O
trabalho numa sociedade ferida
Há uma
cena que tenho encontrado com frequência nas minhas conversas pelas ruas, nos
cafés modestos, nas universidades e até nas filas silenciosas onde a vida
parece esperar sua vez: uma pessoa jovem, diploma na mão, olhos cansados e uma
pergunta que não precisa ser pronunciada para ser compreendida — “foi para isso
que eu estudei?”.
Eu
observo a geração Z e os últimos anos da geração dos millennials com uma
mistura de tristeza e curiosidade sociológica. Eles cresceram ouvindo que a
educação seria uma ponte, que o esforço construiria uma estrada, que a
dedicação seria recompensada. Ao chegar ao mercado de trabalho, muitos
encontraram uma ponte incompleta, uma estrada de terra e uma placa curiosa
dizendo: “experiência necessária para o primeiro emprego”. É uma pequena ironia
do nosso tempo, quase digna de uma página de Machado de Assis: pede-se ao
viajante que chegue ao destino antes mesmo de iniciar a viagem.
Não
escrevo estas linhas para condenar uma geração anterior, nem para transformar a
juventude em símbolo de pureza. Toda geração carrega suas contradições. Mas,
como sociólogo que observa o cotidiano, percebo uma ferida coletiva: o ambiente
de trabalho foi deteriorado e sua recuperação não será obra de uma estação.
Será necessário tempo, paciência e uma reconstrução profunda das relações entre
capital e trabalho.
Entre
2016 e 2026, uma década pareceu suficiente para revelar uma transformação
importante: o emprego deixou de ser apenas uma fonte de renda e passou a ser
também uma fonte de insegurança. A discussão sobre as reformas trabalhistas e
sobre novas formas de contratação mostrou uma sociedade tentando responder a um
dilema antigo: como produzir riqueza sem transformar o trabalhador em uma peça
descartável da engrenagem? A reforma trabalhista de 2017 alterou diversos
pontos da legislação trabalhista brasileira e abriu debates entre especialistas
sobre seus efeitos na geração de empregos, na informalidade e na proteção
social.
Meu
olhar, porém, não começa nos textos legais. Começa na padaria onde o
funcionário mais antigo explica ao recém-chegado como sobreviver ao turno;
começa na pequena empresa familiar onde o dono trabalha junto com seus
empregados; começa também nas grandes estruturas empresariais onde planilhas
decidiram substituir conversas humanas. A sociedade capitalista não é uma
máquina distante: ela tem rosto, hábitos, vícios e memórias.
E uma
dessas memórias, a meu ver, é a história de como parte do empresariado
brasileiro se acostumou com uma facilidade perigosa: a disponibilidade
permanente de mão de obra barata.
Quando
uma sociedade passa muitos anos permitindo que o custo humano seja a principal
ferramenta de competitividade, cria-se uma espécie de conforto empresarial. O
empresário aprende a resolver problemas reduzindo salários, aumentando jornadas
ou substituindo vínculos estáveis por relações mais frágeis. Aos poucos, aquilo
que deveria ser uma exceção transforma-se em método. O improviso vira modelo de
gestão.
É como
um homem que passa anos usando uma cadeira quebrada porque ela ainda suporta
seu peso. Um dia, ele percebe que não tem mais uma cadeira; tem apenas um
hábito. A economia também cria hábitos. E alguns deles são difíceis de
abandonar.
Foi
assim que muitos processos produtivos passaram a depender de um trabalhador
barato para permanecer de pé. Não porque o trabalhador seja barato por
natureza, mas porque durante muito tempo construímos uma lógica em que o preço
da força de trabalho era tratado como variável de ajuste. A empresa que deveria
buscar inovação, qualificação e eficiência muitas vezes encontrou um caminho
mais curto: pressionar quem estava na base.
O
resultado é uma contradição curiosa. A mesma sociedade que exige produtividade
do trabalhador frequentemente oferece pouca estabilidade para que ele
desenvolva sua própria produtividade. Queremos profissionais criativos, mas
oferecemos contratos que alimentam ansiedade. Queremos inovação, mas
conservamos estruturas que premiam o corte imediato de custos.
O
sociólogo francês Pierre Bourdieu lembrava que as desigualdades não se mantêm
apenas pela força econômica, mas também pela reprodução de hábitos e
expectativas sociais. No mundo do trabalho brasileiro, isso aparece quando a
precariedade começa a parecer normal. O jovem que aceita qualquer condição
porque precisa pagar o aluguel aprende uma lição amarga: a sobrevivência vem
antes do projeto de vida.
O
sociólogo brasileiro Ricardo Antunes, ao estudar as transformações do trabalho
contemporâneo, chama atenção para a expansão de formas de precarização e para a
transformação do trabalhador em alguém permanentemente disponível. Essa
disponibilidade constante cria uma nova figura social: a pessoa que trabalha o
tempo inteiro, mas nunca sente que possui segurança suficiente.
Eu
encontro essa figura nas histórias da geração Z: pessoas fazendo entregas pela
manhã, cursos à noite e trabalhos temporários nos intervalos. Encontro também
entre millennials que entraram no mercado acreditando que uma carreira seria
construída degrau por degrau, mas descobriram que a escada poderia desaparecer
antes do próximo passo.
Há uma
diferença importante entre as gerações anteriores e as atuais. Muitos
trabalhadores mais velhos, especialmente aqueles que ingressaram no mercado em
períodos de maior estabilidade industrial, ainda carregam a memória de uma
relação mais previsível entre emprego e futuro. Não era um mundo perfeito;
havia desigualdades, exclusões e dificuldades. Mas existia uma expectativa mais
clara de permanência.
Hoje, a
promessa mudou. O trabalhador é incentivado a ser uma empresa de si mesmo, uma
marca ambulante, um currículo sempre atualizado. A pessoa precisa administrar
sua carreira como se fosse uma pequena startup, mesmo quando mal consegue
administrar as contas do mês. É uma grande ironia moderna: pedimos espírito
empreendedor até de quem apenas deseja um salário digno.
Nas
redes sociais, essa angústia ganhou humor porque, às vezes, o humor é a última
ferramenta dos que não possuem poder. Vejo jovens compartilhando a expressão “é
sobre isso e tá tudo bem” para transformar pequenas derrotas diárias em uma
espécie de abraço coletivo. Mas também percebo a outra face: muitas vezes não
está tudo bem; apenas aprendemos a rir para suportar.
Outro
fenômeno curioso é o uso do “do nada” para descrever mudanças repentinas: “do
nada, perdi o emprego”; “do nada, meu contrato acabou”; “do nada, preciso
começar novamente”. A expressão parece simples, quase infantil, mas revela uma
experiência profunda: a sensação de que a vida profissional perdeu
continuidade.
Não
devemos interpretar esses sinais como reclamações vazias. Eles são documentos
sociais. Uma sociedade também escreve sua história através das frases que seus
cidadãos repetem.
O
problema não está apenas no trabalhador. Está no modelo de desenvolvimento que
se acostumou a depender da fragilidade de milhões de pessoas. Um sistema
econômico saudável precisa de empresas fortes, mas empresas fortes não são
aquelas que sobrevivem eternamente pagando pouco. São aquelas capazes de criar
valor, formar pessoas e construir relações duradouras.
Por
isso, quando falo em reconstrução do emprego, não penso em retornar a um
passado idealizado. O passado também tinha seus defeitos. Penso em recuperar
uma ideia simples: trabalho não deve ser apenas uma atividade para manter
alguém vivo até o próximo pagamento; deve ser parte de uma existência digna.
A
recuperação desse ambiente será lenta porque a destruição foi cultural antes de
ser apenas econômica. Quando empresários, trabalhadores e instituições se
acostumam com determinada lógica, mudar leis não basta. É preciso mudar
expectativas.
O
empresário acostumado com mão de obra barata precisará reaprender a competir. O
trabalhador acostumado com insegurança precisará recuperar confiança. A
sociedade acostumada com soluções rápidas precisará aceitar que algumas feridas
exigem tempo.
Machado
de Assis talvez dissesse que o problema brasileiro nunca foi apenas o buraco,
mas a elegante maneira como aprendemos a decorá-lo. Eu acrescentaria: chegou o
momento de parar de enfeitar a queda e começar a reconstruir o chão.
Entre
2016 e 2026, vimos uma década em que o trabalho foi submetido a fortes
transformações. A próxima década deveria ser dedicada a perguntar menos quanto
custa o trabalhador e mais quanto vale o trabalho humano.
Porque
uma sociedade que economiza demais sobre seus próprios trabalhadores acaba
descobrindo, cedo ou tarde, que também economizou sobre seu próprio futuro.
Fonte:
Por Victor Rodrigues, em Outras Palavras

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