Internações
infantis por doenças respiratórias sobem 628% em cidade do lítio de MG
De uma
gaveta da cômoda, Marta* tira uma caixa de sapatos coberta de poeira. Ao invés
de calçados, guarda remédios para doenças respiratórias — a maioria usada pelo
neto, de seis anos. A rotina de estudos e brincadeiras do menino é marcada
também por uma agenda de consultas e exames. “Ontem foi raio-X do pulmão, hoje
foi uma visita ao hospital”, lamenta.
A
suspeita da avó é que a saúde do neto tenha piorado por causa da poeira gerada
pela Grota do Cirilo, a maior mina de lítio a céu aberto do país. Operada pela
mineradora canadense Sigma Lithium, a jazida está localizada na zona rural de
Araçuaí e Itinga (MG), municípios do Vale do Jequitinhonha. Fica também a menos
de um quilômetro de Piauí Poço Dantas, comunidade onde mora a família de Marta
e de onde se vêem as pilhas de rejeitos da mineração.
Desde
dezembro de 2025, a Sigma é alvo de uma Ação Civil Pública do MPMG (Ministério
Público de Minas Gerais), por suspeita de provocar diversos danos
socioambientais em quatro comunidades vizinhas: Piauí Poço Dantas, Ponte do
Piauí, Taquaral Seco e Santa Luzia. Entre os impactos investigados está a
possível piora na qualidade do ar causada pela poeira excessiva da atividade
minerária.
As
operações da empresa foram suspensas provisoriamente pela Justiça em outro
processo, devido à falta de consulta prévia, livre e informada a uma comunidade
quilombola situada a menos de 3 km do empreendimento.
Na ação
do Ministério Público, um relatório técnico identificou o aumento de doenças
respiratórias entre moradores das comunidades no entorno da mina,
principalmente em crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas.
“Os danos à saúde respiratória causados pela exposição crônica a material
particulado são progressivos e podem tornar-se irreversíveis”, diz a ação.
Dados
oficiais do Ministério da Saúde indicam uma piora na saúde respiratória
infantil nos dois municípios de atuação da Sigma, cujos centros urbanos estão a
cerca de 21 km da atividade minerária.
Um
levantamento inédito da Repórter Brasil mostra que, entre 2021 e 2025, as
internações de crianças de até 0 a 14 anos por asma, pneumonia, bronquite e
bronquiolite cresceram 628% em Araçuaí e 350% em Itinga.
Em
nota, a empresa nega qualquer relação entre suas operações e o aumento das
internações. Também diz ser “vítima de uma campanha difamatória, baseada em
alegações enganosas, falsas e imprecisas”. Leia a íntegra da resposta aqui e
confira outros trechos do posicionamento ao longo desta reportagem.
A
análise da Repórter Brasil compara 2021, ano anterior à construção da mina, e
2025, último ano com dados completos no Sistema de Informações Hospitalares do
SUS. A Grota do Cirilo foi construída ao longo de 2022 e entrou em operação em
maio de 2023.
Os
dados públicos revelam alta de internações respiratórias infantis nesse período
em todo país. Porém, o aumento de casos em Araçuaí (628%) e Itinga (350%) está
acima do registrado no Vale do Jequitinhonha (221%), em Minas Gerais (157%) e
no Brasil (102%).
Estudos
nacionais e internacionais apontam a contaminação do ar como fator de
incremento nas internações de crianças pelas quatro doenças analisadas. Isso
ocorre porque a inalação constante de partículas finas “causa uma inflamação
crônica nas vias aéreas e quebra as barreiras de proteção do pulmão”, explica
Unaí Tupinambá, médico infectologista e professor titular da Universidade
Federal de Minas Gerais.
O
médico destaca que a poluição atmosférica agrava todas as enfermidades do trato
respiratório, porém, na saúde infantil, as doenças mais suscetíveis são
justamente asma, pneumonia, bronquite e bronquiolite.
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O que diz a Sigma?
Procurada,
a Sigma contesta o levantamento da reportagem e afirma que os dados “não
conferem e partem de premissas erradas”.
A Sigma
sugere que o ano base de comparação deveria ser 2022, quando a Grota do Cirilo
estava em fase de implementação, e não 2021, quando não havia atividades
industriais.
Contudo,
um dos estudos de impacto ambiental do projeto, realizado durante o processo de
licenciamento, já considerava como “impactos previstos”, nas fases de
“implantação e operação”, “alterações físicas sobre a qualidade ambiental do
ar, decorrentes da emissão de efluentes atmosféricos, suspensão e dispersão de
material particulado.”
A
empresa questionou ainda o recorte das quatro doenças analisadas (asma,
pneumonia, bronquite e bronquiolite), afirmando que “doenças infecciosas agudas
são causadas por vírus e bactérias e não têm relação com a atividade
industrial-minerária”, segundo a nota da empresa. “Relacionar as operações a um
falso aumento de problemas respiratórios da população carece de amparo factual
ou científico”, continua.
No
entanto, o Relatório de Impacto Ambiental de uma outra área da Grota do Cirilo
afirma que “a modificação da composição do ar nas adjacências da mineração pode contribuir para um prejuízo ao sistema
respiratório da população, comprometendo sua saúde, principalmente entre
crianças e idosos”. Outro estudo feito durante o licenciamento também considera
possível o “aumento na ocorrência de doenças do trato respiratório”.
Doenças
respiratórias causadas por infecções são “pioradas pela poluição do ar”, afirma
Patrícia Ferrini, consultora técnica da OMS (Organização Mundial da Saúde).
“Mesmo
a Covid-19, que é transmitida por um vírus, mata mais quem vive em áreas
poluídas, porque essa poluição já coloca o sistema imunológico, cardiovascular
e respiratório em risco”, avalia.
No que
diz respeito às doenças causadas por vírus e bactérias, um estudo da
Universidade Chang Gung, em Taiwan, mostra que partículas finas, quando
inaladas, prejudicam diretamente as células de defesa do pulmão, reduzindo a
capacidade do organismo de responder a infecções.
Crianças
expostas a ar poluído têm mais dificuldade de combater infecções comuns, que
podem evoluir para um quadro grave, acrescenta Tupinambá, da UFMG.
Na
resposta, a Sigma questiona também a escolha de Araçuaí e Itinga para a
análise.
“As
atividades industrial-minerárias ocorrem em Itinga, e não em Araçuaí, cujo
centro fica a 45 quilômetros das operações e, por isso, não é afetada pelas
operações. Os dados relevantes são, portanto, os de Itinga. Se houvesse dano à
saúde da população, ele deveria ser detectado primeiro e com mais intensidade
em Itinga, e foi o contrário do que aconteceu”, diz a empresa.
Contudo,
os diferentes estudos de impacto ambiental do projeto consideram Araçuaí e
Itinga sedes do empreendimento e áreas de potencial impacto. Os dois municípios
também são beneficiados com recursos da CFEM (Compensação Financeira pela
Exploração de Recursos Minerais), pagos pela mineradora.
Além
disso, a distância entre a Grota do Cirilo e os centros urbanos das duas
cidades é de 21 km em linha reta, conforme se observa por meio do Google Maps.
Embora
o licenciamento do empreendimento tenha sido realizado de forma fatiada, os
estudos ambientais reconhecem a possibilidade de dispersão de poluentes
atmosféricos pelo vento.
Por um
lado, os estudos contratados pela empresa dizem que os poluentes “não deverão
ser arrastados por grandes distâncias” e que as partículas ficariam “dentro dos
limites do empreendimento e em áreas não habitadas”.
Por
outro, admite-se que, “sem a devida atenção para os particulados em suspensão,
há risco de alteração da qualidade do ar e acúmulo de poeira em áreas
habitadas”.
Fundador
e ex-CEO da Sigma Lithium, o engenheiro britânico Calvyn Gardner afirma que as
nuvens de poeira branca vistas em fotos são características de materiais que
contêm sílica e que a distância percorrida depende do tamanho das partículas.
“A
poeira de sílica respirável, composta por partículas menores que 10 mícrons,
pode permanecer suspensa no ar por horas e percorrer cerca de 25 km com ventos
fracos”, diz ele à Repórter Brasil. Acionista minoritário da Sigma, Gardner
mantém uma disputa judicial com a mineradora e tem denunciado supostas
irregularidades e falhas de segurança na operação.
Uma
revisão científica feita por pesquisadores de universidades indianas e
britânicas aponta o material particulado como um dos principais poluentes da
mineração a céu aberto.
O
estudo destaca que partículas finas podem se deslocar a partir das áreas de
mineração, mas ressalta que ainda são necessários estudos para compreender
melhor seu destino e transporte (especialmente a influência dos ventos) e os
efeitos sobre a saúde de trabalhadores e moradores do entorno.
Além
disso, um estudo feito por pesquisadores de universidade norte-americanas e
australianas concluiu que, ao contrário da poeira grossa (que se deposita perto
da fonte), as partículas finas respiráveis (de nome técnico PM 2,5) têm
baixíssima velocidade de sedimentação, permanecem em suspensão por dias e
viajam por dezenas a centenas de quilômetros sob a ação do vento.
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Partículas respiráveis representam risco à saúde de trabalhadores e moradores
Uma
fiscalização realizada neste ano pela Feam (Fundação Estadual do Meio
Ambiente), após denúncias de moradores e pedidos do Ministério Público
estadual, concluiu que a localização do empreendimento no topo do relevo
contribui para a propagação de poeira e ruídos.
“Foi
relatada ainda a piora de problemas respiratórios, ou desencadeamento deles, a
partir do aumento da poeira emitida pelas atividades do empreendimento,
principalmente em crianças”, diz o documento. “Ressaltaram que em meses de
vento intenso, como agosto, intensifica muito a dispersão de poeira.”,
continua.
O
Ministério Público atribui esse cenário ao aumento da concentração de material
particulado fino presente na poeira, o qual classifica como “extremamente
prejudicial à saúde”.
Chamado
de PM 2,5, esse material pode ter diferentes composições físicas e químicas,
mas são as dimensões das partículas que as tornam perigosas. Elas têm um
diâmetro de até 2,5 micrômetros — 30 vezes menor que a espessura de um fio de
cabelo, são finas o bastante para atravessar as defesas do corpo e chegar aos
pulmões.
No
curto prazo, segundo o professor sênior de toxicologia respiratória no Imperial
College de Londres, Ian Mudway, isso piora os sintomas de doenças
pré-existentes como asma e bronquite. No longo prazo, pode levar a doenças
crônicas, problemas cardiovasculares, derrames, câncer e demência.
Crianças
são particularmente vulneráveis. Mudway explica que, além de estarem em
desenvolvimento, sua respiração é mais rápida que a de um adulto, seus pulmões
são menores e elas passam mais tempo ao ar livre — o que resulta numa proporção
maior de partículas finas no corpo.
Isso
pode levar os pulmões infantis a ter um desenvolvimento debilitado e chegar à
idade adulta menores do que deveriam, com sequelas irreversíveis. “Pelo resto
dos seus dias, essas crianças estarão mais suscetíveis a doenças respiratórias
e cardiovasculares, derrames, infartos, câncer e à morte prematura”, afirma.
Segundo
análise do Ministério Público com base nos dados de automonitoramento da Sigma,
em 2023 a empresa ultrapassou o limite anual legal de concentração de PM 2,5 em
todos os pontos monitorados.
A Sigma
atribui o aumento registrado em 2023 a “um incêndio florestal sem qualquer
relação” com sua operação. Contudo, segundo Mudway, mesmo que existam
diferentes fontes de PM 2,5, “se você é uma indústria, é impossível que você
não esteja contribuindo para essa poluição do ar”.
A
reportagem solicitou dados do automonitoramento da Sigma referentes aos anos de
2024 e 2025, mas não obteve resposta. Em um comunicado aos investidores, a
empresa afirmou que, nos 12 meses até maio de 2026, suas emissões mensais
ficaram abaixo dos limites legais.
A média
mensal, contudo, contribui pouco para estimar o impacto em saúde, segundo a
consultora da OMS Patricia Ferrini. Ela explica que os valores anuais apoiam
estudos epidemiológicos de longa duração, enquanto picos diários são os que
podem “levar pessoas para o hospital”. Por isso, é importante ter acesso a
esses dois dados para avaliação do cenário.
Um dos
estudos da Sigma para o licenciamento da Grota do Cirilo já havia estimado que
“as emissões atmosféricas causarão pontos de concentrações” de PM 2,5
“superiores aos limites diários e anuais estabelecidos pela legislação”.
Mudway
explica que, em indivíduos com algum tipo de doença respiratória, esses picos
são sentidos imediatamente, com pioras expressivas nos sintomas. Ferrini
acrescenta que, entre crianças com comorbidades, o pico de concentração de
partículas respiráveis pode ser suficiente para levar ao óbito.
Já em
pessoas saudáveis, Mudway compara a poluição atmosférica ao cigarro. “Ninguém
cai morto na rua por fumar um único cigarro, mas cada trago acumula danos no
corpo.”
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Empresa teve atividades suspensas pela Justiça por ignorar quilombo
A ação
do Ministério Público estadual avançou nos últimos meses. Em maio, a Justiça
determinou a suspensão das operações ruidosas entre 22h e 6h e impôs multa
diária de R$ 500 mil, limitada a R$ 200 milhões.
Em
junho, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais manteve parte das obrigações, mas
as comunidades denunciaram que a empresa continuava operando à noite. O MPMG
comprovou o descumprimento com imagens de drone e boletim de ocorrência.
Em
julho, a Feam aplicou 16 autuações, suspendeu licenças de operação de duas
cavas e cancelou outras três por prestação de informação falsa. As operações
chegaram a ser paralisadas, mas foram retomadas em agosto. Em nota, a empresa
negou irregularidades e disse que “não prestou informações inverídicas às
autoridades ambientais”.
E no
início de setembro, a Justiça Federal acolheu pedido da Federação das
Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais e suspendeu todas as licenças
ambientais do Projeto Grota do Cirilo. O motivo é a falta de Consulta Livre,
Prévia e Informada à Comunidade Quilombola do Baú, situada a menos de 3 km do
empreendimento.
Procurada,
a Sigma encaminhou um comunicado aos investidores onde afirma que “suas
atividades de mineração e industriais estão em curso e que a companhia não
recebeu qualquer comunicação judicial referente a uma decisão judicial
preliminar, proferida sem o devido processo legal, que supostamente suspenderia
suas licenças ambientais”.
Com a
caixa de remédios no colo, Marta diz que o neto foi instruído por um médico a
“nem apontar a cara pro terreiro”, a fim de evitar contato com a poeira. Mas as
partículas finas e nocivas entram por todas as frestas. “Como posso prender o
menino em casa, se até aqui dentro tem poeira?”, pergunta a avó.
* Nome
da entrevistada foi alterado para preservar sua identidade
Fonte:
Repórter Brasil

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