Trabalho:
os retrocessos que Flávio Bolsonaro propõe
O plano
de governo de Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da
República, apresenta uma concepção para o mundo do trabalho que merece atenção
especial no debate eleitoral. Não apenas pelas propostas que contém, mas
principalmente pela visão de desenvolvimento, Estado, direitos e democracia que
as articula.
Liberdade,
autonomia individual, segurança jurídica, redução de impostos e burocracia,
equilíbrio fiscal, privatizações e ampliação do investimento privado estruturam
boa parte dessa visão. No mundo do trabalho, a mesma lógica se traduz em
flexibilização, redução do custo da contratação, negociação direta entre
trabalhador e empresa e forte desconfiança em relação às instituições coletivas
de representação.
O ponto
central é este: o trabalho não aparece como eixo estruturante de uma estratégia
de desenvolvimento. Predomina uma abordagem segundo a qual o indivíduo deve ser
capacitado e liberado de obstáculos para buscar oportunidades no mercado, seja
como empregado, autônomo ou empreendedor.
Não se
trata de uma diferença menor. Uma estratégia de desenvolvimento não pode ser
medida apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto, pela expansão do
investimento ou pelo equilíbrio das contas públicas. Desenvolvimento resulta da
relação entre crescimento econômico, transformação produtiva, distribuição da
riqueza e da renda, redução das desigualdades, sustentabilidade ambiental e
ampliação do bem-estar.
O
trabalho é, ele próprio, uma força constitutiva desse processo. A massa
salarial movimenta o mercado interno; trabalhadores qualificados ampliam a
capacidade produtiva; relações de trabalho equilibradas favorecem cooperação e
inovação; proteção social dá segurança às famílias; boas condições de trabalho
reduzem adoecimento e acidentes; e diálogo social e negociação coletiva
fortalecem a democracia.
O
desafio contemporâneo consiste justamente em combinar crescimento,
produtividade e competitividade com transformação tecnológica e proteção
ambiental, empregos e ocupações de qualidade e distribuição dos ganhos
produzidos. É dessa perspectiva que analisamos o programa de Flávio Bolsonaro.
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A velha receita de reduzir o custo do trabalho
Uma das
propostas mais explícitas aparece quando o programa trata dos jovens e dos
trabalhadores mais velhos. Para pessoas entre 18 e 24 anos em busca do primeiro
emprego, propõe contrato “com menor custo na folha”, com o objetivo declarado
de estimular a contratação. Para trabalhadores com 50 anos ou mais e
desempregados há pelo menos doze meses, anuncia modalidade contratual “mais
atrativa” para as empresas.
O
pressuposto é conhecido: se determinado trabalhador custar menos, sua
contratação se tornará mais provável. Essa estratégia já apareceu anteriormente
na política trabalhista brasileira. A Medida Provisória nº 905, de 2019,
editada no governo Jair Bolsonaro, criou o chamado Carteira Verde e Amarelo com
argumento semelhante para estimular a contratação de jovens mediante redução de
encargos.
É
legítimo e necessário construir políticas específicas para grupos com maiores
dificuldades de inserção. O problema está em transformar menor proteção em
vantagem competitiva para contratar.
Direitos
trabalhistas e previdenciários não constituem apenas custos empresariais. São
parte da segurança econômica do trabalhador e de sua família e estão
articulados ao financiamento da Previdência e da Seguridade Social, do FGTS e
do FAT, que sustentam políticas de proteção ao trabalhador e financiam
habitação, saneamento, infraestrutura, qualificação e desenvolvimento
econômico.
A
formalização fortalece ainda a massa salarial, o mercado consumidor e a
arrecadação pública. Por isso, a questão relevante não deve ser simplesmente
como tornar o trabalhador mais barato, mas como criar condições para que o
trabalho seja mais produtivo, a remuneração justa e as empresas mais
competitivas.
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Produtividade não se produz retirando direitos
O
Brasil precisa aumentar sua produtividade. Essa é uma questão central para
qualquer projeto de desenvolvimento. Mas produtividade não aumenta porque
direitos são retirados ou porque o trabalhador passa a custar menos. Ela
depende de investimento, máquinas e equipamentos, tecnologia, inovação,
infraestrutura, organização produtiva, gestão e formação profissional.
O
verdadeiro desafio brasileiro não é fazer o trabalhador trabalhar mais ou
custar menos. É fazer o trabalho produzir mais valor em condições laborais
dignas.
Isso
exige construir um círculo virtuoso:
investimento
→ inovação
→ formação
profissional → aumento da
produtividade → melhores salários
e empregos → expansão
do mercado interno → novos investimentos.
A
política trabalhista não pode substituir uma política de desenvolvimento
produtivo. Quando um país tenta ganhar competitividade principalmente reduzindo
custos do trabalho, corre o risco de transformar baixos salários e menor
proteção social em vantagem comparativa. Trata-se de uma estratégia espúria de
desenvolvimento pelo rebaixamento.
O
desafio deve ser exatamente o inverso: elevar produtividade e competitividade e
fazer com que parte desses ganhos retorne aos trabalhadores na forma de
melhores salários, empregos de qualidade, formação profissional, saúde,
segurança e tempo livre.
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Jornada é também uma disputa pelo tempo
É nesse
contexto que ganha importância a discussão sobre jornada. O programa defende
jornadas flexíveis, reafirma o “negociado sobre o legislado” e sustenta que
trabalhador e empresa possam combinar diretamente condições de trabalho que
considerem adequadas, sem os sindicatos.
Não
assume como compromisso a redução geral da jornada para 40 horas semanais, nem
o fim da escala 6×1, temas que mobilizam e tem o apoio de milhões de
trabalhadores e ocupam lugar central no debate sobre o futuro do trabalho.
A
discussão não é apenas sobre custos. É sobre tempo. O próprio programa
reconhece, quando trata da mobilidade urbana, que milhões de brasileiros perdem
diariamente horas no deslocamento entre casa e trabalho — tempo retirado da
família, do descanso e do estudo. Esse diagnóstico deveria levar a uma
discussão mais ampla. Quanto tempo uma sociedade deseja dedicar ao trabalho?
Quanto ao deslocamento? Quanto ao cuidado, à família, ao estudo, à cultura, ao
descanso e à participação social?
Desde a
Revolução Industrial, os avanços tecnológicos permitiram produzir cada vez mais
em menos tempo. A inteligência artificial poderá acelerar extraordinariamente
esse processo. Se produtividade e tecnologia permitem produzir mais valor em
menos horas, parte desse ganho deve se transformar também em tempo de vida.
Novas
formas de trabalhar exigem novos direitos, não ausência de direitos
O
programa valoriza intensamente o empreendedorismo, a autonomia econômica, a
simplificação e a abertura de negócios.Não há problema em reconhecer essa
realidade. O mundo do trabalho tornou-se mais diverso. Milhões de brasileiros
transitam ao longo da vida entre emprego assalariado, desemprego, trabalho
autônomo, MEI, plataformas digitais, atividades por conta própria e outras
formas de inserção produtiva.
A
questão é outra: a diversidade das formas de trabalhar não pode significar
fragmentação da proteção e vulnerabilidade. Uma pessoa pode mudar muitas vezes
de posição ocupacional durante sua vida. Seus direitos fundamentais não
deveriam desaparecer a cada mudança da forma jurídica de contratação. O grande
desafio contemporâneo é fazer a proteção acompanhar o trabalhador. Previdência,
proteção diante de acidentes e doenças, formação profissional, renda em
situações de incapacidade para o trabalho e direito à representação coletiva
precisam progressivamente adquirir caráter universal.
Essa
questão é especialmente importante diante da pejotização. Existe o empreendedor
genuinamente autônomo. Existe o pequeno empresário que organiza seu próprio
negócio. E existe outra situação: utilizar uma pessoa jurídica para mascarar
uma relação que possui, na prática, características de emprego.
Combater
fraude trabalhista não significa combater empreendedorismo. Significa impedir
que uma forma jurídica seja utilizada apenas para transferir riscos
empresariais ao trabalhador, retirar direitos e fragilizar as bases de
financiamento da proteção social.
O
programa não apresenta resposta estruturada para esse problema. Também não
encontramos nele uma agenda específica para o trabalho mediado por plataformas
digitais, embora essa seja uma das principais transformações contemporâneas das
relações de trabalho. As formas de trabalhar estão mudando. A proteção também
precisa mudar. Mas mudar para alcançar todos, e não para desaparecer.
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A liberdade de negociar sem o poder de negociar
Aqui
está outra divergência profunda: o programa afirma que pretende permitir que
trabalhador e empresa combinem diretamente condições de trabalho e dedica uma
seção ao tema sindical sob um título revelador: “O trabalhador em primeiro
lugar, não o sindicato”.
A frase
apresenta como oposição aquilo que historicamente deveria ser complementar. O
sindicato não existe contra o trabalhador. É instrumento de representação
coletiva construído pelos próprios trabalhadores.
A
pergunta elementar permanece: trabalhador e empresa possuem o mesmo poder de
negociação? Formalmente, ambos podem sentar-se à mesa. Materialmente, as
condições são muito diferentes.
De um
lado está quem necessita do trabalho e da renda para viver. De outro, quem
controla o capital, os investimentos, a tecnologia, a organização produtiva e,
em última instância, a decisão de contratar ou dispensar.
É
justamente dessa assimetria que nasceram os sindicatos, o direito do trabalho e
a negociação coletiva. A organização coletiva transforma uma relação individual
profundamente desigual em uma relação na qual sujeitos representativos podem
construir maior equilíbrio de forças.
Por
isso, liberdade para negociar sem poder para negociar pode significar apenas
liberdade formal. A própria Constituição brasileira reconhece essa realidade. O
Artigo 8º atribui aos sindicatos a defesa dos direitos e interesses coletivos
ou individuais da categoria e determina sua participação nas negociações
coletivas. O Artigo 10 assegura a participação de trabalhadores e empregadores
nos colegiados públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários
estejam em discussão.
Participação
sindical na formulação de políticas relacionadas ao trabalho não é privilégio.
É parte da arquitetura constitucional da democracia brasileira.
Isso
não significa defender acriticamente a organização sindical existente.
Precisamos de sindicatos mais representativos, democráticos, transparentes,
presentes nos locais de trabalho e capazes de representar também trabalhadores
submetidos às novas formas de contratação. Uma coisa, entretanto, é revitalizar
a representação coletiva. Outra é substituí-la pela negociação individual.
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Inteligência artificial: quem negociará o futuro?
Essa
discussão se tornará ainda mais importante com a inteligência artificial.
Algoritmos já interferem na distribuição de tarefas, organização da jornada,
estabelecimento de metas, avaliação de desempenho, remuneração e gestão das
pessoas. E estamos apenas no começo dessa transformação.
Quem
negociará a introdução dessas tecnologias? Quem discutirá seus efeitos sobre
emprego e jornada? Quem definirá regras para utilização dos dados dos
trabalhadores? Como serão enfrentados novos riscos psicossociais produzidos
pela intensificação do trabalho e pelo controle algorítmico? Quem garantirá
formação profissional aos trabalhadores cujas tarefas forem transformadas? E,
sobretudo, como serão distribuídos os extraordinários ganhos de produtividade
que essas tecnologias poderão gerar?
Essas
não são questões que possam ser respondidas satisfatoriamente pela negociação
isolada de cada trabalhador com sua empresa. A negociação coletiva pode
tornar-se uma das principais instituições de regulação das transformações
tecnológicas em tempo real. Quanto mais profunda a transformação tecnológica,
maior — e não menor — a necessidade de representação coletiva.
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Proteção social para uma economia que mudou
A
transformação das formas de trabalhar produz outro enorme desafio. O programa
dedica atenção à eficiência administrativa do INSS, propondo digitalização,
profissionalização da gestão, redução das filas e combate às fraudes. São
objetivos importantes. Mas existe uma questão anterior: como financiar e
organizar proteção previdenciária em uma economia na qual as trajetórias
profissionais serão cada vez mais descontínuas?
Há
ainda outra mudança. Empresas intensivas em tecnologia podem produzir grande
quantidade de valor empregando proporcionalmente menos pessoas. Se parte
significativa do financiamento da proteção social continuar excessivamente
dependente da folha salarial, a própria transformação tecnológica poderá
pressionar suas bases de financiamento.
Isso
exige debate muito mais amplo sobre proteção universal e diversificação das
formas de financiamento da Seguridade Social. O desafio não é simplesmente
tornar a Previdência administrativamente mais eficiente. É construir proteção
social para uma economia que mudou.
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Qual Estado para qual desenvolvimento?
O
programa propõe redução da estrutura federal, corte de ministérios, reforma
administrativa, revisão de normas trabalhistas e previdenciárias, digitalização
e ampliação da participação privada em diferentes políticas.
Há uma
determinada concepção de Estado por trás dessas medidas. Não se trata
simplesmente de Estado mínimo. O Estado permanece financiando, regulando e
organizando determinados instrumentos, mas parte de sua função é deslocada da
provisão direta para a criação de condições para que indivíduos façam escolhas
no mercado, uma forma de privatização ampla das políticas públicas.
A
utilização de vouchers é um exemplo. No caso das creches, é importante
registrar precisamente a proposta: o programa também afirma pretender ampliar a
oferta pública em período integral e apresenta o voucher como alternativa para
acesso à rede privada credenciada onde não houver vaga pública, até que essa
vaga apareça. Portanto, a discussão não deve ser caricaturada como escolha
simples entre Estado e mercado.
A
pergunta é mais profunda: de que Estado o Brasil precisará para enfrentar as
transformações das próximas décadas? Um país confrontado simultaneamente pelas
transições tecnológica, ambiental, demográfica e produtiva precisa de um Estado
capaz de planejar, coordenar investimentos, executar políticas, promover
desenvolvimento industrial e tecnológico, produzir inteligência estratégica e
assegurar serviços públicos e proteção social.
Digitalização
pode aumentar extraordinariamente a capacidade estatal. Mas tecnologia não
substitui instituições, servidores qualificados, planejamento e capacidade de
execução. Precisamos discutir não apenas o tamanho do Estado, mas sua
capacidade de promover desenvolvimento e produzir bem-estar coletivo.
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Mulheres: autonomia individual não basta para superar desigualdades estruturais
O
capítulo “Brasil por Elas” prevê qualificação profissional, intermediação de
vagas, apoio à abertura de negócios, acesso ao crédito, inclusão digital,
prevenção à violência, ampliação de creches e rede de cuidados para idosos e
pessoas com deficiência. Também reconhece a sobrecarga do trabalho doméstico e
de cuidado que recai sobre as mulheres. São problemas reais. A divergência está
na compreensão sobre como as desigualdades são produzidas e como podem ser
superadas.
O
programa aposta fortemente em capacitação, autonomia financeira,
empreendedorismo, crédito e criação de oportunidades individuais. Tudo isso é
importante, mas não basta.
As
mulheres brasileiras possuem, em média, elevada escolaridade e, mesmo assim,
continuam submetidas a diferenças de remuneração, oportunidades profissionais,
acesso aos postos de comando e disponibilidade de tempo. Isso demonstra que a
desigualdade não resulta simplesmente da insuficiência de qualificação ou
iniciativa individual. Existem estruturas sociais, econômicas e culturais que
produzem desigualdade.
Uma
política efetiva precisa combinar autonomia econômica e formação profissional
com igualdade salarial, combate à discriminação, infraestrutura pública de
cuidados, fiscalização, proteção social, combate à violência e transformação da
divisão sexual do trabalho.
Não
localizamos no programa compromisso explícito com a política de igualdade
salarial entre mulheres e homens, nem mecanismos específicos para enfrentar a
discriminação remuneratória. Essa ausência é significativa.
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Desigualdade não é falta de esforço individual
A mesma
questão se coloca de maneira mais ampla. Mulheres e homens, negros e brancos,
moradores de territórios diferentes, pessoas com e sem deficiência e
trabalhadores de diferentes origens sociais não chegam ao mercado nas mesmas
condições. Oferecer oportunidades formalmente iguais não basta quando os pontos
de partida são profundamente desiguais.
Uma
política de trabalho precisa atuar sobre essas diferenças. Isso significa
educação, creches, formação profissional permanente, políticas de inclusão
produtiva, transporte, infraestrutura urbana, igualdade salarial, combate à
discriminação, fiscalização, proteção social e representação coletiva.
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Trabalho é uma instituição da democracia
Aqui
chegamos a uma dimensão essencial. A Constituição Federal colocou entre os
fundamentos da República os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.
Ao tratar da ordem econômica, associou novamente valorização do trabalho humano
e livre iniciativa à finalidade de assegurar existência digna segundo os
ditames da justiça social. Essa formulação é extremamente atual.
A
Constituição não opõe trabalho e empresa, nem desenvolvimento econômico e
direitos. Ela exige construir instituições capazes de compatibilizá-los.
Democracia não existe apenas quando o cidadão deposita seu voto na urna. Deve
chegar também ao espaço no qual milhões de pessoas passam grande parte de sua
vida: o trabalho.
Autonomia
sindical, organização dos trabalhadores, negociação coletiva e diálogo social
democratizam decisões sobre salários, jornada, tecnologia, saúde, organização
produtiva e distribuição dos ganhos de produtividade.
É nesse
ponto que nossa divergência com o programa de Flávio Bolsonaro se torna mais
profunda. O programa privilegia a autonomia individual diante da proteção
coletiva; amplia o espaço da negociação direta entre empresa e trabalhador;
associa flexibilização à liberdade; e olha com profunda desconfiança para as
estruturas coletivas de representação.
Também
são reveladoras suas ausências. Não encontramos compromisso explícito com uma
política permanente de valorização real do salário mínimo; estratégia
específica para enfrentar a pejotização fraudulenta; agenda estruturada para o
trabalho em plataformas; compromisso explícito com igualdade salarial entre
mulheres e homens; ou destaque equivalente para o combate ao trabalho análogo à
escravidão, ao trabalho infantil e para a promoção da economia solidária e
popular.
Programas
de governo são feitos tanto das propostas que apresentam quanto das prioridades
que deixam de apresentar.
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Afinal, que futuro do trabalho queremos?
Essa é
a pergunta que deveria orientar o debate eleitoral de 2026. Não se trata apenas
de escolher entre propostas trabalhistas distintas. Trata-se de decidir que
projeto de desenvolvimento o Brasil pretende construir nas próximas décadas.
O mundo
do trabalho passará por transformações extraordinárias. Inteligência
artificial, transição ambiental, envelhecimento populacional, novas formas de
contratação, reorganização das cadeias produtivas e mudanças geopolíticas
exigirão profundas inovações econômicas, sociais e institucionais.
Não há
sentido em imaginar que poderemos responder aos desafios do século XXI
simplesmente enfraquecendo instituições construídas nos séculos XIX e XX para
enfrentar desigualdades que continuam presentes.
Instituições
precisam mudar. Direitos precisam alcançar novas formas de trabalhar.
Sindicatos precisam representar novos trabalhadores. A negociação coletiva
precisa tratar de inteligência artificial, dados, produtividade, saúde mental,
formação profissional, transição ambiental e novas formas de organização
produtiva. A proteção social precisa tornar-se universal. E o Estado precisa
modernizar-se para coordenar uma economia muito mais complexa.
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Modernizar não é precarizar
Uma
estratégia contemporânea para o mundo do trabalho deve elevar produtividade e
competitividade e, simultaneamente, universalizar proteção trabalhista e
previdenciária; combater informalidade, desigualdades e fraudes; promover
crescimento dos salários; reduzir jornadas excessivas; preparar trabalhadores
para as transições tecnológica e ambiental; e fortalecer negociação coletiva e
diálogo social para compartilhar os ganhos da inovação e do crescimento.
Trabalho
não é apenas uma maneira individual de obter renda. É espaço de produção de
riqueza, direitos, sociabilidade, reconhecimento e exercício da democracia.
Colocá-lo no centro do desenvolvimento significa decidir não apenas quanto o
Brasil quer crescer, mas como quer crescer, como pretende distribuir os
resultados desse crescimento e que sociedade deseja construir.
As
transformações exigirão soluções novas. Os conflitos entre capital e trabalho
continuarão existindo e novas tensões certamente surgirão. É justamente por
isso que precisaremos de mais — e não menos — capacidade de diálogo,
representação e negociação.
O
desafio do futuro é combinar liberdade com proteção; iniciativa privada com
capacidade estatal; produtividade com distribuição; inovação com direitos;
crescimento com redução das desigualdades; e desenvolvimento econômico com
democracia.
Esse é
o debate sobre o mundo do trabalho que o Brasil precisa fazer.
Fonte:
Por Clemente Ganz Lúcio e Eneida Vinhaes Bello Dultra, em Outras Palavras

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