Mineradora
financiada por bilionária trumpista quer explorar terras raras em área
protegida na Bahia
Apoiadora
fiel de Donald Trump e mulher mais rica da Austrália, a bilionária Gina
Rinehart está por trás de uma mineradora estrangeira que quer explorar terras
raras na Bahia. O plano é vendido como uma oportunidade de desenvolvimento
econômico e social para o estado. O
projeto, no entanto, quer explorar até em área de preservação ambiental e
pressiona moradores de uma comunidade rural a venderem seus terrenos no Vale do
Jiquiriçá, na região sul do recôncavo baiano. Além disso, tem a intenção de
explorar urânio na região – o que omite da comunidade, que teme o risco de
contaminação radioativa. E tem mais: a iniciativa mira implantar uma refinaria
de terras raras de escala industrial para destinar a produção para combater o
domínio da China, algo que interessa diretamente aos Estados Unidos. Batizada de Monte Alto, a iniciativa é uma
das maiores de exploração de terras raras no Brasil. É liderada pela empresa
australiana Brazilian Rare Earths, a BRE, que já declarou se tratar da
“descoberta de terras raras mais significativa do mundo”.
Rinehart,
que é propagadora da ideologia MAGA (Make America Great Again ou Tornar a
América Grande Novamente, em tradução livre), é a maior investidora em
elementos de terras raras fora da China. Por meio de sua empresa Hancock
Prospecting, ela é uma das acionistas da BRE, que no Brasil é representada pela
subsidiária Borborema Recursos Estratégicos. As terras raras são um um grupo de
elementos químicos cada vez mais valorizados por sua importância estratégica,
em especial para a produção de tecnologia, o que inclui desde telefones e
carros elétricos até aparatos militares, e para desenvolver a inteligência
artificial. O Brasil é alvo de uma
ofensiva estrangeira porque tem mais de 20% das reservas mundiais de terras raras
– fica atrás só da China. Não à toa os Estados Unidos investiram mais de 1
bilhão de dólares, inclusive com financiamento do governo Trump, para comprar a
única mineradora especializada já em operação no nosso país: a Serra Verde,
localizada em Goiás.
Mas é a
Bahia quem lidera as pesquisas por terras raras no Brasil. Um levantamento do
Intercept Brasil feito a partir dos dados do Sistema de Informações Geográficas
da Mineração da Agência Nacional de Mineração, a ANM, mostra que o estado
alcança quase um em cada três processos minerários ativos dessas substâncias no
país – são 1.204 no total, o equivalente a 31% dos registros. Destes, mais da
metade estão na região do Vale do Jiquiriçá, território onde moram cerca de 20
mil famílias da agricultura familiar, segundo a Secretaria de Desenvolvimento
Rural da Bahia. “Vivenciamos uma nova corrida, o chamado neoextrativismo. Isso
perpetua a situação do Brasil como um país dependente da exploração de
matérias-primas e da mercantilização da natureza. A Bahia está no centro desse
foco”, pontua Lucas Zenha Antonino, professor da Universidade Federal do
Recôncavo da Bahia, a UFRB, e pesquisador do grupo Geografar, da Universidade
Federal da Bahia, a UFBA.
Neste
cenário, a BRE não está perdendo tempo. Sozinha, a empresa responde por 230
requisições que envolvem a mineração de terras raras – 19,1% dos processos
ativos na Bahia. De todas, a lavra mais próxima de começar a exploração é a do
projeto Monte Alto, batizado pela Borborema com o mesmo nome da comunidade que
pode ser expulsa da região. Até o momento, o avanço do projeto tem recebido o
aval do governo da Bahia e dos órgãos federais responsáveis. A ANM liberou a
extração de lavra experimental, que está agora em análise pelo Instituto do
Meio Ambiente e Recursos Hídricos, o Inema, órgão ambiental baiano. De
competência federal, o licenciamento ambiental para a extração comercial
depende de aprovação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis, o Ibama, que informou ao Intercept ainda estar no aguardo
do estudo e do relatório de impacto ambiental da mineradora. Por ter minerais radioativos, o
empreendimento também tem um processo em tramitação na Autoridade Nacional de
Segurança Nuclear, a ANSN. Segundo a autarquia, ele está em fase inicial de
avaliação regulatória.
A BRE
informa publicamente que 167,6 mil hectares estão sob o seu controle na região,
com pesquisas minerárias ativas liberadas pela ANM. Elas fazem parte do que a
mineradora chama de Província Mineral Rocha da Rocha, zona com 124 processos
minerários ativos. A região tem minérios
com teores de terras raras cuja concentração chega a até 100 vezes acima na
comparação com a Serra Verde, única operação em produção comercial no Brasil,
em Minaçu, Goiás – o que, na prática, significa que são encontradas em maior
quantidade, de acordo com o parâmetro de concentração de Óxidos de Terras Raras
Totais, o TREO. Para se ter uma ideia, a
Serra Verde opera com 0,12% de TREO, enquanto, em Monte Alto, o teor médio
chega a 11,3%, de acordo com um estudo de escopo publicado pela BRE no dia 13
de agosto. Mas o que empolga a BRE não é motivo de alegria na comunidade rural
de Monte Alto. Nós fomos até lá e ouvimos dos moradores que a circulação de
caminhões e máquinas de sonda, o barulho e o alargamento da estrada já estão
mudando o cotidiano e causando transtornos.
Berenice*,
uma moradora que pediu para não ter o seu nome revelado porque teme
represálias, relatou ao Intercept que as investidas da mineradora para comprar
os terrenos da comunidade estão “causando medo, pressão psicológica, até mesmo
o adoecimento”. Das cerca de 120
famílias que vivem na comunidade Monte Alto, 17 já venderam seus imóveis para a
Borborema, de acordo com os moradores. A reportagem pediu esses números à
mineradora, mas a empresa não os informou. “Enquanto eles avançam, sentimos o
peso de deixar para trás nossas vidas, a nossa paz e a separação de várias
famílias”, conta Berenice. A comunidade tem resistido como pode. Já chegou até
a entregar um manifesto no escritório da Borborema, em abril, reiterando a
“insatisfação coletiva” com a mineradora, por gerar “insegurança”,
“desinformação” e “desgaste social”.
Outra
preocupação é com o impacto ambiental. No caso do projeto Monte Alto, a
poligonal minerária – delimitação geográfica da área sobre a qual uma empresa
requisita o direito para minerar – não está em um lugar qualquer. Cerca de
metade dela está sobreposta à Área de Preservação Ambiental, ou APA, Caminhos
Ecológicos da Boa Esperança, com nascentes e quedas d’água como a cachoeira do
Guigó. A lei não veda a exploração mineral em APA, desde que autorizada – no
caso, pela ANM, uma autarquia federal vinculada ao Ministério de Minas e
Energia, o MME, e pelo órgão ambiental responsável. Mas o apetite da BRE vai
além e chega até a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães, uma unidade de
proteção integral em que a mineração é proibida por lei.
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Atalho para exploração e aval da trumpette
A
preocupação é crescente na região porque, apesar de o projeto estar na fase do
“direito de requerer lavra” – a terceira de cinco etapas para a concessão do
direito de exploração comercial das terras raras —, a Borborema já conseguiu um
atalho para antecipar o início dos trabalhos.
Em março deste ano, a ANM concedeu uma Guia de Utilização à mineradora.
Na prática, isso permite que a lavra comece a ser explorada antes do
licenciamento definitivo. Assim, foi autorizada a extração de 2 mil toneladas
de minério por ano, ao longo de três anos.
Procurada
pelo Intercept, a Borborema garantiu que ainda não começou a extração. Apenas
informou que a operação depende das “autorizações ambientais e radiológicas
aplicáveis”. O caso está em análise pelo governo da Bahia – sob gestão de
Jerônimo Rodrigues, do PT, candidato à reeleição –, que nos explicou que a
“lavra experimental” só poderá começar a ser explorada após receber
autorização. Ainda que a operação não tenha iniciado oficialmente, um
cronograma da BRE feito em agosto deste ano prevê a entrega do Estudo de
Impacto Ambiental, o EIA/RIMA, ao Ibama entre o fim de 2026 e o primeiro
semestre de 2027. Na projeção feita pela mineradora australiana aos seus
investidores, a licença para instalar a infraestrutura física da mina deve sair
entre 2028 e 2029. Já a concessão definitiva de lavra, entre 2029 e 2031.
Embora
isso ainda dependa de validação, o diretor-geral e CEO da BRE, Bernardo da
Veiga, vangloriou-se, em entrevista ao canal canadense Investor News, que a
empresa tem “um monopólio total dessa província de terras raras”, tendo passado
de 40 mil para 400 mil hectares sob seu controle em três anos. E foi além:
disse que o Brasil é excelente para os negócios porque “é uma jurisdição de
baixo custo, com baixo custo de energia e mão de obra barata”. “Trouxemos investidores muito importantes,
investidores de peso, por assim dizer. Eles nos financiaram para adquirir toda
aquela província”, afirmou Veiga, citando nominalmente a bilionária Gina
Rinehart. “Somos muito honrados por ter alguém tão importante e, além disso,
tão qualificado em nosso quadro de acionistas”. Por meio da Hancock
Prospecting, Rinehart detinha uma participação de 6,4% na BRE em fevereiro de
2025 – embora o site Investing.com, que disponibiliza dados do mercado
financeiro, indique que a parcela seja de 4,89%. A bilionária, que construiu sua
fortuna com grandes ativos de minério de ferro no oeste da Austrália, integra
um grupo de mulheres ricas e influentes autodenominado “trumpettes”.
Pela
afinidade ideológica e pelo estilo, aliados do grupo passaram a chamar Rinehart
de “Donald Trump feminina”. Ela chegou até mesmo a redesenhar a sede da Hancock
Prospecting, em Perth, com elementos da estética MAGA. Na noite da eleição
estadunidense em 2024, a bilionária participou da festa da vitória de Trump na
residência do republicano, em Mar-a-Lago.
Dias antes, ela já havia aparecido no mesmo local com Tiffany Trump,
filha do presidente, segurando um cartaz com o slogan “drill, baby, drill”
(“perfure, baby, perfure”, em tradução livre), que passou a usar para
incentivar o aumento da exploração de petróleo e da mineração. Entusiasta da exploração de carvão e gás,
Rinehart defende que a Austrália abandone o Acordo de Paris sobre o clima e
afirma que as energias renováveis são pouco confiáveis.
Além da
BRE, a Hancock Prospecting tornou-se a maior acionista da St George Mining,
empresa australiana que desenvolve o Projeto Araxá, de terras raras e nióbio,
em Minas Gerais. Em junho de 2026, a Hancock investiu mais 20 milhões de
dólares australianos na empresa, elevando sua participação para cerca de 10,5%
após a conclusão da operação. Já nos Estados Unidos, a empresa de Rinehart
tornou-se a maior acionista da MP Materials, empresa que opera Mountain Pass,
na Califórnia, o maior depósito de terras raras do país. Procurada pelo
Intercept, a Hancock Prospecting não quis se manifestar sobre o andamento do
Projeto Monte Alto. A empresa de Rinehart se resumiu a dizer que, por ser “uma
pequena acionista” da Brazilian Rare Earths, “questões dessa natureza devem ser
direcionadas à Brazilian Rare Earths, que é responsável por administrar e
conduzir o projeto”.
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Moradores se mobilizam após pressão da mineradora
Para o
plano da BRE com apoio da bilionária trumpette sair do papel, a subsidiária
Borborema precisa ser dona das terras de Monte Alto. No caminho, entretanto,
está uma comunidade tradicional. Moradores contaram ao Intercept que a empresa
não foi transparente quando chegou à região. “Em alguns lugares, pediam
autorização para fazer coleta de solo para análise. Depois, chegaram as sondas,
que faziam furos maiores. E aí foram tentando adquirir propriedades por preços
muito abaixo, não deixando claro para as pessoas o que tinha no solo e o porquê
da pressa”, conta Berenice. Segundo ela,
a Borborema comprou um imóvel na região, onde montou sua sede. Depois, outros
três. A empresa não confirmou essa informação ao Intercept. “E aí começaram a
criar um cerco”, afirma a moradora que, como seus bisavós, avós e pais, nasceu
e se criou ali.
Quem
trafega por Monte Alto percebe que o alargamento das ruas de terra é recente.
Entre as casas espaçadas e plantações de cacau, circulam caminhões e
caminhonetes com os logos da Borborema e da consultora Synergia Socioambiental.
Tendo entre seus clientes o Banco Mundial, a Braskem, a Vale e a Hydro, a
Synergia foi contratada pela Borborema para intermediar as negociações
fundiárias com a comunidade. “A primeira equipe chegou usando pressão
psicológica. [Disseram] que eles só fariam três visitas para adquirir o terreno
e, caso isso não fosse possível, partiriam para processo judicial”, relata
Berenice. “Criaram um abismo entre comunidade e empresa”, complementa.
Em
abril deste ano, um manifesto com a assinatura de 104 das 117 famílias de Monte
Alto foi entregue à Borborema com críticas à atuação da mineradora. O documento, ao qual o Intercept teve acesso,
ainda cita que houve “pressão excessiva” da Synergia para “fechamento de
acordo”, bem como “abordagens que geram constrangimento” e “falta de clareza e
transparência nas informações prestadas”.
Os moradores de Monte Alto disseram, ainda, que a Synergia passou a
“conduzir as tratativas com foco exclusivo na compra das propriedades, sem
abertura para diálogo sobre alternativas”.
Manifestando “profunda preocupação” com os “impactos ambientais do
empreendimento”, a carta termina informando que “a comunidade e os
proprietários rurais” estão “formalmente organizados, buscando garantir seus
direitos”.
A
mobilização, explica João*, outro morador de Monte Alto, ocorreu após se darem
conta do risco de os moradores saírem “do conforto para a miséria”. “A gente
era tido como roceiros, ignorantes, pessoas sem conhecimento, fácil de serem
manipulados. E eles viram que não somos”, enfatiza Berenice. Os moradores
também contam que, após a entrega do manifesto, pessoas vistas como
impulsionadoras da mobilização foram chamadas para conversas particulares com
representantes da mineradora. “Eles têm medo que a comunidade se inflame”, diz
Luciene*, outra moradora de Monte Alto. “Os mais velhos falaram para a gente:
‘Vocês tenham cuidado com a vida de vocês’”, relata.
Em
resposta ao manifesto, a Borborema marcou uma reunião com os moradores em maio
deste ano. Entre as demandas, ouviu que a Synergia fosse destituída – mas não
acatou. De acordo com moradores, as únicas mudanças foram a troca da equipe e
uma melhora “ínfima” nos valores oferecidos para comprar os terrenos. Edgar*, agricultor de Monte Alto visitado
pelo Intercept, tem cerca de 15 hectares dedicados ao cacau e outros cultivos.
Segundo ele, a proposta da Borborema pela área foi de R$ 50 mil. Somando os
secadores de cacau e a casa existente, que tem três quartos e uma suíte, a
oferta chegou a R$ 800 mil. Até o momento, ele não quis. “No início, falaram que a terra seria
indenizada por seu valor minerário, não rural. Depois, quando questionei,
falaram que não tinha isso e que a proposta é feita de acordo com o valor da
terra nua e as benfeitorias”, critica Berenice. “Estão nessas investidas.
Passam duas, três vezes na semana na casa das pessoas”, conta. Berenice também pontua
que as pessoas que aceitaram vender seus imóveis o fizeram, em sua maioria, por
medo de permanecer e por acreditarem que vai ser impossível barrar o avanço da
mineração.
Firmino*,
agricultor que vive do cacau que vende em um armazém em Jiquiriçá, diz que a
mineradora já argumentou que os moradores não podem ficar na área. “O povo se
junta, mas eles falam que deu minério e vai ter que explorar”, afirma. “A gente
tem medo, porque a gente já nasceu, foi criado aqui. Para sair, acostumar lá
fora… Aqui é sossegado, é bom demais”, pontua.
Questionada pelo Intercept, a Borborema informou, em nota, que “não
admite pressão, constrangimento ou conduta inadequada por parte de empregados,
prestadores de serviços ou representantes”. Ainda disse estar “disponível para
apurar formalmente qualquer relato dessa natureza” e tomar “as providências
cabíveis”. A Borborema destacou que “as
negociações são realizadas de forma individualizada, com base em avaliações
técnicas”. Segundo a companhia, “eventuais direitos legais do proprietário da
superfície relacionados a uma futura produção mineral permanecem preservados e
são distintos da negociação imobiliária”. A Synergia não respondeu aos questionamentos
feitos pelo Intercept. O espaço segue aberto.
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Exploração até em área proibida por lei
Além do
impasse com moradores, os impactos ambientais do projeto da BRE e da Borborema
também são alvo de polêmica. Em maio de 2025, o Ibama inspecionou o local e
apontou em relatório que “a cava prevista impactará nascente e curso d’água,
além de atingir remanescentes de Mata Atlântica e áreas próximas a sete
comunidades”. Mas tem mais: a área do processo minerário do projeto Monte Alto
inclui cerca de 18,4% da APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, abrangendo
42,2 mil hectares. Um levantamento feito pelo Intercept com dados da ANM mostra
haver 29 requisições minerárias da Borborema no local. Além da sua relevância ecológica e hídrica, a
área é a morada de animais considerados ameaçados de extinção pelo Inema. Entre
eles, estão o tamanduá-mirim, o bicho-preguiça, o quati e o mico-estrela.
A lei
do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, o SNUC, que rege as
unidades de conservação, exige que todas tenham um plano de manejo. Apesar de
ter sido criada em 2003, a APA Caminhos Ecológicos da Boa Esperança até hoje
não tem um. Questionado, o governo da Bahia informou que “a elaboração ainda
não foi iniciada”, sem explicar por que tanta demora. Embora a lei do SNUC não
vete a exploração mineral em uma APA, desde que haja autorização prévia, existe
um pequeno pedaço do terreno da Caminhos Ecológicos da Boa Esperança que não
pode ser utilizado de jeito nenhum para este fim: os 2,4 mil hectares que
compõem a Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães. O motivo é que este local, a cerca de 30
quilômetros da comunidade de Monte Alto, é uma unidade de proteção integral
dentro da APA. Na prática, isso significa que ali não só a mineração como até
mesmo a visitação pública são proibidas pela lei do SNUC. Apesar disso, há quatro processos minerários
ativos na ANM sobrepostos à Estação Ecológica Wenceslau Guimarães – todos da
Borborema. Os dois mais avançados visam a exploração de terras raras, e estão
na etapa do “direito de requerer lavra” – terceira de cinco fases do processo.
Questionada,
a ANM afirmou que, se chegar o momento de a mineradora requisitar o aval para
fazer a lavra, a autarquia fará a análise dos “procedimentos de retirada de
interferências com as áreas em que eventualmente a mineração não é permitida”.
A extração, reiterou a ANM, só é autorizada “mediante a devida a licença
ambiental expedida pelo órgão ambiental competente”. Neste caso, por ser uma
unidade de conservação estadual, seria o Inema.
Já a Borborema informou que este direito minerário integra o projeto
Amargosa/Alurion, em análise para ser cedido pela companhia. Sem entrar em mais
detalhes, a mineradora reforçou que o fato de ser titular deste processo ativo
na ANM não quer dizer que ela já está autorizada a fazer mineração na área.
“A
gente tem observado, a partir dos dados oficiais, a expansão da fronteira
mineral para a Bahia em um ritmo muito acelerado”, pontua a pesquisadora e
professora do Instituto Federal Baiano, Valdirene Rocha. Segundo ela, entre 2021 e 2025, houve um
aumento de mais de 46% das autorizações de pesquisa mineral no estado.
“Atualmente, são 22.875 processos com autorização de pesquisa mineral e outros
1.075 requerimentos de pesquisa. Esses números continuam em crescente e estão
associados ao discurso da transição energética”, destaca Rocha, que é também
pesquisadora do Geografar, da UFBA.
<><>Minério
radioativo é omitido da comunidade
A
Borborema tem falado pouco à imprensa e nada às famílias de Monte Alto de que o
seu interesse não está apenas nos minérios de terras raras – como neodímio,
praseodímio, ítrio e térbio. Há, também, a intenção de explorar urânio na
região – o que exige cuidados especiais diante do risco de contaminação
radioativa. Em áudios enviados no WhatsApp e cartazes espalhados por Monte
Alto, a Borborema informa prezar pelo diálogo e garantir uma “conversa aberta”
com a comunidade. A própria subsidiária
da BRE disse ao Intercept que “a presença natural de urânio e tório associados
à mineralização” está sendo “abordada nas atividades de relacionamento com a
comunidade”. Mas moradores ouvidos pela reportagem relataram que o tema não foi
debatido nas reuniões. A empresa ainda garantiu que “Monte Alto não é uma mina
de urânio e não produzirá o concentrado de urânio, nem realizará enriquecimento
ou processamento químico de urânio no local”.
No mais
recente encontro que a empresa convocou com a comunidade, em 24 de julho, foram
apresentadas “informações sobre a formação geológica dos minerais identificados
na região”, conforme a ata. Mas a palavra urânio não consta no documento – e
moradores que estavam na reunião disseram ao Intercept que o assunto não foi
discutido. Embora não converse com a comunidade sobre isso, o CEO da BRE,
Bernardo da Veiga, fala abertamente a respeito do tema com a imprensa
estrangeira. Em entrevista a um veículo do Canadá voltado a investidores, ele
citou que a região de Monte Alto tem “níveis muito elevados de urânio”. A constatação, relatou Veiga na entrevista,
foi crucial para atrair investidores. “Nós sempre soubemos que não seria um
problema. O Brasil é um país nuclear e está confortável com o urânio”, afirmou
o empresário.
De
acordo com a BRE, o urânio será um coproduto no projeto Monte Alto, e testes
metalúrgicos confirmaram que poderá ser transformado em yellow cake – uma etapa
na cadeia da produção do combustível nuclear. O urânio, porém, não aparece no
processo minerário registrado pela Borborema na ANM. Questionada, a autarquia
federal disse que “vai verificar a situação”.
Ao Intercept, a Borborema informou que a produção, o enriquecimento e o
processamento químico de urânio não vão acontecer no local da mina de Monte Alto.
“A potencial recuperação de urânio na forma de concentrado de urânio está
prevista apenas para uma futura planta industrial centralizada em Camaçari”,
disse a empresa. “Essa planta dependerá
de estudos adicionais, do licenciamento, das autorizações da ANSN [Autoridade
Nacional de Segurança Nuclear], dos acordos necessários com a INB [Indústrias
Nucleares do Brasil] e da decisão final de investimento”, destacou a Borborema.
A ANSN
– autarquia reguladora que responde pelo licenciamento de processos minerários
quando envolvem material radioativo – afirmou à
reportagem que existe um processo da Borborema em “fase inicial de
avaliação regulatória”, mas que “não emitiu autorização para produção de
concentrado de urânio no empreendimento Monte Alto”. Em um de seus relatórios, no entanto, a
mineradora afirma que já obteve autorização de operação da ANSN para a
planta-piloto em Camaçari e que a ANSN aprovou a categorização do projeto,
permitindo que a BRE avance com o relatório de análise de segurança
nuclear. Já a Indústrias Nucleares do
Brasil, a INB, empresa estatal que representa a União na cadeia do urânio e
combustível nuclear no país, disse que firmou um “protocolo de intenções” com a
BRE. O objetivo, informou a INB, é “avaliar e desenvolver conjuntamente o
potencial de aproveitamento do urânio como coproduto dos projetos de terras
raras da empresa”.
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Minerais da Bahia contra domínio da China
O plano
da BRE é beneficiar os minerais de terras raras extraídos em Monte Alto por
britagem no próprio Vale do Jiquiriçá. O concentrado, então, vai ser
transportado por cerca de 260 quilômetros até o Complexo Industrial de
Camaçari, que fica próximo ao Porto de Aratu.
Perto dali, em Salvador, a mineradora está construindo uma planta
piloto, com 58% do financiamento vindo do Senai Cimatec por meio da Empresa
Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, a Embrapii, uma organização
social movida a contratos de gestão com o governo federal. A partir dela, a BRE quer implantar uma
refinaria de terras raras de escala industrial. A ideia da mineradora é
produzir óxido de neodímio-praseodímio (NdPr), concentrado de terras raras
pesadas (HRE+) e yellowcake de urânio. O
destino principal da produção é a França. Mas, em um relatório de julho deste
ano, a BRE destaca, além da Europa, o Japão e os Estados Unidos como possíveis
rotas. Os indícios de que os minérios vão para o país adorado pela trumpette
são fortes.
Em
outubro de 2025, a BRE inclusive assinou um acordo com a empresa francesa
Carester que é, em parte, da estadunidense USA Rare Earth. A parceria prevê
que, na próxima década, o concentrado de terras raras pesadas produzido pela
BRE vai ser comprado pela Carester. Além disso, a empresa francesa se
comprometeu a prestar serviços de engenharia e assistência para a futura
refinaria da BRE em Camaçari, que tem a pretensão de ser a primeira unidade a
fazer separação de óxidos de terras raras em escala industrial no Brasil. Isso é estratégico porque aumenta o valor
agregado da produção e, em nível global, fortalece a Carester na rivalidade
direta com a China. Mas também pode atender a interesses dos EUA, já que o
Departamento de Guerra do país declarou que os ímãs permanentes de terras
raras, em especial o térbio – escasso no mundo e presente em grande quantidade
na região de Monte Alto –, são fundamentais para seus sistemas militares,
incluindo submarinos, drones, mísseis e bombas.
Fonte:
Por Gabriela Moncau e Pedro Stropasolas, em The Intercept

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