A
difícil busca por uma saída na guerra no Irã
Quase
sete meses após o início da guerra, o conflito no Irã se espalhou para duas rotas marítimas
estrategicamente importantes. Além do Estreito de Ormuz, por onde passam
cerca de 20% do petróleo bruto e do gás
natural liquefeito (GNL) do mundo, uma segunda rota fundamental para o comércio
de energia também está sob pressão: o Mar Vermelho.
Os
rebeldes iemenitas houthis, apoiados pelo Irã,
intensificaram seus ataques à Arábia Saudita, visando cada vez
mais a infraestrutura energética e as rotas de exportação que atravessam o Mar
Vermelho.
Segundo
o jornal The New York Times, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin
Salman, telefonou neste domingo (20/09) para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para solicitar, mais uma vez, a intervenção
urgente dos EUA e o fim do rápido avanço do grupo.
Trump
teria considerado ataques aéreos contra os houthis em determinado momento, mas
depois abandonou a ideia. A emissora americana Fox News noticiou neste domingo
que o republicano afirmou que os houthis concordaram em não atacar alvos dos
EUA. O portal de notícias americano Axios também informou que Trump já havia
rejeitado um pedido da Arábia Saudita para atacar os
houthis na semana passada.
<><>
Entre o militarismo e a diplomacia
Em meio
ao aumento dos preços da gasolina e do diesel e à conjuntura política interna –
às vésperas das eleições de meio de mandato em 3 de novembro –,
Trump tenta alcançar seus objetivos declarados na guerra com o Irã.
"O
presidente Trump quer encerrar a guerra com o Irã partindo de uma posição que
lhe permita afirmar que as capacidades nucleares e militares do Irã foram
significativamente enfraquecidas, a liberdade de navegação foi restaurada e
Teerã foi forçada a retornar à mesa de negociações", disse à DW a
especialista em Irã, Fatemeh Aman.
Aman,
que trabalhou para organizações como o Middle East Institute e o Atlantic
Council, e para as emissoras Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade (RFE/RL) e Voz
da América, enfatiza, no entanto, que ainda é difícil discernir uma estratégia
coerente para alcançar esse objetivo.
Uma
lacuna entre a pressão militar e uma solução política ainda persiste. Os
Estados Unidos impuseram custos militares e econômicos significativos ao Irã e
parecem ter obtido progresso no enfraquecimento das capacidades militares do
país. No entanto, isso ainda não resultou na rendição de Teerã nem em um acordo
duradouro.
Nesta
quarta-feira, Trump tem um encontro marcado com o presidente chinês, Xi Jinping, em Washington. A China é, de longe, a maior compradora de petróleo iraniano e
uma importante parceira política de Teerã. Washington provavelmente discutirá
os laços econômicos e financeiros da China com o Irã durante o encontro e
espera que Pequim use sua influência sobre Teerã – particularmente em relação à
segurança da navegação no Estreito de Ormuz.
Ao
mesmo tempo, Trump sinalizou sua disposição em se encontrar com o presidente
iraniano Massoud Peseshkian, que está em Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas.
Representantes importantes dos países do Golfo também são esperados nos EUA nos
próximos dias. Segundo o Axios, Trump pretende consultar representantes de
vários países do Golfo sobre a guerra com o Irã à margem da Assembleia Geral da
ONU.
<><>
Nações do Golfo não desejam nova escalada
Ainda
não houve consenso entre o Irã e seus vizinhos árabes no Golfo. Uma reunião
planejada entre o Irã, os Estados do Golfo e o Iraque foi cancelada na semana
passada. O cancelamento pode estar relacionado aos recentes ataques dos houthis
à Arábia Saudita.
"À
primeira vista, parece haver poucos pontos em comum entre o Irã e os Estados do
Golfo", disse Farzan Sabet, especialista em Oriente Médio do Instituto de
Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento de Genebra, à DW. "Mas,
nos bastidores, existe pelo menos um interesse compartilhado em evitar uma
escalada militar ainda maior."
Os
Estados do Golfo reconhecem que dificilmente vencerão um confronto militar
direto com o Irã. Portanto, geralmente preferem a desescalada e uma redução
pragmática das tensões com Teerã.
Um
acordo, no entanto, não está à vista no momento. Em particular, as
exigências do Irã por maior controle sobre o Estreito de Ormuz vão longe demais
na perspectiva dos Estados do Golfo.
Para
piorar a situação, a guerra no Iêmen limita as possibilidades de reaproximação.
A Arábia Saudita, por exemplo, dificilmente estará disposta a fazer concessões
enquanto o país estiver sob pressão dos ataques dos houthis.
<><>
Abordagem dupla
Uma
coalizão dos países do Golfo permanentemente hostil e apoiada pelos EUA seria
estrategicamente custosa para Teerã, afirma Aman. Portanto, o Irã poderia
adotar uma estratégia dupla: resistir a uma arquitetura de contenção liderada
por Washington e, simultaneamente, oferecer aos Estados do Golfo um modelo
alternativo de segurança regional baseado em compromisso e diálogo. Afinal,
esses países não são apenas rivais, mas também vizinhos do Irã – e nenhum dos
lados pode mudar essa realidade geográfica.
De
acordo com o oficial de segurança iraniano Mohsen Rezai, Teerã exige que os EUA
cessem os combates em todas as frentes. O Irã também exige a liberação de
ativos iranianos congelados e o fim do bloqueio naval. As negociações com o
Catar e Omã já estariam em andamento, enquanto Teerã aguarda uma resposta do
presidente dos EUA, Donald Trump.
Contudo,
ainda é incerto se esses canais diplomáticos serão capazes de pôr fim à guerra,
uma vez que Washington, Teerã e os Estados do Golfo continuam a perseguir
objetivos diferentes.
<><>
Aliados de Washington na Ásia não confiam mais nos EUA após seu fracasso no
Irã, diz mídia
Seis
meses de combates no Oriente Médio expuseram a pressão sobre os compromissos de
Washington na Ásia e mostraram que o país não consegue exercer sua influência
na região de forma eficaz, escreveu uma revista norte-americana.
A
reportagem destaca que a guerra no Irã revelou uma dura
realidade para os EUA e seus aliados: o poder estadunidense tem limites.
"Para
os aliados dos EUA na Ásia, que são cautelosos em relação à China e à Coreia do
Norte, a questão é se os Estados Unidos poderão fornecer apoio suficiente em
dois teatros de operações cada vez mais interconectados e se esse apoio
continuará politicamente confiável assim que um conflito começar",
ressalta a publicação.
Enquanto
os Estados Unidos falham em defender seus aliados em várias regiões
simultaneamente, a China observa atentamente essa vulnerabilidade. Ao mesmo
tempo, a transferência de ativos militares e munições da Ásia
para o Oriente Médio expôs lacunas que minam a confiança nas garantias de
segurança de Washington.
Por
isso, a publicação aponta que aliados como Japão, Coreia do Sul e Filipinas
questionam cada vez mais a capacidade dos Estados Unidos de honrar seus
compromissos em meio a crises simultâneas.
A China
aprendeu, com a guerra no Irã, que a pressão sustentada e a coerção econômica
podem esticar os recursos dos EUA e corroer sua capacidade de dissuasão, sem
que seja necessária uma vitória militar direta.
Como
resultado, Pequim enxerga uma oportunidade para aumentar sua influência na Ásia
enquanto Washington segue sobrecarregado e distraído pelo conflito prolongado
com o Irã, conclui a reportagem.
Anteriormente,
um veículo de comunicação da mídia ocidental informou que a era do domínio
global incontestável dos EUA chegou ao fim e que o país já não possui a mesma
superioridade militar de 1991 — a guerra no Irã ilustra essa mudança.
¨
'Não somos terroristas, somos vítimas do terrorismo', diz
presidente iraniano na ONU
Os EUA
e Israel bombardearam uma escola em Minab usando munições cluster, causando a
morte de crianças e outras pessoas inocentes, afirmou hoje (23) o presidente do
Irã, Masoud Pezeshkian, durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em
Nova York.
"O
presidente dos EUA [Donald Trump] nos descreveu como terroristas. Nós fomos
vítimas de terrorismo", disse Pezeskhian, denunciando que as forças
estadunidenses "bombardearam uma escola" e que "crianças
morreram sob bombas disparadas usadas pelos EUA e por Israel".
No
discurso, o presidente do Irã mencionou que o país "não baixou a cabeça e
respondeu, mas não atacou populações civis".
"Eles
invadiram os territórios vizinhos e atacaram nossas universidades, nossos
centros de saúde, nossas escolas, nossos hospitais, nossa infraestrutura, tudo
isso contra o direito internacional", denunciou.
Enquanto
Pezeshkian falava, os representantes dos Estados Unidos se retiraram do
plenário da ONU.
<><>
Confira mais declarações do presidente iraniano:
Os EUA
mataram o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, sem qualquer justificativa;
A morte
de mais de 80 mil pessoas e o deslocamento de centenas de milhares em Gaza é um
exemplo de genocídio e uma violação das normas e do direito internacional;
A
República Islâmica do Irã defende seu direito legítimo à existência
independente e rejeita a submissão a potências imperialistas, argumentando que
a ausência de mecanismos de dissuasão leva à violação dos direitos dos povos;
O Irã
demonstrou seu compromisso com as negociações, mas não teme nenhuma guerra para
defender seu território;
O Irã
nunca iniciou uma guerra e sempre demonstrou seu compromisso com a diplomacia e
o diálogo. No entanto, a resiliência do povo diante de agressões comprovou que
a República Islâmica do Irã está pronta para defender a soberania de seu país
até o fim;
O Irã
está sob ataques durante as negociações e enfrenta sanções que visam a vida de
pessoas inocentes.
¨
Irã exige fim de bloqueio dos EUA e liberação de ativos
para reabrir estreito de Ormuz
O Irã
condicionou a reabertura do estreito de Ormuz ao fim do bloqueio naval imposto
pelos Estados Unidos, à liberação de ativos iranianos congelados e ao
encerramento da guerra na região.
As
condições foram apresentadas pelo chanceler iraniano, Abbas Araghchi, ao
enviado presidencial norte-americano Steve Witkoff, segundo a agência estatal
IRIB.
O
encontro ocorreu em Nova York, à margem da 81ª sessão da Assembleia Geral da Organização das
Nações Unidas (ONU).
Horas antes, o presidente Donald Trump fez seu discurso na tribuna, informando
que considera "aniquilar" o Irã ou fazer um acordo com o país, do
qual garantiu que "nunca terá uma arma nuclear".
De
acordo com uma fonte citada pela agência iraniana, Araghchi transmitiu aos representantes dos EUA as "posições
decisivas" de Teerã sobre a retomada da circulação pelo estreito.
©
telegram SputnikBrasil
Entre
as exigências iranianas está o levantamento imediato do bloqueio naval
norte-americano,
além do pagamento dos fundos iranianos bloqueados e do fim da guerra em todas
as frentes.
Trump
também confirmou que representantes de Washington e Teerã mantiveram contatos
durante a Assembleia Geral da ONU. Segundo ele, seus enviados especiais Steve
Witkoff e Jared Kushner se reuniram com representantes iranianos para discutir
um possível acordo.
"Eles
estão em mediação há algum tempo, mas acho que há muito impulso para que
cheguem a um acordo. É isso que estamos ouvindo de todo mundo", afirmou
Trump durante uma reunião com países do Golfo.
<><>Bloqueio
começou após escalada militar
A
restrição à passagem de embarcações pelo estreito de Ormuz foi adotada pelo Irã
após ataques dos Estados
Unidos e de Israel
contra o país em 28 de fevereiro. Em resposta, as forças norte-americanas
estabeleceram um bloqueio naval contra navios que viajavam de ou para portos
iranianos.
Em 18
de junho, Washington e Teerã haviam assinado um memorando de entendimento sobre
o fim da guerra na região em todas as frentes, incluindo o Líbano. O documento
previa que os dois países realizassem negociações em até 60 dias para tentar
chegar a um acordo definitivo.
O prazo
terminou em 17 de agosto sem que o processo resultasse em uma solução e, desde
então, novas escaladas entre os dois países mantiveram incerto o futuro das
negociações.
<><>
Crise em Ormuz coloca a infraestrutura logística da Rússia em evidência
Chefe
de associação de exportadores e importadores diz que a situação atual no
estreito de Ormuz criou uma série de vantagens estratégicas, que colocaram a
Rússia em uma posição bastante vantajosa.
A
mudança global nas rotas logísticas devido à crise no estreito de
Ormuz
está colocando a infraestrutura russa em destaque: a Rota Marítima do Norte e o
Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul estão ficando cada vez mais
movimentados, disse Artur Leer, presidente da Associação de Exportadores e
Importadores (AEI), à Sputnik.
"A
crise em torno do estreito de Ormuz, que já dura seis meses, demonstrou
claramente a fragilidade das cadeias de abastecimento tradicionais e a falta de
visão de se depender de uma única rota logística", disse Leer à margem do
evento de networking do AEI "Seis meses depois: o bloqueio do estreito de
Ormuz – como as estratégias comerciais estão mudando".
O
conflito no Oriente Médio, acrescentou Leer, mostrou que mesmo rotas comerciais
internacionais
já estabelecidas podem ser rapidamente alteradas por fatores externos, exigindo
rápida reestruturação dos processos.
Para a
Rússia, disse ele, "a situação atual cria uma série de vantagens
estratégicas", colocando o país em uma posição bastante
vantajosa.
"A
manutenção de parcerias e a implementação rigorosa de acordos reforçaram o
status da Rússia como um fornecedor confiável e estável, ocupando uma parcela
cada vez maior do mercado global, enquanto o aumento dos preços proporciona
receita orçamentária adicional", enfatizou a fonte da agência.
"Além
disso, a mudança global nas rotas logísticas está colocando a infraestrutura
russa em destaque: a Rota Marítima do Norte e o Corredor Internacional de
Transporte Norte-Sul estão sendo cada vez mais utilizados. Nossa localização
geográfica privilegiada e o potencial de nossos recursos permitem que o governo
e as empresas atraiam cada vez mais parceiros estrangeiros para usar nossos
portos e instalações de trânsito nacionais", concluiu o presidente da AEI.
Fonte:
DW Brasil/Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário