Sul
Global: o desafio da reindustrialização
Durante
40 anos, os países do Sul Global ouviram que o planejamento econômico era
desnecessário. O Estado deveria recuar, as tarifas deveriam cair, as empresas
públicas deveriam ser privatizadas e os investimentos deveriam ser confiados
àqueles que movimentam dinheiro através das fronteiras à velocidade de um toque
no teclado.
O
desenvolvimento viria por meio da vantagem comparativa: cada país deveria
vender aquilo que já possuía e comprar aquilo que os outros haviam aprendido a
produzir.
O
resultado é visível de Harare a Jacarta. Países ricos em minerais, terras
férteis e trabalhadores jovens continuam presos à extremidade menos rentável
das cadeias globais de valor, exportando matérias-primas enquanto importam os
produtos de maior valor agregado fabricados a partir delas.
Gana,
por exemplo, exporta cacau e importa chocolate, enquanto a Venezuela exporta
petróleo bruto e importa combustíveis refinados. A riqueza escoa para fora do
Sul Global, enquanto a dívida, a informalidade e a disciplina da austeridade se
aprofundam.
Uma
política industrial progressista para o Sul Global deve começar pela rejeição
desse acordo. A “economia” não é um fato neutro ou natural, mas um produto
histórico da intervenção colonial, da reestruturação neocolonial, dos regimes
de propriedade e dos padrões de acesso à tecnologia e ao capital. As taxas de
crescimento são importantes, mas ainda mais importante é a questão do que é
produzido, como é produzido, quem controla o processo de produção e como os
benefícios são distribuídos. O objetivo do desenvolvimento não deve ser o
crescimento em si, mas o florescimento da vida humana.
As
instituições que antes tornavam a política industrial um tabu para o Sul Global
— o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — começaram agora a revisar suas
prescrições.
A OCDE,
por exemplo, agora reconhece que as forças de mercado, por si sós, não podem
resolver a baixa produtividade, as cadeias de suprimentos frágeis e as
transições verde e digital; poucas empresas arriscariam seu capital em
investimentos de longo prazo se não fossem compelidas a fazê-lo.
O Banco
Mundial vai além, argumentando que somente o investimento liderado pelo Estado
pode impulsionar a industrialização, inclusive por meio da criação de parques
industriais, infraestrutura de transporte, redes de energia e da oferta de
financiamento de longo prazo. O FMI é mais cauteloso — reconhece a importância
dos subsídios e da proteção comercial para as indústrias nascentes, mas adverte
contra a proteção de setores não competitivos.
Cada
uma dessas instituições agora sugere, sem dizê-lo explicitamente, a necessidade
de planejamento. Acrescentamos que esse planejamento deve ser democrático e
voltado para o bem público. Devemos construir poder popular e capacidade
estatal para disciplinar o capital e penalizá-lo quando ele se recusar a
cumprir objetivos sociais.
Há uma
assimetria reveladora nos antigos argumentos sobre política industrial. Quando
Estados ricos subsidiam semicondutores, veículos elétricos, indústrias de
defesa ou tecnologias verdes, isso é apresentado como “inovação” ou “segurança
nacional”. Quando países pobres tentam processar seus próprios minerais ou
proteger indústrias nascentes, são alertados sobre “distorção”, “ineficiência”,
“corrupção” e “risco fiscal”.
O fato
é que o mercado mundial já é planejado por Estados poderosos, empresas
transnacionais, regimes de patentes, instituições financeiras e prioridades
militares. A verdadeira questão é quem planeja, em benefício de quem e em que
nível da cadeia de valor.
A
Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD)
enfatiza a necessidade de coordenação estatal para que a política comercial, a
política energética, a política de educação e pesquisa, a política ambiental e
as regras de investimento estrangeiro avancem na mesma direção. Sem
coordenação, um governo pode anunciar o processamento local enquanto seu banco
central priva a indústria de crédito de longo prazo, seu sistema elétrico deixa
as fábricas sem funcionamento e seu regime comercial favorece as importações.
Os argumentos da UNCTAD são úteis, mas ignoram o elefante na sala — os
capitalistas buscam lucro, não o bem Comum.
Uma
política industrial que não regule o capital e o canalize para o bem-estar da
sociedade necessariamente fracassará. Empresas públicas são necessárias para
realizar os investimentos de longo prazo em áreas socialmente necessárias nas
quais o setor privado não demonstra interesse. Em vez de usar recursos públicos
para a especulação privada, é muito melhor mobilizar recursos públicos para
instituições públicas que possam criar mercados administrados, incubar novas
tecnologias e desenvolver linhas de produção que sejam socialmente benéficas.
Em
última análise, uma política industrial não pode ser sustentada a menos que os
países restabeleçam algumas barreiras comerciais e controles de capital. Sem
essas medidas, os governos enfrentarão graves escassezes de divisas e elevados
custos fiscais. Com o tempo, essas pressões enfraquecerão as finanças públicas
e prejudicarão o desenvolvimento industrial.
Parte
da destruição da política industrial no Sul Global ocorreu com o Acordo de 1994
sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio
(TRIPS), que restringiu o espaço de políticas que os países antes utilizavam
para imitar, adaptar e desenvolver tecnologias existentes. O TRIPS tornou mais
difícil para os países desenvolverem novas tecnologias em seus próprios termos.
Chegou
a hora de dos países do Sul Global resgatarem o pleno reconhecimento dos
direitos de propriedade intelectual. O licenciamento compulsório já permite a
produção de medicamentos que salvam vidas quando as necessidades públicas são
urgentes. Instrumentos semelhantes deveriam ser estendidos a outros setores
críticos para o desenvolvimento industrial. Isso melhoraria o acesso a
tecnologias essenciais, fortaleceria a produção doméstica e reduziria a
dependência de corporações multinacionais.
A
política de lítio do Zimbábue é um exemplo importante da imaginação econômica
necessária para a política industrial contemporânea. Em dezembro de 2022, o
Instrumento Estatutário 213 do Zimbábue proibiu a exportação de minérios
contendo lítio e de lítio não refinado sem autorização ministerial. A política
derrubou o senso comum colonial de que o papel de um país africano é extrair e
exportar.
O país
utilizou o controle sobre um recurso estratégico para pressionar as empresas de
mineração a investir em processamento e a criar mais valor agregado,
qualificação profissional e receitas tributárias internamente.
Esse é
precisamente o tipo de medida contra o qual a economia ortodoxa adverte. Mas
medidas ousadas podem ser necessárias quando o sistema existente faz com que a
extração pareça “eficiente” e a industrialização, “ineficiente”. A proibição do
Zimbábue mudou o cálculo enfrentado pelo capital minerador: o acesso ao minério
passou a exigir cada vez mais investimentos no processamento doméstico. Isso
ajudou a impulsionar as empresas em direção ao processamento do minério de
lítio em concentrado e, mais recentemente, a planos para instalações de sulfato
de lítio — levando o Zimbábue um passo mais perto dos insumos para baterias.
A
política do Zimbábue deve ser defendida sem romantização. Processar minério
para transformá-lo em concentrado não é o mesmo que controlar a cadeia de valor
das baterias. Empresas estrangeiras ainda dominam a produção. Tecnologia,
financiamento e acesso ao mercado permanecem sob o controle de corporações
multinacionais. Comunidades locais levantaram preocupações sobre as condições
de trabalho, os direitos à terra e à água e a regulamentação deficiente. Uma
proibição de exportação, por si só, não pode produzir engenheiros, eletricidade
confiável, pesquisa de propriedade pública ou fabricantes domésticos.
O
próximo passo do Zimbábue deve, portanto, ser mais profundo e mais público: um
plano da mina à manufatura que conecte conhecimento geológico, participação
acionária estatal, crédito de bancos de desenvolvimento, educação profissional,
processamento químico, produção de componentes, reciclagem e demanda regional.
Tal plano precisaria conceder poder institucional às comunidades mineradoras e
aos trabalhadores e garantir que as receitas públicas construam bens
universais, em vez de riqueza privada.
O
sucesso do Zimbábue não deve ser medido pelas plantas de processamento, mas se
a política de lítio ajuda a construir novas escolas públicas, hospitais,
infraestrutura de água e transporte, redes de energia e outros bens públicos.
A
Quarta Década de Desenvolvimento Industrial para a África (2026–2035) das
Nações Unidas reconhece a urgência de nossa conjuntura. Quase 12 milhões de
jovens africanos ingressam na força de trabalho todos os anos, enquanto a Área
de Livre Comércio Continental Africana oferece a escala necessária para
construir cadeias regionais de valor.
A ONU
corretamente conclama a África a passar da exportação de matérias-primas para a
produção de bens de maior valor agregado. Mas declarações e “projetos
financiáveis” não são suficientes. Como Grieve Chelwa e eu argumentamos em
nosso livro, Como o Fundo Monetário Internacional estrangula a África (2026), a
África precisa de bancos públicos de desenvolvimento, planejamento continental
de infraestrutura, uma política mineral coordenada, regras de conteúdo local,
proteção às indústrias nascentes e alívio das dívidas externas que drenam
justamente a capacidade fiscal de que a industrialização necessita.
Os
opositores da política industrial, nada neutros, não oferecem nenhuma
alternativa. Deixar os investimentos a cargo das corporações multinacionais é
aceitar um plano escrito em outro lugar: minas sem indústria, fazendas sem
processamento de alimentos, cidades sem trabalho digno e uma transição verde na
qual as tecnologias são projetadas no Norte utilizando minerais extraídos no
Sul. A política industrial não é uma garantia de emancipação, mas pode ser um
terreno de luta de classes sobre quem controla os investimentos, a produção e o
excedente econômico. Os povos do Sul Global têm o direito de usar seus próprios
recursos para construir o futuro.
A
conjuntura atual abriu espaço para o debate sobre política industrial, em parte
porque a longa estagnação que se seguiu à crise financeira de 2008 tornou as
antigas prescrições cada vez mais insustentáveis. Após décadas nas quais o
planejamento foi desacreditado e a capacidade estatal foi enfraquecida, os
países do Sul Global devem ter a ousadia de imaginar algo melhor do que o
acordo que lhes foi imposto. Há um antigo provérbio shona do Zimbábue que pode
ser útil lembrar: Chawawana batisisa mudzimu haupi kaviri — aquilo que você
encontrou, segure com firmeza, pois os ancestrais não dão duas vezes.
Fonte:
Por Vijay Prashd, no Tricontinental | Tradução: Lucas Scatolini, em Outras
Palavras

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