Por
que é relevante o encontro entre Trump e presidente da Venezuela a 15 km de
onde Maduro está preso
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a
presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, encontraram-se
pessoalmente em mais um sinal de aproximação entre os dois governos, que
passaram de uma relação de forte hostilidade a parceiros próximos.
A
reunião ocorreu na noite de terça-feira (22/9), em Nova York, nos EUA. Também
participaram, pelo governo americano, o secretário de Estado, Marco Rubio; o
secretário do Tesouro, Scott Bessent; a chefe de gabinete de Trump, Susie
Wiles; e o assessor de Segurança Nacional, Stephen Miller, segundo uma fonte da
Casa Branca.
Rodríguez
afirmou, em uma publicação na rede social X, que teve "uma reunião
histórica" com Trump, na qual os dois discutiram formas de fortalecer a
relação entre os países e "o avanço de uma agenda de cooperação em áreas
estratégicas, como energia, mineração, segurança e outros assuntos de interesse
comum".
Rodríguez
também agradeceu a Trump e ao governo americano o apoio dado à Venezuela após
os terremotos de junho e "o respaldo ao processo de reinserção" do
país em organismos multilaterais.
"Venezuela
e EUA compartilham uma relação histórica que, nesta nova etapa, somos chamados
a conduzir por meio do diálogo", afirmou Rodríguez.
O
encontro foi realizado a portas fechadas no hotel Lotte Palace, durante uma
recepção oferecida por Trump a líderes estrangeiros que participam da
Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas).
O hotel
de luxo fica em Manhattan, a menos de 15 km da prisão no Brooklyn onde está
detido o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Mas nem
Trump e nem Rodríguez parecem estar preocupados com o que acontecerá com
Maduro, que foi capturado em janeiro, em Caracas, por militares dos EUA
enviados por Trump. Rodríguez, que era vice-presidente, assumiu interinamente a
Presidência da Venezuela com o aval dos EUA.
Desde
então, Trump afirmou que os EUA governariam a Venezuela e anunciou acordos
controversos com Rodríguez. Entre eles está um acerto fechado no mês passado
para que os EUA controlem mais de um quinto das enormes reservas de petróleo do
país sul-americano.
Em seu
discurso na mesma terça-feira (22/9), diante da Assembleia Geral da ONU lotada
de líderes de vários países, entre eles Rodríguez, Trump chamou Maduro de
"ditador" e "criminoso", e voltou a sugerir que a operação
militar dos EUA para capturá-lo na Venezuela trouxe ganhos econômicos.
"Ao
vencedor cabem os despojos [aquilo que é tomado ou obtido após uma
vitória]", disse Trump.
Sem
eleições nem perspectiva de mudança de governo no curto prazo na Venezuela,
este primeiro encontro presencial conhecido entre Trump e Rodríguez marca o
ponto mais alto da aproximação entre os dois.
"Trump
parece pouco interessado em uma transição democrática [na Venezuela] e
satisfeito com a relação que mantém com o atual governo autoritário",
afirma Benjamin Gedan, diretor do programa para a América Latina centro de
estudos apartidário Stimson, com sede em Washington D.C., nos EUA, à BBC News
Mundo, serviço em espanhol da BBC.
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Conveniência mútua?
Para
entender o quanto mudou a relação do governo Trump com a Venezuela, basta
lembrar o tenso confronto entre os dois lados alguns anos atrás.
Em
2019, durante seu primeiro mandato, Trump descreveu, em discurso, também na
Assembleia da ONU, a situação na Venezuela como uma "tragédia de
proporções históricas" e chamou Nicolás Maduro de "fantoche
cubano" protegido por forças de segurança estrangeiras enquanto os seus
próprios cidadãos enfrentavam a fome e a escassez de alimentos e medicamentos.
"Esperamos
o dia em que a democracia seja restaurada, em que a Venezuela seja livre",
disse Trump.
Rodríguez,
que naquele ano representou a Venezuela no mesmo fórum, acusou o governo Trump
de praticar "um novo tipo de terror ou de terrorismo de Estado" por
meio de sanções econômicas destinadas a forçar uma mudança de regime em seu
país.
Mas
agora, após o primeiro encontro entre presidentes em exercício dos EUA e da
Venezuela em mais de uma década, nenhuma crítica nem defesa de uma transição
democrática veio à tona entre os dois, ao menos publicamente.
Os dois
governos têm mantido conversas diretas entre autoridades de alto escalão e
ampliado a cooperação em algumas áreas.
Em
abril, os EUA retiraram a presidente venezuelana de sua lista de sanções,
medida que, entre outros efeitos, permitiu que ela viajasse aos EUA e se
reunisse com Trump.
No mês
seguinte, a agência de notícias Associated Press (AP) informou que o governo
Trump pediu a promotores americanos que evitassem envolver Rodríguez em uma
investigação sobre possíveis crimes, embora ela estivesse no radar da agência
de combate às drogas do governo americano (DEA, na sigla em inglês).
Na
semana passada, os EUA anunciaram a retirada da Venezuela de sua lista de
países acusados de não cooperar suficientemente no combate ao narcotráfico.
Trump
também tem incentivado investimentos de empresas americanas na Venezuela,
sobretudo depois de anunciar, em agosto, "o maior acordo petrolífero da
história" com o país. Pelo acordo, os EUA terão o controle majoritário de
17 campos que representam cerca de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas
de petróleo venezuelano.
Além
desse acordo, que gerou dúvidas e críticas nos dois países, o governo de
Rodríguez também fez gestos em direção a Trump. Entre eles estão a prisão e a
extradição para os EUA de seu ex-ministro da Indústria, Alex Saab, que neste
mês se declarou culpado de lavagem de dinheiro diante de um juiz federal da
Flórida e aceitou colaborar com as investigações.
Um
encontro entre Trump e Rodríguez seria inimaginável nove meses atrás, mas os
dois podem se beneficiar da situação atual, afirma Imdat Oner, analista da
Universidade Internacional da Flórida, nos EUA, e ex-diplomata turco em
Caracas.
"O
governo Trump está garantindo a estabilidade do governo na Venezuela, porque a
Casa Branca não quer correr nenhum risco no país, já que esse é o único êxito
em política externa que teve até agora", disse Oner à BBC News Mundo.
"Delcy
Rodríguez não tem mandato popular", acrescenta. "Mas agora toda a
legitimidade dela vem de Washington D.C., e ela está muito satisfeita com essa
situação porque, caso contrário, não conseguiria se manter no poder."
Na
avaliação do analista, isso fará com que a dinâmica atual se mantenha "ao
menos pelos próximos dois anos, até o fim do governo Trump".
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'Uma mudança profunda'
Ainda
não está claro se o apoio de Trump ajudará Rodríguez a ampliar sua aceitação
dentro da Venezuela e, sobretudo, no exterior.
Em seu
discurso nesta terça-feira (22/9) na Assembleia Geral da ONU, Trump afirmou
que, desde a prisão de Maduro, "centenas de presos políticos venezuelanos
foram libertados" e que "as maiores empresas petrolíferas do mundo
estão entrando" no país.
"Estamos
trabalhando de perto com os líderes da Venezuela para construir um futuro muito
melhor para o povo venezuelano", afirmou o presidente americano.
Ao
mesmo tempo, há quem veja semelhanças entre Trump e Hugo Chávez (1954–2013), o
líder socialista venezuelano. Um dos exemplos apontados foi o anúncio feito
pelo presidente americano na sexta-feira (18/9) de que alguns veículos de
imprensa seriam impedidos de entrar na Casa Branca.
"Hugo
Chávez fez exatamente a mesma coisa quando eu era embaixador dos EUA na
Venezuela", escreveu Charles Shapiro, que ocupou o cargo entre 2002 e
2004, em sua conta na rede social X.
Em
agosto, o governo Rodríguez iniciou conversas com parte da oposição. A
iniciativa foi bem recebida por alguns governos, mas ainda não há um plano
claro para a convocação de eleições no país.
Apesar
da melhora na situação dos direitos humanos na Venezuela, as estruturas que
permitiram a prática de crimes contra a humanidade "não foram
desmanteladas, e o governo interino tampouco demonstrou qualquer intenção de
reformá-las", alertou uma missão da ONU na semana passada.
Rodríguez
chegou a Nova York, nos EUA, na segunda-feira (21/9), em um jato particular com
matrícula americana, segundo relatos. Durante a viagem, reuniu-se com o
secretário-geral da ONU, António Guterres, e com representantes de organismos
internacionais de crédito.
A
presidente interina deve discursar nesta quarta-feira (23/9) na Assembleia
Geral da ONU, onde já cumprimentou alguns chefes de Estado e de governo.
O
presidente do Chile, José Antonio Kast, afirmou na terça-feira (22/9), em
discurso no mesmo fórum, que seu país está "retomando" as relações
com a Venezuela, suspensas desde 2024.
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'Deve ser desconcertante para Maduro'
Rodríguez
recebeu no fim de semana, em Caracas, a visita do presidente do Paraguai, o
conservador Santiago Peña, mais de um ano depois de os dois países romperem
relações diplomáticas.
Alguns
especialistas interpretam a visita como um sinal de que os EUA estão
incentivando seus aliados a reconhecer o governo da Venezuela como legítimo
após a captura de Maduro.
Maduro
continua detido no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn (MDC, na sigla
em inglês), em Nova York, enquanto tramita o processo em que é acusado de
crimes relacionados ao narcotráfico e a armas. Ele nega as acusações.
O
ex-presidente e sua mulher, Cilia Flores, que foi detida e extraditada com ele,
pediram ao juiz responsável pelo caso que rejeite as acusações. Os dois alegam
que, por ocuparem os cargos de presidente e primeira-dama de um país soberano,
teriam imunidade perante a Justiça dos EUA.
Maduro
pode ser condenado à prisão perpétua se for considerado culpado, no julgamento
previsto para junho de 2027, da acusação de conspiração para enviar cocaína aos
EUA.
"Deve
ser desconcertante para Maduro ver a sua ex-vice-presidente ser recebida como
uma autoridade estrangeira enquanto ele está detido no Brooklyn, [porque] é
provável que ele também tivesse oferecido aos EUA grande parte do que Delcy
está oferecendo", afirmou Gedan, que ocupou cargos ligados à América
Latina na Casa Branca e no Departamento de Estado.
O
especialista lembra que, desde o fim da Guerra Fria (1947-1991), sucessivos
governos americanos têm considerado a democracia o único sistema político
aceitável no continente americano.
Segundo
Gedan, o encontro de Trump com Rodríguez "parece indicar que os EUA estão
revendo essa posição, o que representaria uma mudança profunda na política
externa do país para a América Latina".
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Delcy Rodríguez descreve encontro com Trump como
'histórico'
Sem
mencionar o sequestro do
presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, a presidente
interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, descreveu seu encontro na terça-feira
(22/09) com o presidente dos EUA, Donald Trump, em Nova York, como “histórico”.
“Realizamos
um encontro histórico com o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, com quem discutimos o fortalecimento da
relação bilateral entre nossos países e o avanço de uma agenda de cooperação em
áreas estratégicas como energia, mineração, segurança e outros assuntos de
interesse comum”, escreveu Rodríguez em suas redes sociais.
Além
disso, ela acrescentou que Caracas e Washington
vão continuar
“a promover uma diplomacia que sirva ao interesse nacional, com o objetivo de
alcançar resultados concretos e benefícios coletivos para o povo venezuelano”.
À
margem da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), Rodríguez também
agradeceu a Trump e seu governo pelo “apoio prestado durante a emergência
causada pelos terremotos de 24 de
junho“,
bem como pelo “apoio ao processo de reintegração” da Venezuela em espaços
multilaterais.
Também
participaram da reunião o secretário de
Estado, Marco Rubio,
o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a chefe de Gabinete da Casa Branca,
Susie Wiles, e o chefe de Gabinete Adjunto, Stephen Miller.
Antes
de se reunir com Trump, a presidente interina
ainda realizou uma reunião bilateral com o secretário-geral das Nações Unidas
(ONU), António Guterres. A conversa também abrangeu troca de informações sobre
os terremotos que atingiram o território venezuelano e, segundo a presidente em
exercício, essa experiência “demonstra o valor da ação multilateral coordenada
diante de emergências humanitárias e desastres naturais”.
Durante
o encontro, Rodríguez descreveu o progresso do trabalho conjunto em áreas
prioritárias como desenvolvimento sustentável, transferência de tecnologia e
expansão das políticas de proteção social, com o objetivo de beneficiar
diretamente as comunidades mais vulneráveis.
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Venezuelanos vão às ruas
Nesta
quarta-feira (23/09), será a vez de Delcy Rodríguez
discursar na Assembleia Geral; o republicano falou
na terça-feira (22/09), quando citou que a “operação militar maciça” realizada
em janeiro contra a Venezuela abriu caminho para que seu país assinasse “o
maior acordo petrolífero da história” com a nação sul-americana.
Nesse
sentido, diversos movimentos sociais, trabalhadores, jovens, mulheres e membros
da comunidade marcharão na capital venezuelana, Caracas, para apoiar a
participação de Delcy Rodríguez na ONU. Nahum Fernández, vice-presidente de
Mobilização e Eventos do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), anunciou
o comício para as 10h (11h pelo horário de Brasília), na Avenida Libertador,
ponto histórico de grandes concentrações.
De
acordo com os organizadores, o evento deixa uma mensagem clara: o povo
venezuelano está unido, comprometido com a paz e exige respeito à sua
soberania. “Diante das grandes transformações do mundo, o povo venezuelano
reafirma seu caráter bolivariano e sairá às ruas em uma demonstração massiva de
unidade, lealdade e compromisso revolucionário”, afirma o comunicado oficial.
Fonte:
BBC News Mundo

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