sábado, 26 de setembro de 2026

Marco Damiani: Plano econômico de Flávio Bolsonaro remete Brasil à catástrofe econômica e social

Quem, em sã consciência, pode escolher uma tragédia econômica anunciada como opção de voto? É exatamente isso o que promete o candidato Flávio Bolsonaro. Ele é sócio de unha e carne dos presidentes Donald Trump e Javier Milei, líderes nos Estados Unidos e na Argentina de administrações marcadas pelo fracasso na economia e no campo social. O plano bolsonarista é o de abrir as portas da administração pública brasileira à ingerência americana e, ao mesmo tempo, seguir o modelo de terra arrasada da economia real praticado por Milei. Em outras palavras, implantar o caos.

O presidente argentino está fazendo pela economia de seu país o mesmo mal acarretado pela pandemia de Covid, o que demonstra a dimensão do estrago. A gestão Milei é responsável pelo fechamento de mais de 31 mil empresas argentinas, uma quebra de 6,1% no total das companhias do país. Para os trabalhadores, ele é a face do desemprego. Nos últimos 30 meses, a política econômica conduzida com mão de ferro no país vizinho levou ao fechamento de 245 mil postos formais de trabalho. No Brasil, enquanto isso, nada menos de 3,88 milhões de empregos com carteira assinada foram criados nos 30 meses entre janeiro de 2024 e junho de 2026, segundo o IBGE.

Nos Estados Unidos, todas as análises convergem para a derrota de Trump e do Partido Republicano nas eleições legislativas de 3 de novembro. O motivo principal é a economia. Os despautérios do presidente e seu entorno ideológico têm resultado em inflação em alta, perda de empregos — 23 mil postos formais de trabalho foram fechados em julho — e desequilíbrios internos causados pela política tarifária contra mais de uma centena de países. As bravatas disparadas em série pelo presidente contra o mundo estão aumentando a tendência do voto no Partido Democrata.

No Brasil, o bolsonarista Flávio já prometeu que irá contar com funcionários indicados pelo governo americano, a depender do resultado das eleições presidenciais. Coordenadora do plano de governo do candidato do PL, mesmo não sendo economista, Daniella Marques afirmou que “o exemplo é Milei”, em referência ao que será desenvolvido como política econômica.

Só se pode esperar de Flávio Bolsonaro, portanto, declínio e desestruturação do que o País tem hoje em termos de orientação para o crescimento econômico e o desenvolvimento social. O plano é de cortes drásticos no orçamento público, com forte risco de estímulo a uma recessão. Como se vê na Argentina, pelo aumento da pobreza extrema e rebaixamento da qualidade de vida da classe média, esse modelo não interessa em nada ao Brasil. Votar em Flávio Bolsonaro é escolher o caos.

•        Modelo econômico de Flávio, na Argentina pobreza sobe de 28,2% para 32,3% no primeiro semestre de 2026

O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec, equivalente ao IBGE) informou, nesta quinta-feira, que o índice de pobreza no país chegou a 32,3% no primeiro semestre deste ano. O total de pessoas vivendo na indigência atingiu 7,5%. Os dados mostram que dois milhões de pessoas caíram na pobreza nos primeiros seis meses deste ano, segundo o levantamento oficial. Em relação ao segundo semestre do ano passado, o índice de pobreza subiu 4,1%, quando o Indec estimou o total de pessoas pobres em 28,2%. Já a quantidade de pessoas na indigência foi ampliada em 1,2%. Os dados divulgados nesta quinta-feira são negativos em todos os sentidos. Quando comparados com o primeiro semestre do ano passado, eles também cresceram – de 31,6% no caso de pobres.A pesquisa, que abrange 31 aglomerados urbanos da Argentina, aponta que 32,3% da população está em situação de pobreza. Entre as famílias, são 2,5 milhões — 24,4% do total.

•        🔎 Para definir se um cidadão argentino está abaixo da linha da pobreza, o Indec considera a renda das famílias e o acesso a necessidades essenciais, como alimentos, vestuário, transporte, educação e saúde.

A pobreza vinha caindo desde 2024, quando atingiu 52,9% dos cerca de 47 milhões de argentinos. A melhora do indicador se tornou uma das principais vitrines de Javier Milei e um dos pilares da defesa de seu plano econômico.

O cenário, porém, passou a mudar. Segundo analistas, os avanços sociais impulsionados pela desaceleração da inflação perderam força, e novos progressos dependem cada vez mais da criação de empregos e do crescimento dos salários reais.

A pesquisa do Indec também aponta que 2,2 milhões de pessoas estão em situação de indigência, o equivalente a 7,5% da população avaliada. No segundo semestre de 2025, eram 1,9 milhão (6,3%).

Quando observadas as famílias, 600 mil foram consideradas indigentes (5,6%) no primeiro semestre de 2026 — acima das 500 mil contabilizadas nos seis últimos meses de 2025 (4,8%).

•        🔎 Segundo o Indec, estão em situação de indigência as pessoas sem acesso a uma cesta de alimentos capaz de suprir as necessidades diárias de energia e proteína.

Os dados desta quinta-feira foram divulgados pelo Indec pouco depois de o presidente argentino, Javier Milei, ter afirmado em Nova York, onde participou da Assembleia das Nações Unidas, que seu governo “tirou 14 milhões de pessoas da pobreza”.

<><> Inflação acelera e desemprego aumenta

O avanço da pobreza ocorre em meio à aceleração da inflação entre o fim de 2025 e o início de 2026.

O índice oficial de preços do país despencou ao longo dos dois primeiros anos do governo Milei, de quase 290% em 12 meses para cerca de 30% no mesmo período. A inflação, porém, voltou a acelerar nos primeiros meses do ano.

No setor produtivo, cerca de 30 mil empresas fecharam na Argentina desde a chegada de Milei ao poder.

Paralelamente, o desemprego subiu para 7,9%, o maior nível desde 2021. Quase metade da população economicamente ativa está na informalidade.

Críticos das medidas adotadas pela gestão de Javier Milei, como os cortes de gastos, o fim de subsídios e a flexibilização das importações, afirmam que elas têm pressionado as famílias e parte da indústria voltada ao mercado interno.

Segundo o governo, as medidas são necessárias para equilibrar as contas públicas, restaurar a confiança dos investidores e criar bases para um crescimento sustentável.

<><> Consumo e reclamações

O modelo econômico de Milei tem sido comemorado por setores como o agro, a mineração e o petróleo, que, no entanto, também registraram aumento na desocupação. Os demais segmentos da economia, como o consumo, encolheram fortemente e é comum ouvir em Buenos Aires as reclamações em relação aos preços, por exemplo, da energia elétrica, que disparou desde que deixaram de ser controlados, como ocorria nos governos anteriores do kirchnerismo. Milei é apontado como um modelo a ser seguido pela extrema-direita, mas atualmente tem cerca de 30% ou 35% de apoio, dependendo da pesquisa de opinião. E a realidade econômica e suas atitudes (não há trégua no seu estilo de insultos) são os motivos básicos para esse apoio limitado e o alto percentual (cerca de 60%) de rejeição.

<><> Impacto na popularidade

Milei chegou ao poder no fim de 2023 com forte apoio de eleitores de baixa e média renda, frustrados após anos de inflação elevada.

Embora seu governo tenha desacelerado a inflação e estabilizado as contas públicas, organizações sociais afirmam que mais argentinos estão enfrentando dificuldades para pagar as contas.

Pesquisas recentes mostram forte queda na aprovação do presidente entre os mais pobres, levantando dúvidas sobre sua capacidade de preservar a base eleitoral que foi decisiva para sua vitória. Milei se projeta para uma provável candidatura à reeleição em 2027.

Levantamento da AtlasIntel realizado em setembro mostrou que a desaprovação entre os entrevistados de baixa renda, definidos como aqueles com renda mensal de até cerca de US$ 650, chegou a quase 70%.

Enquanto isso, a aprovação caiu para menos de 30% nessa parcela da população. Um ano antes, os índices eram de 57% e 37%, respectivamente. No total da população, 58% desaprovam Milei, ante 38,1% que o aprovam.

•        Flávio Bolsonaro e o triunfo da linguagem sobre os fatos. Por Chico Cavalcante

á um paradoxo aparente no cenário político brasileiro. Apesar de denúncias, vazamentos de ligações, relatórios de investigações e apontamentos da Polícia Federal sobre relações de Flávio Bolsonaro com um banqueiro envolvido em fraudes e com milicianos do Rio, ele segue competitivo. Mais do que isso: continua animando apoiadores que se dizem “contra a corrupção”. À primeira vista, seria uma contradição insustentável. À luz da ciência da persuasão, porém, é um fenômeno previsível. Não estamos diante do triunfo dos fatos, mas do triunfo da linguagem sobre eles.

O primeiro mecanismo é a transformação de uma posição política em identidade. Quando alguém diz “sou contra a corrupção”, não está apenas descrevendo uma opinião. Está reivindicando um lugar no mundo. A diferença entre “combater a corrupção” e “ser contra a corrupção” parece pequena, mas é decisiva. O verbo indica ação temporária; o substantivo e o adjetivo criam um estado permanente de ser.

A partir daí, qualquer ataque ao político de estimação deixa de ser um ataque a uma pessoa e passa a ser um ataque à própria identidade do apoiador. Ceder aos fatos seria admitir, “eu não sou quem penso que sou”. A dissonância cognitiva é resolvida não com autocrítica, mas com reforço da crença.

O segundo mecanismo é a construção de categorias, como o “nós contra eles”. A política bolsonarista opera com uma identidade de oposição direta a um inimigo; a esquerda, o “sistema”, a mídia, o Judiciário, a Polícia Federal. O “nós” só existe porque há um “eles” a ser combatido.

Nesse enquadramento, as investigações não são lidas como evidências de corrupção; são reinterpretadas como perseguição política. O vazamento de ligações não prova envolvimento; prova que há uma conspiração contra o grupo. O político não é corrupto: é mártir. A lealdade não é ao indivíduo, mas à guerra cultural. E, em guerras culturais, fatos importam menos do que pertencimento.

O terceiro mecanismo é a confiança performática. A persuasão não depende apenas do que se diz, mas de como se diz. O tempo presente, as afirmações categóricas, a ausência de hesitação e a repetição criam uma sensação de certeza. “Sou vítima”, “eles são corruptos”, “o povo está comigo”, “não há dinheiro público nisso”.

Para o apoiador, a convicção do discurso é mais reconfortante do que a complexidade das evidências. A dúvida é desconfortável; a certeza é sedutora. Enquanto investigadores apresentam documentos, áudios e conexões, o discurso político oferece uma narrativa simples, emocional e totalizante. E narrativas simples vencem disputas de atenção.

Há ainda o custo emocional. Muitos apoiadores já investiram anos de identidade, tempo, relações sociais e capital simbólico na “causa”. Abandonar o político significaria admitir que investiram em algo errado. A blindagem cognitiva protege o núcleo duro. Estudos de comportamento eleitoral mostram que a ideologia domina outros traços do candidato para uma parcela significativa do eleitorado. Não se trata de ignorância, necessariamente. Trata-se de uma economia psíquica; é mais fácil reinterpretar a realidade do que desmontar a própria identidade.

As palavras mágicas aqui são conhecidas: “contra a corrupção”, “perseguição”, “sistema”, “povo”, “traidores”. Elas não descrevem o mundo; elas o organizam. Criam uma realidade paralela na qual as evidências são sempre suspeitas e os investigadores, sempre parciais.

Nesse universo, quanto mais denúncias aparecem, mais forte fica a narrativa da perseguição. Quanto mais vazamentos surgem, mais necessário se torna defender o grupo. O fato, que deveria enfraquecer, acaba fortalecendo, porque é convertido em prova de que “eles” estão atacando.

É por isso que a competitividade de Flávio Bolsonaro não é um mistério. É um triunfo da linguagem sobre os fatos. Não se combate essa arquitetura apenas com mais fatos. Fatos são necessários, mas não suficientes. Combate-se com novas palavras mágicas, capazes de oferecer uma identidade alternativa tão ou mais poderosa quanto a que está em jogo.

Enquanto o eleitor estiver “sendo” contra a corrupção, ele não estará necessariamente “votando” contra ela ao escolher um corrupto. E é precisamente aí que a mágica acontece: a linguagem não venceu porque os fatos não existem, mas porque aprendeu a torná-los irrelevantes.

 

Fonte: Brasil 247/Reuters/Fórum

 

Nenhum comentário: