sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O trabalho numa sociedade ferida

Há uma cena que tenho encontrado com frequência nas minhas conversas pelas ruas, nos cafés modestos, nas universidades e até nas filas silenciosas onde a vida parece esperar sua vez: uma pessoa jovem, diploma na mão, olhos cansados e uma pergunta que não precisa ser pronunciada para ser compreendida — “foi para isso que eu estudei?”.

Eu observo a geração Z e os últimos anos da geração dos millennials com uma mistura de tristeza e curiosidade sociológica. Eles cresceram ouvindo que a educação seria uma ponte, que o esforço construiria uma estrada, que a dedicação seria recompensada. Ao chegar ao mercado de trabalho, muitos encontraram uma ponte incompleta, uma estrada de terra e uma placa curiosa dizendo: “experiência necessária para o primeiro emprego”. É uma pequena ironia do nosso tempo, quase digna de uma página de Machado de Assis: pede-se ao viajante que chegue ao destino antes mesmo de iniciar a viagem.

Não escrevo estas linhas para condenar uma geração anterior, nem para transformar a juventude em símbolo de pureza. Toda geração carrega suas contradições. Mas, como sociólogo que observa o cotidiano, percebo uma ferida coletiva: o ambiente de trabalho foi deteriorado e sua recuperação não será obra de uma estação. Será necessário tempo, paciência e uma reconstrução profunda das relações entre capital e trabalho.

Entre 2016 e 2026, uma década pareceu suficiente para revelar uma transformação importante: o emprego deixou de ser apenas uma fonte de renda e passou a ser também uma fonte de insegurança. A discussão sobre as reformas trabalhistas e sobre novas formas de contratação mostrou uma sociedade tentando responder a um dilema antigo: como produzir riqueza sem transformar o trabalhador em uma peça descartável da engrenagem? A reforma trabalhista de 2017 alterou diversos pontos da legislação trabalhista brasileira e abriu debates entre especialistas sobre seus efeitos na geração de empregos, na informalidade e na proteção social.

Meu olhar, porém, não começa nos textos legais. Começa na padaria onde o funcionário mais antigo explica ao recém-chegado como sobreviver ao turno; começa na pequena empresa familiar onde o dono trabalha junto com seus empregados; começa também nas grandes estruturas empresariais onde planilhas decidiram substituir conversas humanas. A sociedade capitalista não é uma máquina distante: ela tem rosto, hábitos, vícios e memórias.

E uma dessas memórias, a meu ver, é a história de como parte do empresariado brasileiro se acostumou com uma facilidade perigosa: a disponibilidade permanente de mão de obra barata.

Quando uma sociedade passa muitos anos permitindo que o custo humano seja a principal ferramenta de competitividade, cria-se uma espécie de conforto empresarial. O empresário aprende a resolver problemas reduzindo salários, aumentando jornadas ou substituindo vínculos estáveis por relações mais frágeis. Aos poucos, aquilo que deveria ser uma exceção transforma-se em método. O improviso vira modelo de gestão.

É como um homem que passa anos usando uma cadeira quebrada porque ela ainda suporta seu peso. Um dia, ele percebe que não tem mais uma cadeira; tem apenas um hábito. A economia também cria hábitos. E alguns deles são difíceis de abandonar.

Foi assim que muitos processos produtivos passaram a depender de um trabalhador barato para permanecer de pé. Não porque o trabalhador seja barato por natureza, mas porque durante muito tempo construímos uma lógica em que o preço da força de trabalho era tratado como variável de ajuste. A empresa que deveria buscar inovação, qualificação e eficiência muitas vezes encontrou um caminho mais curto: pressionar quem estava na base.

O resultado é uma contradição curiosa. A mesma sociedade que exige produtividade do trabalhador frequentemente oferece pouca estabilidade para que ele desenvolva sua própria produtividade. Queremos profissionais criativos, mas oferecemos contratos que alimentam ansiedade. Queremos inovação, mas conservamos estruturas que premiam o corte imediato de custos.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu lembrava que as desigualdades não se mantêm apenas pela força econômica, mas também pela reprodução de hábitos e expectativas sociais. No mundo do trabalho brasileiro, isso aparece quando a precariedade começa a parecer normal. O jovem que aceita qualquer condição porque precisa pagar o aluguel aprende uma lição amarga: a sobrevivência vem antes do projeto de vida.

O sociólogo brasileiro Ricardo Antunes, ao estudar as transformações do trabalho contemporâneo, chama atenção para a expansão de formas de precarização e para a transformação do trabalhador em alguém permanentemente disponível. Essa disponibilidade constante cria uma nova figura social: a pessoa que trabalha o tempo inteiro, mas nunca sente que possui segurança suficiente.

Eu encontro essa figura nas histórias da geração Z: pessoas fazendo entregas pela manhã, cursos à noite e trabalhos temporários nos intervalos. Encontro também entre millennials que entraram no mercado acreditando que uma carreira seria construída degrau por degrau, mas descobriram que a escada poderia desaparecer antes do próximo passo.

Há uma diferença importante entre as gerações anteriores e as atuais. Muitos trabalhadores mais velhos, especialmente aqueles que ingressaram no mercado em períodos de maior estabilidade industrial, ainda carregam a memória de uma relação mais previsível entre emprego e futuro. Não era um mundo perfeito; havia desigualdades, exclusões e dificuldades. Mas existia uma expectativa mais clara de permanência.

Hoje, a promessa mudou. O trabalhador é incentivado a ser uma empresa de si mesmo, uma marca ambulante, um currículo sempre atualizado. A pessoa precisa administrar sua carreira como se fosse uma pequena startup, mesmo quando mal consegue administrar as contas do mês. É uma grande ironia moderna: pedimos espírito empreendedor até de quem apenas deseja um salário digno.

Nas redes sociais, essa angústia ganhou humor porque, às vezes, o humor é a última ferramenta dos que não possuem poder. Vejo jovens compartilhando a expressão “é sobre isso e tá tudo bem” para transformar pequenas derrotas diárias em uma espécie de abraço coletivo. Mas também percebo a outra face: muitas vezes não está tudo bem; apenas aprendemos a rir para suportar.

Outro fenômeno curioso é o uso do “do nada” para descrever mudanças repentinas: “do nada, perdi o emprego”; “do nada, meu contrato acabou”; “do nada, preciso começar novamente”. A expressão parece simples, quase infantil, mas revela uma experiência profunda: a sensação de que a vida profissional perdeu continuidade.

Não devemos interpretar esses sinais como reclamações vazias. Eles são documentos sociais. Uma sociedade também escreve sua história através das frases que seus cidadãos repetem.

O problema não está apenas no trabalhador. Está no modelo de desenvolvimento que se acostumou a depender da fragilidade de milhões de pessoas. Um sistema econômico saudável precisa de empresas fortes, mas empresas fortes não são aquelas que sobrevivem eternamente pagando pouco. São aquelas capazes de criar valor, formar pessoas e construir relações duradouras.

Por isso, quando falo em reconstrução do emprego, não penso em retornar a um passado idealizado. O passado também tinha seus defeitos. Penso em recuperar uma ideia simples: trabalho não deve ser apenas uma atividade para manter alguém vivo até o próximo pagamento; deve ser parte de uma existência digna.

A recuperação desse ambiente será lenta porque a destruição foi cultural antes de ser apenas econômica. Quando empresários, trabalhadores e instituições se acostumam com determinada lógica, mudar leis não basta. É preciso mudar expectativas.

O empresário acostumado com mão de obra barata precisará reaprender a competir. O trabalhador acostumado com insegurança precisará recuperar confiança. A sociedade acostumada com soluções rápidas precisará aceitar que algumas feridas exigem tempo.

Machado de Assis talvez dissesse que o problema brasileiro nunca foi apenas o buraco, mas a elegante maneira como aprendemos a decorá-lo. Eu acrescentaria: chegou o momento de parar de enfeitar a queda e começar a reconstruir o chão.

Entre 2016 e 2026, vimos uma década em que o trabalho foi submetido a fortes transformações. A próxima década deveria ser dedicada a perguntar menos quanto custa o trabalhador e mais quanto vale o trabalho humano.

Porque uma sociedade que economiza demais sobre seus próprios trabalhadores acaba descobrindo, cedo ou tarde, que também economizou sobre seu próprio futuro.

 

Fonte: Por Victor Rodrigues, em Outras Palavras

 

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