sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A difícil busca por uma saída na guerra no Irã

Quase sete meses após o início da guerra, o conflito no Irã se espalhou para duas rotas marítimas estrategicamente importantes. Além do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo bruto e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo, uma segunda rota fundamental para o comércio de energia também está sob pressão: o Mar Vermelho.

Os rebeldes iemenitas houthis, apoiados pelo Irã, intensificaram seus ataques à Arábia Saudita, visando cada vez mais a infraestrutura energética e as rotas de exportação que atravessam o Mar Vermelho.

Segundo o jornal The New York Times, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, telefonou neste domingo (20/09) para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para solicitar, mais uma vez, a intervenção urgente dos EUA e o fim do rápido avanço do grupo.

Trump teria considerado ataques aéreos contra os houthis em determinado momento, mas depois abandonou a ideia. A emissora americana Fox News noticiou neste domingo que o republicano afirmou que os houthis concordaram em não atacar alvos dos EUA. O portal de notícias americano Axios também informou que Trump já havia rejeitado um pedido da Arábia Saudita para atacar os houthis na semana passada.

<><> Entre o militarismo e a diplomacia

Em meio ao aumento dos preços da gasolina e do diesel e à conjuntura política interna – às vésperas das eleições de meio de mandato em 3 de novembro –, Trump  tenta alcançar seus objetivos declarados na guerra com o Irã.

"O presidente Trump quer encerrar a guerra com o Irã partindo de uma posição que lhe permita afirmar que as capacidades nucleares e militares do Irã foram significativamente enfraquecidas, a liberdade de navegação foi restaurada e Teerã foi forçada a retornar à mesa de negociações", disse à DW a especialista em Irã, Fatemeh Aman.

Aman, que trabalhou para organizações como o Middle East Institute e o Atlantic Council, e para as emissoras Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade (RFE/RL) e Voz da América, enfatiza, no entanto, que ainda é difícil discernir uma estratégia coerente para alcançar esse objetivo.

Uma lacuna entre a pressão militar e uma solução política ainda persiste. Os Estados Unidos impuseram custos militares e econômicos significativos ao Irã e parecem ter obtido progresso no enfraquecimento das capacidades militares do país. No entanto, isso ainda não resultou na rendição de Teerã nem em um acordo duradouro.

Nesta quarta-feira, Trump tem um encontro marcado com o presidente chinês, Xi Jinping, em Washington. A China é, de longe, a maior compradora de petróleo iraniano e uma importante parceira política de Teerã. Washington provavelmente discutirá os laços econômicos e financeiros da China com o Irã durante o encontro e espera que Pequim use sua influência sobre Teerã – particularmente em relação à segurança da navegação no Estreito de Ormuz.

Ao mesmo tempo, Trump sinalizou sua disposição em se encontrar com o presidente iraniano Massoud Peseshkian, que está em Nova York para a Assembleia Geral das Nações Unidas. Representantes importantes dos países do Golfo também são esperados nos EUA nos próximos dias. Segundo o Axios, Trump pretende consultar representantes de vários países do Golfo sobre a guerra com o Irã à margem da Assembleia Geral da ONU.

<><> Nações do Golfo não desejam nova escalada

Ainda não houve consenso entre o Irã e seus vizinhos árabes no Golfo. Uma reunião planejada entre o Irã, os Estados do Golfo e o Iraque foi cancelada na semana passada. O cancelamento pode estar relacionado aos recentes ataques dos houthis à Arábia Saudita.

"À primeira vista, parece haver poucos pontos em comum entre o Irã e os Estados do Golfo", disse Farzan Sabet, especialista em Oriente Médio do Instituto de Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento de Genebra, à DW. "Mas, nos bastidores, existe pelo menos um interesse compartilhado em evitar uma escalada militar ainda maior."

Os Estados do Golfo reconhecem que dificilmente vencerão um confronto militar direto com o Irã. Portanto, geralmente preferem a desescalada e uma redução pragmática das tensões com Teerã.

Um acordo, no entanto, não está à vista no momento. Em particular, as exigências do Irã por maior controle sobre o Estreito de Ormuz vão longe demais na perspectiva dos Estados do Golfo.

Para piorar a situação, a guerra no Iêmen limita as possibilidades de reaproximação. A Arábia Saudita, por exemplo, dificilmente estará disposta a fazer concessões enquanto o país estiver sob pressão dos ataques dos houthis.

<><> Abordagem dupla

Uma coalizão dos países do Golfo permanentemente hostil e apoiada pelos EUA seria estrategicamente custosa para Teerã, afirma Aman. Portanto, o Irã poderia adotar uma estratégia dupla: resistir a uma arquitetura de contenção liderada por Washington e, simultaneamente, oferecer aos Estados do Golfo um modelo alternativo de segurança regional baseado em compromisso e diálogo. Afinal, esses países não são apenas rivais, mas também vizinhos do Irã – e nenhum dos lados pode mudar essa realidade geográfica.

De acordo com o oficial de segurança iraniano Mohsen Rezai, Teerã exige que os EUA cessem os combates em todas as frentes. O Irã também exige a liberação de ativos iranianos congelados e o fim do bloqueio naval. As negociações com o Catar e Omã já estariam em andamento, enquanto Teerã aguarda uma resposta do presidente dos EUA, Donald Trump.

Contudo, ainda é incerto se esses canais diplomáticos serão capazes de pôr fim à guerra, uma vez que Washington, Teerã e os Estados do Golfo continuam a perseguir objetivos diferentes.

<><> Aliados de Washington na Ásia não confiam mais nos EUA após seu fracasso no Irã, diz mídia

Seis meses de combates no Oriente Médio expuseram a pressão sobre os compromissos de Washington na Ásia e mostraram que o país não consegue exercer sua influência na região de forma eficaz, escreveu uma revista norte-americana.

A reportagem destaca que a guerra no Irã revelou uma dura realidade para os EUA e seus aliados: o poder estadunidense tem limites.

"Para os aliados dos EUA na Ásia, que são cautelosos em relação à China e à Coreia do Norte, a questão é se os Estados Unidos poderão fornecer apoio suficiente em dois teatros de operações cada vez mais interconectados e se esse apoio continuará politicamente confiável assim que um conflito começar", ressalta a publicação.

Enquanto os Estados Unidos falham em defender seus aliados em várias regiões simultaneamente, a China observa atentamente essa vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, a transferência de ativos militares e munições da Ásia para o Oriente Médio expôs lacunas que minam a confiança nas garantias de segurança de Washington.

Por isso, a publicação aponta que aliados como Japão, Coreia do Sul e Filipinas questionam cada vez mais a capacidade dos Estados Unidos de honrar seus compromissos em meio a crises simultâneas.

A China aprendeu, com a guerra no Irã, que a pressão sustentada e a coerção econômica podem esticar os recursos dos EUA e corroer sua capacidade de dissuasão, sem que seja necessária uma vitória militar direta.

Como resultado, Pequim enxerga uma oportunidade para aumentar sua influência na Ásia enquanto Washington segue sobrecarregado e distraído pelo conflito prolongado com o Irã, conclui a reportagem.

Anteriormente, um veículo de comunicação da mídia ocidental informou que a era do domínio global incontestável dos EUA chegou ao fim e que o país já não possui a mesma superioridade militar de 1991 — a guerra no Irã ilustra essa mudança.

¨      'Não somos terroristas, somos vítimas do terrorismo', diz presidente iraniano na ONU

Os EUA e Israel bombardearam uma escola em Minab usando munições cluster, causando a morte de crianças e outras pessoas inocentes, afirmou hoje (23) o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York.

"O presidente dos EUA [Donald Trump] nos descreveu como terroristas. Nós fomos vítimas de terrorismo", disse Pezeskhian, denunciando que as forças estadunidenses "bombardearam uma escola" e que "crianças morreram sob bombas disparadas usadas pelos EUA e por Israel".

No discurso, o presidente do Irã mencionou que o país "não baixou a cabeça e respondeu, mas não atacou populações civis".

"Eles invadiram os territórios vizinhos e atacaram nossas universidades, nossos centros de saúde, nossas escolas, nossos hospitais, nossa infraestrutura, tudo isso contra o direito internacional", denunciou.

Enquanto Pezeshkian falava, os representantes dos Estados Unidos se retiraram do plenário da ONU.

<><> Confira mais declarações do presidente iraniano:

Os EUA mataram o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, sem qualquer justificativa;

A morte de mais de 80 mil pessoas e o deslocamento de centenas de milhares em Gaza é um exemplo de genocídio e uma violação das normas e do direito internacional;

A República Islâmica do Irã defende seu direito legítimo à existência independente e rejeita a submissão a potências imperialistas, argumentando que a ausência de mecanismos de dissuasão leva à violação dos direitos dos povos;

O Irã demonstrou seu compromisso com as negociações, mas não teme nenhuma guerra para defender seu território;

O Irã nunca iniciou uma guerra e sempre demonstrou seu compromisso com a diplomacia e o diálogo. No entanto, a resiliência do povo diante de agressões comprovou que a República Islâmica do Irã está pronta para defender a soberania de seu país até o fim;

O Irã está sob ataques durante as negociações e enfrenta sanções que visam a vida de pessoas inocentes.

¨      Irã exige fim de bloqueio dos EUA e liberação de ativos para reabrir estreito de Ormuz

O Irã condicionou a reabertura do estreito de Ormuz ao fim do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos, à liberação de ativos iranianos congelados e ao encerramento da guerra na região.

As condições foram apresentadas pelo chanceler iraniano, Abbas Araghchi, ao enviado presidencial norte-americano Steve Witkoff, segundo a agência estatal IRIB.

O encontro ocorreu em Nova York, à margem da 81ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Horas antes, o presidente Donald Trump fez seu discurso na tribuna, informando que considera "aniquilar" o Irã ou fazer um acordo com o país, do qual garantiu que "nunca terá uma arma nuclear".

De acordo com uma fonte citada pela agência iraniana, Araghchi transmitiu aos representantes dos EUA as "posições decisivas" de Teerã sobre a retomada da circulação pelo estreito.

© telegram SputnikBrasil

Entre as exigências iranianas está o levantamento imediato do bloqueio naval norte-americano, além do pagamento dos fundos iranianos bloqueados e do fim da guerra em todas as frentes.

Trump também confirmou que representantes de Washington e Teerã mantiveram contatos durante a Assembleia Geral da ONU. Segundo ele, seus enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner se reuniram com representantes iranianos para discutir um possível acordo.

"Eles estão em mediação há algum tempo, mas acho que há muito impulso para que cheguem a um acordo. É isso que estamos ouvindo de todo mundo", afirmou Trump durante uma reunião com países do Golfo.

<><>Bloqueio começou após escalada militar

A restrição à passagem de embarcações pelo estreito de Ormuz foi adotada pelo Irã após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o país em 28 de fevereiro. Em resposta, as forças norte-americanas estabeleceram um bloqueio naval contra navios que viajavam de ou para portos iranianos.

Em 18 de junho, Washington e Teerã haviam assinado um memorando de entendimento sobre o fim da guerra na região em todas as frentes, incluindo o Líbano. O documento previa que os dois países realizassem negociações em até 60 dias para tentar chegar a um acordo definitivo.

O prazo terminou em 17 de agosto sem que o processo resultasse em uma solução e, desde então, novas escaladas entre os dois países mantiveram incerto o futuro das negociações.

<><> Crise em Ormuz coloca a infraestrutura logística da Rússia em evidência

Chefe de associação de exportadores e importadores diz que a situação atual no estreito de Ormuz criou uma série de vantagens estratégicas, que colocaram a Rússia em uma posição bastante vantajosa.

A mudança global nas rotas logísticas devido à crise no estreito de Ormuz está colocando a infraestrutura russa em destaque: a Rota Marítima do Norte e o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul estão ficando cada vez mais movimentados, disse Artur Leer, presidente da Associação de Exportadores e Importadores (AEI), à Sputnik.

"A crise em torno do estreito de Ormuz, que já dura seis meses, demonstrou claramente a fragilidade das cadeias de abastecimento tradicionais e a falta de visão de se depender de uma única rota logística", disse Leer à margem do evento de networking do AEI "Seis meses depois: o bloqueio do estreito de Ormuz – como as estratégias comerciais estão mudando".

O conflito no Oriente Médio, acrescentou Leer, mostrou que mesmo rotas comerciais internacionais já estabelecidas podem ser rapidamente alteradas por fatores externos, exigindo rápida reestruturação dos processos.

Para a Rússia, disse ele, "a situação atual cria uma série de vantagens estratégicas", colocando o país em uma posição bastante vantajosa.

"A manutenção de parcerias e a implementação rigorosa de acordos reforçaram o status da Rússia como um fornecedor confiável e estável, ocupando uma parcela cada vez maior do mercado global, enquanto o aumento dos preços proporciona receita orçamentária adicional", enfatizou a fonte da agência.

"Além disso, a mudança global nas rotas logísticas está colocando a infraestrutura russa em destaque: a Rota Marítima do Norte e o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul estão sendo cada vez mais utilizados. Nossa localização geográfica privilegiada e o potencial de nossos recursos permitem que o governo e as empresas atraiam cada vez mais parceiros estrangeiros para usar nossos portos e instalações de trânsito nacionais", concluiu o presidente da AEI.

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil

 

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