sábado, 26 de setembro de 2026

Ministro diz que empresa que financiou ‘Dark Horse’ recebia dinheiro do crime organizado

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira (24) que os recursos enviados ao exterior pelo grupo Entre para custear o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), podem ter origem em atividades de lavagem de dinheiro.

O grupo, do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, foi alvo de operação na Receita Federal nesta quinta. O Fisco acusa a empresa de lavar dinheiro do crime organizado e ajudar na ocultação de patrimônio de organizações criminosas.

<><> O que disse o ministro

“Tudo indica que o recurso que dá liquidez para essas operações vem de uma mesma entidade, vem de um mesmo bolso”, respondeu o ministro ao ser questionado se a verba enviada ao exterior para o filme poderia ser fruto de lavagem de dinheiro.

“Aí é muito complicado você identificar o que é cada coisa. É um trabalho de investigação identificar o que saiu desse fundo, seja para as delações que estão sendo feitas aqui em Brasília, seja para as apurações do Supremo, seja para as apurações que estão feitas em São Paulo […] mas tudo indica que sim”, completou.

O empresário Antônio Carlos Feixo Júnior, conhecido como Mineiro, assinou delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PRG). Na delação, ele afirmou que era um dos responsáveis por fazer remessas financeiras e conseguir dinheiro vivo para Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Os recursos iriam para o fundo Havengate, administrado pelo advogado Paulo Calixto, aliado de Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal suspeita que os recursos tenham custeado não apenas o filme, mas também o filho do ex-presidente, que vive em autoexílio nos EUA.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, a investigação da PF aponta que a Entre Investimentos e Participações, de Mineiro, funcionava como um braço operacional de Vorcaro, ajudando no repasse de recursos definidos pelo banqueiro.

O ministro André Mendonça homologou a delação de Antônio Carlos no último dia 9, abrindo caminho para que as informações apresentadas pelo empresário sejam usadas na Justiça.

Na entrevista coletiva desta quinta-feira, o ministro Dario Durigan descreveu o Grupo Entre como uma “entidade-chave da lavanderia do sistema financeiro nacional”, e disse que o esquema criminoso investigado na terceira fase da Operação Carbono Oculto movimentou R$ 11,6 bilhões.

“Essa empresa Entre recebe dinheiro do crime organizado, ajuda nessa estruturação, nessa ocultação de patrimônio, de forma que não só uma usina de etanol, mas também uma distribuidora de combustível passasse a atuar numa concorrência bastante desleal com o setor legalizado”, disse.

Questionado outra vez sobre os recursos enviados ao filme “Dark Horse”, Durigan disse que a Fazenda não está tratando especificamente desse tema e que caberá às autoridades competentes esclarecer o caso.

•        Nunes Marques subiu em trio patrocinado por Master e Credcesta em Salvador

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Kassio Nunes Marques, curtiu o carnaval de 2024 em Salvador em cima de um trio elétrico que teve patrocínio do Banco Master e do Credcesta. Ambos faziam parte do ecossistema financeiro do banqueiro Daniel Vorcaro, preso por suspeita de fraude, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Em 9 de fevereiro de 2024, uma  sexta-feira de carnaval, Nunes Marques foi fotografado vestindo um abadá durante o desfile do bloco Vumbora, comandado pelo cantor Bell Marques, ex-vocalista da banda Chiclete com Banana. O ministro acompanhou o desfile no tradicional circuito Barra-Ondina e chegou a falar com a imprensa na ocasião: “rapaz, esse Bell é porreta”.

Em janeiro daquele ano, o Vumbora, que é administrado por uma empresa do próprio Bell Marques, passou a publicar conteúdos sobre festas nas redes sociais com o patrocínio do Banco Master, ao lado de marcas como Ifood, Brahma e Casas Bahia.

Já durante o próprio carnaval, o banco de Daniel Vorcaro foi uma das empresas que apareceu com nome estampado no próprio abadá do bloco. O patrocínio ficou posicionado na parte de trás da vestimenta. Nas fotos em que o ministro Kássio Nunes Marques aparece, como ele está sempre de frente, não dá para ver se o abadá que ele usou tinha ou não o patrocínio do Banco Master.

Procurado pela reportagem, o ministro do STF disse, em nota, que foi convidado para o bloco diretamente por Bell Marques e “antes do show almoçou com o cantor e a família no apartamento dele”. O ministro disse ainda que não foi convidado “por nenhum patrocinador e também não conversou com ninguém que tenha patrocinado o bloco”. Nunes Marques, no entanto, não respondeu se recebeu algum abadá especial ou usou o mesmo dos demais foliões, com patrocínio do Banco Master na vestimenta. O bloco Vumbora não respondeu aos questionamentos antes do fechamento da reportagem.

<><> Deputados na folia patrocinada pelo Banco Master

Em uma outra foto tirada naquele mesmo dia dentro do bloco de Bell Marques, o deputado Arthur Lira (PP-Alagoas), então presidente da Câmara dos Deputados, aparece ao lado do deputado baiano Elmar Nascimento (União Brasil), acompanhado de outros dois parlamentares estaduais da Bahia (Emerson Penalva e Marcinho Oliveira). Na imagem, dá para ver a marca do Banco Master em destaque na parte de trás do abadá de um folião.

O bloco Vumbora também teve, em 2024, o patrocínio do Credcesta – o cartão de benefício consignado associado ao Banco Master. Augusto Lima, empresário baiano dono do Credcesta e ex-sócio de Daniel Vorcaro, chegou a trabalhar com venda de abadás antes de entrar para o setor financeiro.

Já em 2025, o bloco Vumbora teve o apoio financeiro do Will Bank – banco digital adquirido pelo banco Master em fevereiro de 2024 e liquidado pelo Banco Central em janeiro deste ano.

<><> Carnaval no Rio e em Salvador

A menção ao carnaval de Salvador do ano seguinte aparece associada a Nunes Marques em mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro.

A PF identificou que o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), pediu ao banqueiro, por meio de um operador de viagens, hospedagens com destino à capital baiana e também ao Rio de Janeiro. Os pedidos teriam sido feitos em nome de Nunes Marques e seus familiares.  A inferência da PF se deve à menção nos diálogos à sigla “KN”.

Nas mensagens também foi identificado que a esposa de Newton Ramos, a advogada Camila Ramos, manteve um contrato com o Master para atuar em processos relacionados a precatórios no valor de até R$427 milhões. O desembargador e a esposa eram identificados como parte da “Turma KN” – uma referência às iniciais do ministro Kassio Nunes.

O gabinete do desembargador foi alvo nesta quinta-feira (dia 24) de uma operação de busca e apreensão de documentos autorizada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Em declarações anteriores, o ministro do STF afirmou que nunca esteve com Daniel Vorcaro, nem nunca pediu qualquer favor a ele.

Em outra conversa extraída do celular de Vorcaro, uma mulher identificada pelo nome de Rayanna cobra ao banqueiro o valor de um encontro em que mulheres estiveram com um homem de nome “Kassio”.

O encontro teria ocorrido em 28 de fevereiro de 2025, uma sexta-feira de carnaval. O local foi a Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, no Itaim Bibi, área nobre de São Paulo. O ICL Notícias e o site Alma Preta obtiveram documentos que provam que, na época do suposto encontro, o apartamento pertencia à uma empresa ligada a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Nunes Marques nega encontro com a mulher.

•        Master: concessão de cemitérios de SP tem novos elos com Vorcaro

O Grupo Maya, uma das concessionárias que administram cemitérios da cidade de São Paulo e cujas relações financeiras com o extinto banco Master motivaram um pedido de investigação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada, tem proximidade com o entorno empresarial de Daniel Vorcaro.

Apuração exclusiva da Agência Pública e da newsletter Noites Húngaras identificou, nos documentos da Junta Comercial do Estado de São Paulo, que o principal elo passa pelo Maya Plano Funeral, uma empresa registrada no mesmo endereço do Grupo Maya e gerida pelos mesmos grupos empresariais que controlam a concessão de cemitérios.

Uma das sócias do Maya Plano Funeral é a AFC Holding SP Ltda., subsidiária da AFC Holding, que faz parte da teia de CNPJs investigada no escândalo do Master. Elas são administradas pela mesma pessoa: o advogado Thiago Assumpção Henriques, que também controla outros negócios ligados à família do banqueiro preso pelo maior rombo bancário da história do país.

A AFC Holding já apareceu em investigações sobre aquisições de terrenos e imóveis de alto valor no Rio Grande do Sul e na Bahia relacionadas à família Vorcaro, sob suspeita de possível ocultação patrimonial. Henriques também figura como dirigente da Global Carbon, investigada por suspeita de integrar a cadeia de movimentação de recursos ligados ao Master.

<><> Empresas “irmãs” têm mesmos dirigentes

Integrantes das empresas Conata Engenharia, Infracon Engenharia e RMG Construções e Empreendimentos, que fundaram a concessão paulista, constam tanto na estrutura da concessionária quanto na da empresa de planos funerários.

A sobreposição vai além dos sócios. A Maya Plano Funeral funciona no mesmo endereço do Grupo Maya, na Rua Fidêncio Ramos, na Vila Olímpia, e utiliza um endereço de e-mail com o mesmo domínio “grupomaya”. Seus administradores também ocupam ou ocuparam postos de comando na concessionária.

Renato Medrado Geo, sócio da RMG e presidente do Grupo Maya desde 2023, também administra a Maya Plano Funeral desde 2024, quando a empresa foi criada. Alexandre Humberto Caramatti Manata, sócio da Conata e ex-presidente da concessionária, também é administrador da empresa de planos funerários. Wesley Bambirra, CEO da Infracon, integra o conselho de administração do Grupo Maya.

<><> Ex-sócio de Vorcaro

Há ainda uma conexão pessoal entre o comando das empresas funerárias e Daniel Vorcaro. Rodrigo Medrado Geo, irmão de Renato, sócio da RMG e também dirigente da concessionária de cemitérios, foi sócio do banqueiro na Itaminas, mineradora de Minas Gerais.

Vorcaro adquiriu 50% da Itaminas em 2014 e vendeu sua participação por R$ 700 milhões aos antigos sócios, entre eles integrantes da família Geo, poucos dias antes de ser preso pela primeira vez, em novembro de 2025.

Essas conexões se somam à relação financeira entre o Grupo Maya e o Banco Master revelada pelo jornalista Artur Rodrigues, do UOL. As três acionistas da concessionária — Conata, Infracon e RMG — deram ao banco a totalidade das ações que detinham na empresa como garantia de dois financiamentos no valor total de R$ 78 milhões.

Pelos contratos, o Master passou a deter a propriedade fiduciária das ações enquanto as dívidas permanecessem em aberto e a ganhar poderes sobre determinadas decisões societárias. As acionistas deveriam seguir a orientação do credor em votações que pudessem afetar seus interesses e não poderiam realizar determinadas operações com ativos sem autorização.

Os créditos passaram por operações internas do conglomerado, chegaram à Master Holding, sediada nas Ilhas Cayman, e foram incluídos em negociações realizadas pelo Master com o Banco de Brasília, o BRB.

Além de vender serviços funerários, de coroas de flores a caixões, o Grupo Maya administra cinco cemitérios paulistanos: Campo Grande, Lageado, Lapa, Parelheiros e Saudade. O grupo se autodenomina “a maior administradora de cemitérios públicos da cidade de São Paulo”.

•        Dino inclui fundo do Master na investigação da PF sobre cemitérios de SP

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quinta-feira (24) que a Polícia Federal investigue as possíveis repercussões criminais de operações envolvendo um fundo imobiliário ligado ao Banco Master e ao setor funerário. O CARE11 já havia sido investigado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por suspeita de manipulação do preço de suas cotas pelo Banco Máxima, antigo nome do Master. Agora, Dino identificou conexão entre esse caso e os indícios sob apuração nas concessões dos cemitérios de São Paulo.

A decisão amplia uma investigação que já havia sido determinada pelo ministro sobre as relações entre o Master e empresas responsáveis pelos serviços funerários e cemiteriais da capital paulista. Desta vez, Dino incorporou expressamente à apuração criminal o histórico do CARE11, o Brazilian Graveyard and Death Care Services Fundo de Investimento Imobiliário, conhecido nos documentos como “fundo funerário”.

Segundo o ministro, elementos reunidos em diferentes processos sugerem, ainda em caráter preliminar, a existência de um “padrão comum de atuação” e justificam que os fatos relacionados sejam investigados conjuntamente.

O caso do CARE11 não é novo para os órgãos de fiscalização. Um processo administrativo sancionador da CVM apurou indícios de manipulação do preço das cotas do fundo pelo Banco Máxima, que posteriormente passou a se chamar Banco Master. A investigação administrativa terminou com um termo de compromisso de R$ 2,944 milhões.

A própria CVM registra que o processo analisou possível manipulação de mercado pelo Banco Máxima nas negociações do CARE11. Em 2022, o Colegiado da autarquia aceitou proposta de termo de compromisso apresentada pelo banco e por Angelo Antonio Ribeiro da Silva, responsável pelas ordens de negociação. O acordo encerrou o procedimento sem julgamento do mérito e, portanto, não equivale a uma condenação ou admissão de irregularidade.

<><> CVM avisou MPF e Banco Central em 2021

Outro elemento recuperado por Dino é que as suspeitas envolvendo o fundo chegaram a outros órgãos anos antes da atual investigação.

De acordo com o relatório da própria CVM citado na decisão, a Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários (SMI) encaminhou, ainda em 2021, comunicações formais ao Ministério Público Federal e ao Banco Central sobre os fatos que estavam sendo apurados.

A novidade agora é a conexão estabelecida pelo Supremo entre aquele episódio e os elementos encontrados na ADPF 1196, ação que discute a concessão dos serviços funerários, cemiteriais e de cremação da cidade de São Paulo.

Dino afirma que, nessa outra investigação, foram identificados indícios de utilização do mesmo fundo imobiliário para a “supervalorização artificial de ativos” e para a aplicação de recursos em concessões de serviços públicos, especialmente nos setores funerário e cemiterial.

Para o ministro, a convergência entre o processo administrativo da CVM, a auditoria realizada pela autarquia e os elementos encontrados na ação sobre os cemitérios paulistanos justifica uma apuração conjunta. A decisão ressalva que se trata, neste momento, de indícios que ainda precisam ser investigados.

<><> Relações entre Master e concessionárias já estão sob investigação

A relação entre o Master e empresas que exploram os cemitérios paulistanos já vinha sendo examinada pelo STF.

Em decisão de 17 de setembro, Dino determinou a abertura de investigação sobre as relações entre o banco e concessionárias dos cemitérios da Prefeitura de São Paulo. O ministro delimitou o inquérito às operações envolvendo o Master, as empresas concessionárias e, eventualmente, agentes dos poderes Executivo e Legislativo.

O caso ganhou força depois que surgiram documentos relacionando Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, à concessionária Cortel. Em decisão anterior, Dino registrou informações segundo as quais cinco atas da empresa, produzidas entre 2022 e 2025, teriam sido assinadas por Zettel com endereços eletrônicos institucionais vinculados ao Banco Master e ao Banco Máxima. A Cortel negou vínculo com as instituições financeiras ou com Zettel nos termos apontados.

Mais recentemente, o Supremo também passou a examinar informações relativas à concessionária Cemitérios e Crematórios SP, vinculada ao Grupo Maya. Dino determinou à CVM que a empresa e sociedades relacionadas fossem incluídas no levantamento sobre fundos de investimento e concessionárias dos cemitérios paulistanos.

A ADPF 1196 originalmente discute a constitucionalidade de normas municipais que permitiram a concessão dos serviços funerários, cemiteriais e de cremação à iniciativa privada. O processo, porém, passou a incorporar informações sobre as relações financeiras e societárias das concessionárias à medida que surgiram indícios envolvendo fundos de investimento e o Banco Master.

<><> Novo inquérito inclui expressamente o “fundo funerário”

Na decisão desta quinta-feira, Dino afirmou que os elementos reunidos já ultrapassam a esfera de possíveis irregularidades meramente administrativas ou regulatórias.

Por isso, requisitou formalmente à Polícia Federal a abertura de inquérito. Entre os pontos que deverão ser apurados estão, expressamente, as “repercussões penais” relacionadas ao CARE11 e ao processo administrativo que investigou a atuação do antigo Banco Máxima nas negociações das cotas do fundo.

O ministro também registrou que os elementos reunidos indicam possível participação de pessoas com foro no STF. A decisão não identifica essas pessoas nem atribui responsabilidade criminal a qualquer autoridade. Dino afirma que a identificação dos possíveis autores, o enquadramento jurídico dos fatos e a definição da competência para julgá-los deverão ser revistos à medida que a investigação produza novas provas.

A PF terá inicialmente 60 dias para realizar diligências e apresentar um relatório ao gabinete do ministro.

 

Fonte: Folhapress/ICL Notícias

 

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