Dieta
da miséria impressiona e comove Lula
Águas
Belas, PE – No trevo que leva da BR-423 a Águas Belas, a 95 quilómetros de
Garanhuns, Lula encontraria a personagem mais impressionante da primeira etapa
da travessia do Sertão – desta vez uma mulher. O grupo que parou o ônibus
parecia mais disposto e organizado do que o anterior, aquele que exibiu para a
caravana a fila da seca: latas vazias à espera de um carro-pipa.
Em
lugar de latas, muitos agora carregam na mão ou mastigavam uma planta que os
habitantes do Sul Maravilha só conhecem de foto. Era a palma, um tipo de cactos
com menos espinho, que os animais apreciam, mas que Lula, quando teve que
provar, achou com gosto de “pneu velho”, como se o novo fosse mais saboroso.
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Calango
Aquelas
pessoas comendo palma diante dos fotógrafos lembrava outra cena de alguns anos
atrás – a do camponês segurando pelo rabo o alimento então na moda por aqui: o
calango. Nesse calvário, só os símbolos mudam. Durante esta seca descobriu-se
também outra forma de alimento animal. É o chupa-pedra, um peixinho que se
agarra ao fundo dos açudes até a última gota d’água – um correspondente animal
da palma.
“É a
descoberta de sobreviver por meio do que sobrevive na lama”, explica o geógrafo
Aziz Ab’Saber, que está acompanhando a caravana. Ele conhece tudo da região. O
Professor, como todos os chamam, funciona como assessor de Lula e como sábio
dessa tribo mambembe. Tudo se pergunta a ele.
Uma das
preocupações na viagem é com a degenerescência dessas formas mais resistentes
de alimento, vegetais e animais. Normalmente sereno, Aziz Ab’Saber fica
indignado: “Daqui a pouco esses miseráveis vão ser obrigados a comer
cadáveres”.
Até os
jornalistas, que são pagos para deixar a emoção em casa, se arrepiaram quando
numa elevação onde há um cruzeiro assistiram ao nascimento de uma líder. Ali,
fora improvisado um palanque com a ajuda do carro de som da caravana. A
primeira voz feminina que saiu do alto-falante tinha uma determinação incomum:
“Nóis num tá aqui por boniteza. A gente tamus passando fome”.
O
vocabulário era de subsistência, como a vegetação daqui, onde nada é
desperdiçado. A gramática era estropiada como a roupa que a oradora usava. A
semântica era às vezes tão difícil quanto o sentido dessas vidas. Mas aquele
discurso – aquele começo de fala principalmente, introduzindo um toque
inesperado de agressiva ironia – foi um choque.
Os
jornalistas, que em geral aproveitam a hora dos discursos para relaxar – porque
são repetitivos – se voltaram para o improvisado palanque.
“O
discurso dela é superior ao discurso dos grandes líderes”, disse mais tarde o
professor Aziz Ab’Saber, desafiando: “Não sei se o presidente da República é
capaz de articular tão bem o seu raciocínio”.
Grande
parte da assistência trazia a cabeça coberta de panos como proteção contra o
sol das 10 horas da manhã. Pouco antes, esse sol e a fome haviam derrubado uma
das participantes, Sebastiana, socorrida pelo próprio Lula.
Mesmo
quem estava atrás podia perceber a firmeza e dignidade do tom daquela voz. Sua
dona era uma mulher baixa, de 32 anos, nove filhos, a cor de um índio e a
bravura de uma mãe coragem.
Em
poucos minutos, Maria do Socorro Lira Feitosa resumiu sua história, a história
de sua comunidade, feita de miséria, desemprego e fome. Quando soube da
passagem da Caravana da Cidadania, ela resolveu reunir mais de 100 companheiros
e formou sua própria “caravana”. Às 11 horas da noite anterior, começaram a
descer as oito léguas, ou 24 quilómetros, de serra.
Juntaram
folhas de palma, um resto de farinha, alguns tocos de velas e se puseram na
estrada, “recebendo o relento da noite”, como ela diz parecendo uma personagem
saída de Morte e vida severina. Pararam algumas vezes, descansaram um pouco,
mas às 7 horas da manhã já estavam na luta. Foram primeiro à prefeitura, mas o
prefeito enxotou-os. Dirigiram-se então para o trevo, onde barrariam a Caravana
da Cidadania.
Agora,
Maria do Socorro segurava o microfone pela primeira vez e anunciava que, além
de providências, como mais vagas nas Frentes de Trabalho, ela “exigia”
imediatamente comida e um caminhão para conduzi-los de volta: “Nóis num vorta
de apés”, garantiu e ninguém duvidou, inclusive Lula, que improvisou logo uma
comissão, nomeando como integrantes o senador Eduardo Suplicy e o deputado
Alcides Modesto. Socorro, claro, faria parte também. O pessoal ficaria ali à
espera. A Caravana seguiria porque tinha hora marcada em Canapi, a próxima
parada.
Os
soldados do 9º Batalhão da PM (que “acompanharam” a caravana de Maria do
Socorro até o trevo) iam permanecer por mais algum tempo em tensão. O cabo
Climério dizia: “O Lula precisa fazer alguma coisa”. Alguma coisa era uma coisa
só: que evitasse o saque.
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Maria do Socorro – “quem tem fome tem pressa”
Naquela
manhã, o prefeito José de Julião, do PFL, podia esperar tudo, até o saque da
feira-livre ali perto da prefeitura. Cada vez mais isso estava acontecendo nas
cidades vizinhas. Ele só não podia contar com aquela cena: Maria do Socorro
invadindo seu gabinete.
Acompanhada
de um senador, de um deputado e da imprensa, Maria do Socorro não era esperada.
A mesa do prefeito estaca cheia de papéis e ele assinava o que parecia ser
receitas médicas, uma atrás da outra. Na verdade, eram mesmo receitas. Ele
estava autorizando o aviamento, enquanto umas 50 pessoas esperavam em fila do
lado de fora.
Quando
viu Maria do Socorro entrar, levantou-se surpreso. Dessa vez não havia
hostilidade em sua atitude. Mas é possível que o rosto daquele nordestino
moreno tivesse ficado mais claro naquele momento.
Percebendo
que a situação estava tensa, Eduardo Suplicy assumiu os trabalhos em seu ritmo
arrastado, capaz de aplacar qualquer turbulência, o que acabou sendo
providencial. Disse que a missão era de paz e falou de seu projeto de renda
mínima – um plano complexo cuja explicação ali aumentou a fome mesmo de quem
não estava, como Maria do Socorro, por 12 horas sem comer.
O
prefeito reclamou da insuficiência de recursos, da dimensão da miséria que o
cercava, de uma cidade que, chamada de “a capital do feijão”, há dois anos
importava o produto do Paraná. Pelo jeito, não ia resolver nada.
A
situação era de fato a que no Sul virou moda chamar de emblemática: a
autoridade chorando miséria de barriga cheia na frente da própria miséria. Tive
vontade de interrompê-lo: “prefeito Zé de Julião: vosmicê me adesculpa, mas
nóis num tá aqui por boniteza”. A frase viraria um bordão politicamente
incorreto da caravana de jornalistas. Contra a lentidão baiana, havia sempre um
gaiato para dizer: “garçom, nóis num tá aqui por boniteza”.
Como
político, Eduardo Suplicy sabia que havia uma providência imediata a tomar:
arranjar o caminhão e comprar a comida. Passou uma nota de Cr$ 500 mil a Luiz
Haroldo, da comissão: sua contribuição para o fubá. Que outros dessem sua
parte.
Na
difícil situação de mediador entre a miséria e o poder, o senador Suplicy era o
retrato de que, por menos que, por menos que o Brasil tenha mudado, mudou
alguma coisa. Há 100 anos, um Matarazzo não ia atrás de Socorro nos cafundós do
sertão. Imagine o que diria o senhor conde.
Ninguém
pessoalmente aceitou o repto do senador do PT, mas o prefeito não podia recusar
uma contribuição insignificante. Determinou então que se comprassem 300 pães
para aqueles incômodos famintos.
O
prefeito impunha uma condição salomônica: a compra tinha que ser dividida entre
as duas padarias da cidade: 150 em cada uma. Depois se soube a razão da
equanimidade. Um dos presentes era o dono de uma padaria – o sujeito que ficara
no canto, rápido nas contas, tantos pães divididos por tantos miseráveis,
tanto; tantos quilos de fubá, tanto. Além de, digamos, padeiro, Evilásio Galego
é o secretário de finanças. Zé de Julião não queria mais confusão – a oposição
não o acusaria de beneficiar um auxiliar.
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Pão-duro
Evilásio
Galego não se coçou. Enfiar a mão no bolso ou dar pão de graça não era com ele.
Quando já no carro se soube quem era ele, tive vontade de intervir uma segunda
vez: “Ô seu padeiro pão-duro”. Às 11.30 da manhã, Maria do Socorro deixa a
prefeitura. Apesar do cansaço e da fome, não explicava por que não aceitara o
café e o copo de água que lhe foram oferecidos insistentemente no gabinete.
Passaria de novo pela feira-livre e não ia aceitar nem uma fruta. Podia ser
orgulho, timidez, pudor. Mas podia ser a decisão de não comer enquanto os
companheiros não comessem. Ela não disse.
Lá
dentro, Maria do Socorro se comportara com moderação. Teve a delicadeza de não
cobrar a expulsão de antes e de explicar ao prefeito que queria apenas ser
recebida porque estava lutando por um direito.
Alguém
mais xiita poderia acusá-la de um certo abrandamento diante da autoridade – até
compreensível porque o senador, o deputado e o repórter daí a pouco iam embora
e ela ficaria. Mas não era isso. Maria do Socorro foi respeitosa em meio àquela
liturgia de poder, mais quando foi preciso, numa hora crítica, teve a altivez
de dizer ao prefeito no mesmo tom decidido do discurso do trevo: “A gente temus
pressa porque quem tem fome tem pressa”.
Quando
a comissão voltou para prestar contas, os 200 famintos – os 100 de Maria do
Socorro mais outros 100 que se agregaram – continuavam lá sob o sol. “O
prefeito nos recebeu muito bem”, começou. Mas estava emocionada. O senador
pegou o microfone e, como demorasse a anunciar o resultado, houve impaciência.
“Num tou aguentando mais”, desabou Sebastiana, a que desmaiara. “Sem nada, num
vorto não”, disse um velho seco como um galho de caatinga.
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Abandono
A
caravana teve que se retirar antes da chegada dos pães e do fubá. Parece que
tudo correu bem, se é que se pode achar que tudo correu bem quando a fome de 12
horas de um cidadão é saciada com pão e fubá.
Não
houve tempo para se saber mais de Maria do Socorro. Na volta, ela contou que em
criança fora abandonada, mas uma freira a recolhera. Pôde assim estudar um
pouco até se casar. “O que aprendi tá dentro, aplico fora”, informou no banco
de trás da camionete. Com o pouquinho que estudou, Maria do Socorro Lira
Feitosa pôde fazer tudo aquilo naquela manhã: a barriga estava vazia, mas a
cabeça não.
A
Caravana da Cidadania, liderada por Luís Inácio Lula da Silva, está refazendo o
caminho que o presidente do PT percorreu quando, ainda criança, migrou de
Garanhuns, em Pernambuco, para São Paulo.
Fonte:
Por Zuenir Ventura (1931-2026), publicada em A Terra é Redonda

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