O
imperialismo decadente de Trump é uma ameaça global
Para
entender a política externa dos EUA sob Donald Trump, precisamos analisá-la em
seu contexto histórico de longo prazo. A abordagem de Trump aos assuntos
mundiais pode ser errática, mas isso não significa que seja completamente sem
precedentes.
Os
Estados Unidos são há muito tempo uma potência imperial. Embora não tenham
estabelecido colônias formais, os EUA criaram um império informal no qual
governos subservientes no Sul Global viabilizam a busca de interesses políticos
e econômicos estadunidenses.
Ao
longo de sua história, o imperialismo estadunidense se apresentou em três
vertentes: militarismo rígido, mudança de regime secreta e coerção
multilateral. O imperialismo de Trump segue esses caminhos, embora com algumas
mudanças significativas, especialmente em sua desfaçatez.
A
tradição militarista dos Estados Unidos
Arecente
intervenção dos EUA no Irã faz parte de uma longa tradição estadunidense de
imperialismo militar agressivo que remonta às Filipinas no início do século XX
e inclui, notavelmente, o Vietnã e o Iraque no período pós-Segunda Guerra
Mundial. Os objetivos estadunidenses nesses casos eram frequentemente
grandiosos, mas vagos.
“A
recente intervenção dos EUA no Irã faz parte de uma longa tradição
estadunidense de imperialismo militar linha-dura.”
No caso
das Filipinas, por exemplo, o objetivo declarado era estabelecer um entreposto
comercial com a China que pudesse ser a versão estadunidense de Hong Kong.
Salvar o Sudeste Asiático do comunismo foi, naturalmente, a justificativa para
a invasão do Vietnã, enquanto a guerra no Iraque deveria ser o início de uma
missão para levar a democracia ao Oriente Médio.
O
militarismo exacerbado nessas intervenções imperialistas do passado raramente
permitiu que os Estados Unidos alcançassem seus objetivos declarados: os EUA
nunca tiveram acesso real ao enorme mercado chinês; o Vietnã tornou-se
comunista, mas o restante do Sudeste Asiático nunca foi ameaçado e permanece
amplamente capitalista; o Iraque é hoje um Estado caótico, e a guerra
desestabilizou todo o Oriente Médio.
Entretanto,
os países pobres do mundo pagaram um preço alto, não apenas em devastação
econômica, mas principalmente em vidas perdidas. Por exemplo, quando se somam
as mortes de soldados e de civis em decorrência da guerra, quase meio milhão de
filipinos morreram durante a guerra entre os EUA e as Filipinas; cerca de três
milhões de vietnamitas morreram na Guerra do Vietnã; e meio milhão de
iraquianos podem ter perecido durante a guerra preventiva empreendida por
George W. Bush.
O
motivo pelo qual os Estados Unidos entraram em guerra com o Irã em 2026
permanece um mistério. O consenso dentro da comunidade de inteligência
estadunidense era de que o Irã não representava nenhuma ameaça imediata aos
EUA. Embora Israel tenha sido um parceiro fundamental na guerra, a sugestão de
que os israelenses tenham pressionado os Estados Unidos a atacar o Irã também
não é convincente; o rabo não abana o cachorro.
A
intervenção dos EUA no Irã foi, mais uma vez, uma guerra imperial por escolha.
Os objetivos vagos, porém grandiosos, incluíam a destruição das capacidades
militares e nucleares do Irã (uma guerra preventiva), o acesso ao petróleo
iraniano (uma guerra por ganância) e a libertação dos iranianos de uma ditadura
teocrática (uma guerra quixotesca).
Embora
a guerra ainda esteja em curso, os resultados provavelmente não serão muito
diferentes dos do passado. O Irã e seu povo terão pago um preço alto em vidas e
bem-estar, mas é improvável que os Estados Unidos alcancem seus objetivos
grandiosos.
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Fracassos lucrativos
Dado
esse histórico de fracassos recorrentes, a questão que permanece é por que os
Estados Unidos trilham repetidamente o caminho do imperialismo militar. A
resposta otimista de que tais guerras são erros recorrentes não basta; aceitar
tal visão exigiria assumir que não há aprendizado por parte do poder
estadunidense. A verdadeira resposta é mais complexa e possui componentes tanto
políticos quanto econômicos.
“Diante
desse histórico de fracassos recorrentes, a questão que permanece é por que os
Estados Unidos trilham repetidamente o caminho do imperialismo militar.”
Os
Estados Unidos possuem um enorme excedente de poder no mundo. A tentação de
usar esse poder está sempre presente, especialmente se provocada por potências
menores. Como Madeline Albright, secretária de Estado de Bill Clinton, disse
certa vez a Colin Powell, chefe do Estado-Maior Conjunto: “Qual é a vantagem de
termos esse magnífico exército do qual você sempre fala, se não podemos
usá-lo?”. Trump, facilmente provocado, não faz perguntas tão incisivas; ele já
usou a força militar contra sete países, e outros podem muito bem seguir seu
exemplo.
As
intervenções militares também trazem benefícios econômicos. Discussões sobre o
fracasso em atingir os objetivos de guerra declarados frequentemente começam
destacando o custo de guerras específicas. No caso da mais recente aventura de
Trump, as estimativas variam de cerca de US$ 40 bilhões a mais de US$ 100
bilhões. Embora úteis, essas discussões muitas vezes ignoram uma dinâmica
central das intervenções imperialistas. Os contribuintes e os soldados são os
que arcam com os custos dessas guerras, enquanto os benefícios se acumulam para
uma camada muito mais seleta.
No caso
do Irã, as companhias petrolíferas lucraram consideravelmente: tanto a
ExxonMobil quanto a Chevron Corporation registraram lucros recordes devido aos
preços mais altos do petróleo resultantes da guerra. Além disso, o orçamento de
defesa provavelmente aumentará significativamente por causa da guerra,
beneficiando as indústrias militares.
Esse
padrão de intervenções no exterior, que proporcionam uma oportunidade para
emplacar orçamentos de defesa mais elevados, também tem uma longa história nos
Estados Unidos; por exemplo, durante os primeiros anos da Guerra Fria, havia
uma considerável relutância nos Estados Unidos em aumentar os gastos com defesa
aos níveis pretendidos pelo governo Truman. A Guerra da Coreia pôs fim a essas
hesitações, e o orçamento disparou. Como Dean Acheson, secretário de Estado de
Truman, declarou na época: “A Coreia veio e nos salvou”.
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Mudança de regime
Acaptura
ostensiva do presidente venezuelano Nicolás Maduro também faz parte de uma
longa tradição de depor governantes no Sul Global considerados antitéticos aos
interesses dos EUA e substituí-los por aliados pró-estadunidenses. Exemplos
anteriores incluem Mohammad Mossadegh no Irã, Jacobo Árbenz na Guatemala,
Patrice Lumumba no Congo e Salvador Allende no Chile.
Essas
operações de mudança de regime frequentemente resultaram em ganhos econômicos
significativos para corporações estadunidenses, mas também em governantes
inescrupulosos e economias distorcidas em países pobres. Ungido pelos Estados
Unidos, o Xá Mohammad Reza Pahlavi do Irã substituiu o democraticamente eleito
Mossadegh, governando autocraticamente, vendendo petróleo para os EUA e
estabelecendo uma relação amistosa com corporações estadunidenses baseada na
troca de receitas petrolíferas por produtos estadunidenses, especialmente
equipamentos militares.
Na
Guatemala, a queda de Árbenz permitiu que a United Fruit Company recuperasse
suas terras expropriadas e revertesse as reformas trabalhistas e agrárias,
criando uma típica república das bananas. O assassinato de Lumumba levou a três
décadas de governo ruinoso de Mobutu Sese Seko no Congo (que ele renomeou
Zaire), ao mesmo tempo que proporcionou uma abertura econômica para empresas
estadunidenses. O ditador chileno Augusto Pinochet reverteu a nacionalização de
empresas estadunidenses, como Anaconda, Kennecott, ITT e Dow Chemicals,
promovida por Allende.
“A
deposição de Maduro foi claramente uma manobra militar eficaz, mas também um
ato de extrema arrogância imperial.”
É muito
provável que a Venezuela siga esse padrão. A deposição de Maduro foi claramente
uma manobra militar eficaz, mas também um ato de extrema arrogância imperial. O
fato de uma liderança alternativa ter sido encontrada tão rapidamente — e sem
violência — parece ser um pequeno desvio de ações secretas semelhantes do
passado. Mas assumir o controle direto das receitas petrolíferas da Venezuela
vai além de intervenções anteriores na América Latina ou em outras regiões.
Essa
atitude ousada remete a uma fase anterior na história dos impérios informais. A
Grã-Bretanha controlava as finanças da China pós-Guerra do Ópio e,
posteriormente, administrou as finanças do Egito no final do século XIX em
parceria com a França. O reaparecimento dessa forma de controle financeiro no
século XXI representa uma erosão ainda maior das normas anteriores de soberania
e autodeterminação.
Com o
relaxamento das sanções estadunidenses contra a Venezuela e o retorno dos
investimentos dos EUA, a economia venezuelana certamente crescerá. Muito se
falará, então, em círculos oficiais e na grande mídia, sobre o quanto os
venezuelanos estão melhor agora sob a tutela estadunidense. O que será
esquecido é o quanto as sanções estadunidenses prejudicaram a economia
venezuelana em primeiro lugar. O padrão de recuperação da Venezuela também
deverá envolver uma economia profundamente desigual, ainda dependente das
exportações de petróleo para os Estados Unidos para sua errática sustentação.
Trump
foi surpreendentemente descarado ao afirmar que o objetivo dessa intervenção
era obter acesso ao petróleo da Venezuela para empresas estadunidenses. Sumiram
todos os pretextos de salvar um país do comunismo ou promover a democracia.
Como interpretar essa mudança? A resposta pode estar simplesmente na equipe de
liderança envolvida: Trump e seus seguidores não são liberais; eles acreditam
que “a força faz o direito” e não sentem necessidade de disfarçar suas ações
gananciosas com uma roupagem ideológica.
Mas é
mais plausível que estejamos testemunhando uma crescente percepção, nos mais
altos escalões do Estado, de que os Estados Unidos são uma potência em
decadência. Legitimidade e poder suave são recursos valorizados pelas potências
hegemônicas globais. É bem possível que os Estados Unidos estejam abandonando
tais ambições e que se tornem ainda mais perigosos no futuro, porque as
potências em declínio acreditam em tomar o que puderem pela força, não
importando as consequências.
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Arrombando portas
Essa
ideia de que os Estados Unidos são um império em declínio é consistente com o
fato de que sua terceira via imperial, a coerção multilateral, também pode
estar em retrocesso. Historicamente, os Estados Unidos cooperaram com outras
potências ocidentais para subjugar países na periferia global. Por exemplo,
fizeram parte de um condomínio imperial que dividiu a China na primeira metade
do século XX.
“Historicamente,
os Estados Unidos cooperaram com outras potências ocidentais para subjugar
países na periferia global.”
De
fato, os Estados Unidos aproveitaram o declínio da China Qing para promulgar as
Open Door Notes [Notas de Porta Aberta], um conjunto de proposições que se
tornaram a estrutura para o caminho preferido dos Estados Unidos rumo ao
imperialismo: o império informal. Isso significava que os países pobres
poderiam desfrutar de soberania nominal se deixassem suas economias abertas
para serem exploradas pelos países capitalistas avançados.
Seguindo
esse roteiro, os Estados Unidos, no período pós-Segunda Guerra Mundial,
cooperaram frequentemente com outras potências capitalistas menores, como a
Grã-Bretanha e a França, para manter abertas as economias do mundo em
desenvolvimento. Mais recentemente, os EUA utilizaram organizações
multilaterais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional para impor
o Consenso de Washington aos países do Sul Global, especialmente na América
Latina; essas ações garantiram que os bancos estadunidenses endividados não
sofressem perdas financeiras.
Essa
terceira forma de imperialismo estadunidense pode muito bem estar em declínio.
Os motivos não são difíceis de entender. A economia dos EUA não é mais
competitiva no cenário global. O imperialismo do livre comércio não compensa
mais; as tarifas de Trump e suas flagrantes intervenções imperialistas são
indicativos dessa nova realidade global. Os Estados Unidos podem abrir à força
os países da América Latina ao comércio e investimento internacionais, apenas
para ver a China ocupar o espaço em vez das empresas estadunidenses.
Na
arena política, também, uma potência hegemônica em decadência não está em
posição de direcionar organizações multilaterais para atender aos seus
interesses. Tampouco consegue persuadir facilmente potências menores a aderirem
a empreendimentos imperialistas, especialmente quando os Estados Unidos tratam
tais potências com desprezo. Observe como poucos aceitam o convite dos EUA a
países europeus para se juntarem a eles na abertura do Estreito de Ormuz.
A
maioria dos estadunidenses não considera os Estados Unidos um país
imperialista. Com o imperialismo declarado de Trump, essa forma de hipocrisia
torna-se difícil de sustentar. Os liberais estadunidenses bem-intencionados
ainda podem se consolar com a crença de que, após Trump, os EUA
bem-intencionados ressurgirão como uma potência hegemônica global benevolente.
Infelizmente, isso nunca foi verdade no passado e provavelmente não será no
futuro.
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Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países
inclui cartel que não existe. Por Natalia Viana
No
primeiro dia da Assembleia Geral da ONU, o governo de Donald Trump publicou um
comunicado conjunto com 14 países da América Latina – Argentina, Bolívia,
Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador,
Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago – anunciando ações
conjuntas para combater organizações que os EUA designaram como terroristas.
Entre elas estão as brasileiras PCC e CV.
Pouco
antes, no seu discurso na ONU, Trump afirmara que os cartéis de drogas “são o
Estado Islâmico do hemisfério” e seus membros “devem ser executados, exilados
ou detidos como inimigos combatentes”.
Um
nome, entretanto, chama atenção: o Cartel de Los Soles está listado entre as 24
organizações “narcoterroristas” que devem ser combatidas.
Acontece
que o Cartel de Los Soles não existe. O nome é uma gíria que os venezuelanos
usam para se referir à corrupção por parte de militares – algo como “petralhas”
ou “bolsominions”.
Como a
Agência Pública revelou em uma reportagem no início do ano, a narrativa sobre a
existência do Cartel de Los Soles foi criada pelo Departamento de Justiça no
primeiro governo de Donald Trump, para embasar o indiciamento criminal de
Nicolás Maduro e mais 14 membros do governo venezuelano. A acusação afirmava
que Maduro “ajudou a gerir e, por fim, a liderar o Cartel de los Soles à medida
que ganhava poder na Venezuela” e que “enquanto a maioria das organizações de
tráfico de drogas na América do Sul e Central procurou recuar da importação de
narcóticos para os Estados Unidos (…) o Cartel de los Soles, sob a liderança de
Maduro Moros e outros, priorizou o uso da cocaína como uma arma contra os
Estados Unidos, ao importar o máximo de cocaína possível”.
Depois,
em novembro de 2025, a pretensa organização foi designada pelo Departamento de
Estado como uma Organização Terrorista Estrangeira. Foi essa designação que deu
uma capa de legalidade para a invasão militar da Venezuela.
Mas nem
mesmo o Departamento de Justiça tem segurança sobre as acusações de que o
Cartel existe. Enquanto no primeiro documento de indiciamento contra Maduro, de
2020, ele é acusado de “chefiar o cartel de Los Soles” e a suposta organização
é mencionada 32 vezes, no indiciamento final, emitido depois da captura de
Maduro, o Cartel é citado apenas duas vezes, e descrita como um “sistema de
patronagem administrado por aqueles no topo” – e não mais como uma organização
de tráfico de drogas.
POR QUE
ISSO IMPORTA?
O
sequestro do então presidente da Venezuela Nicolás Maduro foi justificado pelos
Estados Unidos em função de sua suposta atuação no tráfico de drogas.
A ação
norte-americana se baseou em determinações de grupos criminosos venezuelanos
como terroristas pelos próprios Estados Unidos. De forma semelhante com o que
ocorreu com o PCC e o CV em junho deste ano.
Existem
definições técnicas na Convenção contra o Crime Organizado Transnacional da ONU
que determinam o que é uma organização criminosa internacional: um corpo
organizado com uma estrutura e hierarquia, divisão de tarefas e continuidade
temporal; autonomia em relação ao Estado; e comprovação da sua existência por
investigações policiais. O Cartel de Los Soles não se enquadra em nenhum destes
aspectos.
A
adoção ampla de uma organização que não existe pelos 14 países que fazem parte
do Escudo das Américas demonstra a supremacia do governo norte-americano nas
ações do grupo.
Trump
afirmou em discurso que os cartéis de drogas “são o Estado Islâmico do
hemisfério” e seus membros “devem ser executados, exilados ou detidos como
inimigos combatentes”
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O que promete a aliança do Escudo das Américas
Os 14
países que fazem parte do Escudo das Américas, iniciativa lançada em março
deste ano, são todos governados por aliados de Trump na direita continental.
Ontem, em comunicado conjunto, eles prometeram impor, “congelamento de ativos;
restrições de imigração e de visto para membros, associados e apoiadores dessas
organizações; e a responsabilização criminal de indivíduos que,
conscientemente, forneçam apoio material — incluindo apoio logístico — a tais
organizações”.
México
e Brasil, os dois maiores e mais ricos países do continente, não fazem parte do
Escudo. Ambos sofrem pressões políticas dos EUA para enfraquecer seus governos,
com orientação à esquerda.
O grupo
também prometeu pedir à OEA (Organização dos Estados Americanos) uma resolução
que “promova e facilite a ação coletiva contra organizações narcoterroristas no
âmbito do Tratado do Rio”. Assinado em 1947, o Tratado do Rio estabelece que um
ataque armado contra qualquer país americano é considerado um ataque contra
todos. A ideia seria militarizar de vez o combate ao narcotráfico sob a
liderança dos EUA, como uma “Otan” latinoamericana.
Para
Fulton Armstrong, ex-diretor para temas interamericanos do Conselho de
Segurança Nacional dos EUA, este tipo de iniciativa “não funciona” e pode
aumentar tensões continentais.
“À
medida que fica claro que designar criminosos como terroristas e atacá-los como
alvos militares não funciona, é natural que os países procurem atores externos
– incluindo seus vizinhos – para botar a culpa. O exemplo clássico foi a
Colômbia, que produz e trafica quantidades recordes, mas transferiu a culpa
para a Venezuela. Os Estados Unidos, que consomem as drogas que passam pela
América Central e pelo México, culpam esses países pelo problema. A maior parte
dos narcóticos que passam pelo Brasil tradicionalmente tem como destino a
Europa, mas Washington se reservou o direito de acusar o Brasil de não ser bom
parceiro e de resistir às políticas dos EUA. A designação de terrorista
politiza a questão e aumenta as tensões entre os vizinhos”, diz.
Para
Fulton, a militarização da Guerra às Drogas não funcionou bem no passado.
“Gastamos 16 bilhões de dólares no Plano Colômbia, e a produção de cocaína
continua batendo recordes. A estratégia, além disso, aumenta a violência que
afeta toda a sociedade, como vimos no México e em toda a América Central.
Chamar os criminosos de ‘terroristas’ é politicamente conveniente, mas
operacionalmente desastroso”.
O
governo brasileiro resiste à designação de organizações como CV e PCC como
terroristas, pois considera que isso permite ações de interferência dos EUA
contra o sistema financeiro brasileiro e também ações militares. Em alerta
enviado na semana passada, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) avaliou
que o risco de interferência norte-americana contra o Brasil atingiu nível
“crítico” justamente pela designação do PCC e CV como terroristas.
Depois
de sanções contra pessoas e empresas brasileiras em julho por vínculos ao PCC,
a Abin disse que isso “representa mudança de fase na escalada de sanções e
interferência estadunidense”. Segundo a Abin, a interferência externa dos EUA
sobre o Brasil ocorre de modo “gradual, combinado e adaptativo” que passa pelo
enquadramento legal e pela construção de narrativa sobre atuação transnacional
dos criminosos e sua vinculação com o sistema financeiro norte-americano.
Os EUA,
com isso, “ampliam o potencial de efeitos extraterritoriais sobre bancos,
fintechs, empresas, prestadores de serviços e cadeias produtivas brasileiras”,
diz a Abin.
Fonte: Por
Atul Kohli - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil/Agencia Pública

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