A
síndrome que pode levar pais a esquecer crianças no carro
Bryce
tinha nove meses quando morreu, vítima de insolação dentro de um carro. A mãe,
Lyn Balfour, não o levou à creche naquele dia; dirigiu até o trabalho e o
esqueceu acidentalmente no veículo. Isso aconteceu em 2007, nos Estados Unidos.
Desde então, centenas de bebês e crianças pequenas morreram dessa forma –
inclusive recentemente na Alemanha. Há também o registro de casos semelhantes
no Brasil.
Um
carro pode se transformar em uma armadilha mortal em pouquíssimo tempo. Com
temperatura externa de 30°C e incidência direta do sol, o interior do veículo
pode atingir mais de 40°C em apenas dez minutos e ultrapassar os 50°C após uma
hora.
"Potencialmente,
isso é perigoso para qualquer pessoa", afirma Nibras Naami. Ele é
especialista em pediatria e medicina do adolescente e médico-chefe do Centro
Infantil de Hematologia do Oeste da Alemanha, em Herdecke. "Mas uma
criança pequena presa em uma cadeirinha simplesmente não consegue se libertar
dessa situação."
Após a
morte de uma criança de um ano e oito meses, esquecida dentro de um carro em
meados de junho e morta em decorrência do calor, Naami descreveu em uma
publicação no Instagram uma possível explicação: a chamada Síndrome do Bebê
Esquecido (Forgotten Baby Syndrome), ou seja, o esquecimento involuntário de
uma criança dentro do carro. Os casos envolvem pais cognitivamente saudáveis,
dedicados e que amam seus filhos.
É claro
que também existem situações em que pais são de fato negligentes e, por isso,
deixam seus filhos tempo demais dentro do carro, diz o pediatra. No entanto,
médicos e psicólogos concordam que essa explicação não é suficiente para muitos
dos casos registrados.
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O que é a Síndrome do Bebê Esquecido?
O
psicólogo David Diamond investiga há décadas como pais podem simplesmente
esquecer seus filhos dessa forma.
O caso
de Bryce, citado no início deste texto, foi descrito por Diamond em um artigo
científico. Após a morte do bebê, a mãe, Lyn Balfour, foi acusada de homicídio
e levada a julgamento.
Durante
o processo, ficou claro que o dia da morte de Bryce foi diferente da rotina
habitual. Balfour havia dormido pouco e precisou lidar com uma crise familiar.
Além disso, várias rotinas estavam alteradas. A bolsa com os pertences do bebê
— um lembrete visual de que a criança estava no carro — não estava, como de
costume, visível no banco do passageiro.
Segundo
David Diamond, todos esses fatores influenciaram a chamada memória prospectiva,
também conhecida como memória de intenção. Trata-se da capacidade de lembrar
ações que devem ser realizadas no futuro. Isso pode incluir tomar um
medicamento antes de dormir, retornar uma ligação após o almoço ou parar no
supermercado no caminho para casa.
Diamond
descreve seis fatores que prejudicam a memória prospectiva e podem fazer com
que esqueçamos um plano previamente definido: privação de sono, estresse
crônico ou agudo, distrações, execução de muitas tarefas ao mesmo tempo,
ausência de lembretes de memória e rotinas executadas automaticamente.
Todos
esses fatores aumentam o nível de tensão interna, explica Rüya-Daniela
Kocalevent, psicóloga e psicoterapeuta em Berlim. Quando essa tensão se torna
excessiva, a capacidade de agir racionalmente fica bastante comprometida.
"Nessas situações, agimos impulsivamente ou confiamos no piloto
automático", diz Kocalevent. Como consequência, a ação planejada é
esquecida: tomar o remédio no horário certo, comparecer a um compromisso ou
lembrar do bebê que continua sentado no carro.
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Quando a Síndrome do Bebê Esquecido é considerada?
"Nunca
podemos afirmar com 100% de certeza o que se passa na mente de alguém",
afirma Kocalevent. Para avaliar se os pais expuseram deliberadamente a criança
ao perigo mortal de um veículo superaquecido, psicólogos analisam, entre outros
aspectos, comportamentos anteriores, histórico de aprendizagem e biografia dos
pais. "O comportamento passado é um dos melhores indicadores do
comportamento futuro."
Dessa
forma, é possível avaliar se alterações na rotina ou fatores externos de
estresse foram os responsáveis pela falha fatal. A eventual responsabilidade
criminal, porém, é decidida pelos tribunais.
No
julgamento de Lyn Balfour, não foi possível provar que ela desejasse causar
qualquer mal ao filho. Seu cérebro havia armazenado como verdadeira uma
lembrança que nunca aconteceu: a de que Bryce estava, como todos os dias, em
segurança sob os cuidados da babá. Essas memórias falsas, mas extremamente
realistas, são objeto de estudo da psicologia cognitiva há décadas.
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Cadeirinhas com sistema de alarme para evitar o esquecimento
Depois
que Nibras Naami publicou seu vídeo sobre a "Síndrome do Bebê
Esquecido", ele recebeu inúmeras mensagens de pais relatando que já haviam
passado por situações semelhantes.
"Uma
mãe me escreveu contando que esqueceu seu bebê recém-nascido de apenas duas
semanas no carro depois de deixar o filho mais velho no jardim de infância e
voltar para casa", relata Naami. Ela percebeu rapidamente o erro, e como
não estava calor, nada aconteceu com a criança.
Na
Itália, ninguém mais precisa se fiar apenas na memória. Desde 2019, somente
cadeirinhas infantis com sistema integrado de alarme podem ser utilizadas por
crianças de até quatro anos. Caso a criança seja esquecida no veículo, os pais
recebem uma notificação no smartphone.
Na
Alemanha, uma regulamentação semelhante não existe, mas cresce a oferta de
sistemas de alerta que podem ser acoplados às cadeirinhas infantis.
Outras
medidas incluem colocar o celular ou a bolsa de trabalho no banco traseiro ou
usar um brinquedo do bebê no banco dianteiro como lembrete visual. Nenhuma
dessas soluções, no entanto, oferece proteção absoluta.
Não
existem estatísticas oficiais sobre a frequência com que pais esquecem seus
filhos dentro do carro. A Síndrome do Bebê Esquecido provavelmente não explica
todos os casos, mas, no final, o resultado é quase sempre o mesmo: uma criança
perde a vida.
"Não
podemos esquecer que os pais afetados, quando realmente se trata de um erro
trágico de memória, carregam essa punição pelo resto da vida", conclui a
psicóloga Kocalevent.
Fonte:
DW Brasil

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