sábado, 26 de setembro de 2026

IA: A fartura de imagens e a escassez do imaginário

Todos os dias, bilhões de imagens são produzidas, publicadas, curtidas e esquecidas. Uma parte crescente delas não fotografa nada: é gerada por modelos de inteligência artificial a partir de outras imagens, sem câmera, sem luz, sem corpo do outro lado. A escala é industrial — e, como toda industrialização, ela não muda apenas a quantidade do que é produzido. Muda a relação de quem produz e de quem consome com aquilo que é produzido. A pergunta que fica, incômoda, é: o que a industrialização da imagem está fazendo com a nossa capacidade de imaginar?

É essa pergunta — e não o lançamento de um livro específico — que interessa aqui. Mas há um livro brasileiro recente, O imaginário, a imagem, a voz, da pesquisadora Malena Segura Contrera (Selo Hipátia, 2026), que oferece um instrumental teórico útil para respondê-la. Não porque fale de IA como novidade tecnológica, mas porque recupera uma pergunta mais antiga — o que é uma imagem, afinal — e a atualiza para um momento em que produzir aparências ficou barato e imaginar continua caro.

<><> A mediosfera: quando o meio deixa de ser canal e vira ambiente

Em 2010, Contrera cunhou o conceito de mediosfera: um ecossistema imaterial formado pelos meios de comunicação, que envolve a vida contemporânea da mesma forma que a biosfera envolve os corpos. A ideia, a essa altura, já não soa como metáfora — soa como descrição. Não é mais possível, para a maior parte da população conectada, optar por não estar na mediosfera. Ela não é um conjunto de ferramentas que se escolhe usar; é o meio em que se vive, com regras próprias de circulação, atenção e desgaste.

O que a inteligência artificial generativa faz é adensar essa mediosfera até um ponto de saturação inédito. Se antes uma imagem levava horas ou dias para ser produzida — mesmo digitalmente —, hoje um modelo de IA gera dezenas em segundos, a partir de outras imagens já mediadas, sem qualquer necessidade de referente externo. A mediosfera deixa de ser alimentada, ainda que parcialmente, por recortes do mundo, e passa a se alimentar cada vez mais de si mesma.

<><> Do duplo arcaico ao simulacro: uma teoria da imagem em quatro tempos

Para sustentar esse argumento, Contrera organiza a história da imagem em quatro estágios, que não se substituem, mas se acumulam como camadas geológicas. O primeiro é o duplo arcaico, das culturas ágrafas: a imagem como presença mágica, em que atingir a representação de alguém é atingir a própria pessoa. O segundo é a imagem de culto, das religiões, ainda carregada de transcendência — o ícone, a Pietá, a imagem que se beija. O terceiro é a representação estética, quando a imagem se emancipa do ritual e vira objeto de contemplação — a pintura de museu, a fotografia de autor.

O quarto estágio é o simulacro: a imagem que já não remete a nenhum referente, produzida por dispositivos técnicos sem experiência vivida por trás. É nesse estágio que Contrera situa tanto os simulacros publicitários clássicos quanto — por extensão direta do próprio argumento — os retratos gerados por IA que hoje povoam redes sociais, incluindo perfis inteiros de influenciadoras sintéticas com milhões de seguidores reais. A imagem, nesse ponto, não é falsa exatamente: ela é vazia. Tecnicamente pode ser impecável. Simbolicamente, não há ninguém do outro lado imaginando-a.

<><> Iconofagia: a imagem que devora a própria imagem

Esse esvaziamento tem nome na obra de Norval Baitello Jr., orientador de longa data de Contrera e referência central do livro: iconofagia, o processo pelo qual o consumo excessivo de imagens gera um vazio que, em vez de reduzir a busca por novas imagens, aumenta a demanda por elas — um ciclo que não fecha nunca. Rolar um feed por horas e não lembrar de nenhuma imagem específica depois não é falha de atenção individual: é o funcionamento esperado de um sistema de signos que se alimenta de si mesmo, sem se importar com o que resta de mundo do lado de fora dele.

Edgar Morin, também citado no livro, oferece um diagnóstico complementar: a superinformação não esclarece — ela “nos submerge no informe”. A noosfera, o ambiente imaterial de ideias e imagens em que a humanidade passou a viver desde a erupção da consciência simbólica, satura-se de conteúdo sem que isso produza mais sentido. Multiplicam-se as imagens; não se multiplica, na mesma proporção, a imaginação.

<><> A economia política da imagem industrial

Essa saturação não é acidente nem efeito colateral neutro de uma tecnologia nova: ela é funcional a um modelo de negócio. Plataformas que vivem de tempo de atenção têm interesse direto em que a produção de imagens seja barata, rápida e infinita — quanto mais imagens circulam, mais oportunidades de engajamento, de publicidade, de retenção. A IA generativa não surge para resolver um problema estético; surge, entre outras coisas, para baratear um insumo que já era estratégico: conteúdo visual em volume constante. Nesse sentido, a industrialização da imagem repete um movimento conhecido de outras cadeias produtivas — reduzir custo e tempo de produção, ainda que ao preço de esvaziar aquilo que era produzido.

A diferença é que, aqui, o insumo esvaziado não é um objeto qualquer: é o material simbólico com que se pensa, se lembra e se sonha. Quando a imagem se torna, para o sistema que a produz, apenas mais um dado a ser gerado e otimizado para retenção, a pergunta sobre quem imaginou aquela imagem — ou se alguém imaginou — deixa de ser relevante para o funcionamento do sistema. Ela continua sendo relevante, no entanto, para quem consome essa imagem e é afetado por ela, ainda que não perceba a diferença.

<><> Produzir imagem não é imaginar

O ponto central — e o mais difícil de aceitar em uma cultura que trata quantidade de conteúdo como sinônimo de valor — é que produzir imagens e imaginar são operações diferentes, e a primeira não substitui a segunda. “Para a inteligência artificial, produzir aparências de imagens é muito fácil”, afirma Contrera. “Mas a imagem não é a aparência. A imagem não é a visibilidade, aquilo que se torna visível. Não é apenas a dimensão externa, sensorial. A imagem é essa relação entre o ser imaginante e aquilo que se dá a revelar. Sem esse ser imaginante, não existe propriamente a imagem. Existe só uma representação técnica.”

Essa distinção tem uma implicação política, não apenas estética. Se toda a economia de atenção das plataformas depende de produzir e fazer circular imagens em volume industrial, e se esse volume não guarda relação necessária com a capacidade humana de imaginar, então a industrialização da imagem pode estar, de fato, corroendo — não substituindo de uma vez, mas corroendo lentamente — a competência simbólica que a autora considera constitutiva da própria espécie. “A imaginação é extremamente humana”, diz Contrera. “A humanidade, como nós concebemos, se constitui a partir da imaginação.”

<><> O medo mal formulado

Boa parte do debate público sobre IA generativa parte do medo de que as máquinas se humanizem e nos substituam. É uma leitura possível, mas talvez não seja a mais precisa. O movimento observável, no argumento de Contrera, é o inverso: é a experiência humana com a imagem que vem se robotizando — pela quantidade de tempo, de sentido e de trabalho simbólico que se terceiriza para telas e algoritmos, muito antes de qualquer máquina alcançar autonomia real. O problema não é a IA ganhar alma. É a gente perder a nossa enquanto está distraído com a pergunta errada.

Essa robotização tem, também, um componente de trabalho não reconhecido como tal: o tempo gasto produzindo, selecionando, curtindo e redistribuindo imagens — inclusive as geradas por IA — alimenta as mesmas plataformas que lucram com esse fluxo, sem que isso seja percebido como uma forma de trabalho gratuito. Não se trata de culpar individualmente quem rola um feed antes de dormir, mas de reconhecer que a industrialização da imagem tem, por trás da experiência subjetiva de distração, uma engrenagem econômica concreta — o que aproxima o debate sobre imaginação e IA de debates mais antigos sobre quem se apropria do tempo e da atenção de quem.

<><> O que resiste: a voz

O livro não termina em diagnóstico sem saída. Sua parte final, mais breve e de tom quase poético, é dedicada à voz — em homenagem ao teórico da mídia Harry Pross —, proposta como um contraponto possível à hipertrofia do olho. “A voz é mais que o som. É onda, ela reverbera. A gente sente a voz na pele”, diz a autora. Diferente da imagem, que exige distância para ser vista, a voz é próxima, corporal, difícil de mediar sem perder o que a torna voz. Não é uma solução tecnológica nem um chamado ao retorno a um passado sem telas; é um lembrete de que existem experiências simbólicas que a industrialização da imagem, até aqui, não conseguiu capturar por inteiro.

<><> Uma pergunta para além do livro

O imaginário, a imagem, a voz não é um tratado sobre inteligência artificial — é um livro de teoria da imagem que chegou ao mercado no momento em que essa teoria ficou urgente. O mérito de recuperar conceitos como mediosfera, iconofagia e noosfera não está em explicar a IA generativa como fenômeno técnico, mas em oferecer categorias para pensar o que está em jogo quando a produção de imagens deixa de depender de qualquer relação humana com o mundo. Fica a pergunta, que continua sendo a pergunta certa mesmo depois que a última notícia sobre o último modelo de IA for esquecida: quando a imagem para de precisar de nós, o que exatamente perdemos?

 

Fonte: Por Diorman Amaral, em Outras Palavras

 

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