Da
ALCA aos minerais críticos: Lula e os 21 anos de uma guerra invisível pela
soberania do Brasil
A
crise atual não começou com Trump e não cabe numa eleição. Da derrota política
da ALCA à espionagem da Petrobras, da Lava Jato à ascensão da China e à disputa
por dados, alimentos e minerais, o Brasil atravessou duas décadas de pressões,
rupturas e escolhas soberanas. No centro dessa história está Lula e uma
pergunta que nunca desapareceu: quem decide o lugar do Brasil no mundo?
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2005, quando o Brasil começou a dizer não
Há
muitos anos venho estudando guerra híbrida, operações psicológicas e as novas
formas de disputa pelo poder. O tema atravessou minha tese de doutorado e boa
parte do que escrevi desde então. Voltar a 2005 para este artigo, porém, me
obrigou a desconfiar da explicação que eu próprio havia construído. Uma
sequência histórica pode ser impressionante e ainda assim não provar
causalidade. Duas crises podem acontecer ao mesmo tempo sem nascer da mesma
decisão. Foi esse incômodo que orientou a pesquisa: procurar o ponto em que a
documentação termina e a interpretação começa. O que encontrei não foi uma
ordem secreta inaugurando uma guerra contra Lula. Foi algo mais sólido. Naquele
momento, o Brasil começava a alterar sua posição relativa no sistema
internacional.
Lula
chegou ao Planalto em 2003 cercado pela expectativa de ruptura, mas governou os
primeiros anos preservando compromissos macroeconômicos e mantendo interlocução
intensa com Washington. A mudança mais importante ocorria na política externa.
Mercosul, América do Sul, África, mundo árabe, China, Índia e novas coalizões
comerciais passaram a ocupar espaço que antes era muito menor. Em janeiro de
2005, um telegrama da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília registrou que
alterar a “geografia do comércio” havia se tornado uma marca do governo e que
algumas dessas parcerias carregavam objetivos geopolíticos. Não era ainda
confronto. Era diversificação. E diversificar, para um país periférico,
significa reduzir o preço político de depender de um único centro de poder.
A ALCA
condensou esse conflito. O acordo deveria ter sido concluído em janeiro de
2005, mas o prazo morreu sem consenso. O próprio órgão de controle do Congresso
americano registrou o impasse entre coalizões lideradas por Estados Unidos e
Brasil em torno de agricultura, subsídios, serviços, investimentos, propriedade
intelectual e compras governamentais. Brasília não abandonou formalmente a
negociação. Em novembro, depois de Mar del Plata, Lula e George W. Bush ainda
reafirmaram compromisso com o processo dentro do marco de Miami. O que se
tornara inviável era a ALCA tal como havia sido concebida nos anos 1990. O
Brasil aceitava integração, mas queria preservar espaço para política
econômica, exigir abertura agrícola e construir alternativas. Autonomia, naquele
contexto, não era hostilidade aos Estados Unidos. Era capacidade de negociar
sem ficar encurralado.
No
mesmo ano, o governo mergulhou na crise dos Correios e do mensalão. A
coincidência entre o bloqueio político da ALCA e a explosão doméstica é
sedutora, sobretudo quando se olha retrospectivamente para tudo o que viria
depois. Eu mesmo trabalhei durante anos com essa hipótese. A documentação
disponível, contudo, não permite afirmar que Washington produziu aquela crise
como retaliação. A investigação parlamentar revelou interesses empresariais,
conflitos partidários, corrupção e personagens ligados ao sistema brasileiro de
inteligência. Há perguntas que permanecem abertas, mas não há prova pública
suficiente para transformar simultaneidade em comando externo. O dado histórico
que resiste é outro: a partir de 2005, o Brasil passou a exercer uma autonomia
que seria testada em terrenos cada vez mais sensíveis. A questão já não era
apenas comercial. A autonomia brasileira havia se tornado uma variável
estratégica.
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Quando autonomia deixou de significar apenas comércio
O
pré-sal deu peso material a essa mudança. A descoberta de grandes reservas em
águas profundas, seguida pelo anúncio de Tupi em 2007, colocou energia,
tecnologia e capacidade estatal no centro da projeção brasileira. Em 2009,
Brasil, Rússia, Índia e China realizaram a primeira cúpula do BRIC e defenderam
maior participação das economias emergentes nas instituições internacionais. No
ano seguinte, Lula e Recep Tayyip Erdoğan negociaram com o Irã a Declaração de
Teerã sobre combustível nuclear. Washington rejeitou a solução e avançou com
sanções no Conselho de Segurança. O episódio não rompeu a relação bilateral,
mas revelou algo que já não cabia na velha imagem de um país apenas regional.
Brasília começava a entrar em assuntos que as grandes potências tratavam como
parte de sua esfera principal de decisão.
Em
2013, o conflito ganhou outra natureza. Os documentos de Edward Snowden
mostraram que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos havia
espionado comunicações do governo brasileiro e incluído a Petrobras entre seus
alvos. Pela primeira vez nessa trajetória, não se tratava de interpretar
interesses ou comparar agendas. Havia uma ação de inteligência documentada
contra o núcleo político e econômico do Estado brasileiro. Dilma Rousseff levou
o caso à Assembleia Geral da ONU, cancelou a visita de Estado que faria a
Washington e passou a defender mecanismos de proteção de comunicações e dados.
O pré-sal havia colocado o petróleo no mapa estratégico; a NSA mostrou que
informação também era poder. A soberania passava a depender não só da
propriedade formal de recursos, mas da capacidade de proteger conhecimento,
infraestrutura e decisões.
Em
menos de uma década, o terreno mudara. Comércio, energia, diplomacia, finanças
e inteligência já se cruzavam. A disputa pela autonomia deixava de ocorrer
apenas nas fronteiras do Estado e começava a penetrar suas instituições.
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A fronteira interna do poder
A Lava
Jato encontrou corrupção real. Executivos, operadores e agentes públicos
participaram de esquemas de propina, e grandes empresas admitiram crimes em
diferentes países. Esse ponto não pode ser apagado. O problema está em imaginar
que a existência do crime torna neutro todo método usado para investigá-lo.
Entre 2014 e 2018, a operação acumulou prisões preventivas prolongadas,
delações, vazamentos, exposição midiática e decisões com impacto direto sobre a
política. É nesse conjunto que a categoria lawfare ganha densidade analítica: a
lei continua sendo lei, os processos continuam existindo, mas sua aplicação
produz efeitos de poder muito além da sentença. Em 2021, o Supremo Tribunal
Federal anulou as condenações de Lula por incompetência da 13ª Vara de Curitiba
e confirmou a suspeição de Sergio Moro no caso do triplex. O próprio STF
registrou que o então juiz atuara com parcialidade. Isso não apaga os crimes
revelados pela operação. Muda, porém, a maneira como se deve avaliar o
mecanismo que reorganizou a política brasileira durante aqueles anos.
A
dimensão internacional foi igualmente concreta. Em julho de 2017, Kenneth
Blanco, chefe interino da Divisão Criminal do Departamento de Justiça dos
Estados Unidos, descreveu a relação com os procuradores brasileiros como uma
cooperação excepcional. Disse que o DOJ e a Lava Jato haviam cooperado e
coordenado casos envolvendo Embraer, Rolls-Royce, Braskem e Odebrecht e
explicou que a confiança entre os dois lados permitia comunicação direta entre
procuradores e agentes sobre evidências, sem depender exclusivamente do tratado
formal de assistência jurídica. Dois anos antes, procuradores americanos e
agentes do FBI haviam ido a Curitiba para reuniões com a força-tarefa e
advogados de colaboradores; o Ministério da Justiça soube da visita quando os
encontros já estavam em andamento. Houve disputa jurídica sobre esses canais, e
a Lava Jato sustentou que contatos preliminares eram legítimos e que provas
usadas em juízo seguiriam os procedimentos formais. O fato central permanece: a
operação brasileira estava inserida numa rede transnacional de investigação e
punição conduzida também por instituições de uma potência estrangeira.
Essa
rede alcançou empresas que carregavam tecnologia, emprego, engenharia e
projeção internacional. Petrobras, Odebrecht e Braskem foram submetidas a
acordos e penalidades em diferentes jurisdições. A Petrobras acertou mais de
US$ 850 milhões para encerrar investigações relacionadas à legislação
anticorrupção americana. No Brasil, a construção pesada entrou em colapso
durante uma recessão devastadora, empresas encolheram ou perderam espaço
externo e a estatal reduziu investimentos e vendeu ativos. Não é sério atribuir
toda a recessão à Lava Jato; também não é sério fingir que o método empregado
para punir corrupção não teve consequências econômicas. O Dieese estimou R$
172,2 bilhões em investimentos que deixaram de ocorrer nos setores analisados e
um potencial de 4,4 milhões de ocupações não geradas. É uma estimativa
contrafactual, não uma contagem de demissões, mas dimensiona a escala da
destruição de capacidade produtiva associada ao ciclo.
O
efeito político foi ainda mais direto. Lula foi condenado, preso e impedido de
disputar a eleição de 2018. Jair Bolsonaro venceu. Sergio Moro deixou a
magistratura e aceitou ser ministro da Justiça do novo governo. Anos depois, o
STF confirmou a parcialidade do juiz no processo que havia produzido a primeira
condenação. No mesmo período, depois do impeachment de Dilma Rousseff, o
Congresso alterou o regime do pré-sal e retirou da Petrobras a obrigação de ser
operadora de todos os blocos com participação mínima de 30%. A sequência não
prova que impeachment, Lava Jato e mudança regulatória tenham obedecido a uma
única cadeia de comando. Os efeitos, porém, são materiais: o projeto político
que havia fortalecido a Petrobras perdeu o governo, Lula ficou fora da eleição,
a engenharia nacional saiu enfraquecida e a arquitetura do pré-sal mudou.
É por
isso que reduzir a Lava Jato a uma investigação que “cometeu excessos”
empobrece o problema. A categoria lawfare não exige imaginar uma sala secreta
em Washington controlando cada decisão em Curitiba. Exige olhar para o
resultado produzido quando justiça, mídia, cooperação internacional e poder
econômico passam a operar sobre a mesma correlação de forças. Para os críticos
que descrevem esse processo como um golpe contra capacidades do Estado
brasileiro, o sentido está justamente aí: perda de instrumentos de decisão,
produção, competição e projeção externa. A corrupção precisava ser combatida. A
soberania também exige que esse combate não destrua aquilo que permite ao país
governar o próprio futuro.
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O paradoxo americano
A
chegada de Bolsonaro ao Planalto parecia recolocar o Brasil dentro de uma
órbita mais confortável para Washington. Em 2019, ele foi recebido por Trump,
assinou o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas para Alcântara e o Brasil foi
designado aliado preferencial extra-Otan. A aproximação tinha conteúdo militar,
diplomático e ideológico. Mesmo assim, encontrou um limite material quando os
Estados Unidos pressionaram Brasília para excluir a Huawei do 5G. A empresa
chinesa já estava profundamente instalada nas redes nacionais, e a China
ocupava uma posição grande demais no comércio para desaparecer por decisão
política. O alinhamento tinha limites que a estrutura econômica impunha.
Com Joe
Biden, o movimento se inverteu. Depois do ataque de 6 de janeiro de 2021 ao
Capitólio, Washington passou a observar com atenção as acusações de Bolsonaro
contra as urnas brasileiras. A Reuters revelou que o diretor da CIA, William
Burns, transmitiu em Brasília, em julho de 2021, a mensagem de que o presidente
deveria parar de questionar o sistema eleitoral. Em 2022, o Departamento de
Estado defendeu publicamente a confiabilidade das eleições brasileiras e o
secretário de Defesa Lloyd Austin chegou ao país com uma mensagem explícita
sobre respeito dos militares às autoridades civis e aos processos democráticos.
Não há base para dizer que Biden “impediu o golpe” no Brasil. Há base para
afirmar que seu governo decidiu deixar claro ao núcleo militar e político
brasileiro que uma ruptura eleitoral não correspondia aos interesses americanos
naquele momento.
Esse
episódio impede uma leitura preguiçosa da história. Washington não é uma
consciência única que atravessa administrações repetindo a mesma política. É um
sistema de poder composto por governos, burocracias, empresas, Forças Armadas,
agências, Congresso e interesses que nem sempre coincidem. Trump e Biden
fizeram cálculos diferentes sobre o Brasil. A constante não é uma moral
americana, favorável ou hostil a determinado presidente brasileiro. É a defesa
de interesses em conjunturas distintas. Essa distinção se tornaria decisiva
quando Trump voltasse à Casa Branca.
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Quando a guerra deixa de ser invisível
O
segundo governo Trump encontrou outro Brasil e outro mundo. A China já era o
principal destino das exportações brasileiras, o BRICS havia se ampliado, o
pré-sal transformara o país em grande produtor de petróleo e infraestrutura
digital, pagamentos eletrônicos, inteligência artificial e minerais críticos
haviam entrado no vocabulário da segurança nacional. Em 30 de julho de 2025, a
Casa Branca declarou que determinadas ações do governo brasileiro constituíam
uma ameaça “incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa
e à economia dos Estados Unidos e impôs tarifa adicional de 40% sobre produtos
brasileiros atingidos pela ordem. O texto americano ligou a medida ao
tratamento dispensado a Jair Bolsonaro e seus apoiadores, a decisões dirigidas
a plataformas de tecnologia e à política externa dos Estados Unidos. Pela
primeira vez nessa trajetória, coerção econômica e conflito político brasileiro
apareciam conectados no mesmo ato jurídico de Washington.
A
pressão ganhou outra camada com a investigação da Seção 301. O USTR colocou sob
exame comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade
intelectual, etanol, tarifas, política ambiental e o que chamou de
interferência no combate à corrupção. Em julho de 2026, depois de classificar
determinadas práticas brasileiras como prejudiciais ao comércio americano,
aplicou tarifa adicional de 25% sobre certos produtos. A lista mostra quanto o
objeto havia mudado desde 2005. A ALCA discutia mercados, investimentos,
serviços e propriedade intelectual. Duas décadas depois, entram no mesmo campo
de disputa plataformas, meios de pagamento, dados, regulação digital e cadeias
tecnológicas. A economia passou a carregar infraestrutura política dentro dela.
A
Estratégia de Segurança Nacional publicada em novembro de 2025 tornou o
movimento ainda mais explícito. O documento apresenta um “Trump Corollary” à
Doutrina Monroe e declara a intenção de restaurar a preeminência americana no
Hemisfério Ocidental. A estratégia afirma que os Estados Unidos pretendem
impedir competidores extra-hemisféricos de controlar ativos considerados
vitais, preservar acesso a geografias estratégicas e usar seu peso econômico,
financeiro, tecnológico e militar para proteger interesses nacionais. Também
fala em estimular governos, partidos e movimentos alinhados às prioridades
americanas. Não é a interpretação de um crítico de Washington. É a linguagem
oficial de uma potência definindo o hemisfério como espaço prioritário de
competição.
Em
2026, essa doutrina começou a ganhar corpo militar e político. O SOUTHCOM
passou a apresentar entre seus imperativos o fortalecimento do comando e
controle hemisférico e a proteção de “terreno estratégico-chave”, enquanto a
nova Joint Task Force Western Hemisphere ampliou operações na região. O Shield
of the Americas reuniu governos latino-americanos em torno de segurança,
cartéis, cooperação política e econômica sob liderança americana; Brasil e
México ficaram fora. Nada disso autoriza dizer que uma invasão do Brasil esteja
sendo preparada. Seria propaganda travestida de análise. O que os documentos
permitem afirmar é suficientemente grave: Washington recolocou o hemisfério no
centro de sua estratégia, identifica infraestrutura e ativos críticos como objetos
de segurança e assume que a competição com potências externas deve ser
administrada também dentro da América Latina.
A
comparação com a ALCA termina aí. Não existe uma “ALCA 2.0”. O instrumento dos
anos 1990 era uma arquitetura comercial criada no auge da globalização liberal.
A arquitetura que surge agora é mais ampla e mais dura porque nasce de um mundo
de competição entre grandes potências. Comércio continua importando, mas divide
espaço com tecnologia, finanças, sanções, inteligência, defesa, infraestrutura
e cadeias de suprimento. Em 2005 era preciso reconstruir o conflito a partir de
negociações, telegramas e movimentos diplomáticos. Em 2026, parte da lógica
está escrita nos próprios documentos de Washington.
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A guerra pelos fluxos
Essa
mudança fica mais nítida quando se olha para a China. Em agosto de 2026, 25,2%
das exportações brasileiras tiveram o mercado chinês como destino; os Estados
Unidos responderam por 9,6%. No agronegócio, a distância é ainda maior: em
2025, a China comprou US$ 55,3 bilhões em produtos brasileiros, 32,7% das
exportações do setor, contra US$ 11,4 bilhões enviados aos Estados Unidos.
Pequim não aparece aqui como alternativa benevolente a Washington. É uma grande
potência, com empresas, Estado e interesses próprios. O que sua presença produz
é margem de escolha. Um país com vários mercados e fontes de capital negocia de
maneira diferente de outro preso a um único centro. Foi esse espaço que a
diversificação iniciada no primeiro governo Lula tentou ampliar e que hoje está
inscrito na própria estrutura da economia brasileira.
A
dependência, entretanto, não desapareceu; mudou de forma. O governo brasileiro
reconheceu em 2026 que parcela majoritária do processamento de dados da
economia ocorre fora do país. O Redata, sancionado em setembro, criou
incentivos para instalação de data centers e contrapartidas em pesquisa,
desenvolvimento e oferta ao mercado interno, associando a política a nuvem,
inteligência artificial e soberania digital. O problema é simples de enunciar e
difícil de resolver. Dados circulam por infraestruturas privadas, redes
globais, plataformas e serviços que concentram capacidade de processamento em
poucos atores. Henry Farrell e Abraham Newman chamaram de weaponized
interdependence o poder que surge quando Estados controlam nós centrais dessas
redes e conseguem usá-los para observar fluxos ou impor bloqueios. A espionagem
da NSA, as sanções financeiras, a pressão sobre plataformas e a disputa por
meios de pagamento pertencem a arenas diferentes, mas compartilham uma
característica: dependência também é uma relação de poder.
Os
minerais críticos trazem essa discussão de volta ao chão. Em setembro de 2026,
o Brasil sancionou uma política nacional que subordina o setor aos princípios
da soberania e do interesse público, cria mecanismos de análise sobre controle
estrangeiro e busca ampliar pesquisa, beneficiamento, transformação e
industrialização dentro do país. Baterias, semicondutores, satélites, radares,
sistemas de defesa, armazenamento de energia e inteligência artificial dependem
de cadeias minerais que as grandes potências passaram a tratar como assunto de
segurança. Ter a reserva é apenas o primeiro degrau. Se o minério sai bruto e
volta incorporado a tecnologias que o país não domina, a riqueza geológica
convive com dependência industrial. A soberania está menos na posse abstrata do
recurso do que na capacidade de decidir o que fazer com ele.
É nesse
ponto que os vinte e um anos se fecham. Em 2005, Lula estava na Presidência
quando o Brasil resistiu às condições da ALCA e ampliou relações com outros
polos. Em 2026, volta a ocupar o cargo quando tarifas americanas, competição
com a China, dados e minerais críticos colocam a autonomia novamente no centro
da política externa. Isso não transforma Lula na causa da história nem prova
uma operação contínua contra ele. Sua trajetória funciona como fio para
enxergar um conflito maior, que atravessa governos e muda de instrumento
conforme muda a economia mundial. O poder contemporâneo passa por petróleo,
alimentos, finanças, cabos, nuvens, plataformas, portos, semicondutores e
minerais. Controlar esses fluxos significa influenciar o espaço dentro do qual
outros Estados podem escolher.
O
Brasil pode negociar com Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou, Nova Délhi ou
qualquer outro centro de poder. Trocar uma dependência por outra não produz
soberania. Vinte e um anos depois da ALCA, a pergunta continua sendo a mesma,
só que agora atravessa quase tudo o que sustenta uma sociedade moderna.
A
questão já não é se o Brasil escolherá entre Washington e Pequim. É se
continuará tendo força para escolher.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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