sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Por que governo Lula vê 'cavalo de Troia' em ação coordenada dos EUA e mais 14 países contra facções como PCC e CV

Os Estados Unidos estão usando o combate ao crime organizado no continente americano com uma espécie de "cavalo de Troia" para ampliar sua influência na região.

A análise é de um auxiliar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ouvido em caráter reservado pela BBC News Brasil.

Na metáfora usada pelo auxiliar de Lula, o combate ao narcotráfico seria o "cavalo" de madeira grego e os "soldados" dentro dele seriam os interesses norte-americanos que os países da região estariam colocando para "dentro de casa" ao aderirem à política dos EUA para o continente americano.

A avaliação do auxiliar de Lula toma como base o comunicado conjunto feito por 15 países da região, liderados pelos Estados Unidos, divulgado na terça-feira (22/9), em que o grupo, intitulado Escudo das Américas, se compromete a adotar sanções contra 24 facções criminosas, entre elas duas do Brasil: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho.

Apesar de o texto ter como foco a adoção de medidas conjuntas contra os grupos criminosos da região, ele também menciona temas como infraestrutura digital, cooperação econômica e até mesmo o acesso a minerais críticos.

Segundo esse auxiliar, os Estados Unidos estão usando o combate às facções criminosas na região como um pretexto para avançar agendas mais amplas e diversas que o mero ataque à criminalidade na região.

Na avaliação dele, a adesão dos países à postura norte-americana é perigosa e cria o terreno para que qualquer tema do interesse dos EUA na região possa ser tratado a partir da lógica de segurança nacional, o que em última instância, poderia justificar ações militares.

No mesmo dia do anúncio feito pelo grupo, o presidente Donald Trump chegou a afirmar que os EUA estariam dispostos a usar o seu poderio militar para defender seus interesses na América Latina.

"Ao vencedor, o espólio. Vocês já ouviram falar que nossas ações na Venezuela são a prova que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem terreno em qualquer ponto do Hemisfério Ocidental. Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos Estados Unidos", disse Trump em discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), mencionando a ação militar dos EUA que capturou o então presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.

<><> Qual foi a declaração do Escudo das Américas?

O comunicado conjunto do Escudo das Américas foi divulgado no final da tarde de terça-feira, horas depois do pronunciamento de Trump na Assembleia Geral da ONU.

O comunicado conjunto afirma que os países signatários se comprometem a adotar medidas compartilhadas de combate ao crime organizado como o congelamento de ativos de organizações criminosas ou suas lideranças, medidas de controle migratório contra pessoas supostamente vinculadas e processar pessoas que oferecem suporte financeiro ou logístico para essas facções.

O comunicado também anunciou que o grupo fará uma consulta à Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual o Brasil é membro, para avaliar a possível reativação do Tratado Interamericano de Assistência Mútua (Tiar), um mecanismo criado em 1948, que ficou conhecido como Tratado do Rio e que foi criado durante a Guerra Fria com o objetivo de "proteger" o continente americano do avanço da União Soviética. O texto previa que um ataque a um país do bloco seria considerado um ataque à toda a região.

O Escudo das Américas é um grupo de 14 países do continente americano criado neste ano e liderado pelos Estados Unidos. Em sua maioria, os países são governados por líderes de centro-direita e de direita alinhados à política de Donald Trump para a região. O Brasil não faz parte do grupo.

O anúncio feito ontem pelo Escudo das Américas pegou os diplomatas brasileiros de surpresa em relação ao timing.

Diplomatas ouvidos pela BBC News Brasil desde terça-feira disseram que só tomaram conhecimento do documento após a sua divulgação e não chegaram a ser consultados ou informados por países parceiros a respeito do assunto.

Para o auxiliar de Lula ouvido pela BBC News Brasil, o comunicado divulgado ontem deixa claro que o escopo da ação do grupo liderado pelos EUA não se limita ao combate ao crime organizado. Ele cita, por exemplo, as menções ao acesso a minerais críticos.

"Para esse fim, declaramos conjuntamente nossa intenção de empreender as seguintes ações, de acordo com nossas respectivas obrigações legais internacionais e domésticas: defender nossas economias por meio do fortalecimento da cooperação econômica; da exploração de mecanismos de triagem de investimentos; da salvaguarda das cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis", diz um trecho do documento.

A menção à cadeia de minerais críticos em um comunicado que, inicialmente, se destinava a anunciar sanções a grupos criminosos, chamou a atenção do governo Lula porque acontece em um momento em que os Estados Unidos se movimentam para diminuir a dependência do país sobre a China por acesso a minerais críticos como as terras raras.

A China possui 90% do mercado de terras raras mundial e detém a maior reserva conhecida do produto, usado na indústria de alta tecnologia para a produção de imãs usados em equipamentos que vão de turbinas eólicas e carros elétricos a aviões de guerra e mísseis.

Em agosto, por exemplo, uma empresa norte-americana comprou, com apoio do governo dos EUA, a mineradora Serra Verde, localizada em Minaçu, no interior de Goiás.

A empresa opera a única mina de terras raras e escala comercial fora da Ásia a produzir quatro dos principais elementos de terras raras usados nas indústrias de imãs permanentes.

Além do Brasil, outros países da região e que são signatários do comunicado divulgado ontem são ricos em minerais críticos.

A Argentina, Bolívia e o Chile, por exemplo, têm as três maiores reservas conhecidas de lítio, mineral usado para a fabricação de baterias elétricas.

O Chile ainda é rico em outros minerais considerados essenciais à indústria de alta tecnologia como o cobre. O Peru, por sua vez, tem uma das maiores reservas de estanho.

Segundo o auxiliar palaciano, a inclusão dos minerais críticos no "guarda-chuva" da segurança mostra que um dos objetivos dos EUA na região é aumentar o seu acesso a esses recursos e, eventualmente, negar esses ativos para o seu principal rival geopolítico e econômico: a China.

De volta ao Brasil, a aquisição da Serra Verde por uma empresa norte-americana aconteceu logo depois que a mineradora encerrou um contrato de fornecimento de terras raras para compradores chineses.

O texto também contém trechos considerados vagos como o que diz que os países irão "defender a governança democrática contra redes armadas de narcoterrorismo, incluindo a coordenação de sanções, designações e ações financeiras contra terroristas e criminosos; a expansão da aplicação da lei civil; e o fornecimento de assistência humanitária e de comunicação para defender a vontade popular".

<><> Reação do Brasil

De acordo com o auxiliar presidencial, o governo brasileiro ainda analisa as implicações práticas do comunicado feito ontem e da possível consulta do grupo à OEA.

Ainda não estaria claro para o governo brasileiro se seria possível reativar o Tratado do Rio para tratar da questão do crime organizado.

Uma das opções do Brasil é votar contra as propostas feitas pelo grupo, mas isso ainda não foi decidido.

O governo também deverá dar início a consultas junto aos principais parceiros na região, para entender até que ponto eles estariam engajados em implementar as medidas anunciadas ontem.

Dentro do governo, a avaliação é de que a maior parte dos países que aderiram ao comunicado não teriam muita margem de manobra para se opor ao governo norte-americano.

A interpretação é de que, apesar do comunicado, as relações diplomáticas entre esses países e o Brasil tendem a se manter em bom nível.

Apesar disso, o governo brasileiro tem sido crítico em relação às medidas adotadas pelo governo norte-americano sob pretexto de combate ao crime organizado na América Latina.

O governo liderado por Lula rechaçou o bombardeio de barcos supostamente a serviço do tráfico de drogas feito pelos Estados Unidos na costa de países latino-americanos como a Venezuela e a Colômbia.

O governo também criticou a designação do PCC e do CV pelo governo dos EUA como organizações terroristas sob o argumento de que a medida poderia abrir brechas para ações militares em território brasileiro.

A oposição ao governo Lula, liderada pelo senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), rebate a postura do petista afirmando que ele estaria sendo conivente com o crime organizado.

O tema tem sido um dos principais assuntos da campanha presidencial deste ano.

Politicamente, o governo diz saber que as medidas anunciadas pelo Escudo das Américas poderão ser usadas pela oposição para fustigar a campanha de Lula.

Flávio Bolsonaro, por exemplo, já disse, ao longo da sua campanha que, se eleito, vai pedir a inclusão do Brasil no grupo.

¨      Brasil 'dá as costas ao futuro' em eleição com candidatos 'desoladores', diz The Economist

Em editorial publicado nesta quinta-feira (24/9), a influente revista britânica The Economist comparou o Brasil a um avião "parado na pista", que vai enfrentar mais uma eleição desanimadora com candidatos "desoladores", diante de mais um confronto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a família Bolsonaro.

"Nenhum dos dois é convincente quando se trata de enfrentar os dois maiores problemas do Brasil: a corrupção entranhada e a expansão incessante dos gastos públicos", defende a publicação.

O texto começa elencando as riquezas naturais e a diversidade do povo brasileiro, mencionando a construção de Brasília na década de 1950, com "ruas traçadas no formato de um avião, simbolizando um país pronto para decolar".

"No entanto, ele continua parado na pista. Ao longo do último meio século, em vez de ganhar os céus, a economia brasileira estagnou tanto em relação a seus pares quanto em comparação ao crescimento médio global. A eleição geral de 4 de outubro oferece pouca esperança de uma reviravolta", escreve.

Essa não é a primeira comparação com decolagem que a revista faz sobre o Brasil. Em 2009, ela publicou a icônica capa em que estátua do Cristo Redentor aparece subindo aos céus como foguete, com o título "Brazil takes off" ou Brasil decola, na tradução para o português.

Quatro anos depois, em 2013, a revista conhecida pelo pensamento liberal na economia e progressista nos costumes, substituiu o otimismo por uma reportagem repleta de críticas ao país. Na capa, o Cristo aparecia em queda desgovernada. O título questionava se o Brasil havia jogado fora a chance de ser o "país do futuro".

A revista britânica, que defende reformas econômicas e redução dos gastos públicos, escolhe a candidatura de Renan Santos (Missão) como a que mais se "aproxima do que o momento exige", na concepção de seus editores.

"Mas nem ele nem qualquer outro outsider conseguiram avançar contra as máquinas políticas rivais de Lula e Bolsonaro. O país está caminhando para uma crise previsível", diz o texto.

"Assim, o futuro brilhante do Brasil ficará em suspenso por pelo menos mais quatro anos. Ele não está totalmente morto."

A The Economist escreve que, "apesar da corrupção e da visão limitada dos políticos adeptos da distribuição de favores e verbas", muitas das instituições vitais do país ainda funcionam, como Polícia Federal, que tem investigado a fraude de Daniel Vorcaro, do banco Master, e "a conspiração golpista" da família Bolsonaro.

A revista elogia a imprensa "feroz e independente", a diplomacia "respeitada em todo o mundo" e "até mesmo o Supremo Tribunal Federal", que, "apesar de suas muitas falhas, foi capaz de mandar para a prisão alguém que conspirou por um golpe de Estado", referindo-se a Jair Bolsonaro.

Sobre os dois principais candidatos, o editorial diz que Lula, apesar de uma postura correta sobre o meio ambiente, "fez muito pouco para impulsionar o crescimento econômico ou conter os gastos públicos", "sem conseguir promover reformas econômicas".

A revista faz questão de mencionar a idade do presidente, prestes a completar 81 anos, o comparando com Joe Biden, que tinha a mesma idade quando desistiu de sua candidatura às eleições americanas em 2024.

Já Flávio Bolsonaro é descrito como alguém que "nega que os seres humanos estejam causando as mudanças climáticas, questiona a integridade das urnas eletrônicas e insinua que não respeitará o resultado caso Lula vença".

"Sua principal proposta é conceder perdão ao pai, que em setembro de 2025 recebeu uma sentença de 27 anos de prisão por planejar um golpe de Estado, incluindo um plano para assassinar Lula", diz o texto.

Com esse cenário, diz a revista, os "brasileiros comuns se sentem sem esperança".

Por fim, a revista pinta um cenário "provável" de uma crise causada pela "forte aceleração do nível de endividamento e dos custos de financiamento" do governo, gerando inflação e uma recessão.

"Talvez somente então os brasileiros se voltem para alguém disposto a defender a impopular ideia de que serão necessários sacrifícios para construir um futuro em que um país tão abençoado nunca mais seja condenado a escolher entre dois candidatos tão desoladores", conclui a publicação.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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