IA:
A fartura de imagens e a escassez do imaginário
Todos
os dias, bilhões de imagens são produzidas, publicadas, curtidas e esquecidas.
Uma parte crescente delas não fotografa nada: é gerada por modelos de
inteligência artificial a partir de outras imagens, sem câmera, sem luz, sem
corpo do outro lado. A escala é industrial — e, como toda industrialização, ela
não muda apenas a quantidade do que é produzido. Muda a relação de quem produz
e de quem consome com aquilo que é produzido. A pergunta que fica, incômoda, é:
o que a industrialização da imagem está fazendo com a nossa capacidade de
imaginar?
É essa
pergunta — e não o lançamento de um livro específico — que interessa aqui. Mas
há um livro brasileiro recente, O imaginário, a imagem, a voz, da pesquisadora
Malena Segura Contrera (Selo Hipátia, 2026), que oferece um instrumental
teórico útil para respondê-la. Não porque fale de IA como novidade tecnológica,
mas porque recupera uma pergunta mais antiga — o que é uma imagem, afinal — e a
atualiza para um momento em que produzir aparências ficou barato e imaginar
continua caro.
<><>
A mediosfera: quando o meio deixa de ser canal e vira ambiente
Em
2010, Contrera cunhou o conceito de mediosfera: um ecossistema imaterial
formado pelos meios de comunicação, que envolve a vida contemporânea da mesma
forma que a biosfera envolve os corpos. A ideia, a essa altura, já não soa como
metáfora — soa como descrição. Não é mais possível, para a maior parte da
população conectada, optar por não estar na mediosfera. Ela não é um conjunto
de ferramentas que se escolhe usar; é o meio em que se vive, com regras
próprias de circulação, atenção e desgaste.
O que a
inteligência artificial generativa faz é adensar essa mediosfera até um ponto
de saturação inédito. Se antes uma imagem levava horas ou dias para ser
produzida — mesmo digitalmente —, hoje um modelo de IA gera dezenas em
segundos, a partir de outras imagens já mediadas, sem qualquer necessidade de
referente externo. A mediosfera deixa de ser alimentada, ainda que
parcialmente, por recortes do mundo, e passa a se alimentar cada vez mais de si
mesma.
<><>
Do duplo arcaico ao simulacro: uma teoria da imagem em quatro tempos
Para
sustentar esse argumento, Contrera organiza a história da imagem em quatro
estágios, que não se substituem, mas se acumulam como camadas geológicas. O
primeiro é o duplo arcaico, das culturas ágrafas: a imagem como presença
mágica, em que atingir a representação de alguém é atingir a própria pessoa. O
segundo é a imagem de culto, das religiões, ainda carregada de transcendência —
o ícone, a Pietá, a imagem que se beija. O terceiro é a representação estética,
quando a imagem se emancipa do ritual e vira objeto de contemplação — a pintura
de museu, a fotografia de autor.
O
quarto estágio é o simulacro: a imagem que já não remete a nenhum referente,
produzida por dispositivos técnicos sem experiência vivida por trás. É nesse
estágio que Contrera situa tanto os simulacros publicitários clássicos quanto —
por extensão direta do próprio argumento — os retratos gerados por IA que hoje
povoam redes sociais, incluindo perfis inteiros de influenciadoras sintéticas
com milhões de seguidores reais. A imagem, nesse ponto, não é falsa exatamente:
ela é vazia. Tecnicamente pode ser impecável. Simbolicamente, não há ninguém do
outro lado imaginando-a.
<><>
Iconofagia: a imagem que devora a própria imagem
Esse
esvaziamento tem nome na obra de Norval Baitello Jr., orientador de longa data
de Contrera e referência central do livro: iconofagia, o processo pelo qual o
consumo excessivo de imagens gera um vazio que, em vez de reduzir a busca por
novas imagens, aumenta a demanda por elas — um ciclo que não fecha nunca. Rolar
um feed por horas e não lembrar de nenhuma imagem específica depois não é falha
de atenção individual: é o funcionamento esperado de um sistema de signos que
se alimenta de si mesmo, sem se importar com o que resta de mundo do lado de
fora dele.
Edgar
Morin, também citado no livro, oferece um diagnóstico complementar: a
superinformação não esclarece — ela “nos submerge no informe”. A noosfera, o
ambiente imaterial de ideias e imagens em que a humanidade passou a viver desde
a erupção da consciência simbólica, satura-se de conteúdo sem que isso produza
mais sentido. Multiplicam-se as imagens; não se multiplica, na mesma proporção,
a imaginação.
<><>
A economia política da imagem industrial
Essa
saturação não é acidente nem efeito colateral neutro de uma tecnologia nova:
ela é funcional a um modelo de negócio. Plataformas que vivem de tempo de
atenção têm interesse direto em que a produção de imagens seja barata, rápida e
infinita — quanto mais imagens circulam, mais oportunidades de engajamento, de
publicidade, de retenção. A IA generativa não surge para resolver um problema
estético; surge, entre outras coisas, para baratear um insumo que já era
estratégico: conteúdo visual em volume constante. Nesse sentido, a
industrialização da imagem repete um movimento conhecido de outras cadeias
produtivas — reduzir custo e tempo de produção, ainda que ao preço de esvaziar
aquilo que era produzido.
A
diferença é que, aqui, o insumo esvaziado não é um objeto qualquer: é o
material simbólico com que se pensa, se lembra e se sonha. Quando a imagem se
torna, para o sistema que a produz, apenas mais um dado a ser gerado e
otimizado para retenção, a pergunta sobre quem imaginou aquela imagem — ou se
alguém imaginou — deixa de ser relevante para o funcionamento do sistema. Ela
continua sendo relevante, no entanto, para quem consome essa imagem e é afetado
por ela, ainda que não perceba a diferença.
<><>
Produzir imagem não é imaginar
O ponto
central — e o mais difícil de aceitar em uma cultura que trata quantidade de
conteúdo como sinônimo de valor — é que produzir imagens e imaginar são
operações diferentes, e a primeira não substitui a segunda. “Para a
inteligência artificial, produzir aparências de imagens é muito fácil”, afirma
Contrera. “Mas a imagem não é a aparência. A imagem não é a visibilidade,
aquilo que se torna visível. Não é apenas a dimensão externa, sensorial. A
imagem é essa relação entre o ser imaginante e aquilo que se dá a revelar. Sem
esse ser imaginante, não existe propriamente a imagem. Existe só uma
representação técnica.”
Essa
distinção tem uma implicação política, não apenas estética. Se toda a economia
de atenção das plataformas depende de produzir e fazer circular imagens em
volume industrial, e se esse volume não guarda relação necessária com a
capacidade humana de imaginar, então a industrialização da imagem pode estar,
de fato, corroendo — não substituindo de uma vez, mas corroendo lentamente — a
competência simbólica que a autora considera constitutiva da própria espécie.
“A imaginação é extremamente humana”, diz Contrera. “A humanidade, como nós
concebemos, se constitui a partir da imaginação.”
<><>
O medo mal formulado
Boa
parte do debate público sobre IA generativa parte do medo de que as máquinas se
humanizem e nos substituam. É uma leitura possível, mas talvez não seja a mais
precisa. O movimento observável, no argumento de Contrera, é o inverso: é a
experiência humana com a imagem que vem se robotizando — pela quantidade de
tempo, de sentido e de trabalho simbólico que se terceiriza para telas e
algoritmos, muito antes de qualquer máquina alcançar autonomia real. O problema
não é a IA ganhar alma. É a gente perder a nossa enquanto está distraído com a
pergunta errada.
Essa
robotização tem, também, um componente de trabalho não reconhecido como tal: o
tempo gasto produzindo, selecionando, curtindo e redistribuindo imagens —
inclusive as geradas por IA — alimenta as mesmas plataformas que lucram com
esse fluxo, sem que isso seja percebido como uma forma de trabalho gratuito.
Não se trata de culpar individualmente quem rola um feed antes de dormir, mas
de reconhecer que a industrialização da imagem tem, por trás da experiência
subjetiva de distração, uma engrenagem econômica concreta — o que aproxima o
debate sobre imaginação e IA de debates mais antigos sobre quem se apropria do
tempo e da atenção de quem.
<><>
O que resiste: a voz
O livro
não termina em diagnóstico sem saída. Sua parte final, mais breve e de tom
quase poético, é dedicada à voz — em homenagem ao teórico da mídia Harry Pross
—, proposta como um contraponto possível à hipertrofia do olho. “A voz é mais
que o som. É onda, ela reverbera. A gente sente a voz na pele”, diz a autora.
Diferente da imagem, que exige distância para ser vista, a voz é próxima,
corporal, difícil de mediar sem perder o que a torna voz. Não é uma solução
tecnológica nem um chamado ao retorno a um passado sem telas; é um lembrete de
que existem experiências simbólicas que a industrialização da imagem, até aqui,
não conseguiu capturar por inteiro.
<><>
Uma pergunta para além do livro
O
imaginário, a imagem, a voz não é um tratado sobre inteligência artificial — é
um livro de teoria da imagem que chegou ao mercado no momento em que essa
teoria ficou urgente. O mérito de recuperar conceitos como mediosfera,
iconofagia e noosfera não está em explicar a IA generativa como fenômeno
técnico, mas em oferecer categorias para pensar o que está em jogo quando a
produção de imagens deixa de depender de qualquer relação humana com o mundo.
Fica a pergunta, que continua sendo a pergunta certa mesmo depois que a última
notícia sobre o último modelo de IA for esquecida: quando a imagem para de
precisar de nós, o que exatamente perdemos?
Fonte:
Por Diorman Amaral, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário