Uma
política econômica de curto alcance
Aqueles
que conhecem de perto a zona rural sabem muito bem que as galinhas têm um voo
muito limitado. Por milhares de anos, os humanos selecionaram e cruzaram as
galinhas para que elas produzissem mais carne e ovos. Com isso elas ficaram com
uma estrutura corporal pesada: asas curtas e pequenas em relação ao tamanho do
corpo. Com o bater das asas, não conseguem gerar a sustentação necessária para
manter um voo longo.
Por
analogia, os economistas denominaram de “voo de galinha” os episódios de
crescimento econômico de curta duração. Existem muitas causas para esses
episódios. Podem ser provocados por bolhas especulativas na área financeira ou
na economia real. São observados, também, na ocorrência de ciclos econômicos
curtos. Ou por influência externa, atingindo economias frágeis e muito
dependentes do exterior.
Mas não
são só os eventos de instabilidade típica do capitalismo que provocam voos de
galinha. Muitas vezes a ação do governo dispara esse fenômeno, que nunca é
bem-vindo. O esperado é que o incentivo do Estado gere aumento da atividade
econômica por longos períodos e altas taxas de crescimento. Principalmente em
países subdesenvolvidos ou de renda média, como o Brasil, que pretendem
eliminar a pobreza; proporcionando uma vida digna do ponto de vista econômico
para toda a população.
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Voo de galinha ou crescimento sustentado
Um
relatório deste ano do Instituto Nacional de Propriedade Industrial chama a
atenção para políticas públicas recorrentes adotadas no Brasil nas últimas
décadas: “Os resultados apresentados neste relatório oferecem subsídios
importantes para uma reavaliação crítica das políticas públicas brasileiras,
tanto no plano macroeconômico quanto industrial. Historicamente, em períodos de
desaceleração, o Brasil tem recorrido a políticas anticíclicas centradas na
sustentação do consumo das famílias – como incentivos fiscais para bens
duráveis e ampliação do crédito ao consumo. Embora eficazes no curto prazo,
essas medidas frequentemente resultam em antecipação do consumo, queda da
poupança e aumento do endividamento, reduzindo, no médio prazo, tanto o próprio
consumo quanto o investimento e, assim, contribuindo para o arrefecimento da
atividade econômica”.[1] É uma descrição precisa do que os economistas
denominam de voo de galinha: o governo emprega os recursos disponíveis para
incentivar o consumo.
No
entanto, esse não é um destino escrito nas estrelas. Ao contrário, se o Estado
utilizar o poder público (financeiro e institucional) para atuar diretamente
nos investimentos, na produtividade e na distribuição efetiva da renda terá
muita chance de obter um alto crescimento de longo prazo.
Mas
afinal porque essas três variáveis? O que caracteriza cada uma delas? Como elas se relacionam para promover um
crescimento sustentável ao invés de um voo de galinha? Para responder a estas
perguntas é preciso revisar alguns conceitos básicos da teoria econômica, a
começar pela “demanda efetiva” definida por Keynes em sua Teoria Geral.
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Keynes e a demanda efetiva
Segundo
Keynes, a demanda efetiva é a “(…) soma de duas quantidades, a saber: o
montante que se espera seja gasto pela comunidade em consumo, e o montante que
se espera seja aplicado em novos investimentos”.[2] Investimentos, neste
contexto, são as despesas para instalar ou ampliar uma unidade de produção na
economia real.
Uma
forma simplificada de visualizar o conceito de Keynes é dada pelo diagrama
origem/destino a seguir:
Nele se
observa que o crescimento da produção pode ser induzido pelo aumento do consumo
ou dos gastos com investimentos. A vantagem do investimento em relação ao
consumo é que ele eleva, também, a capacidade de produção, evitando pressões
inflacionárias indesejadas.
Já a
produtividade[3] diz respeito à capacidade que o sistema tem de obter mais com
menos. Obter mais bens e serviços com menor emprego de fatores. Quando a
produtividade não cresce, a economia necessita de volumes cada vez maiores de
capital (investimentos) para gerar o mesmo ponto percentual de crescimento do
PIB. Não basta investir; onde investir importa e muito.
De
fato, muitos investimentos têm uma ação transversal, isto é, aumentam
simultaneamente a capacidade de produção e a produtividade da economia. É o
caso, por exemplo, da malha de transportes, da rede de energia, da mobilidade
urbana, do saneamento básico e vários outros. Portanto a transversalidade deve
ser sempre objeto de redobrada atenção.
De
outro lado, a concentração de renda[4] bloqueia o desenvolvimento de várias
formas. Do ponto de vista econômico, trava a formação de um amplo mercado de
consumo e poupança. Além disso, impede a melhoria da produtividade,
principalmente quando obtida via educação. São conhecidas as dificuldades que
as famílias de baixa renda têm para educar seus filhos e filhas, mesmo com
ensino público gratuito.
Em
geral, essas três variáveis têm um comportamento bem peculiar. Quando caminham
lado a lado aceleram o crescimento, podendo atingir níveis chineses de 6 a 10%
ao ano. Já quando algumas ficam para trás a economia patina; as taxas são
pequenas, quando muito 2 a 3%. Mal dão conta do aumento vegetativo da
população. A longo prazo, desenham um quadro desolador.
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Investimento e produtividade na economia brasileira nas últimas décadas
O
crescimento econômico no Brasil sofreu uma brusca mudança, para pior, no início
dos anos 80 do século passado. De acordo com as séries históricas do IPEA Data,
a taxa de crescimento média do período 1930-1980 foi de 6,57% ao ano, enquanto
que no período de 1981 a 2025 caiu para 2,92%. No PIB per capita não foi
diferente, diminuindo de 3,93% para 0,84% ao ano.
Em
relação ao investimento, economias emergentes que sustentaram ciclos
prolongados de forte expansão, como os países do Leste Asiático, mantiveram
taxas situadas entre 25% e 40% do PIB.
Em
janeiro de 2020, o Asian Development Bank, no seu relatório Asia’s Journey to
Prosperity: Policy, Market, and Technology Over 50 Years, escreveu: “Na década
de 1960, a maioria das economias asiáticas apresentava baixas taxas de
investimento — isto é, o investimento como proporção do Produto Interno Bruto
(PIB). A taxa média de investimento bruto da região era de 20,3%, patamar
comparável ao da América Latina e do Caribe. (…) No entanto, ao longo das
décadas seguintes, houve um aumento significativo nas taxas de investimento em
toda a Ásia. Na década de 2010, a taxa média de investimento bruto da Ásia em
desenvolvimento era de 38,9%, quase o dobro dos níveis observados na América
Latina e no Caribe”.[5]
Segundo
o IPEA Data, entre 1980 e 2025 no Brasil, a taxa média de Formação Bruta de
Capital Fixo, principal indicador do nível de investimento, foi de 19,04%.
Muito baixa, comparado aos asiáticos. Uma taxa próxima de 19% mal cobre a
depreciação do capital e o crescimento populacional, deixando uma margem muito
estreita para ampliação da capacidade produtiva.
No
entanto, como já se disse, o baixo nível de investimento não conta toda a
história. Muitas vezes esse resultado é mais um sintoma do que causa de
gargalos mais profundos na economia. Obter o crescimento sustentado exige não
apenas impulsionar o investimento para patamares de pelo menos 25% do PIB, mas
simultaneamente criar condições para que cada real investido gere mais produto.
É preciso um olhar atento para a produtividade.
Segundo
o Observatório da Produtividade Regis Bonelli da Fundação Getúlio Vargas, a
taxa de crescimento anual da produtividade do trabalho no Brasil, no período de
1981 a 2025, foi de 0,56% ao ano. Essa taxa, muito baixa, evidencia a conhecida
estagnação estrutural da produtividade no Brasil, ao longo de mais de quatro
décadas. Na comparação internacional, o Brasil está na desconfortável posição
de 94º lugar entre 194 países (OIT).
Quando
se fala em produtividade, um dos pontos críticos é a infraestrutura,[6]
principalmente naquelas áreas que dependem da ação do Estado. Nas últimas
décadas, o investimento público em infraestrutura despencou de níveis
superiores a 5% do PIB nos anos 1970 para patamares inferiores a 2% do PIB.
Isso gerou entraves estruturais que dificultam muito o crescimento econômico.
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Distribuição de renda e o índice de Gini
O
índice de Gini é o principal indicador utilizado para medir a concentração de
renda. Varia de zero a um. Quanto mais baixo e próximo de zero mais igualitária
é a sociedade. Pelo contrário, quanto mais alto, pior a distribuição da renda.
O
Brasil reduziu de forma expressiva a concentração de renda quando medido pelas
pesquisas por amostra de domicílio do IBGE. Entre 1995 e 2025 o índice passou
de 0,615 para 0,511 (IPEA Data). No entanto esses números não refletem a
realidade, já que essas pesquisas não capturam adequadamente as rendas de
lucros, dividendos e rendimentos de capital; geralmente associados aos extratos
de maior renda da população. Em outras palavras, os ricos não costumam declarar
as rendas de capital ao entrevistador do IBGE.
Nas
últimas duas décadas, economistas como Thomas Piketty e Marc Morgan do World
Inequality Lab trouxeram uma nova luz à comparação internacional ao cruzar
dados de pesquisas de amostragem domiciliar com dados fiscais (Imposto de
Renda) e Contas Nacionais. Sob essa lente, o Brasil mantém uma posição
histórica incômoda: a de figurar de forma recorrente entre os países mais
desiguais do mundo. Frente aos países desenvolvidos a discrepância é
significativa. A Dinamarca, um dos santuários de Estado de bem-estar social,
teve um Gini de 0,24 em 2024. A Europa 0,37 e os Estados Unidos, uma das
economias desenvolvidas mais desiguais, registrou 0,47 no mesmo ano. O Brasil
0,65. Uma tragédia.
Em
resumo, baixo investimento, especialmente o público, precária evolução da
produtividade e concentração absurda de renda montam um painel econômico
devastador. E, lamentavelmente, como destaca o relatório do INPI, esse cenário
é consequência de escolhas políticas mal formuladas.
Concentrar
os gastos e financiamentos públicos em incentivo ao consumo é um grave
equívoco. O Brasil precisa distribuir melhor esses recursos. Manter as
políticas assistenciais para aqueles que realmente precisam e concentrar uma
boa parte dos orçamentos para promover um crescimento que sustente o
desenvolvimento econômico, social e ambiental de longo prazo. Naturalmente como
essas áreas são altamente interligadas e os recursos públicos escassos, um
planejamento central é mais do que desejável. É obrigatório.
• Mercadante alerta para risco de Flávio
Bolsonaro abrir informações estratégicas do Brasil aos EUA
O
presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
Aloizio Mercadante, afirmou nesta quarta-feira (23) que a participação dos
Estados Unidos em uma eventual transição de governo liderada por Flávio
Bolsonaro (PL) poderia colocar informações estratégicas do Estado brasileiro ao
alcance de outro país.
A
declaração foi feita durante a 5ª edição da J. Safra Investment Conference,
promovida pelo Banco Safra em São Paulo. O encontro ocorre nos dias 22 e 23 de
setembro e reúne empresários, investidores, gestores e autoridades para
discutir economia, eleições e investimentos.
Mercadante
criticou a proposta atribuída ao candidato presidencial de envolver
representantes norte-americanos no processo de transição caso ele vença a
eleição. Segundo o presidente do BNDES, esse período permite ao governo eleito
ter contato com informações sensíveis de diferentes áreas da administração
pública.
“Você
tem acesso a todas as informações, da defesa, de milhares de clientes, do Banco
Central, do PIX. Como é que você vai abrir essas informações para outro país?”,
questionou.
O
presidente do BNDES também criticou manifestações de apoio, no Brasil, às
medidas comerciais adotadas pelo governo do atual presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, contra produtos brasileiros.
“O cara
faz um tarifaço de 50% e o pessoal põe o chapeuzinho do Maga, vai com a
bandeira americana e sai batendo palmas na rua. Isso não tem como dar certo”,
afirmou.
As
relações comerciais entre Brasília e Washington atravessam um período de
tensão. O governo brasileiro contesta na Organização Mundial do Comércio (OMC)
tarifas impostas pelos Estados Unidos a diferentes produtos nacionais.
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Mercadante fala em risco de “neocolonialismo”
Durante
sua participação no evento, Mercadante ampliou as críticas para a disputa
internacional por recursos naturais e tecnologia. Ele afirmou que o Brasil
corre o risco de ingressar em um processo de “neocolonialismo” caso aceite
condicionamentos externos sobre decisões estratégicas.
O
presidente do BNDES citou exigências que, segundo ele, foram apresentadas pelos
Estados Unidos em negociações comerciais e defendeu que o país preserve sua
capacidade de decidir sobre empresas, investimentos e exploração de recursos
naturais.
“Nós
não podemos vender nenhuma empresa, nem podemos definir o que nós vamos
explorar antes de consultar se os americanos têm interesse. Nós vivemos 400
anos como colônia. Nós estamos indo para um neocolonialismo digital e um
neocolonialismo na região. Isso não é sustentável, isso não é correto”,
afirmou.
A
discussão ocorre em meio ao aumento da importância geopolítica dos chamados
minerais críticos, utilizados em setores como tecnologia, defesa, produção de
baterias e transição energética.
Na
semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Política
Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação prevê instrumentos
para estimular o processamento desses recursos no Brasil e ampliar a
participação da indústria nacional na cadeia produtiva.
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Defesa de autonomia sobre minerais críticos
Mercadante
afirmou que as dimensões territorial, econômica e mineral do Brasil justificam
uma estratégia própria diante da disputa internacional por matérias-primas
consideradas essenciais para as novas tecnologias.
“Nós
somos grandes demais para aceitar o que quer que seja. Nós precisamos defender
e falar e mostrar o Brasil para o mundo com altivez, com autonomia, com
interdependência, com realismo em relação aos minerais críticos”, disse.
Para o
presidente do BNDES, a posição brasileira nesse mercado amplia a necessidade de
preservar a autonomia nas relações internacionais.
“Nós
somos um país independente, nós somos um país grande, nós estamos entre as três
maiores economias do mundo, na nova fronteira mineral”, afirmou.
A
agenda de minerais críticos também passou a integrar as políticas recentes do
próprio BNDES. O banco abriu neste mês uma nova etapa do Plano Brasil Soberano,
que inclui linhas de financiamento destinadas a setores estratégicos e à cadeia
de minerais críticos, além de empresas atingidas por tarifas comerciais dos
Estados Unidos.
Fonte:
Por Sergio Gonzaga de Oliveira, em A Terra
é Redonda/Brasil 247

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