Marcelo
Zero: Escudo para a traição
O
recém-anunciado apoio de 14 países da América Latina e do Caribe, todos com
governos aliados, de modo canino, com os interesses imperiais de Trump, ao
chamado “Escudo das Américas”, uma iniciativa em tese destinada a combater o
“narcoterrorismo” em nosso continente, é algo tragicômico.
Com
efeito, essa iniciativa é, sobretudo, o mero “requentamento” de um prato
bastante antigo e indigesto que fez passar muito mal os comensais aos quais ele
foi servido à força.
Refiro-me,
é claro, à infame “Guerra às Drogas”.
A
“Guerra às Drogas” foi declarada por Richard Nixon em 17 de junho de 1971. Lá
se vão 55 anos. Dois anos depois, em 1973, Nixon criou a Agência de Combate às
Drogas (DEA), uma força policial especial criada especificamente para combater
o uso e o contrabando de drogas ilegais nos Estados Unidos.
Ronald
Reagan reforçou a Guerra às Drogas com a aprovação da Lei de Combate ao Abuso
de Drogas de 1986. Essa legislação federal destinou US$ 1,7 bilhão para que as
forças policiais combatessem a Guerra às Drogas e estabeleceu penas mínimas
obrigatórias muito mais rigorosas para crimes relacionados a tais substâncias
ilícitas.
Até
mesmo Clinton deu sua contribuição ao enrijecimento da “Guerra às Drogas”
quando promulgou a Lei do Crime de 1994, uma legislação que financiou 125.000
novas celas em prisões estaduais, instituiu novas penas de prisão perpétua e
adicionou 60 novos crimes passíveis de pena de morte.
Calcula-se
que o governo dos EUA já tenha gasto bem mais de um trilhão de dólares com essa
brincadeira toda.
Mas
qual foi o resultado efetivo?
Nos
EUA, a principal consequência foi a explosão da população carcerária. Desde o
seu início, a Guerra às Drogas fez a população carcerária dos EUA aumentar em
mais de 500%. Hoje, os EUA têm a maior população carcerária do mundo.
São
cerca de 2 milhões de pessoas encarceradas. Quase metade desse total (47%) está
presa em razão de crimes não violentos associados ao tráfico de drogas.
Esse
encarceramento massivo afeta, de forma inteiramente desproporcional, as
comunidades negras e latinas dos EUA. Adultos negros são presos a uma taxa
aproximadamente cinco vezes maior que a de adultos brancos e, embora a
população negra represente somente 13% da população total dos EUA, os negros
desse país representam quase 40% dos encarcerados estadunidenses. Além disso,
eles são submetidos a penas 20% mais longas do que as dos brancos condenados
por crimes assemelhados.
O
policiamento ostensivo em bairros urbanos de baixa renda destinado a reprimir o
tráfico fragmentou famílias, criou ciclos intergeracionais de pobreza e privou
indivíduos do direito ao voto e de oportunidades de emprego após o
encarceramento.
Dados
do Bureau of Justice Statistics indicam que aproximadamente 26,6% dos homens
negros estadunidenses cumprirão pena em uma prisão estadual ou federal até os
40 anos de idade, em comparação com 3,5% dos homens brancos. Suas vidas e as
das suas famílias ficarão marcadas para sempre.
Funcionou,
ao menos, para os objetivos pretendidos?
Não.
Hoje,
há praticamente um consenso, entre os especialistas no assunto, de que a Guerra
às Drogas foi um fracasso monumental. Além de ter causado um problema social
gravíssimo e de ter aumentado as disparidades raciais nos EUA, a Guerra às
Drogas não diminuiu significativamente o consumo de drogas ilícitas nos EUA.
Na
realidade, com a introdução dos opioides sintéticos no mercado dos EUA, a
partir, frise-se, da sua própria indústria farmacêutica, o número de mortes por
overdose cresceu drasticamente naquele país.
E na
América Latina?
Em
nossa região, que foi forçada a entrar nessa “guerra”, as consequências foram
ainda piores.
Aqui, a
Guerra às Drogas resultou em aumento da violência criminal, encarceramento em
massa e profunda corrupção política.
No caso
de países como México e Colômbia, essa corrupção estendeu-se às forças armadas,
com sérios prejuízos à soberania nacional.
Conforme
os especialistas, a criminalização dos mercados de drogas aumentou as margens
de lucro, o que fez surgir cartéis mais poderosos e violentos, tal como
aconteceu durante a Lei Seca nos EUA, o que provocou aumento massivo de
homicídios em países produtores ou de trânsito, como México, Colômbia, Peru,
Equador e Brasil.
A
militarização estatal e a repressão armada levaram a dezenas de milhares de
mortes e desaparecimentos, transformando regiões inteiras em zonas de conflito
e de disputa.
Observe-se
que os cartéis, fortalecidos por essa política desastrada, contornam facilmente
os esforços de interdição subornando ou ameaçando a polícia local, as forças
militares e os políticos, o que mina a confiança pública nas instituições
democráticas.
Nessas
circunstâncias, classificar organizações criminosas comuns, especialmente de
narcotraficantes, como “organizações terroristas” vai fazer alguma diferença?
Se
fizer, será para pior.
A
primeira consequência será a de dificultar a cooperação entre os países da
América Latina e os EUA nesse tema.
Tal
classificação vai tornar, com efeito, a cooperação técnica entre os EUA e os
países latino-americanos mais difícil e complexa, já que a cooperação será
tocada, agora, do lado dos EUA, pela CIA, outras agências de inteligência e os
militares, entes que costumam atuar em sigilo e com extrema violência, e não
mais pela via tradicional e jurídica do DOJ.
Todd
Robinson, ex-secretário de Estado adjunto para narcóticos internacionais e
segurança durante o governo de Joe Biden, criticou essa equiparação entre
organizações criminosas comuns e terrorismo.
Esse
ex-integrante do Departamento de Estado defendeu que o enfrentamento ao
narcotráfico seja concentrado em mecanismos policiais, financeiros e judiciais,
com rastreamento de recursos, produção de provas, apresentação de acusações e
responsabilização criminal dentro do Estado de Direito.
Entretanto,
creio que o governo Trump sabe que, para os objetivos publicizados, o Escudo
das Américas vai fracassar.
Na
realidade, a constituição desse Escudo está muito mais relacionada ao controle
geopolítico da nossa região, sob a égide da nova Doutrina Donroe, do que a um
efetivo combate às drogas.
É
preciso entender que as leis antiterrorismo dos EUA têm caráter
extraterritorial. Isto é, elas permitem que os EUA promovam ações nos
territórios de outros países, sem que isso passe, necessariamente, por
mecanismos de cooperação.
Os EUA
podem decidir fazer isso de forma inteiramente unilateral.
A
Executive Order 13224, publicada logo após o 11 de setembro de 2001, é
especialmente rigorosa.
Entre
as muitas coisas que os EUA estão facultados a fazer, segundo essas leis, estão
o congelamento de ativos de instituições financeiras brasileiras, o
congelamento de fundos soberanos, a proibição de operações financeiras, por
parte de instituições brasileiras, usando o sistema internacional, novas
sanções comerciais e econômicas, deportações, prisões, ações de inteligência no
território de outro país, ações operativas clandestinas nos territórios de
outros países, operações híbridas para desestabilizar governos que seriam
supostamente” negligentes” com o combate ao terrorismo etc.
Empresas,
bancos, indivíduos, ONGs etc. podem entrar na dança macabra. Na Venezuela, até
inocentes pescadores artesanais submergiram fatalmente na vala comum do
terrorismo. Em Cuba, entraram até os médicos.
A
classificação de uma organização criminosa comum como “terrorista” obedece,
normalmente, apenas a uma necessidade política de possuir instrumentos legais e
desculpas jurídicas para fazer intervenções em países ou governos que não se
alinham aos interesses da atual administração dos EUA. É simplesmente uma
ferramenta geopolítica bastante útil.
Em
última instância, pode-se passar, em nossos países, até mesmo o que aconteceu
na Venezuela. Uma intervenção militar para sequestrar o Presidente da República
e levá-lo a uma corte de justiça dos EUA, sob a alegação, mentirosa, de que tal
Chefe de Estado seria um perigoso “narcoterrorista”.
Tudo
depende do ânimo político de gente extremamente reacionária e desinformada,
como Marco Rubio, por exemplo. Quem sabe uma intervenção na Baía de Guanabara,
como sugeriu candidamente Flávio Bolsonaro.
O que
se sabe, de fato, é que drones militares de alto poder destrutivo estão sendo
deslocados para a nossa região. Forças especiais já estariam operando, na
surdina, no México, país soberano que não aderiu ao “Escudo”. Em breve, poderão
voltar os porta-aviões. Aliás, Trump declarou recentemente que poderia enviar
um porta-aviões para Cuba, país que não exporta um grama de droga.
E
sabe-se também que os principais objetivos do Escudo das Américas (SotA) —
apoiado por seu braço operacional, a Coalizão das Américas contra os Cartéis
(A3C) — são os de unir governos regionais no Hemisfério Ocidental para
desmantelar cartéis transnacionais de drogas, combater o narcoterrorismo,
impedir a migração ilegal em massa e conter a interferência estrangeira em uma
zona geográfica que é considerada historicamente como “quintal” dos EUA.
Esse
último objetivo parece ser a finalidade máxima e verdadeira do Escudo.
O
próprio The Wall Street Journal, bastante conservador, reconhece que a
“Doutrina Donroe” de Trump “visa dominar as Américas”.
O
caráter ideológico e geopolítico dessa iniciativa dos EUA é evidente e
desavergonhado.
Segundo
Pete Hegseth, Secretário da “Guerra” dos EUA, os países membros do Escudo são
“descendentes da civilização ocidental”, unidos por “nossa herança, nossa
história e geografia neste novo mundo”. O desafio, segundo ele, é “se nossas
nações serão e permanecerão nações ocidentais com características distintas,
nações cristãs sob Deus, orgulhosas de nossa herança compartilhada, com
fronteiras fortes e povos prósperos, governadas… pela lei, pela ordem e pelo
bom senso” ou se sucumbirão ao “narcocomunismo radical (!) e a narcotirania,
que ameaçam nosso povo, nossas fronteiras e terras soberanas em nome de uma
falsa soberania ou de uma falsa paz”.
É o
suficiente, não é?
Estamos
em ano eleitoral. É óbvio que o governo Trump tentará favorecer a candidatura
de Flávio Bolsonaro e criar, por outro lado, problemas para a candidatura de
Lula.
Por
isso mesmo, a extrema direita brasileira, traindo os interesses do Brasil, vem,
há tempos, buscando, de maneira desavergonhada, estabelecer uma associação
esdrúxula entre o governo Lula e a criminalidade e o “narcoterrorismo”.
Repito
que, se considerar necessário ou conveniente, o governo dos EUA fará o que
desejar nestes “tristes trópicos”, com base nessa desculpa esfarrapada e
historicamente fracassada.
Ninguém
sabe o que poderá acontecer no Brasil, depois dessa decisão.
Quando
houve o ataque à Venezuela, o secretário-geral da ONU, António Guterres, emitiu
a seguinte Nota:
“O
secretário-geral está profundamente alarmado com a recente escalada na
Venezuela, que culminou na ação militar dos Estados Unidos no país hoje, a qual
traz implicações potencialmente preocupantes para a região.
Independentemente
da situação na Venezuela, esses acontecimentos constituem um precedente
perigoso. O secretário-geral continua a enfatizar a importância do pleno
respeito — por parte de todos — ao direito internacional, incluindo a Carta da
ONU.”
Em uma
coletiva de imprensa realizada em 1º de dezembro do ano passado, a Casa Branca
reiterou que “o presidente deixou bem claro que, se narcoterroristas estiverem
traficando drogas ilegais para os Estados Unidos, ele tem autoridade para
matá-los”.
Assim
sendo, o perigo de alguma intervenção militar no Brasil, por parte dos EUA, é
concreto, muito embora o PCC e o Comando Vermelho não exportem drogas para os
EUA. Essas organizações criminosas exportam drogas principalmente para a África
e a Europa. Frise-se, ademais, que as autoridades brasileiras sempre cooperaram
ativamente com os EUA e outros países para combater o narcotráfico e outros
ilícitos internacionais.
Porém,
Trump é capaz de tudo. Tem completo desprezo pela soberania de outros países e
pelas regras mais elementares do direito internacional. Só um parvo duvida
disso.
Se o
governo Trump considerar que o Brasil “não está fazendo o suficiente”, agirá
unilateralmente, como de hábito. De forma aberta ou clandestina. Mesmo em
período eleitoral ou, melhor, preferencialmente em período eleitoral. A
desinformação faz parte do arsenal diversificado do “Escudo”.
Os
bolsonaristas, é óbvio, aplaudirão. É da natureza dos traidores.
Fonte:
Viomundo

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