mesmo que depressão
Embora
possam aparecer juntos, diabetes distress e depressão não significam a mesma
coisa.
O
diabetes distress está diretamente relacionado às dificuldades emocionais
provocadas pelas demandas do diabetes. Já a depressão é um transtorno de saúde
mental mais amplo, que pode afetar diferentes áreas da vida.
Segundo
a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão envolve alterações
persistentes no humor ou perda de interesse e prazer, acompanhadas de outros
sintomas que podem afetar sono, apetite, concentração, energia, autoestima e
funcionamento cotidiano.
Isso
significa que estar cansado das exigências do diabetes não é, por si só, sinal
de depressão. Da mesma forma, uma pessoa pode desenvolver depressão ou
ansiedade mesmo que não esteja enfrentando dificuldades específicas com o
tratamento.
Por
isso, o diagnóstico não deve ser feito a partir de um único sentimento ou
comportamento. Quando o sofrimento persiste, interfere na rotina ou começa a
comprometer diferentes áreas da vida, a avaliação de um profissional de saúde
mental pode ajudar a entender o que está acontecendo.
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Como a saúde mental pode interferir na glicemia
A
relação entre saúde mental e glicemia não é simples e não acontece da mesma
forma para todas as pessoas.
Ansiedade,
sofrimento emocional e sobrecarga podem dificultar a manutenção de algumas
tarefas do tratamento, como o uso correto dos medicamentos, a monitorização da
glicose, a organização das refeições e a prática de atividade física. Períodos
prolongados de estresse também podem provocar alterações hormonais capazes de
interferir na glicemia.
O sono
é outro ponto importante. Dormir mal ou passar por períodos de tensão constante
pode dificultar o manejo do diabetes e afetar o bem-estar durante o dia.
Isso
ajuda a explicar por que falar de saúde mental também é falar sobre o controle
do diabetes. Não significa que pensamentos ou emoções determinem sozinhos o
nível de glicose, mas que o bem-estar emocional faz parte do conjunto de
fatores que influenciam a forma como cada pessoa consegue lidar com o
tratamento.
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Existem momentos em que é preciso prestar mais atenção
A saúde
mental não deve ser observada apenas quando surge uma crise. Ela pode ser
acompanhada durante diferentes fases do diabetes, especialmente diante de
mudanças importantes na vida ou no tratamento.
Alguns
sinais merecem ser levados para a conversa com a equipe de saúde, como sentir
que não consegue mais lidar com a rotina, começar a evitar consultas ou
cuidados, experimentar culpa frequente, viver com ansiedade persistente ou
perder o interesse por atividades que antes faziam parte da vida.
O
diabetes também pode ocupar espaço demais nos pensamentos. Quando a pessoa
sente que está o tempo todo calculando, conferindo, corrigindo ou se
preocupando com a glicose, vale observar se essa rotina está ultrapassando os
limites do que consegue sustentar emocionalmente.
Esses
sinais não significam, necessariamente, que exista um transtorno mental. Eles
indicam que alguma coisa mudou e merece ser acolhida e investigada.
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A família também pode sentir o impacto
O
diabetes não envolve apenas quem recebeu o diagnóstico. Familiares e cuidadores
também podem experimentar medo, preocupação e sobrecarga, principalmente quando
a condição é descoberta durante a infância ou adolescência.
Nos
cuidados com crianças e adolescentes, a ADA recomenda atenção a aspectos como
sofrimento relacionado ao diabetes, sintomas de depressão e ansiedade e fatores
familiares.
Nesse
contexto, existe uma diferença importante entre oferecer apoio e transformar o
tratamento em vigilância constante.
Perguntar
como a pessoa está, ajudar em uma tarefa, acompanhá-la a uma consulta ou
simplesmente oferecer espaço para falar pode ser mais útil do que cobrar
continuamente resultados, alimentação ou valores de glicemia.
O apoio
da família pode fazer diferença, mas também precisa respeitar a autonomia de
quem vive com diabetes.
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O diabetes não precisa ocupar todos os espaços
Cuidar
da saúde mental também significa lembrar que a pessoa com diabetes continua
tendo uma vida que vai além do tratamento.
Existem
momentos em que a condição pode exigir mais atenção, como durante mudanças de
medicamentos, complicações ou períodos de maior instabilidade da glicemia.
Ainda assim, trabalho, estudos, relacionamentos, amizades, hobbies, descanso e
planos pessoais continuam fazendo parte da vida.
Para
Cancellieri, encontrar esse equilíbrio é importante para que o diabetes não
passe a definir toda a experiência da pessoa.
As
tecnologias podem ajudar nesse processo, mas também é preciso observar quando a
quantidade de alertas, números e informações começa a gerar mais tensão do que
segurança.
O
objetivo do tratamento não é viver permanentemente em função da glicose, mas
encontrar formas de cuidar dela que sejam possíveis de sustentar no dia a dia.
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Saúde mental também precisa entrar na consulta
Falar
de saúde mental no acompanhamento do diabetes não significa transformar toda
consulta em uma sessão de psicoterapia.
Significa
abrir espaço para perguntas que também fazem parte do cuidado: como a pessoa
está se sentindo, o que tem sido mais difícil, se existe medo, culpa, ansiedade
ou alguma parte do tratamento que está difícil de manter.
A
avaliação psicossocial pode ajudar a identificar situações que, muitas vezes,
ficam escondidas quando a consulta se concentra apenas nos números da glicemia.
Quando
necessário, a pessoa pode ser encaminhada para profissionais de saúde mental.
No Brasil, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) integra diferentes serviços do
Sistema Único de Saúde, incluindo a Atenção Primária e os Centros de Atenção
Psicossocial (CAPS).
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Cuidar da saúde mental também faz parte do tratamento
O
Setembro Amarelo ajuda a ampliar a conversa sobre saúde mental, mas esse
cuidado não precisa ficar restrito ao mês de setembro.
Para
quem vive com diabetes, olhar para o próprio bem-estar emocional pode ser tão
importante quanto acompanhar a glicemia. O impacto psicológico do diagnóstico
pode mudar ao longo dos anos, assim como as demandas do tratamento e os
diferentes momentos da vida.
Sentir-se
sobrecarregado não significa falta de disciplina. Pedir ajuda também não
significa fracasso.
Falar
sobre o que está difícil, contar com uma rede de apoio e buscar acompanhamento
profissional quando necessário são formas de cuidar da própria saúde.
A
glicose é uma parte importante do tratamento, mas o cuidado com o diabetes
também precisa considerar quem está por trás desses números.
Fonte:
Um Diabético

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