sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Sob cartilha Donroe, EUA pressionam Brasil antes da eleição

Ao estilo de um trailer de filme épico de ação, o embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Kevin Marino Cabrera, narra uma história enobrecida sobre como o seu país, ao longo de duzentos anos, deu as cartas da ordem política que regeria o "Novo Mundo", impedindo a recolonização europeia das Américas e garantindo para si a hegemonia regional.

Sentado numa cadeira de madeira requintada e de frente para a câmera, ele apresenta um vídeo lançado, em agosto, pelo Departamento de Estado americano sobre a Doutrina Monroe, de 1823. "Na era moderna", afirma, "a doutrina encontrou seu mais recente defensor no presidente [Donald] Trump."

Sob a égide monroeísta, a Casa Branca vem impulsionando a ultradireita rumo às urnas e costurando alianças com seus governos ao redor do continente. Mas também no Brasil, onde o Planalto reagiu com desconforto à produção audiovisual de cinco minutos, o intervencionismo à moda Donroe já deixou de ser especulação para virar realidade, apontam analistas ouvidos pela DW. Observadores leem a paulatina distensão das relações entre EUA e Brasil dentro do contexto das eleições presidenciais de outubro.

Ao discursar diante da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas na terça-feira (22/09), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acenou de novo ao tema, sem citar Trump nominalmente. "Num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas" na América Latina e no Caribe, disse, "o Brasil não cabe no quintal de ninguém", antes de criticar "a ingerência externa em processos eleitorais" e a "divisão do mundo em zonas de influência."

Se vencer o senador Flávio Bolsonaro, os EUA terão em Brasília mais um parceiro ideológico na região, depois de terem apoiado as vitórias de aliados em Colômbia, Honduras e Argentina. Uma das hipóteses mais ventiladas é que, caso contrário, os EUA poderão contestar os resultados das urnas brasileiras.

<><> Pressão até a última hora

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) já antecipou risco crítico de interferência eleitoral pelos EUA em relatório enviado ao governo e à Justiça Eleitoral, segundo a Folha de São Paulo. 

"Trump já se posiciona de forma conflitiva em relação ao governo Lula, enquanto atores do seu governo, e ele próprio, aparecem ao lado da família Bolsonaro," afirma Pedro Telles, professor da escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Isso tende a se tornar mais agudo conforme o segundo turno se aproxima."

Também o Instituto Vladimir Herzog, organização que atua em favor da democracia e dos direitos humanos, enviou cartas de alerta a autoridades em Brasília e ao secretário-geral da ONU, António Guterres.

A gestão republicana dos EUA apertou desde o ano passado a pressão sobre o Brasil: impôs tarifas comerciais;  rotulou facções de "terroristas" e acusou o país de falhar no seu combate; aplicou sanções contra cidadãos supostamente vinculados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), além de autoridades e seus familiares; e desviou do rito diplomático para indicar um embaixador em Brasília.

A doze meses das eleições brasileiras, a Casa Branca usou as negociações do tarifaço para pedir que o Planalto garantisse a participação de "dissidentes políticos". A demanda, entretanto, foi descartada e mantida em sigilo até a semana passada, quando foi revelada pelo Estado de São Paulo.

Agora, "se os EUA escolherem intervir, poderão fazê-lo de forma clara, para maximizar as chances de Flávio," afirma Dov H. Levin, professor de Relações Internacionais da Universidade de Hong Kong. "Mas só saberemos com certeza a poucos dias das eleições. No segundo mandato de Trump, várias intervenções têm acontecido de última hora."

<><> Estratégia já ensaiada

Uma nova rodada de sanções estaria, às vésperas do primeiro turno, sendo avaliada em Washington contra Alexandre de Moraes, postulante a desafeto número um do bolsonarismo (especialmente no contexto das eleições de 2022), e outros integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF).  No ano passado, os EUA acusaram o ministro de empreender uma "caça às bruxas" contra Bolsonaro.

O questionamento da integridade eleitoral já é estratégia ensaiada tanto pelo bolsonarismo, que vive em clima de campanha permanente contra as urnas eletrônicas no Brasil, quanto pelo trumpismo. 

Em julho deste ano, o americano voltou a afirmar que foi fraudulenta a sua derrota para o democrata Joe Biden em 2020 (confirmada por dezenas de decisões judiciais, auditorias estaduais e recontagens). Os EUA realizarão eleições de meio de mandato em novembro, quando os republicanos deverão perder terreno político.

Já o clã Bolsonaro tem o hábito de recorrer a diplomatas estrangeiros para denunciar, sem fundamentação, o sistema de votação brasileiro, numa aparente tentativa de internacionalizar a própria pauta. A conduta levou, inclusive, o ex-presidente Jair Bolsonaro a ser condenado pela Justiça e ficar inelegível.

Jennie Lincoln, diretora da missão de observação a ser enviada pelo Carter Center ao Brasil, aponta que conversão das contestações de eleições em estratégia política tem colocado a democracia em risco ao redor da América Latina. A organização americana é uma das que terá especialistas para avaliar a transparência do pleito, assim como a União Europeia (UE) e a Organização dos Estados Americanos (OEA). 

"Se alguém quiser desafiar o sistema eleitoral, precisa ter evidências que possam ser testadas, não apenas politicamente, mas também tecnologicamente," afirma. O ex-presidente de esquerda Gustavo Petro também questionou a própria derrota em agosto na Colômbia.

<><> O limite das bravatas 

Mesmo um eventual desafio ao resultado das urnas pelos EUA, entretanto, não implica em consequências previsíveis no Brasil. Por ora, as investidas de Trump falharam em evitar a prisão de Bolsonaro, e Lula converteu a pressão americana em tema próprio de campanha, destaca o cientista político Oliver Stuenkel, da Universidade de Harvard e do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, nos EUA.

Soma-se que, a despeito das ambiciosas intenções hegemônicas dos EUA, a doutrina Donroe pretere a construção de influência geopolítica de longo prazo, apostando em colocar Trump sob os holofotes para fazer pressão em temas imediatos. "O padrão não são operações secretas, mas intervenções abertas, com ameaças nas redes sociais," acrescenta Stuenkel, prevendo que o republicano poderá repetir a estratégia bem-sucedida em outros países latinos para o Brasil.

As bravatas presidenciais se provam, no mínimo, eficientes na ignição das bases da ultradireita. Nas redes sociais, parte da tropa de influenciadores bolsonaristas e seus seguidores acompanha cada movimento de pressão e chega a torcer por uma ofensiva de Trump contra as instituições brasileiras.

Especialistas apontam, em contrapartida, para perigos à soberania nacional e à saúde da democracia brasileira. "Cada país e seu povo devem ter plena autonomia e liberdade para decidir o seu destino," afirma Telles. "E um país nunca busca interferir na eleição de outro sem, por trás disso, querer defender interesses próprios."

Um levantamento de Levin, que estuda o histórico de intervenções eleitorais pelos EUA desde o século 20, indica que o país atuou para influenciar 128 eleições ao redor do mundo entre 1946 e 2014. Do total, 39 ocorreram na América Latina. 

Segundo o pesquisador, governos têm probabilidade significativamente maior de cooperar com os EUA caso tenham sido propulsionados ao poder pela Casa Branca. Por exemplo, alinhando votos a nível internacional ou assinando acordos favoráveis aos interesses americanos.

¨      Escudo das Américas: aliança ou submissão a Washington? Por Wagner Sousa

Entre 8 e 10 de setembro de 2026, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, percorreu Colômbia, Equador e Peru — três países cujos governos, todos recém-alinhados a Washington, vêm sendo tratados como vitrine do avanço da direita na América do Sul. O Brasil ficou de fora do roteiro. A ausência não é acidental: Rubio já classificou publicamente o governo de Luiz Inácio Lula da Silva como “não amigável” e acusou o petista de colocar o ego pessoal acima dos interesses do país nas negociações tarifárias com os Estados Unidos.

O pano de fundo institucional dessa aproximação é o chamado Escudo das Américas (Shield of the Americas), anunciado por Donald Trump em março de 2026 durante uma cúpula em Miami. A coalizão reúne hoje 19 países comprometidos a compartilhar inteligência e coordenar ações militares contra cartéis de drogas e organizações criminosas transnacionais. Em agosto, o Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM) deu um passo adiante e ativou a Joint Task Force Western Hemisphere (JTF-WHEM), descrita pelo seu chefe, o general Francis Donovan, como o “braço operacional” do comando para aplicar pressão contínua sobre redes de narcotráfico e terrorismo na região. O Brasil não integra nem a coalizão nem a força-tarefa.

¨      Uma ferramenta com meio século de uso político

A associação entre combate às drogas e projeção de poder dos Estados Unidos sobre a América Latina não é novidade — é um padrão que remonta ao início dos anos 1970. Foi Richard Nixon quem, em 1971, cunhou a expressão “guerra às drogas” e criou a arquitetura burocrática (a futura DEA, Drug Enforcement Administration, criada em 1973) que passaria a orientar boa parte da política externa norte-americana para o hemisfério.

Em 1986, o Congresso americano instituiu o processo de certificação antidrogas (Drug Certification Process), parte do Anti-Drug Abuse Act, que obrigava o presidente dos EUA a “certificar” anualmente se cada país latino-americano cooperava o suficiente no combate ao narcotráfico — sob pena de corte de ajuda e sanções comerciais. Na prática, o mecanismo funcionou por anos como instrumento de pressão diplomática, usado de forma seletiva conforme o alinhamento político dos governos da região com Washington, e não apenas conforme critérios técnicos de eficácia policial.

Em 1989, a invasão americana do Panamá — Operação Causa Justa — foi justificada oficialmente pela necessidade de capturar o general Manuel Noriega, acusado de tráfico de drogas, embora análises posteriores apontassem motivações geopolíticas mais amplas ligadas ao controle do Canal do Panamá.

Nos anos 1990 e 2000, o Plano Colômbia — bilhões de dólares em ajuda militar dos EUA a Bogotá sob a bandeira do combate à cocaína — também serviu para ampliar a presença militar americana em meio ao conflito com as FARC, num momento de disputa ideológica com governos de esquerda emergentes na região, como os de Hugo Chávez na Venezuela e Evo Morales na Bolívia. O próprio Evo Morales expulsou a DEA da Bolívia em 2008, acusando a agência de espionagem política disfarçada de cooperação antidrogas.

Mais recentemente, o governo Trump elevou o tom ao classificar o chamado “Cartel de los Soles”, supostamente ligado à cúpula do governo venezuelano, como organização terrorista, abrindo caminho para operações militares diretas — incluindo ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico sob acusação de tráfico — num movimento que analistas descrevem como securitização da política externa em relação a governos considerados hostis.

No Brasil a classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando Capital como organizações terroristas se insere nesta lógica de aumentar a pressão política, inclusive, no limite, por meios militares coercitivos, o que é uma grande preocupação do atual governo brasileiro.

<><> O recorte de 2026

O desenho atual do Escudo das Américas segue essa lógica histórica, mas com um traço adicional: a coalizão reúne majoritariamente governos de direita recém-eleitos ou alinhados a Trump — Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, Santiago Peña no Paraguai, Daniel Noboa no Equador, Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru. A viagem de Rubio reforçou justamente essas relações, tratando segurança, narcotráfico, comércio, energia nuclear civil e minerais críticos como pacote único de cooperação estratégica.

Durante a viagem, Rubio fez críticas diretas aos governos de esquerda da região, associando-os a resultados de “miséria” — fala que reforça a leitura de que o enquadramento antidrogas convive, mais uma vez, com um recorte ideológico explícito. O Brasil, sob Lula, fora tanto da coalizão quanto do roteiro diplomático, justamente no momento em que o país está a menos de um mês do primeiro turno de sua eleição presidencial.

O padrão histórico desde Nixon, é que o vocabulário antidrogas tem funcionado repetidamente como capa para objetivos de alinhamento político e ideológico no hemisfério — pressionando os governos não alinhados a Washington. A existência de um problema real de segurança não impede que o instrumento criado para enfrentá-lo seja também usado, seletivamente, como alavanca diplomática, o que volta a se manifestar às vésperas das urnas brasileiras.

 

Fonte: DW Brasil/Outras Palavras

 

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