Estados
gastam mais com polícias e prisões do que com moradia, saneamento e trabalho,
aponta estudo
Na
disputa pelo orçamento público nos estados brasileiros, as polícias e o sistema
prisional vencem com folga diversas áreas ligadas ao desenvolvimento e ao
bem-estar social. Em muitos estados, o gasto com essas estruturas supera a soma
das despesas com habitação, saneamento, trabalho, cultura, assistência social e
transporte.
Esse
desequilíbrio é o principal alerta da nova edição da pesquisa “O Funil de
Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros“, elaborada pelo
Justa — organização de pesquisa e incidência que analisa a gestão e o
financiamento do sistema de Justiça no país. O levantamento analisou os
orçamentos das polícias, do sistema prisional e de políticas para egressos em
2025 em 26 unidades federativas. Somente o Acre não respondeu.
Em
Minas Gerais, por exemplo, o estado gastou R$ 13,6 bilhões com polícias e
sistema prisional, mais do que os R$ 13,4 bilhões destinados à soma de outras
17 áreas do orçamento público. Entre elas estão transporte (R$ 2,2 bilhões),
ciência e tecnologia (R$ 618 milhões), saneamento (R$ 389 milhões), cultura (R$
373 milhões), assistência social (R$ 173 milhões) e habitação (R$ 81 milhões).
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Jornalismo
A
concentração de recursos também aparece em outros estados. No Amapá, o gasto
com polícias e sistema prisional foi maior do que a soma dos valores destinados
a outras 15 áreas do orçamento. Em Alagoas, Espírito Santo, Paraíba e São
Paulo, os recursos para polícias e prisões superaram a soma dos gastos de
outras 14 áreas.
No
Ceará, a comparação envolveu menos áreas do orçamento. A soma dos gastos com
transporte (R$ 2,7 bilhões), assistência social (R$ 823 milhões), gestão
ambiental (R$ 1,3 bilhão) e trabalho (R$ 143 milhões) chegou a aproximadamente
R$ 5 bilhões, ainda abaixo dos R$ 5,1 bilhões destinados às polícias e ao
sistema prisional.
Mesmo
assim, os dados mostram um desequilíbrio orçamentário dentro da própria
segurança pública. Os recursos se concentram nas polícias militares e no
encarceramento, enquanto outras etapas do sistema de Justiça criminal recebem
parcelas menores do orçamento.
A
coordenadora de pesquisa do Justa, Taciana Santos, relaciona essa distribuição
de recursos ao cenário político. Segundo ela, a escolha orçamentária está
“associada ao crescimento da bancada da bala e do populismo penal na política,
como observamos pelo número de candidatos que se elegem instrumentalizando a
insegurança como principal bandeira eleitoral”.
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Mais recursos para prender, menos para investigar
Em todo
o país, os gastos com as polícias chegaram a R$ 103,5 bilhões em 2025. Desse
total, R$ 60,7 bilhões, cerca de 58%, foram destinados às polícias militares.
Responsáveis pelo policiamento ostensivo, as PMs atuam na prevenção de crimes e
em ocorrências de flagrante, como furtos, roubos e situações relacionadas ao
comércio de drogas.
Já as
policias civis, encarregadas das investigações de crimes em geral, receberam R$
22,2 bilhões (21%) no período. Às polícias técnico-científicas, a cargo da
perícia e da produção de provas, foram destinados R$ 2,8 bilhões (3%).
Felippe
Angeli, coordenador de advocacy do Justa, avalia que essa escolha orçamentária
dificulta que a polícia acompanhe a sofisticação do crime organizado, já que serviços de inteligência, ou produção
de evidências mais robustas, dependem das polícias civis e técnico-científicas
— que, juntas, receberam cerca de 59% menos recursos que as PMs em 2025.
O
resultado é um sistema que produz provas frágeis, ao mesmo tempo que prende
muito uma classe específica de pessoas. O Justa cruzou dados orçamentários com
o Levantamento de Informações Penais (SISDEPEN) e revelou que, dos R$ 22,3
bilhões gastos pelos estados com o sistema prisional em 2025, R$ 13,7 bilhões
correspondem ao encarceramento de negros. É o equivalente a R$ 6 de cada R$ 10
injetados no setor.
“Os
dados evidenciam uma realidade sistêmica: o Brasil prende muito e prende mal. A
grande maioria das pessoas presas é pobre e preta, e essas pessoas acabam sendo
entregues às facções no sistema prisional”, avalia Luciana Zaffalon,
diretora-executiva do Justa.
E a
mesma máquina pública milionária que encarcera essas pessoas não está presente
na saída. Em 2025, para cada R$ 5.423 enviados às polícias e R$ 1.169 ao
sistema carcerário, investiu-se R$ 1 em políticas para egressos. O suporte a
essas pessoas representa, em média, 0,001% dos gastos estaduais.
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A promessa de Bukele
Em
sabatina ao g1 e à GloboNews, Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e
Ronaldo Caiado (PSD), candidatos à Presidência da República, indicaram o
“modelo de El Salvador” como referência de gestão de segurança pública. Já
Flávio Bolsonaro (PL) elogiou o modelo em mais de uma ocasião, tendo,
inclusive, se reunido com lideranças do governo do país.
Para
reduzir o crime organizado e o índice de criminalidade no país, o presidente
Nayib Bukele, entre outras medidas, estabeleceu a possibilidade de prisões sem
mandado e a construção de novos presídios. Contudo, como a Ponte antecipou,
ativistas denunciam violações sistemáticas de direitos humanos dentro do
sistema de Bukele.
Angeli
argumenta que soluções inspiradas no país centro-americano desconsideram
diferenças de escala e das próprias dinâmicas criminais. “São ideias prontas
para um modelo que não corresponde em nada à realidade brasileira. Toda a
realidade das nossas facções criminosas não tem nada a ver com a realidade das
gangues que caracterizaram e caracterizam a situação de violência em El
Salvador”.
Na
avaliação dele, esses discursos encontram espaço porque oferecem respostas
rápidas a uma população desgastada pela violência.
Angeli
cita, nesse contexto, as propostas de construção de grandes presídios e
ampliação da capacidade do sistema prisional apresentadas por Renan Santos e
Flávio Bolsonaro. O coordenador do Justa questiona especialmente a viabilidade
orçamentária da criação de milhares de novas vagas, como propõem os candidatos.
Para o
coordenador do Justa, a experiência brasileira das últimas décadas também
deveria entrar nessa discussão. Ele sustenta que o crescimento da população
prisional não impediu a expansão das facções criminosas pelo território
nacional.
“Nos
últimos 20 anos, o Brasil aumentou a sua população prisional em 500 mil pessoas
e o resultado foi esse: nós temos o espalhamento das facções criminosas. Nós
tínhamos um punhado de facções, todas na região Sudeste, e hoje tem quase 90
facções espalhadas pelo Brasil inteiro”, afirma.
Fonte:
Por Mariana Rosetti, em Ponte Jornalismo

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