Brasil
Saudável: chave para reduzir doenças crônicas
A
Agenda Brasil Saudável é a contribuição da ONG Articulação Controle do
Tabagismo – Promoção da Saúde (ACT) aos candidatos à eleição presidencial do
Brasil. Batizada de Prevenção 360º, a iniciativa é ambiciosa e visa concatenar
a atuação do Estado em cinco diferentes temas, todos associados à saúde pública
e coletiva: alimentação saudável, tabagismo, controle do álcool, poluição do ar
e exercícios físicos.
O foco
é a prevenção das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), diretamente
associada a tais fatores (ou sua ausência). O plano dialoga diretamente com a
saúde pública e o SUS, tanto em razão da alta prevalência de doenças como
hipertensão e diabetes na população como também pelos custos – diretos e
indiretos – que incidem no orçamento da saúde e na economia.
“O
modelo da Prevenção 360o defende que promover o controle das DCNTs de forma
integrada, equitativa e abrangente é uma forma de reconhecer a conexão entre
saúde humana e meio ambiente e atuar em prol de um país com mais bem-estar,
justiça social e sustentabilidade”, resume o documento oficial.
Além
disso, a ACT entregou seu plano de ação a todos os deputados candidatos à
reeleição e às fundações dos partidos políticos, instituições obrigadas por lei
a fomentar a elaboração de políticas públicas.
Em
reunião com jornalistas, a diretoria da ACT fez uma apresentação dos estudos
que embasaram a Agenda Brasil Saudável. Apesar da pertinência das propostas,
está claro que enfrentam interesses políticos e econômicos quase imbatíveis no
atual contexto.
“Toda
essa agenda é praticamente ignorada dos programas, que falam basicamente em
gestão do SUS e suas atuais políticas públicas. A prevenção de doenças é
praticamente excluída, pois como mostramos aqui exige, enfrentamentos complexos
politicamente”, analisou Monica Andreis, psicóloga e diretora da ACT.
Como
dito no encontro, o Estado raramente vai além de campanhas educativas contra o
consumo de produtos nocivos à saúde, dentro de velhos esquemas de comunicação.
E a Prevenção 360o propõe novas políticas de saúde nas cinco frentes
mencionadas.
A
principal delas, certamente, é a maior tributação de ultraprocessados e demais
produtos nocivos à saúde e ao meio ambiente, como cerveja, refrigerantes e
cigarros. Nesse sentido, a ACT insiste em uma visão mais abrangente dos custos
de certas cadeias produtivas, cujas externalidades são excluídas da compreensão
de seus efeitos econômicos.
“Existem
vetores de desigualdade para as doenças crônicas, como escolaridade, raça,
renda. Há custos invisíveis ao meio ambiente, causados pelo sistema alimentar.
Ninguém pensa como a indústria de bebidas consome água e se instala em locais
de vulnerabilidade social”, exemplificou a engenheira química Marília Sobral,
que deu uma palestra sobre a Agenda Brasil Saudável.
Como se
pode ler no documento, as doenças crônicas não transmissíveis “foram
responsáveis por 53,9% do total de óbitos registrados em 2023, chegando a
aproximadamente 790 mil mortes. Destas, 323 mil (40,9%) ocorreram entre 30 e 69
anos de idade”.
As
explicações configuram o que a saúde chama de “determinantes sociais de saúde”.
A isso a ACT acrescenta os “determinantes comerciais de saúde”, definição em
ascensão nos debates e na produção científica em saúde pública.
“Há o
desafio de termos uma agenda que pode se fragmentar. São 5 grandes temas que
geram suas próprias consequências econômicas, sanitárias e ambientais. Os
determinantes comerciais de saúde são uma barreira final. O governo deve tratar
de tais assuntos pela lógica do conflito de interesses”, explicou Marília
Sobral.
Como
ponto de partida, a ACT defende a elaboração de um Projeto de Lei que proíba a
venda e publicidade de ultraprocessados em escolas do Brasil inteiro, o que já
foi adotado em alguns estados. Desde 2020, tramita no Senado o PL 4501, que
satisfaz a demanda.
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Tributação
A ACT
tem alertado sobre o aumento da prevalência de consumo de álcool e cigarros.
Após diminuição sistemática do tabagismo, o Brasil deixou de reajustar impostos
de cigarros entre 2016 e 2024. No período, os governos Temer e Bolsonaro
desativaram a Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro para o
Controle do Tabaco (CONICQ), retomada em 2023. Por fim, a ACT lembra que a
cultura de fumo é responsável por 5% das taxas globais de desmatamento.
O
consumo de bebidas alcoólicas é outra frente de preocupação, dentro do qual a
organização defende uma nova abordagem, como retratado pelo Outra Saúde.
Já os
alimentos ultraprocessados formam a dimensão cada vez mais notória das doenças
crônicas mais prevalentes na população. Para a ACT, é hora de enfrentar o lobby
dessa indústria, um dos mais fortes no Congresso Nacional, e ampliar os
impostos de seus produtos.
“Conseguimos
aprovação do imposto seletivo, mas ainda teremos toda uma revisão de isenções e
subsídios dentro do processo de entrada em vigor da reforma tributária. Cem
reais de 2006 compram R$ 35 reais em produtos ultraprocessados hoje e compram
cerca de R$ 20 em alimentos in natura”, destacou Laura Cury, historiadora e
pesquisadora da Fiocruz.
O Plano
elaborado pela organização mostra como os custos recaem de forma
desproporcional sobre o Estado e a sociedade. Entre tratamentos, internações e
perda de produtividade, são bilhões de reais. Lucro para os capitalistas do
setor, prejuízo para a sociedade. E muitos custos a serem cobertos pelo SUS e
seu orçamento.
“Um
estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura
(FAO) estimou que os custos ocultos do sistema agroalimentar brasileiro são de
US$427 bilhões, dos quais os custos ambientais somam quase US$ 294 bilhões. A
alimentação não saudável, por sua vez, é responsável por custos de US$ 130
bilhões”, explica a Agenda Brasil Saudável. Globalmente, são estimados custos
de US$ 12 trilhões anuais.
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Eleições e o horizonte real
Diante
de tais números e todo o manancial estatístico oferecido pelo estudo, fica
claro que não há programa político capaz de realizar todos os objetivos de
saúde. Na prática, as democracias liberais estão interditadas para uma agenda
de bem estar social tão abrangente.
No
entanto, isso não quer dizer que não existam diferenças entre os candidatos que
disputam nos próximos dias a presidência do Brasil. Para as especialistas da
ACT, as diferenças entre os governos de Jair Bolsonaro e Lula são
indisfarçáveis. Não é por acaso que o governo do capitão fez pelo menos 30
milhões de pessoas passarem fome, ao passo que a atual administração petista
tem a saída do país do Mapa da Fome como um dos principais trunfos de campanha.
“Bolsonaro
atacou todas as políticas públicas relativas ao acesso aos alimentos e também à
participação social em órgãos que incidem neste tema”, afirmou Laura Cury, em
referência a órgãos como o Conselho de Segurança Alimentar, que foi desativado
em 2019, e ao Programa de Aquisição de Alimentos, retomado por Lula. “Os
ministérios do Desenvolvimento Agrário e do Desenvolvimento Social fizeram
coisas neste mandato de Lula que precisam continuar e se tornar políticas de
Estado, não só de governo”, complementou Marília Sobral.
Em
relação à atual disputa, todas as especialistas ouvidas são categóricas. Apesar
da concentração de terras e da força do agronegócio no Congresso, garantida em
qualquer cenário, “os programas de Lula e Flavio Bolsonaro são assimétricos no
que se refere à alimentação”.
O
programa de Lula afirma: “temos, hoje, o menor percentual de pessoas em
insegurança alimentar severa da história. Estas conquistas devem-se às
políticas de garantia de renda e elevação do poder de compra (…) às medidas
para ampliar o acesso à alimentação, como a recuperação do valor do repasse
para a alimentação escolar e a retomada do Programa de Aquisição de Alimentos
da agricultura familiar; ao fomento à produção de alimentos e a retomada dos
estoques reguladores, fundamentais para reduzir a inflação”.
Já
Flávio Bolsonaro acena apenas para o agronegócio e não faz formulações
específicas sobre o direito à alimentação, menos ainda aos órgãos e
instituições de Estado relacionados. A prioridade parece ser a exportação.
“Vamos
criar os Corredores Logísticos Inteligentes, com foco direto na redução do
custo de transporte, e ampliar o Seguro Rural, dando previsibilidade a quem
planta: safra protegida é oferta garantida, e oferta garantida é preço
estável”, afirma o documento.
Seu
programa também fala em investir em fertilizantes. Entre os anos Temer e
Bolsonaro, o Brasil fechou ou vendeu suas três fábricas de fertilizantes
(Fafen), que eram parte do “Sistema Petrobrás” e da estrutura de abastecimento
do país.
No
atual governo, a estatal petrolífera retomou as atividades da Fafen de Camaçari
(BA) e deu início às obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados em Três
Lagoas (MS). A atual direção da Petrobrás também autorizou investimentos nas
fábricas do Paraná e Sergipe, hoje ociosas. No dia 4, foi publicada a Lei
Federal nº 15.496/2026, que institui o Programa de Desenvolvimento da Indústria
de Fertilizantes (Profert). O objetivo central é garantir 50% de insumos
produzidos nacionalmente até 2050. Hoje, o país importa cerca de 85% do que
consome.
É certo
que temas como soberania nacional e corrupção predominam nos tensos dias
pré-eleitorais. No entanto, a Agenda Brasil Saudável e sua proposta de
Prevenção 360º fazem o exercício de dialogar com temas concretos da vida dos
eleitores. Seja no curto ou no longo prazo, a saúde da população será
diretamente afetada por decisões políticas.
“O
cenário legislativo já é difícil e a depender do resultado da eleição
presidencial ficará ainda mais difícil”, resumiu Laura Cury.
Fonte:
Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

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