Marco
Damiani: Plano econômico de Flávio Bolsonaro remete Brasil à catástrofe
econômica e social
Quem,
em sã consciência, pode escolher uma tragédia econômica anunciada como opção de
voto? É exatamente isso o que promete o candidato Flávio Bolsonaro. Ele é sócio
de unha e carne dos presidentes Donald Trump e Javier Milei, líderes nos
Estados Unidos e na Argentina de administrações marcadas pelo fracasso na
economia e no campo social. O plano bolsonarista é o de abrir as portas da
administração pública brasileira à ingerência americana e, ao mesmo tempo,
seguir o modelo de terra arrasada da economia real praticado por Milei. Em
outras palavras, implantar o caos.
O
presidente argentino está fazendo pela economia de seu país o mesmo mal
acarretado pela pandemia de Covid, o que demonstra a dimensão do estrago. A
gestão Milei é responsável pelo fechamento de mais de 31 mil empresas
argentinas, uma quebra de 6,1% no total das companhias do país. Para os
trabalhadores, ele é a face do desemprego. Nos últimos 30 meses, a política
econômica conduzida com mão de ferro no país vizinho levou ao fechamento de 245
mil postos formais de trabalho. No Brasil, enquanto isso, nada menos de 3,88
milhões de empregos com carteira assinada foram criados nos 30 meses entre
janeiro de 2024 e junho de 2026, segundo o IBGE.
Nos
Estados Unidos, todas as análises convergem para a derrota de Trump e do
Partido Republicano nas eleições legislativas de 3 de novembro. O motivo
principal é a economia. Os despautérios do presidente e seu entorno ideológico
têm resultado em inflação em alta, perda de empregos — 23 mil postos formais de
trabalho foram fechados em julho — e desequilíbrios internos causados pela
política tarifária contra mais de uma centena de países. As bravatas disparadas
em série pelo presidente contra o mundo estão aumentando a tendência do voto no
Partido Democrata.
No
Brasil, o bolsonarista Flávio já prometeu que irá contar com funcionários
indicados pelo governo americano, a depender do resultado das eleições
presidenciais. Coordenadora do plano de governo do candidato do PL, mesmo não
sendo economista, Daniella Marques afirmou que “o exemplo é Milei”, em
referência ao que será desenvolvido como política econômica.
Só se
pode esperar de Flávio Bolsonaro, portanto, declínio e desestruturação do que o
País tem hoje em termos de orientação para o crescimento econômico e o
desenvolvimento social. O plano é de cortes drásticos no orçamento público, com
forte risco de estímulo a uma recessão. Como se vê na Argentina, pelo aumento
da pobreza extrema e rebaixamento da qualidade de vida da classe média, esse
modelo não interessa em nada ao Brasil. Votar em Flávio Bolsonaro é escolher o
caos.
• Modelo econômico de Flávio, na Argentina
pobreza sobe de 28,2% para 32,3% no primeiro semestre de 2026
O
Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec, equivalente ao IBGE)
informou, nesta quinta-feira, que o índice de pobreza no país chegou a 32,3% no
primeiro semestre deste ano. O total de pessoas vivendo na indigência atingiu
7,5%. Os dados mostram que dois milhões de pessoas caíram na pobreza nos
primeiros seis meses deste ano, segundo o levantamento oficial. Em relação ao
segundo semestre do ano passado, o índice de pobreza subiu 4,1%, quando o Indec
estimou o total de pessoas pobres em 28,2%. Já a quantidade de pessoas na
indigência foi ampliada em 1,2%. Os dados divulgados nesta quinta-feira são
negativos em todos os sentidos. Quando comparados com o primeiro semestre do
ano passado, eles também cresceram – de 31,6% no caso de pobres.A pesquisa, que
abrange 31 aglomerados urbanos da Argentina, aponta que 32,3% da população está
em situação de pobreza. Entre as famílias, são 2,5 milhões — 24,4% do total.
• 🔎 Para definir se um
cidadão argentino está abaixo da linha da pobreza, o Indec considera a renda
das famílias e o acesso a necessidades essenciais, como alimentos, vestuário,
transporte, educação e saúde.
A
pobreza vinha caindo desde 2024, quando atingiu 52,9% dos cerca de 47 milhões
de argentinos. A melhora do indicador se tornou uma das principais vitrines de
Javier Milei e um dos pilares da defesa de seu plano econômico.
O
cenário, porém, passou a mudar. Segundo analistas, os avanços sociais
impulsionados pela desaceleração da inflação perderam força, e novos progressos
dependem cada vez mais da criação de empregos e do crescimento dos salários
reais.
A
pesquisa do Indec também aponta que 2,2 milhões de pessoas estão em situação de
indigência, o equivalente a 7,5% da população avaliada. No segundo semestre de
2025, eram 1,9 milhão (6,3%).
Quando
observadas as famílias, 600 mil foram consideradas indigentes (5,6%) no
primeiro semestre de 2026 — acima das 500 mil contabilizadas nos seis últimos
meses de 2025 (4,8%).
• 🔎 Segundo o Indec,
estão em situação de indigência as pessoas sem acesso a uma cesta de alimentos
capaz de suprir as necessidades diárias de energia e proteína.
Os
dados desta quinta-feira foram divulgados pelo Indec pouco depois de o
presidente argentino, Javier Milei, ter afirmado em Nova York, onde participou
da Assembleia das Nações Unidas, que seu governo “tirou 14 milhões de pessoas
da pobreza”.
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Inflação acelera e desemprego aumenta
O
avanço da pobreza ocorre em meio à aceleração da inflação entre o fim de 2025 e
o início de 2026.
O
índice oficial de preços do país despencou ao longo dos dois primeiros anos do
governo Milei, de quase 290% em 12 meses para cerca de 30% no mesmo período. A
inflação, porém, voltou a acelerar nos primeiros meses do ano.
No
setor produtivo, cerca de 30 mil empresas fecharam na Argentina desde a chegada
de Milei ao poder.
Paralelamente,
o desemprego subiu para 7,9%, o maior nível desde 2021. Quase metade da
população economicamente ativa está na informalidade.
Críticos
das medidas adotadas pela gestão de Javier Milei, como os cortes de gastos, o
fim de subsídios e a flexibilização das importações, afirmam que elas têm
pressionado as famílias e parte da indústria voltada ao mercado interno.
Segundo
o governo, as medidas são necessárias para equilibrar as contas públicas,
restaurar a confiança dos investidores e criar bases para um crescimento
sustentável.
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Consumo e reclamações
O
modelo econômico de Milei tem sido comemorado por setores como o agro, a
mineração e o petróleo, que, no entanto, também registraram aumento na
desocupação. Os demais segmentos da economia, como o consumo, encolheram
fortemente e é comum ouvir em Buenos Aires as reclamações em relação aos
preços, por exemplo, da energia elétrica, que disparou desde que deixaram de
ser controlados, como ocorria nos governos anteriores do kirchnerismo. Milei é
apontado como um modelo a ser seguido pela extrema-direita, mas atualmente tem
cerca de 30% ou 35% de apoio, dependendo da pesquisa de opinião. E a realidade
econômica e suas atitudes (não há trégua no seu estilo de insultos) são os
motivos básicos para esse apoio limitado e o alto percentual (cerca de 60%) de
rejeição.
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Impacto na popularidade
Milei
chegou ao poder no fim de 2023 com forte apoio de eleitores de baixa e média
renda, frustrados após anos de inflação elevada.
Embora
seu governo tenha desacelerado a inflação e estabilizado as contas públicas,
organizações sociais afirmam que mais argentinos estão enfrentando dificuldades
para pagar as contas.
Pesquisas
recentes mostram forte queda na aprovação do presidente entre os mais pobres,
levantando dúvidas sobre sua capacidade de preservar a base eleitoral que foi
decisiva para sua vitória. Milei se projeta para uma provável candidatura à
reeleição em 2027.
Levantamento
da AtlasIntel realizado em setembro mostrou que a desaprovação entre os
entrevistados de baixa renda, definidos como aqueles com renda mensal de até
cerca de US$ 650, chegou a quase 70%.
Enquanto
isso, a aprovação caiu para menos de 30% nessa parcela da população. Um ano
antes, os índices eram de 57% e 37%, respectivamente. No total da população,
58% desaprovam Milei, ante 38,1% que o aprovam.
• Flávio Bolsonaro e o triunfo da
linguagem sobre os fatos. Por Chico Cavalcante
á um
paradoxo aparente no cenário político brasileiro. Apesar de denúncias,
vazamentos de ligações, relatórios de investigações e apontamentos da Polícia
Federal sobre relações de Flávio Bolsonaro com um banqueiro envolvido em
fraudes e com milicianos do Rio, ele segue competitivo. Mais do que isso:
continua animando apoiadores que se dizem “contra a corrupção”. À primeira
vista, seria uma contradição insustentável. À luz da ciência da persuasão,
porém, é um fenômeno previsível. Não estamos diante do triunfo dos fatos, mas
do triunfo da linguagem sobre eles.
O
primeiro mecanismo é a transformação de uma posição política em identidade.
Quando alguém diz “sou contra a corrupção”, não está apenas descrevendo uma
opinião. Está reivindicando um lugar no mundo. A diferença entre “combater a
corrupção” e “ser contra a corrupção” parece pequena, mas é decisiva. O verbo
indica ação temporária; o substantivo e o adjetivo criam um estado permanente
de ser.
A
partir daí, qualquer ataque ao político de estimação deixa de ser um ataque a
uma pessoa e passa a ser um ataque à própria identidade do apoiador. Ceder aos
fatos seria admitir, “eu não sou quem penso que sou”. A dissonância cognitiva é
resolvida não com autocrítica, mas com reforço da crença.
O
segundo mecanismo é a construção de categorias, como o “nós contra eles”. A
política bolsonarista opera com uma identidade de oposição direta a um inimigo;
a esquerda, o “sistema”, a mídia, o Judiciário, a Polícia Federal. O “nós” só
existe porque há um “eles” a ser combatido.
Nesse
enquadramento, as investigações não são lidas como evidências de corrupção; são
reinterpretadas como perseguição política. O vazamento de ligações não prova
envolvimento; prova que há uma conspiração contra o grupo. O político não é
corrupto: é mártir. A lealdade não é ao indivíduo, mas à guerra cultural. E, em
guerras culturais, fatos importam menos do que pertencimento.
O
terceiro mecanismo é a confiança performática. A persuasão não depende apenas
do que se diz, mas de como se diz. O tempo presente, as afirmações categóricas,
a ausência de hesitação e a repetição criam uma sensação de certeza. “Sou
vítima”, “eles são corruptos”, “o povo está comigo”, “não há dinheiro público
nisso”.
Para o
apoiador, a convicção do discurso é mais reconfortante do que a complexidade
das evidências. A dúvida é desconfortável; a certeza é sedutora. Enquanto
investigadores apresentam documentos, áudios e conexões, o discurso político
oferece uma narrativa simples, emocional e totalizante. E narrativas simples
vencem disputas de atenção.
Há
ainda o custo emocional. Muitos apoiadores já investiram anos de identidade,
tempo, relações sociais e capital simbólico na “causa”. Abandonar o político
significaria admitir que investiram em algo errado. A blindagem cognitiva
protege o núcleo duro. Estudos de comportamento eleitoral mostram que a
ideologia domina outros traços do candidato para uma parcela significativa do
eleitorado. Não se trata de ignorância, necessariamente. Trata-se de uma
economia psíquica; é mais fácil reinterpretar a realidade do que desmontar a
própria identidade.
As
palavras mágicas aqui são conhecidas: “contra a corrupção”, “perseguição”,
“sistema”, “povo”, “traidores”. Elas não descrevem o mundo; elas o organizam.
Criam uma realidade paralela na qual as evidências são sempre suspeitas e os
investigadores, sempre parciais.
Nesse
universo, quanto mais denúncias aparecem, mais forte fica a narrativa da
perseguição. Quanto mais vazamentos surgem, mais necessário se torna defender o
grupo. O fato, que deveria enfraquecer, acaba fortalecendo, porque é convertido
em prova de que “eles” estão atacando.
É por
isso que a competitividade de Flávio Bolsonaro não é um mistério. É um triunfo
da linguagem sobre os fatos. Não se combate essa arquitetura apenas com mais
fatos. Fatos são necessários, mas não suficientes. Combate-se com novas
palavras mágicas, capazes de oferecer uma identidade alternativa tão ou mais
poderosa quanto a que está em jogo.
Enquanto
o eleitor estiver “sendo” contra a corrupção, ele não estará necessariamente
“votando” contra ela ao escolher um corrupto. E é precisamente aí que a mágica
acontece: a linguagem não venceu porque os fatos não existem, mas porque
aprendeu a torná-los irrelevantes.
Fonte:
Brasil 247/Reuters/Fórum

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