Carlos
Fidelis: O que, afinal, queremos para o Brasil? Estamos falando sério ou nos
comportando como torcida organizada?
Há
momentos em que permanecer em silêncio deixa de ser prudência e significa
renunciar às perguntas que uma democracia precisa fazer. Não se trata de
condenar sem provas ou transformar suspeitas em sentenças, mas de usar os
mesmos critérios para todos.
Se
cobramos provas quando as acusações atingem nossos adversários, devemos
cobrá-las também quando alcançam aqueles com quem simpatizamos. E, se
consideramos legítimo investigar relações, dinheiro, patrimônio e poder do
outro lado, não podemos perder subitamente a curiosidade quando os mesmos temas
chegam aos nossos. Uma democracia começa a adoecer quando os princípios que
proclamamos dependem do nome de quem está sendo investigado.
Flávio
Bolsonaro precisa responder às perguntas produzidas por sua trajetória. Em
2003, apresentou moção de louvor ao policial militar Adriano da Nóbrega e, dois
anos depois, propôs conceder-lhe a Medalha Tiradentes.
Adriano
estava preso sob acusação de homicídio quando foi homenageado e mais tarde
seria apontado em investigações como integrante da milícia de Rio das Pedras e
ligado ao Escritório do Crime. Sua mulher e sua mãe trabalharam no gabinete de
Flávio, onde Fabrício Queiroz se tornaria personagem central das investigações
sobre rachadinhas.
O
processo acabou arquivado após a anulação de provas relevantes, sem julgamento
do mérito. Isso não equivale a condenação, mas tampouco apaga a pergunta
política sobre os critérios que orientaram aquelas relações e homenagens.
Seria
cômodo deixar tudo no passado. Em 2026 veio a público uma fotografia de 2022 de
Flávio com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, apontado pela
Polícia Federal como chefe da segurança privada de Daniel Vorcaro. Flávio
afirmou não conhecê-lo e disse que poderia ter sido um pedido ocasional de
fotografia.
Também
se revelou que, em 2023, uma assessora de seu gabinete manteve conversas sobre
emendas parlamentares com Robson Calixto, o “Peixe”, posteriormente condenado
por envolvimento no assassinato de Marielle Franco. Flávio afirma que as
emendas foram legais e obedeceram a critérios técnicos.
Outras
proximidades apareceram no universo empresarial. A Bravo Grafeno, da qual
Flávio é sócio, foi registrada no mesmo endereço utilizado por empresas
relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, personagem
central das investigações sobre descontos irregulares de aposentados e
pensionistas. Negócios ligados a Flávio também utilizaram serviços contábeis
relacionados a Alexandre Caetano dos Reis, apontado como sócio de Antunes.
Nada
disso demonstra que Flávio tenha participado das fraudes do INSS ou que seja
sócio do Careca. Mas o próprio Flávio utilizou o caso para levantar suspeitas
sobre adversários. Por que uma proximidade parece suficiente para justificar
suspeitas quando envolve o outro lado e insuficiente para justificar perguntas
quando aparece perto do nosso?
Há
também o dinheiro. Flávio declarou R$ 1,74 milhão em bens em 2018 e R$ 8,18
milhões em 2026 — crescimento de aproximadamente 211% em termos reais,
considerada a inflação. Sua campanha atribui a evolução ao salário de senador,
à advocacia e à atividade profissional da esposa.
Levantamento
baseado em documentos cartoriais identificou ainda 107 imóveis negociados por
Jair Bolsonaro e familiares desde os anos 1990, pelo menos 51 deles adquiridos
total ou parcialmente em dinheiro. Dados do Coaf analisados pela Polícia
Federal apontaram aproximadamente R$ 44,3 milhões recebidos por Jair Bolsonaro
entre março de 2023 e junho de 2025, parte expressiva proveniente de Pix de
apoiadores. O episódio levantou suspeitas não confirmadas da existência de um
esquema para esquentar dinheiro já existente. Esses dados não constituem
condenação, mas deixam perguntas: como se formou esse patrimônio, de onde
vieram os recursos, como circularam e o que ainda precisa ser explicado?
A
relação da família com cargos públicos acrescenta outra dimensão. Renato
Bolsonaro, irmão de Jair, foi acusado em 2016 de ocupar cargo na Assembleia
Legislativa de São Paulo sem prestar regularmente os serviços correspondentes e
acabou exonerado.
Antes
de ingressarem na política eletiva, Flávio e Eduardo ocuparam cargos
comissionados de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em Brasília,
enquanto estudavam e mantinham atividades presenciais no Rio. Segundo a própria
Câmara informou à imprensa, as funções deveriam ser exercidas em Brasília.
Não
cabe transformar automaticamente esses episódios em crimes, mas perguntar como
uma família que construiu parte de seu discurso na crítica aos privilégios do
Estado explica formas tão particulares de utilização de cargos públicos.
E há
Daniel Vorcaro. Quando vieram a público informações sobre o financiamento de
Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, Flávio negou a relação e classificou a
informação como “mentira”. Depois apareceram áudios, mensagens e documentos;
ele reconheceu que conhecia Vorcaro, admitiu que o procurara em busca de
recursos para o filme e pediu desculpas por ter omitido a relação.
Flávio
negou uma relação que existia e que depois reconheceu. Naquele momento,
portanto, efetivamente mentiu. Não é uma condenação criminal. É um problema
político para quem fez da verdade, da moralidade e do combate à corrupção suas
bandeiras. A mentira deixa de ser mentira quando é pronunciada por alguém do
nosso próprio campo político?
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Aos que se dizem patriotas
Patriotismo
não pode ser reduzido a camiseta verde-amarela, bandeira na janela ou à
repetição de “Brasil acima de tudo”. Parlamentares brasileiros atuaram no
exterior em favor de sanções contra autoridades nacionais; pressões econômicas
estrangeiras entraram na disputa política doméstica; chegou-se a mencionar um
porta-aviões norte-americano no Lago Paranoá; minerais críticos, terras raras e
o Pix apareceram em interlocuções políticas mantidas nos Estados Unidos. Diante
disso, Pátria não pode continuar funcionando apenas como palavra de ordem.
Há uma
imagem que resume a contradição. No 7 de Setembro, Dia da Independência do
Brasil, manifestações bolsonaristas exibiram bandeiras dos Estados Unidos. Em
2025, uma enorme bandeira norte-americana foi aberta na Avenida Paulista e
Eduardo Bolsonaro apresentou o gesto como agradecimento a Donald Trump. No 7 de
Setembro de 2026, uma manifestação de apoiadores de Flávio reuniu novamente
bandeiras dos Estados Unidos, cartazes em inglês e um gigantesco boneco de
Trump.
Para
quem leva a palavra Pátria a sério, há um evidente acinte simbólico em celebrar
a Independência do Brasil sob a bandeira de outra potência e diante da
representação monumental de seu presidente, ainda mais quando esse governo
exerce pressão econômica e política sobre o país.
O
Brasil não pertence à direita nem à esquerda, aos Bolsonaro ou a Lula, aos
partidos, aos militares, aos empresários ou aos bancos; pertence ao conjunto de
seus cidadãos. Nossos recursos estratégicos devem servir ao desenvolvimento do
país e nossa política externa deve ser definida pelas instituições brasileiras.
Divergências
internas são resolvidas pela Constituição, pelas eleições, pelo Parlamento,
pelos tribunais e pelo debate público, não pela tutela de uma potência
estrangeira.
Se a
pressão estrangeira atinge nosso adversário, deixa de ser pressão estrangeira?
Se interesses externos ajudam o nosso lado, deixam de ser interesses externos?
Patriotismo que muda conforme o beneficiário deixa de ser princípio e passa a
ser conveniência.
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Deus, Pátria, Família e Liberdade
Essas
palavras são grandes demais para serem reduzidas a slogans eleitorais. Quem
invoca a Família para estabelecer padrões morais para os outros precisa aceitar
que sua trajetória seja examinada pelos mesmos critérios. Depois da separação
de Jair e Rogéria Bolsonaro, Carlos, então com 17 anos, disputou contra a
própria mãe uma vaga na Câmara Municipal do Rio, a pedido do pai. Jair afirmou
naquele período que nunca havia batido na ex-mulher, mas tivera vontade de
“fuzilá-la várias vezes”.
Anos
depois, documento do Itamaraty registrou relato de Ana Cristina Valle, sua
segunda mulher, de que teria deixado o Brasil após ameaça de morte atribuída a
Bolsonaro numa disputa pela guarda do filho; em 2018, ela negou que a ameaça
tivesse ocorrido.
Michelle
Bolsonaro entra nessa discussão porque se tornou liderança política e fez da
defesa de determinada concepção cristã e conservadora de família parte de sua
atuação pública. Jair está em seu terceiro casamento e houve conflitos públicos
com antigas companheiras.
Em
2025, Joice Hasselmann afirmou que Michelle teria iniciado o relacionamento com
Jair quando ele ainda era casado. Michelle recorreu à Justiça contra as
declarações e teve decisões desfavoráveis a seus pedidos, sem que isso
signifique que o Judiciário tenha declarado verdadeira a acusação.
Algo
semelhante ocorre com Jair Renan. Seu ex-assessor Diego Pupe afirmou em 2023
que ambos teriam mantido um relacionamento amoroso; Jair Renan negou e
declarou-se heterossexual. A alegação permanece contestada. Mas o ponto
político independe de saber quem diz a verdade sobre essa relação.
Jair
Bolsonaro fez declarações depreciativas sobre a homossexualidade, inclusive ao
falar da possibilidade de ter um filho gay. Se Jair Renan tivesse mantido uma
relação com outro homem, nada haveria nisso que o diminuísse ou desabonasse sua
família. Se nunca manteve, o princípio permanece: por que a orientação sexual
de qualquer filho deveria ser motivo de vergonha, rejeição ou inferiorização?
A
família Bolsonaro é complexa, como são as famílias reais. Separações, novos
casamentos, conflitos e diferentes trajetórias afetivas fazem parte da vida. A
contradição está em defender um ideal de família que a própria experiência
concreta mostra ser insuficiente para descrever a diversidade das famílias
reais e utilizá-lo como régua moral para julgar quem vive de outra maneira.
Michelle
não precisa corresponder a uma “família tradicional” idealizada para que sua
família mereça respeito. Jair Renan não precisa provar sua heterossexualidade
para ser respeitado.
O mesmo
critério vale para Pátria, Liberdade e Deus. Quem proclama a Liberdade precisa
reconhecê-la para quem pensa diferente, para a imprensa que incomoda, para a
oposição que fiscaliza e para instituições que decidem contra seus interesses.
A fé
individual, por mais importante que seja, não pode converter-se em autoridade
sobre toda a sociedade. Deus, Pátria, Família e Liberdade podem orientar
valores e escolhas pessoais, mas não podem se sobrepor à Constituição, ao
Estado laico e ao republicanismo.
Nenhuma
família é proprietária da Pátria, nenhuma religião é proprietária do Estado,
nenhum partido é proprietário da liberdade e nenhum governante é proprietário
da República.
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E a nossa saúde?
Para
quem compreende a saúde em seu sentido mais amplo, como resultado das condições
concretas em que vivemos, trabalhamos, nos relacionamos e projetamos o futuro,
esse ambiente também precisa ser interrogado por seus efeitos sobre a vida.
Uma
sociedade submetida diariamente a mentiras, meias verdades, manipulações e
estratégias de desorientação, na qual o debate público mobiliza com frequência
o ódio, o rancor, o preconceito e o ressentimento, não atravessa tudo isso sem
consequências.
A
incerteza permanente, a sensação de ameaça, o medo do que pode acontecer amanhã
e a dificuldade crescente de distinguir fatos de versões alimentam apreensão,
angústia e ansiedade, deterioram vínculos de confiança e tornam mais difícil
reconhecer no outro alguém com quem ainda é possível compartilhar um destino
comum.
Saúde
não é apenas ausência de doença, nem saúde mental pode ser reduzida ao
sofrimento individual de cada pessoa: ambas dependem também da qualidade das
relações sociais, da possibilidade de viver sem medo e da existência de algum
horizonte de segurança, pertencimento e esperança.
Quando
o futuro deixa de parecer minimamente seguro e generoso, quando a política
passa a organizar afetos sobretudo pelo medo e pela hostilidade e quando a
própria realidade se torna objeto de disputa permanente, devemos perguntar que
efeitos estamos produzindo sobre nossa saúde física, mental e emocional, sobre
a capacidade da sociedade de cuidar de si mesma e sobre o mundo que estamos
deixando para nossos filhos e netos.
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O que ficou para a sociedade?
Depois
de quase quatro décadas de presença da família Bolsonaro na política, há uma
pergunta que não deveria ofender ninguém: qual patrimônio público corresponde a
tanto poder acumulado?
Jair
Bolsonaro exerceu sete mandatos de deputado federal e chegou à Presidência;
Flávio passou pela Assembleia Legislativa e chegou ao Senado; Carlos permaneceu
por décadas na Câmara Municipal do Rio; Eduardo chegou à Câmara dos Deputados;
Jair Renan tornou-se vereador. Foram muitos anos, mandatos e acesso às
instituições. Importa saber não apenas o que essa família acumulou
politicamente, mas o que a sociedade acumulou em consequência dessa longa
presença no poder.
O Rio
de Janeiro oferece o teste mais concreto. Foi ali que essa trajetória começou e
consolidou sua principal base política, enquanto o estado atravessava
violência, crises fiscais e expansão de organizações criminosas.
Uma
família que fez da segurança pública uma de suas principais bandeiras pode ser
examinada também pelo que deixou: que contribuição estrutural produziu para
reduzir a violência, recuperar territórios dominados por grupos armados e
enfrentar as bases econômicas das milícias e do crime organizado? Que Rio de
Janeiro essa longa presença política ajudou efetivamente a construir? Depois de
Jair Bolsonaro chegar à Presidência, a pergunta se amplia: o que ficou para o
Brasil?
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A pergunta que não podemos evitar
Cada
episódio pode ter uma explicação particular: escolhas ruins, ingenuidade,
coincidências ou simples azar. O problema aparece quando precisamos recorrer
repetidamente a essas explicações para compreender uma trajetória inteira. O
acaso explica um encontro; torna-se menos convincente quando relações
controversas reaparecem durante décadas, dinheiro, patrimônio e poder voltam a
se encontrar e disputas domésticas atravessam fronteiras para alcançar
interesses estratégicos do país.
Surge
então uma hipótese mais difícil: a intencionalidade. A repetição não prova que
determinadas relações tenham sido conscientemente construídas para alcançar
objetivos ilícitos ou privados; responsabilidade dessa natureza exige provas.
Mas não faz sentido exigir que a intenção esteja previamente demonstrada para
admitir que seja investigada. Quando um padrão se repete, cabe perguntar se
existe uma lógica consciente ligando pelo menos parte desses episódios. A
resposta depende de investigação, transparência e prova.
Este
texto não se dirige apenas a Flávio Bolsonaro ou à sua família. Diz respeito
também a nós, brasileiros, sobretudo quando nos apresentamos como patriotas e
democratas. Um princípio revela sua consistência quando aplicá-lo contraria
nossos interesses.
A
Pátria vale também quando protegê-la significa contrariar nosso próprio campo
político?
A
democracia vale quando suas instituições decidem contra nós?
A
defesa da família vale para todas as famílias ou serve para vigiar a vida dos
outros?
A
verdade continua sendo verdade quando nos prejudica, e a mentira continua sendo
mentira quando beneficia alguém de quem gostamos?
Não
precisamos pensar da mesma maneira. Precisamos aceitar que as regras sejam
comuns.
Uma
democracia começa a se perder quando cada grupo considera intolerável no
adversário aquilo que aceita no aliado, quando patriotismo se confunde com
facção, religião se transforma em credencial de poder e a verdade depende de
quem fala.
Flávio
Bolsonaro precisa responder às questões produzidas por sua trajetória; sua
família precisa responder pelo que fez no exercício do poder; as instituições
precisam investigar aquilo que houver para investigar; e nós, brasileiros,
precisamos responder a uma questão ainda maior: o que, afinal, queremos para o
Brasil e que República estamos dispostos a defender quando o preço de
defendê-la é aplicar aos nossos próprios aliados os mesmos princípios que
exigimos de nossos adversários?
Fonte:
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)

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