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que governo Lula vê 'cavalo de Troia' em ação coordenada dos EUA e mais 14
países contra facções como PCC e CV
Os
Estados Unidos estão usando o combate ao crime organizado no continente
americano com uma espécie de "cavalo de Troia" para ampliar sua
influência na região.
A
análise é de um auxiliar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ouvido em
caráter reservado pela BBC News Brasil.
Na
metáfora usada pelo auxiliar de Lula, o combate ao narcotráfico seria o
"cavalo" de madeira grego e os "soldados" dentro dele
seriam os interesses norte-americanos que os países da região estariam
colocando para "dentro de casa" ao aderirem à política dos EUA para o
continente americano.
A
avaliação do auxiliar de Lula toma como base o comunicado conjunto feito por 15
países da região, liderados pelos Estados Unidos, divulgado na terça-feira
(22/9), em que o grupo, intitulado Escudo das Américas, se compromete a adotar
sanções contra 24 facções criminosas, entre elas duas do Brasil: o Primeiro
Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho.
Apesar
de o texto ter como foco a adoção de medidas conjuntas contra os grupos
criminosos da região, ele também menciona temas como infraestrutura digital,
cooperação econômica e até mesmo o acesso a minerais críticos.
Segundo
esse auxiliar, os Estados Unidos estão usando o combate às facções criminosas
na região como um pretexto para avançar agendas mais amplas e diversas que o
mero ataque à criminalidade na região.
Na
avaliação dele, a adesão dos países à postura norte-americana é perigosa e cria
o terreno para que qualquer tema do interesse dos EUA na região possa ser
tratado a partir da lógica de segurança nacional, o que em última instância,
poderia justificar ações militares.
No
mesmo dia do anúncio feito pelo grupo, o presidente Donald Trump chegou a
afirmar que os EUA estariam dispostos a usar o seu poderio militar para
defender seus interesses na América Latina.
"Ao
vencedor, o espólio. Vocês já ouviram falar que nossas ações na Venezuela são a
prova que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem
terreno em qualquer ponto do Hemisfério Ocidental. Se necessário, usaremos todo
o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos
Estados Unidos", disse Trump em discurso na Assembleia Geral da
Organização das Nações Unidas (ONU), mencionando a ação militar dos EUA que
capturou o então presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.
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Qual foi a declaração do Escudo das Américas?
O
comunicado conjunto do Escudo das Américas foi divulgado no final da tarde de
terça-feira, horas depois do pronunciamento de Trump na Assembleia Geral da
ONU.
O
comunicado conjunto afirma que os países signatários se comprometem a adotar
medidas compartilhadas de combate ao crime organizado como o congelamento de
ativos de organizações criminosas ou suas lideranças, medidas de controle
migratório contra pessoas supostamente vinculadas e processar pessoas que
oferecem suporte financeiro ou logístico para essas facções.
O
comunicado também anunciou que o grupo fará uma consulta à Organização dos
Estados Americanos (OEA), da qual o Brasil é membro, para avaliar a possível
reativação do Tratado Interamericano de Assistência Mútua (Tiar), um mecanismo
criado em 1948, que ficou conhecido como Tratado do Rio e que foi criado
durante a Guerra Fria com o objetivo de "proteger" o continente
americano do avanço da União Soviética. O texto previa que um ataque a um país
do bloco seria considerado um ataque à toda a região.
O
Escudo das Américas é um grupo de 14 países do continente americano criado
neste ano e liderado pelos Estados Unidos. Em sua maioria, os países são
governados por líderes de centro-direita e de direita alinhados à política de
Donald Trump para a região. O Brasil não faz parte do grupo.
O
anúncio feito ontem pelo Escudo das Américas pegou os diplomatas brasileiros de
surpresa em relação ao timing.
Diplomatas
ouvidos pela BBC News Brasil desde terça-feira disseram que só tomaram
conhecimento do documento após a sua divulgação e não chegaram a ser
consultados ou informados por países parceiros a respeito do assunto.
Para o
auxiliar de Lula ouvido pela BBC News Brasil, o comunicado divulgado ontem
deixa claro que o escopo da ação do grupo liderado pelos EUA não se limita ao
combate ao crime organizado. Ele cita, por exemplo, as menções ao acesso a
minerais críticos.
"Para
esse fim, declaramos conjuntamente nossa intenção de empreender as seguintes
ações, de acordo com nossas respectivas obrigações legais internacionais e
domésticas: defender nossas economias por meio do fortalecimento da cooperação
econômica; da exploração de mecanismos de triagem de investimentos; da
salvaguarda das cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes
diversificadas e confiáveis", diz um trecho do documento.
A
menção à cadeia de minerais críticos em um comunicado que, inicialmente, se
destinava a anunciar sanções a grupos criminosos, chamou a atenção do governo
Lula porque acontece em um momento em que os Estados Unidos se movimentam para
diminuir a dependência do país sobre a China por acesso a minerais críticos
como as terras raras.
A China
possui 90% do mercado de terras raras mundial e detém a maior reserva conhecida
do produto, usado na indústria de alta tecnologia para a produção de imãs
usados em equipamentos que vão de turbinas eólicas e carros elétricos a aviões
de guerra e mísseis.
Em
agosto, por exemplo, uma empresa norte-americana comprou, com apoio do governo
dos EUA, a mineradora Serra Verde, localizada em Minaçu, no interior de Goiás.
A
empresa opera a única mina de terras raras e escala comercial fora da Ásia a
produzir quatro dos principais elementos de terras raras usados nas indústrias
de imãs permanentes.
Além do
Brasil, outros países da região e que são signatários do comunicado divulgado
ontem são ricos em minerais críticos.
A
Argentina, Bolívia e o Chile, por exemplo, têm as três maiores reservas
conhecidas de lítio, mineral usado para a fabricação de baterias elétricas.
O Chile
ainda é rico em outros minerais considerados essenciais à indústria de alta
tecnologia como o cobre. O Peru, por sua vez, tem uma das maiores reservas de
estanho.
Segundo
o auxiliar palaciano, a inclusão dos minerais críticos no
"guarda-chuva" da segurança mostra que um dos objetivos dos EUA na
região é aumentar o seu acesso a esses recursos e, eventualmente, negar esses
ativos para o seu principal rival geopolítico e econômico: a China.
De
volta ao Brasil, a aquisição da Serra Verde por uma empresa norte-americana
aconteceu logo depois que a mineradora encerrou um contrato de fornecimento de
terras raras para compradores chineses.
O texto
também contém trechos considerados vagos como o que diz que os países irão
"defender a governança democrática contra redes armadas de
narcoterrorismo, incluindo a coordenação de sanções, designações e ações
financeiras contra terroristas e criminosos; a expansão da aplicação da lei
civil; e o fornecimento de assistência humanitária e de comunicação para
defender a vontade popular".
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Reação do Brasil
De
acordo com o auxiliar presidencial, o governo brasileiro ainda analisa as
implicações práticas do comunicado feito ontem e da possível consulta do grupo
à OEA.
Ainda
não estaria claro para o governo brasileiro se seria possível reativar o
Tratado do Rio para tratar da questão do crime organizado.
Uma das
opções do Brasil é votar contra as propostas feitas pelo grupo, mas isso ainda
não foi decidido.
O
governo também deverá dar início a consultas junto aos principais parceiros na
região, para entender até que ponto eles estariam engajados em implementar as
medidas anunciadas ontem.
Dentro
do governo, a avaliação é de que a maior parte dos países que aderiram ao
comunicado não teriam muita margem de manobra para se opor ao governo
norte-americano.
A
interpretação é de que, apesar do comunicado, as relações diplomáticas entre
esses países e o Brasil tendem a se manter em bom nível.
Apesar
disso, o governo brasileiro tem sido crítico em relação às medidas adotadas
pelo governo norte-americano sob pretexto de combate ao crime organizado na
América Latina.
O
governo liderado por Lula rechaçou o bombardeio de barcos supostamente a
serviço do tráfico de drogas feito pelos Estados Unidos na costa de países
latino-americanos como a Venezuela e a Colômbia.
O
governo também criticou a designação do PCC e do CV pelo governo dos EUA como
organizações terroristas sob o argumento de que a medida poderia abrir brechas
para ações militares em território brasileiro.
A
oposição ao governo Lula, liderada pelo senador e candidato à Presidência,
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), rebate a postura do petista afirmando que ele estaria
sendo conivente com o crime organizado.
O tema
tem sido um dos principais assuntos da campanha presidencial deste ano.
Politicamente,
o governo diz saber que as medidas anunciadas pelo Escudo das Américas poderão
ser usadas pela oposição para fustigar a campanha de Lula.
Flávio
Bolsonaro, por exemplo, já disse, ao longo da sua campanha que, se eleito, vai
pedir a inclusão do Brasil no grupo.
¨
Brasil 'dá as costas ao futuro' em eleição com candidatos
'desoladores', diz The Economist
Em
editorial publicado nesta quinta-feira (24/9), a influente revista britânica
The Economist comparou o Brasil a um avião "parado na pista", que vai
enfrentar mais uma eleição
desanimadora com candidatos "desoladores", diante de mais um
confronto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a família
Bolsonaro.
"Nenhum
dos dois é convincente quando se trata de enfrentar os dois maiores problemas
do Brasil: a corrupção entranhada e a expansão incessante dos gastos
públicos", defende a publicação.
O texto
começa elencando as riquezas naturais e a diversidade do povo brasileiro,
mencionando a construção de Brasília na década de 1950, com "ruas traçadas
no formato de um avião, simbolizando um país pronto para decolar".
"No
entanto, ele continua parado na pista. Ao longo do último meio século, em vez
de ganhar os céus, a economia brasileira estagnou tanto em relação a seus pares
quanto em comparação ao crescimento médio global. A eleição geral de 4 de
outubro oferece pouca esperança de uma reviravolta", escreve.
Essa
não é a primeira comparação com decolagem que a revista faz sobre o Brasil. Em
2009, ela publicou a icônica capa em que estátua do Cristo Redentor aparece subindo aos
céus como foguete, com o título "Brazil takes off" ou
Brasil decola, na tradução para o português.
Quatro
anos depois, em 2013, a revista conhecida pelo pensamento liberal na economia e
progressista nos costumes, substituiu o otimismo por uma reportagem repleta de
críticas ao país. Na capa, o Cristo aparecia em queda desgovernada. O título
questionava se o Brasil havia jogado fora a chance de ser o "país do
futuro".
A
revista britânica, que defende reformas econômicas e redução dos gastos
públicos, escolhe a candidatura de Renan Santos (Missão) como a que mais se
"aproxima do que o momento exige", na concepção de seus editores.
"Mas
nem ele nem qualquer outro outsider conseguiram avançar contra as
máquinas políticas rivais de Lula e Bolsonaro. O país está caminhando para uma
crise previsível", diz o texto.
"Assim,
o futuro brilhante do Brasil ficará em suspenso por pelo menos mais quatro
anos. Ele não está totalmente morto."
A The
Economist escreve que, "apesar da corrupção e da visão limitada dos
políticos adeptos da distribuição de favores e verbas", muitas das
instituições vitais do país ainda funcionam, como Polícia Federal, que tem
investigado a fraude de Daniel Vorcaro, do banco Master, e "a conspiração
golpista" da família Bolsonaro.
A
revista elogia a imprensa "feroz e independente", a diplomacia
"respeitada em todo o mundo" e "até mesmo o Supremo Tribunal
Federal", que, "apesar de suas muitas falhas, foi capaz de mandar
para a prisão alguém que conspirou por um golpe de Estado", referindo-se a
Jair Bolsonaro.
Sobre
os dois principais candidatos, o editorial diz que Lula, apesar de uma postura
correta sobre o meio ambiente, "fez muito pouco para impulsionar o
crescimento econômico ou conter os gastos públicos", "sem conseguir
promover reformas econômicas".
A
revista faz questão de mencionar a idade do presidente, prestes a completar 81
anos, o comparando com Joe Biden, que tinha a mesma idade quando desistiu de
sua candidatura às eleições americanas em 2024.
Já
Flávio Bolsonaro é descrito como alguém que "nega que os seres humanos
estejam causando as mudanças climáticas, questiona a integridade das urnas
eletrônicas e insinua que não respeitará o resultado caso Lula vença".
"Sua
principal proposta é conceder perdão ao pai, que em setembro de 2025 recebeu
uma sentença de 27 anos de prisão por planejar um golpe de Estado, incluindo um
plano para assassinar Lula", diz o texto.
Com
esse cenário, diz a revista, os "brasileiros comuns se sentem sem
esperança".
Por
fim, a revista pinta um cenário "provável" de uma crise causada pela
"forte aceleração do nível de endividamento e dos custos de
financiamento" do governo, gerando inflação e uma recessão.
"Talvez
somente então os brasileiros se voltem para alguém disposto a defender a
impopular ideia de que serão necessários sacrifícios para construir um futuro
em que um país tão abençoado nunca mais seja condenado a escolher entre dois
candidatos tão desoladores", conclui a publicação.
Fonte:
BBC News Brasil

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